4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
4.3 E STATÍSTICA I NFERENCIAL
4.3.7 Construto Trabalho e o Espaço Total de Vida
Este construto está relacionado com espaço que o trabalho ocupa na vida do indivíduo. Walton (1973) destaca que a QVT será favorecida quando houver equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal do empregado. Para o autor, a experiência de trabalho de um indivíduo pode ter efeitos negativo ou positivo sobre outras esferas da vida. Assim, a organização do trabalho deve considerar a expectativa de carreira, progresso, estabilidade de horário, poucas mudanças geográficas e o tempo que o colaborador terá para o lazer e para a família.
Para avaliação deste construto o primeiro passo foi verificar a possibilidade de agrupamento das variáveis por meio da análise fatorial. O quadro 23 apresenta o resultado da medida do teste KMO de adequação da amostra e o teste de esfericidade de Bartlet assegurando a validade da Análise Fatorial.
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Quadro 23 - Resultado do KMO e do teste de Bartlett para o construto Trabalho e o espaço total de
vida
Medida Kaiser-Meyer-Olkin de adequação de amostragem. 0,750 Teste de esfericidade de Bartlett
Qui-quadrado aprox. 663,371
Df 15
Sig. 0,000
Fonte: Saída do SPSS - Dados da pesquisa
O agrupamento da análise fatorial sugeriu que todas as variáveis do construto estariam agrupadas no mesmo fator conforme apresentado na tabela 34, demonstrando que o instrumento utilizado explica o fenômeno investigado com segurança.
Tabela 33 – Análise Fatorial para o construto Trabalho e o espaço total de vida
Variáveis Carregamento
Fator 1
Q56 – Satisfação quanto à influência do trabalho sobre a vida e rotina pessoal.
0,937 Q55 – Convivência familiar após a regulamentação 0,886
Q58 – Satisfação com os horários de descanso. 0,883
Q57 – Satisfação quanto à influência do trabalho sobre o lazer. 0,846 Q54 - A qualidade de vida após a regulamentação 0,762
Q53- Estabilidade de horários de trabalho 0,510
Fonte: Saída do SPSS – dados da pesquisa
A tabela 34 mostra que os componentes possuem cargas fatoriais elevadas, acima de 0,7, com exceção da variável Q53 que apresentou carga de 0,51. A maioria dos coeficientes indica homogeneidade na constituição do escore fatorial. O fator gerado explica 66,6% da variância do conjunto de indicadores conforme demonstrado na tabela 35.
Tabela 34 – Indicadores da AF para o construto Trabalho e o espaço total de vida
Componente
Valores próprios iniciais Somas de extração de carregamentos ao quadrado Total % de variância % cumulativa Total % de variância % cumulativa 1 3,998 66,632 66,632 3,998 66,632 66,632 2 ,925 15,410 82,042 3 ,634 10,567 92,610 4 ,241 4,017 96,627 5 ,117 1,944 98,570 6 ,086 1,430 100,000
140 A análise da consistência interna deste fator pelo valor de Alfa de Cronbach sugere que, a eliminação da variável Q53 do conjunto de variáveis que compõe o fator, elevaria o valor do Alfa de Cronbach de 0,881 para 0,917. No entanto, a variável Q53 trata da estabilidade de horários na profissão e de acordo com Walton (1973) esta é uma dimensão importante para avaliação da QVT. Assim, optou-se por manter a variável no construto uma vez que o valor de 0,881 é considerado na escala proposta por Hair et al. (2005) como muito boa, confirmando a consistência interna da escala deste fator mesmo mantendo a variável.
A seguir, apresentam-se na tabela 36 as medidas de tendência e de distribuição das variáveis do construto gerado a partir da análise fatorial. As medidas de dispersão (DP e CV) mostram que o nível de coesão ficou homogêneo entre as variáveis do construto.
Tabela 36 – Tendência e distribuição dos dados do construto Trabalho e o espaço total de vida
Variáveis N Média DP CV Alfa de
Cronbach
Q53- Estabilidade de horários de trabalho 132 4,19 1,153 19%
0,881 Q54 - A qualidade de vida após a regulamentação 132 4,39 0,993 0%
Q55 – Convivência familiar após a
regulamentação 132
4,61 0,987
19% Q56 – Satisfação quanto à influência do trabalho
sobre a vida e rotina pessoal. 132
4,71 0,878
11% Q57 – Satisfação quanto à influência do trabalho
sobre o lazer. 132
4,56 0,902 20% Q58 – Satisfação com os horários de descanso. 132 4,61 0,863 23% Fonte: Saída do SPSS - Dados da pesquisa
As condições ideais de trabalho na visão de Walton (1973) passam, entre outras coisas, pela necessidade de a organização proporcionar ao trabalhador o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. O desiquilíbrio entre estes dois fatores é considerado por Antunes (2002) como uma das principais formas de precarização do trabalho. Para o autor, o trabalho ocupa um espaço central na vida social do indivíduo e sua precarização dificulta o processo de identificação e construção de si, tornando-o alienado e estranho ao trabalho.
Timossi et al. (2009) destacam também que a jornada de trabalho exaustiva e as constantes mudanças de residência podem se transformar em sérios problemas familiares. Para os autores, o tempo de trabalho adequado e com intensidade física adequada proporcionam ao trabalhador realizar mais atividades de lazer na presença de seus familiares, melhorando a qualidade de vida e a QVT.
