Capítulo 2. A produção de narrativas mediadas por processos tecnológicos
2.4 Construir-se migrante é migrantificar-se generificado
Um produto textual e audiovisual feito pelas migrantes brasileiras qualificadas, ou seja, aquilo que estou chamando de uma mediação técnica ―migrantificadora‖, além da reiteração de normas e comportamentos que constituirão o(a) migrante, é a criação da própria verdade sobre essa realidade; é a performatização de um tipo específico de sujeito, a transformação de um(a) brasileiro(a) em migrante. Trago o conceito de performatividade de gênero de Judith Butler (2002) ao debater mediações técnicas por entender que essa criação social, seja no nível micro (pessoal) ou macro (estatal ou de grupo social) é derivada das relações de gênero estabelecidas no Brasil e que são incentivadas pelo governo canadense. Não há mudança de status social, de cidadão(ã) brasileiro(a) para migrante qualificado(a), que não seja derivada de uma política de regulação do gênero reforçada no processo de migrar. A construção das estratégias migratórias
dos(as) brasileiros(as) qualificados(as) é a própria construção das relações hierárquicas e desiguais de gênero.
Os anos em que passam consumindo cotidianamente conteúdos sobre o Canadá e a romantização que enverniza essa linguagem nas mídias sociais é importante, pois nos leva a compreender a criação de um desejo de migrar. Entretanto, não é por aleatoriedade e nem por um cálculo meramente racional (o qual, principalmente, desconsidere essas criações assimétricas entre feminilidades e masculinidades) que as estratégias migratórias dos(as) brasileiros(as) qualificados(as) são construídas, pois elas são a própria construção das relações de gênero da vida cotidiana desses sujeitos.
Experienciado como algo naturalizado, construir-se migrante qualificado(a) no Canadá é, portanto, uma derivação da maneira com que as regulações de gênero (BUTLER, 2014) atuam na sociedade brasileira. Por esse motivo que não tem como pensar, por exemplo, em políticas públicas para migrantes qualificados(as) sem considerar, anteriormente, a incorporação das perspectivas de gênero nelas. É a partir dessa desigualdade naturalizada nesse grupo social no Brasil que os comportamentos e as estratégias migratórias são criados e reiterados. Migrantificar- se é construir-se migrante generificado(a), com oportunidades desiguais de inserção na comunidade canadense.
A força dessas regulações de gênero está justamente em conseguir naturalizar classificações, modelos ou comportamentos por meio de sua repetição. No processo de migrar, são essas regulações que articulam a ideia de imigrante, de migração, do fluxo de brasileiros(as) qualificados(as) e do próprio Canadá. Por isso, ao entender gênero como uma identidade constituída através do tempo, instituída num espaço externo por meio de uma repetição estilizada de atos (BUTLER, 2003), observo o comportamento de consumo e produção online nas mídias sociais como produtor dessas hierarquias. É nas plataformas digitais, em sites como YouTube,
Instagram e blogs, principalmente, que essas repetições aparecem e é por meio dessas
plataformas que tais repetições são criadas e reinventadas.
A repetição de uma linguagem romantizada dá coerência a esse fluxo, reafirmando as assimetrias de gênero. Nesse caso, a grande mudança é a mulher brasileira assumir integralmente o papel de mãe e esposa, de cuidadora da família, em contrapartida ao que tinha no Brasil. Antes de migrar, essas mulheres tinham outras camadas identitárias que foram diminuídas ou adormecidas ao se construírem imigrantes e a principal delas é a de profissional. Todas as minhas
interlocutoras tinham empregos e uma carreira no Brasil e não imaginavam que teriam de abrir mão dessa camada identitária por tanto tempo ao migrarem. São poucas que continuam trabalhando e, em número ainda menor, as que seguem a mesma carreira que tinham no Brasil. A grande inovação desse processo migratório é esta: o longo adormecimento da camada identitária profissional da mulher brasileira migrante e o alargamento do papel de cuidadora.
O desejo e a necessidade de estar online de maneira romantizada aparece com mais força nesse momento. A partir da vivência cotidiana, que é repleta de sentimentos e emoções, inclusive contraditórios, há uma seleção dos momentos bons, momentos de esperança, de alegria ou de histórias com finais felizes e esperançosos, que são publicados nas mídias sociais de uma maneira coerente. Essa coerência é interna, dentro da própria publicação ou em relação a outras plataformas da mesma autoria, e externa, relacionada à publicação de outras imigrantes.
