Como já mencionamos na Introdução, cada consulta ocorreu de forma muito diferenciada. Essas diferenças foram acatadas em nosso método para que cada grupo, médium e entidade pudesse expressar livremente sua singularidade.
Em Volta Redonda, a médium que coordena a casa disse que, embora a entidade Manequinho (uma criança) seja a entidade central do terreiro, era melhor que consultássemos dona Maria Padilha das Sete Encruzilhadas, pois era ela quem gostava desse tipo de conversa. Mas antes era preciso que perguntássemos diretamente à própria entidade o que ela achava de participar da pesquisa. Assim fomos à uma gira aberta pedir a autorização de Maria Padilha.
Nessa primeira oportunidade, a entidade já nos forneceu importantes explicações sobre
Aruanda. Por sorte, um dos médiuns da casa tomou a liberdade de anotar nossa conversa. É
graças a isso que essa primeira consulta também faz parte de nosso material coletado (Anexo I).
Maria Padilha agendou nossa consulta oficial para a semana seguinte, num dia de
desenvolvimento, quando os médiuns fazem uma gira fechada sem atendimentos. No entanto,
nesse dia ocorreram duas consultas de emergência, realizadas de forma privada, enquanto os médiuns dançavam e incorporavam Orixás e entidades ao som de um atabaque. Após as
consultas de emergência, tivemos ainda o privilégio de presenciar um ritual de entrada de uma
nova médium na casa, chamado de amaci.
Terminado o amaci, Maria Padilha nos chamou para o centro da roda e pediu que eu explicasse a todo o corpo mediúnico a proposta dessa pesquisa. Depois que terminei, ela contou que realizou no início do ano (2014) um curso semanal sobre os mais variados temas, voltado à formação dos médiuns da casa. Toda segunda-feira à noite, a médium entrava em transe e a entidade lecionava. Padilha ressaltou a importância de nossa pesquisa para uma maior compreensão da Umbanda pelos próprios umbandistas e aproveitou nossa presença para transformar nossa consulta numa aula aberta.
Sentados em círculo ao seu redor, todos puderam ouvir e participar da conversa. Seguindo nosso método, anotamos somente as respostas da entidade. Por mais de três horas adentro pela madrugada, ela nos falou sobre Aruanda, física quântica, teoria da relatividade, o
75 funcionamento da glândula pineal, a natureza dos Orixás, a vida em outros planetas, o colapso de Atlântida e dos lemurianos, a crise ambiental, a cura do câncer e da AIDS e muitas outras questões (ver Anexo II).
Na pesquisa de campo na cidade do Rio de Janeiro, ao solicitarmos uma consulta com a entidade central da casa, a médium dirigente nos aconselhou a conversar com duas
entidades. Segundo ela, a entidade Marinheiro é o dirigente, mas ele sempre trabalha ao lado
de Zé Pelintra. Portanto, segundo ela, o ideal seria conversarmos com os dois, pois cada um daria uma versão diferente de Aruanda. Tomamos essa posição como um sinal das peculiaridades desse grupo e agendamos as duas consultas (Anexos IV e V).
Diferente dos outros dois terreiros pesquisados, a Casa do Sol Brilhante não tem um local fixo, cada gira acontecendo num local diferente. Tal itinerância se dá por motivos práticos, por falta de um local próprio capaz de acomodar as diferentes festas ao longo do ano. No entanto, ressaltamos a curiosa relação simbólica desse fato com a descrição do Marinheiro, fornecida por Zé Pelintra, como alguém que “não tem porto, não tem lugar” (Anexo V).
As consultas foram realizadas na casa da médium, na presença de outra médium integrante do grupo. Fomos informados de que os encontros precisavam terminar cedo, por isso não foi possível alongar como na consulta em Volta Redonda. Na primeira visita ao grupo, seu Marinheiro disse uma frase inquietante. Essa frase não foi dita durante a consulta, mas foi mencionada e explicada mais a fundo na conversa “oficial”. Devido a sua importância, foi adicionada no início do Anexo IV como material coletado e consta como epígrafe deste capítulo.
Na consulta com Zé Pelintra, o assistente de pesquisa não pôde comparecer por motivos pessoais e a médium acompanhante precisou se retirar durante algum tempo. Na ausência de outras pessoas, Zé Pelintra falou pouco sobre Aruanda. A entidade focou sua atenção numa consulta pessoal, descrevendo detalhes de episódios particulares dos quais eu nada havia lhe contado. Esses pontos, que fogem do tema da pesquisa, foram excluídos do material final e menciono apenas a título de objetividade e transparência científica.
No terreiro em Paracambi, a consulta com a entidade Baiano, dirigente da casa, foi marcada para um dia de preto-velho. Inicialmente havíamos entendido que Baiano era um
preto-velho, mas logo no início da consulta ele fez questão de se identificar como “branco e médico” 44.
76 A conversa aconteceu numa sala reservada, na presença de outro membro da casa, enquanto os pretos-velhos atendiam no barracão. Durante nosso encontro, os ogãs45 continuaram tocando seus instrumentos. Essa é uma técnica comum na Umbanda: uma barreira sonora criada pela música de modo que as pessoas possam se consultar uma ao lado da outra, sem que as conversas sejam entreouvidas. A música no entanto, dificultou nossa comunicação. Não foi possível ouvir tudo o que foi dito e muitas vezes tivemos a impressão de que a própria entidade não ouvia algumas perguntas. O encontro levou menos de meia hora e foi interrompido abruptamente pela entidade, dizendo que não podia revelar mais nada: “Agora eu tenho que ir trabalhar. Se quiser saber mais, pergunta aos médiuns que eles te
explicam” (Anexo III).
Desse modo, temos sete páginas de conteúdo da Maria Padilha, quatro do Marinheiro, quatro de Zé Pelintra e duas páginas de texto anotado da consulta com Baiano. Essa diferença quantitativa não representa, no entanto, uma diferença qualitativa, pois pela análise do material foi possível estabelecer muitas relações entre as entidades, de modo que, tendo concluído a quarta consulta, julgamos ter coletado material suficiente para realizar o estudo.