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Já Para Dutra (2002) e Quintanilla (2002) o equilíbrio entre a organização e os indivíduos que nela trabalham é a principal função da gestão de pessoas e tem o objetivo de direcionar as organizações para que se obtenha os melhores resultados.
Todas as variáveis do construto foram avaliadas pelos respondentes com alto grau de satisfação variando de M=4,19 a M=4,71, o que representa um índice de satisfação superior a 70%. A variável Q53 que trata da estabilidade de horário de trabalho foi a que apresentou o menor índice de satisfação (70%), ainda assim, um bom índice. De acordo com Girotto (2014) a falta de um horário fixo de trabalho é uma característica da profissão do motorista, visto que estes dependem de vários fatores que interferem na sua jornada, tais como, carga e descarga do caminhão, condições do veículo e transito.
A porção qualitativa da pesquisa corrobora com o resultado encontrado na porção quantitativa. Os entrevistados MT1 e MT2 consideram que o tempo dedicado ao trabalho está de acordo com suas expectativas e estes se sentem satisfeitos com o espaço que o trabalho ocupa na sua vida.
[...] o trabalho de motorista sempre nunca vai ter um horário fixo, porque a lei exige que a gente tenha um intervalo de 11 horas depois que a gente para. Entao se hoje foi preciso fazer quatro horas extras amanhã eu começo mais tarde e assim vai. Mais isso não interfere em casa, porque a familia já se acostumou assim, sempre sobra um tempo pra um churrasquinho... (ENTREVISTADO MT1).
[...] A gente tem tempo pra lazer só que a gente precisa entender que não vai ser sempre no mesmo horário. No final de semana posso contar com o domingo pra sair com a família e com os amigos, durante a semana é mais difícil, mas se tiver algum compromisso marcado o pessoal arruma pra gente ficar mais perto de casa. (ENTREVISTADO MT2).
As falas dos motoristas confirmam o que foi apontado por Girotto (2014) quanto às características da função em não ter horários pré-definidos para execução do trabalho. Deixam transparecer também que estão satisfeitos com relação à forma como o trabalho está organizado. Os relatos apontam ainda não haver prejuízos na relação familiar provocados pelo tempo que o trabalho ocupa em suas vidas.
A opinião dos gestores é condizente com os relatos dos motoristas.
[...] os horário de trabalho dos motoristas depende sempre do desenvolvimento do trabalho no dia anterior, porque ele precisa comprir o intervalo entre uma jornada e outra. Então o único horário que ele tem definido é o de início da segunda-feira, os demais dias dependem um do outro (ENTREVISTADO GL1).
[...] depois da regulamentação acredito que o serviço do motorista ficou mais organizado. Como aumentou o número de caminhão e de motorista, a carga de trabalho dividiu e com isso acaba sobrando mais tempo pra todos. (ENTREVISTADO GL1).
142 [...] a média de horas extras na empresa é de uma a duas horas por dia, pra todos os motoristas, isso porque não encontramos uma forma de eliminar as horas extras. A gente depende de muitos fatores, da liberação pra carregamento na companhia, da fila de carregamento, do trânsito, do equipamento e ainda da liberação pra descarga no cliente, então sempre vai existir horas extras, não temos como definir horário de trabalho para o motorista, vai ter dia que sua jornada vai acabar a 100 quilometros da sua casa e ele vai fazer horas extras pra chegar em casa. A partir daí espera 11 horas e começa de novo.(ENTREVISTADO RH1).
[...] acredito que eles estejam satisfeitos com a forma que tratamos o trabalho deles, somos bem flexíveis. A gente tem como programar o motorista que tem algum compromisso no final do dia pra que ele viaje mais perto. Todo dia tem viagem longa e curta. Quando nos pedem algum favor normalmente atendemos (ENTREVISTADO GL1).
Percebe-se nos relatos que apesar da impossibilidade de se definir horário fixo para início e término das jornadas, existe uma flexibilidade por parte dos gestores que possibilitam organizar a rotina de trabalho buscando atender aos interesses dos motoristas.
O trabalho de Brito e Macedo (2011) apresentou um resultado contrário ao verificado neste estudo. Para os participantes do estudo, o fato do horário de trabalho ser imprevisível traz desconforto e interferência na vida privada dos motoristas, sobretudo com relação à disponibilidade de tempo para lazer e família. Os participantes relataram ainda a impossibilidade de se organizar para participar de eventos pessoais como casamentos e aniversário, afetando toda a família.
O trabalho de Oliveira (2008) relacionou a presença de horários indefinidos como fonte de sofrimento entre os motoristas. Os participantes relataram privação do sono devido aos horários rotativos de trabalho e a consequente dificuldade de dormir em momentos diferentes do dia, provocando desorganização do período de repouso.
Neste estudo, os resultados encontrados evidenciam que a empresa investigada promove a QVT no que diz respeito ao tempo que o trabalho ocupa na vida dos motoristas. Os respondentes tanto da porção qualitativa quanto da porção quantitativa entendem que a organização do trabalho está próxima do ideal, mostrando que há equilíbrio entre trabalho e vida pessoal da população investigada.