Entretanto, ao realizar entrevistas e a pesquisa fora desses ambientes virtuais, consegui perceber as contradições dessa regulação. Entre o mostrar e o apagar, entre a presença e a ausência, entre selecionar aquilo que é publicado e descartar aquilo que não vai ser, ocorre um duplo movimento sinergético. O primeiro é o da externalização e objetificação desses comportamentos, traduzidos em textos, imagens e sons. O segundo é a naturalização dessa tradução das experiências vividas no social, um apagamento desse processo criativo e associativo de redução dessas experiências. Vou me estender um pouco mais nesses argumentos, mas, inicialmente, gostaria de desfazer algumas noções basilares a respeito da materialização e do armazenamento dessas informações.
Quando é que alguém se percebe migrante? Essa é uma pergunta que pode ser mais fácil de responder quando a pessoa é descendente de migrantes, faz parte da primeira geração ou migrou muito pequena para outro país. Mas, e no caso do Canadá, em que a maioria das pessoas não pensava em se tornar migrante e, então, vai morar no exterior? Existe um momento em que essa identidade é assumida? Se ele existe, que momento é esse? Entender-se nessa nova identidade é construir essa identidade no decorrer do tempo, tal como foi descrito acima. Talvez, ao descer do avião a primeira vez com as malas nas mãos, seja o momento de assumir-se migrante, mas essa identidade vem sendo construída e incorporada aos poucos, durante alguns anos antes da chegada ao Canadá. O processo de se construir migrante brasileiro(a) no Canadá, aquilo que estou chamando de ―migrantificação‖, desenvolve-se a partir das informações adquiridas pelos(as) imigrantes nas mídias sociais. Isso ocorre porque não há, por exemplo, um
histórico familiar de migração para o Canadá, nem uma relação direta com o país. Essa vontade de migrar como qualificado(q) vem do consumo do material produzido online e é nesse processo que as operações de incorporação e sedimentação vão ocorrendo. São códigos computacionais que materializam informações e sentimentos, não enquanto forma, mas enquanto relação entre dois lugares e é a partir disso que vem a potencialidade de pertencimento, por meio das mídias sociais. É nessa relação que se desenvolve o habitus migratório.
Gostaria de retomar a distinção feita por Latour (2004) entre a inscrição – isso que estou chamando de forma – e essa relação estabelecida entre dois lugares: aquele em que se viveram as experiências e aquele em que aquelas experiências são representadas (ou reelaboradas). Conforme o autor,
[a] informação não é um signo, e sim uma relação estabelecida entre dois lugares, o primeiro, que se torna uma periferia, e o segundo, que se torna um centro, sob a condição de que entre os dois circule um veículo que denominamos muitas vezes forma, mas que, para insistir em seu aspecto material, eu chamo de inscrição (idem, ibidem, p. 40).
Um blog, por exemplo, funcionaria como um museu de história natural, onde cada publicação seria uma peça que foi trazida e colocada em uma sessão específica para representar um lugar ou uma experiência. A informação é a relação entre o museu e a peça, ou entre mídias sociais e a materialização da experiência cotidiana. A materialidade dessa experiência que as mídias sociais comportam, isto é, cores, tamanho das letras, disposição dos textos, fotografias, imagens, sons, botões, hashtags, enfim, as formas com que essa informação é veiculada denomino, aqui, de inscrições. Essa separação entre inscrição e informação é importante, pois é desse processo de frequentar um blog como quem visita um museu que as experiências migratórias se desenvolvem e a sensação de pertencimento aflora. É através da redução da experiência vivida em um vídeo de cinco minutos que se consegue dar acesso às representações sobre a vida no Canadá.
