4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
4.2. Análise dos construtos
4.2.1. Construtos de religião
4.2.1.3. Construto “Bem-estar transcendental vivido”
Nesse construto foi avaliada a relação de cada indivíduo com algo ou alguém além do nível humano, tal como uma força cósmica, uma realidade transcendental ou Deus, envolvendo fé e adoração a um tipo de mistério do universo (CHOWDHURY; FERNANDO, 2012). Na tabela 19, verificou-se a média e o desvio padrão totais e por religião. Observou-se
que, no concernente à media total, as variáveis BETV1 e BETV4 apresentaram um alto nível de concordância, o que fortalece a ideia acerca da importância do relacionamento pacífico e duradouro com Deus – nesse caso, por serem religiões cristãs. A variável BETV3 apresentou uma média abaixo de 7, mas, ainda assim, pode ser considerado com nível de concordância moderado devido à proximidade do resultado. As variáveis BETV 2 e BETV 5 apresentaram médias acima de 7, o que corresponde a um nível de concordância intermediária às afirmativas.
No que diz respeito ao desvio padrão total das variáveis do construto, BETV1, BETV2, BETV4 e BETV5 apresentaram um desvio padrão entre 2 e 3, o que representa uma dispersão moderada, e a variável BETV3 apresentou uma dispersão alta. Essa dispersão pode ser explicada ao observarmos na tabela abaixo o desvio-padrão e a média das respostas dadas pelos respondentes católicos.
Ao observar-se por religião, na religião católica, a variável BETV3 apresentou média inferior a 7, estando bem distante desse índice, o que representa um grau de concordância baixo com essa afirmação. É possível imaginar que esse resultado tenha ocorrido devido ao número de pessoas que, no Brasil, dizem-se católicas, mas se encontram não praticantes dessa religião.
Tabela 19 - Descrição da variável Bem-estar transcendental vivido
Variável Religião Média Desvio
padrão BETV113: Pessoalmente, costumo desenvolver uma relação
pessoal com Deus (ou o Divino). F = 2,325, p = 0,101
Católicos 8,43 2,07 Espíritas 8,05 2,47 Evangélicos 8,90 1,87
Total 8,47 2,15
BETV2: Costumo desenvolver uma relação de adoração com o
Criador. F = 12,720, p < 0,001 Católicos 7,19 2,58 Espíritas 6,88 3,14 Evangélicos 9,05 1,92 Total 7,69 2,73
BETV3: Consigo desenvolver uma ‘unidade’ com Deus (ou o Divino) F = 10,078, p < 0,001 Católicos 5,92 3,40 Espíritas 6,82 2,74 Evangélicos 8,16 2,35 Total 6,89 3,05
BETV4: Pessoalmente, costumo ter uma relação de paz com
Deus (ou o Criador). F = 10,073, p < 0,001
Católicos 8,73 2,06 Espíritas 7,27 2,77 Evangélicos 8,95 1,77
Total 8,38 2,31
BETV5: Pessoalmente, costumo fazer orações para o Criador.
F = 12,11, p < 0,001
Católicos 8,14 2,71 Espíritas 6,45 3,25 Evangélicos 8,89 2,22
Total 7,89 2,90
Fonte: Dados da pesquisa (2012) 13 BETV = Bem-estar transcendental vivido
Ao avaliar-se a religião espírita, as variáveis BETV2, BETV3 e BETV5 apresentaram média inferior a 7, apesar de muito próximas, o que ainda faz com que se tenha um grau de concordância moderado devido a proximidade de valor com o valor padrão.
Quando observada a religião evangélica, vê-se que as médias são todas consideravelmente bem acima de 7, com ênfase na BETV2 (Costumo desenvolver uma relação de adoração com o Criador), cujo média maior que 9 representa um alto grau de concordância com a afirmativa. É possível imaginar que esse dado tenha ocorrido devido às religiões pentecostais e neopentecostais respondentes. Mais uma vez, curiosamente, os espíritas se apresentaram discrepantes em suas médias, devendo-se, provavelmente, ao fato dessa religião/doutrina religiosa basear-se em uma forte presença de estudo, tendo bases sólidas no raciocínio, sendo a sua fé mais racional e sem arroubos, como nas religiões católicas (principalmente a carismática) e evangélicas (com foco nas igrejas neopentecostais).
- Análise fatorial exploratória e de consistência interna
Por conseguinte, de acordo com os procedimentos para a análise fatorial exploratória, verificou-se o teste de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e o teste de esfericidade de Bartlett. O teste KMO foi alcançado o valor de 0,809 e o teste de esfericidade de Bartlett mostrou significância estatística do valor do qui-quadrado a p<0,001 (X2=431,170; gl=10), o que demonstrou que os itens eram adequados para a realização da análise fatorial.
A partir disso, com a realização da análise fatorial, a tabela abaixo apresenta os resultados da análise de autovalores. Averiguou-se, a partir dos autovalores, na primeira extração, a existência de um autovalor com grau de explicação de 63,518% da variância total, o que indicou com maior segurança que o conjunto de variáveis possui apenas um fator subjacente. A partir disso, foram avaliados os escores fatoriais (Tabela 20), o que permitiu verificar que todas as variáveis desse construto apresentavam escores acima de 0,70, o que confirmou que todas as variáveis são necessárias e apropriadas ao instrumento.
Tabela 20 - Matriz de escores de informação VA Escores por extração Total
BETV114 0,82 BETV2 0,83 BETV3 0,73 BETV4 0,79 BETV5 0,81 14 BETV = Bem-estar transcendental vivido
Fonte: Dados da pesquisa (2012)
Na sequência, foi extraído o coeficiente alpha de Cronbach para medição da confiabilidade por consistência interna. O valor obtido foi de 0,849, o que demonstra um nível satisfatório para o construto Percebeu-se ainda que no output gerado pelo SPSS, a retirada de qualquer variável não resultaria em melhoras no valor do coeficiente. Isso comprovou o grau de consistência interna das variáveis e fortaleceu o construto.
- Variável agregada
Na análise da medida agregada, o resultado que está indicado na tabela 21, apresentou uma média de nível de moderado para alto (7,88), e com um nível de dispersão moderado (2,09), indicando que existe uma boa convergência, geral, em torno desse posicionamento.
Tabela 21 - Descrição da variável agregada
Variável Religião Média Desvio
padrão Bem-estar transcendental vivido
F=11,211, p<0,01
Católicos 7,71 2,11 Espíritas 7,10 2,10 Evangélicos 8,80 1,69
Total 7,88 2,09
Fonte: Dados da pesquisa (2012)
O resultado da ANOVA mostrou que há diferença significativa entre as religiões (F=4,666, p<0,01). A maior média observada foi para o grupo dos evangélicos, que ficou em nível alto (8,41) ao passo que os católicos e espíritas apresentaram médias em um nível moderado (7,71 e 7,09), respectivamente. Isso se deve, provavelmente, à prática religiosa intensa que as igrejas evangélicas possuem através dos cultos e escolas dominicais de estudos bíblicos, além dos ministérios e missões.