Essa redução da qual falo é a tradução da experiência vivida no cotidiano em texto, imagens e sons nas mídias sociais. No dia a dia, vários sentimentos e múltiplas emoções são experimentados pela imigrante que produz um conteúdo online sobre o Canadá, mas, ao sentar-se em frente a uma câmera para filmar um vídeo para seu canal do YouTube, por exemplo, ela seleciona um tema e algumas poucas experiências. Ao se preparar para ligar a câmera, escolher a
luz ideal, o fundo do vídeo, a maquiagem e a roupa que irá vestir, isto é, ao se relacionar com o objeto técnico que é a câmera e com a plataforma na qual o vídeo será armazenado, aquela emoção experimentada sofre um deslocamento dos seus sentidos. As Figuras 12 e 13, elaboradas por mim, simulam imagens que ilustram a tradução dessa experiência vivida no cotidiano por uma imigrante em suas mídias sociais, evidenciando a transformação de emoções e sentimentos em legendas e frases coloridas, filtros com orelhas de gato, poses de indagação ou explicativas, maquiagem feita para a filmagem e também filtros que tiram as imperfeições da pele.
Figura 12 – Simulação do Stories de uma brasileira no Canadá
Fonte: elaborada por mim.
Figura 13 – Simulação da capa de um vídeo do YouTube de uma brasileira no Canadá
A experiência, que é múltipla emocionalmente e nem sempre coerente, é reduzida a algumas emoções, selecionada para que a informação seja apresentada de forma lógica. É desse movimento, de redução da experiência vivida, que se desenvolve a relação entre o vivido no cotidiano e o produto apresentado online: aquilo que estou chamando de informação. O importante para essa análise é perceber que criar uma informação específica é criar assimetrias entre aquilo que pode ser expresso e aquilo que não pode. É hierarquizar comportamentos e emoções sobre o processo migratório, mas de uma maneira mediada e valorativa. As operações descritas por Latour (2004) de seleção, extração e redução é exatamente o processo de escolher e moldar o que é colocado na rede, mas nunca de forma neutra, conforme podemos apreender neste excerto de uma das falas da minha interlocutora Mariana em nossa entrevista:
[...] o canal também vai crescer porque envolve muita informação que eu acho que tem pouco na internet, por dois motivos: porque eu acho que muita gente que vem para cá e faz college desiste do canal, então, não termina de contar a história; ou muita gente vai embora para o Brasil, não termina a fase de imigração. Até agora, eu não achei um canal, assim, que a pessoa veio, fez o college, todo esse caminho que todas as consultorias falam que vai dar certo, e depois fez um vídeo e fala: ―Ah, nosso PR chegou. Fizemos assim, assim, assado e chegou‖. Quem tem PR?55
A Mandy. Mas já veio do Brasil. Já foi para Quebec com o PR. O Canadá Diário, que também vieram... acho que o processo deles – eles estão aqui há 8 anos, né? – também é antigo. Então, eu acho que tem essa lacunazinha aí. E eu quero que a minha história dê certo para eu poder contar do começo ao fim. [...] porque isso é um pouco da filosofia que eu trouxe do blog. [Por]Que, quando eu tive o blog, eu falei: ―Meu, qual que vai ser a ideia do blog?‖ Aí, eu pensei: ―Vai ser contar histórias!‖ Tanto que é (NOME DO BLOG) – Histórias pelo Mundo. E, aí, eu queria contar histórias; então, histórias de viagens, história de quando a gente se conheceu, história... sei lá, como é que eu adotei meus gatinhos... Histórias! Histórias! E, aí, quando eu trouxe isso para o canal, até as playlists do canal eu coloquei tudo como história. Tipo: ―Histórias do Canadá‖; ―Histórias do Intercâmbio‖; ―Histórias dos Gatos‖; ―Histórias da Mari‖. São playlists. E, aí, eu sempre quero contar em forma de história. Então, eu acho que eu tô fazendo um pouco isso também com o canal. Contando as fases, entendeu? As partes. Agora eu fiz o fechamento do ano, fiz uma retrospectiva em forma de história; fiz mês a mês como é que foi. Isso bombou o canal! Desde dezembro para cá, acho que eu ganhei 500 inscritos. Deu muito [...] porque eu organizei as histórias.
55
Gostaria de fazer uma observação importante a respeito da fala da entrevistada. Discordo de sua afirmação de que havia poucos blogs que contavam a história de como o PR foi conseguido. Havia muitos blogs, até o começo de 2017, data de nossa interação, sobre o processo de conquista do status de residente permanente. Entretanto, creio que a entrevistada estava se referindo à continuidade dessas histórias e o que acontece depois que o cartão foi conseguido, na tentativa de entender a função que seu canal teria e o público que ele estava atingindo.
A partir desse excerto, podemos observar que essas operações de seleção, extração e redução não são neutras e diversos fatores são considerados ao fazer uma postagem em alguma plataforma online. Mariana, nessa entrevista, me disse pensar as histórias online a partir de narrativas com finais felizes, que é o que seu público leitor espera: ―E eu quero que a minha história dê certo para eu poder contar do começo ao fim‖. Ela também demonstrou manter o foco de suas observações no viés comercial, no consumo de seu público, na venda da mercadoria Canadá; mas é um consenso entre interlocutoras que essas ferramentas demoram para trazer um retorno financeiro considerável para quem produz esse tipo de conteúdo, o que me permite considerar as outras motivações desses(as) migrantes.
É importante refletir sobre o roteiro explicitado pela entrevistada, pois corrobora a tese de que as informações não são neutras, mas construídas em formato de ―fábulas‖, com um final feliz e esperançoso. Podemos observar que existe regras bem definidas para as postagens. Há uma ligação entre uma história e outra, uma linguagem que conecta e estrutura esses espaços, oferecendo um controle daquilo que é produzido online. A partir do momento em que se domina a tecnicidade da mediação, a maneira com que se apresenta a informação é transformada. Uma associação bem-sucedida é aquela em que se domina tanto a tecnicidade das inscrições, ou seja, os comandos e a linguagem computacional da forma, quanto a valorização social dessas operações; e essas valorizações online se apresentam nas plataformas a partir de uma linguagem romantizada sobre o processo de migração para o Canadá e da reafirmação de desigualdades de gênero.
Assim que um conteúdo é criado e postado, assim que essas operações se concretizam, elas adquirem um novo significado e passam a ser, também, experiências vividas. O ato de reviver essas experiências selecionadas ao falar e escrever sobre elas passa a ser, novamente, ao mesmo tempo, reiteração e inovação daquilo que foi vivido e que merece ser frisado – um novo olhar a partir da seleção, extração e redução daquilo que foi vivido, mas também a reiteração de uma visão romântica do Canadá e das desigualdades de gênero, trazendo reflexividade sobre suas vidas.
Essas inovações e reiterações não seguem um processo circular, com começo–meio– fim, mas helicoidal de maneira dialética. Cria-se uma nova narrativa, um novo olhar romantizado a respeito daquilo que foi vivido, ainda que reiterando algumas posicionalidades, como, por
exemplo, a relação entre mulher e cuidado. Não há um retorno para a posição inicial, mas o fim, ou seja, a postagem finalizada, a tradução da experiência materializada nos códigos e enviada para a página, é fruto da associação contingencial entre as mulheres imigrantes brasileiras no Canadá e as mídias sociais usadas por elas. Essa associação é um processo ambíguo, pois, ao mesmo tempo em que cristaliza comportamentos, também cria rupturas neles. A materialização
online reitera performances ao mesmo tempo em que as questiona. Não são mais imigrantes
brasileiras e mídias sociais, mas, como preferiria Latour (1994), imigrantes brasileiras-mídias sociais, ou, como eu prefiro, imigrantes brasileiras & mídias sociais. É aqui que surge o ciborgue, a partir dessa associação situacional – e emergencial – que, ao mesmo tempo, reitera dicotomias generificadas (masculino/feminino, publico/privado, cuidado/suporte)56 e também fratura e cria ruídos nessas reiterações. É isso que explica o comportamento de Paula, discutido anteriormente, que, ao ler uma postagem para mim, ao mesmo tempo, corroborou e criticou sua performance na rede.
Posto isso, evidencio também como essas associações generificadas e romantizadas são entre humanos e máquinas, entre imigrantes brasileiras & mídias sociais, mas também são associações com outras associações humanos – máquinas. Não apenas a imigrante brasileira tem sua experiência no Canadá mediada nas e pelas mídias sociais, mas também mediada por outras associações que acabam reafirmando essas narrativas. O exemplo disso é o Projeto Six on Six
Canada, que ocorre desde 2014. A intenção do projeto é reunir seis blogueiras de seis lugares
diferentes do Canadá e, todo o dia seis de cada mês, elas fazem uma postagem com um mesmo tema, cada uma em seu blog. O projeto começou com blogs das cidades de Vancouver (British Columbia), Edmonton (Alberta), Regina (Saskatchewan), Toronto (Ontário), Ottawa (Ontário) e Montreal (Québec). Mais uma vez, é interessante perceber que todas elas são mulheres brasileiras. Analisei todos esses temas e todas essas postagens e os classifiquei em quatro categorias. Em ordem decrescente, o tema que mais se repete refere-se a viagens e lugares para visitar; em segundo lugar, alimentação, bebidas e organização da rotina familiar; em terceiro, atividades e curiosidades sobre o outono e o inverno; e, por último, histórias que inspiram as
56
Compreendo as criticas de Millar (1998) tecidas à Haraway (2009) e ao feminismo ciborgue, principalmente quando tentam se distanciar dos dualismos nas teorias. Minha proposta de análise aqui, entretanto, é justamente considerar esses dualismos reiterados pela experiência migrante sem naturalizá-los, mas observando-os a partir de seu caráter particular, parcial e situacional. Para uma discussão mais aprofundada sobre esse assunto, cf. Castro (2015).
blogueiras. Ativo até a data da publicação desta tese, esse projeto nos ajuda a perceber duas características importantes: a primeira é que a utilização do blog pelas brasileiras imigrantes diminuiu, mas não cessou e a segunda é a existência de uma coerência interna (do próprio blog) e externa (entre os blogs e as brasileiras).
A eficiência das mediações técnicas no processo migratório para o Canadá é que, com elas, opera-se, nele, uma redução da experiência vivida para uma história particular mas conectada também com outras histórias, sendo histórias de uma mesma pessoa e também de pessoas diferentes, como o Projeto Six on Six Canada. São selecionados fatos específicos da trajetória percorrida e contada de maneiras similares, histórias curtas, objetivas e coerentes, recorrendo a uma cosmologia de signos compartilhados. O blog, o canal do YouTube e a conta no
Instagram, enquanto mediadores técnicos, potencializam a informação, materializam a
experiência e a tornam mais facilmente difundida.
Nessa associação ciborgue entre humanos e máquinas, entre brasileiras imigrantes & mídias sociais, a informação é transformada em uma ―universalidade relativa‖ (LATOUR, 2004, p. 44), ou seja, ela reduz a experiência dessas mulheres a um produto audiovisual, um roteiro parecido, mas unifica, universaliza essas experiências específicas com outras imigrantes brasileiras & mídias sociais, apresentando um roteiro funcional e padronizado. Reduz suas controvérsias e tece uma inteligibilidade ao processo migratório. É por esse motivo que o Projeto
Six on Six Canada é possível de ser realizado. Essas associações e essa associação de associações
têm uma coerência e asseguram coerência ao processo. A quantidade e a repetição em larga escala impõem centralidade a essas mediações técnicas e fazem com que seus(suas) consumidores(as) se sintam pertencentes a esse universo. É desenvolvida uma relação emocional e sinergética com essas representações. As analogias de Latour (2004, p. 46-47) explicam bem esse fenômeno:
[p]restemos atenção por um instante à inversão das relações de força entre aquele que viaja numa paisagem e aquele que percorre com o olhar o mapa recém-desenhado. Da mesma forma que as aves do museu ganhavam, pelo empalhamento, uma coerência que as tornavam todas comparáveis, assim também todos os lugares do mundo, por mais diferentes que sejam, ganham, através do mapa, uma coerência ótica que os torna todos mensuráveis. Por serem todos planos, os mapas podem ser sobrepostos, e permitem, portanto, comparações laterais com outros mapas e outras fontes de informação, que explicam esta formidável amplificação própria dos centros de cálculo. Cada informação nova, cada sistema de projeção favorece todos os outros.
Anteriormente, comparei didaticamente o blog a um museu. Apesar de ambos serem espaços que nos transportam a outro lugar, há um comportamento identificado entre os(as) migrantes qualificados(as) que não se vê entre os(as) visitantes de um museu de história natural, que é a repetição. Salvo algumas exceções, são raras as pessoas que frequentam um museu várias vezes por dia, ou vários museus com a mesma temática diariamente. É aqui que a analogia do