3 A PARCERIA COLABORATIVA COMO ESTRATÉGIA INTERVENTIVA
3.2 CONSULTORIA COLABORATIVA COMO ESTRATÉGIA PARA
LITERATURA
Como salientado anteriormente, o trabalho colaborativo pode ser um caminho promissor para a capacitação de professores no contexto da Educação Infantil, tendo em vista que essa consultoria se configura como uma parceria estabelecida entre o professor regular e um consultor da educação especial. Nessa perspectiva, a Consultoria Colaborativa é uma modelo de ensino em que tanto o consultor (profissional) quanto o consultado (professor regular) compartilham saberes com o intuito de encontrar uma solução no contexto escolar (MACHADO; ALMEIDA, 2013). Nessa direção, o modelo de Consultoria Colaborativa apresenta-se como uma resposta alternativa à prestação de serviços compatíveis com os propósitos da Educação Inclusiva (SANTOS; LIBRA, 2016).
Com vistas a identificar o que a literatura nacional tem produzido sobre a Consultoria Colaborativa no contexto da Educação Infantil, foi realizada uma revisão da literatura. Considerando os descritores “consultoria colaborativa”, “autismo” e “educação infantil”, foram incluídos estudos publicados em periódicos revisados por pares disponibilizados nos últimos 5 anos (de 2014 a 2018). Como critério de inclusão foram considerados apenas estudos envolvendo professores do Ensino Infantil com alunos com autismo e exclusão de estudos que não tratavam dessa temática.
Com base no portal de periódicos CAPES, que reúne periódicos, livros, dissertações e teses, especificamente na Educação Infantil, foi encontrado um único estudo com os descritores Consultoria Colaborativa, Autismo e Educação Infantil. Assim, foram empregados os termos
“consultoria colaborativa” e “inclusão escolar”. Com esses descritores foram identificadas 20 pesquisas revisadas por pares. Em seguida, foram eliminados os estudos que não relatavam a parceria de consultores do Ensino Especial e regular em colaboração em classe comum com alunos com deficiências no período de 2014 a 2018, com base nos títulos e resumos os trabalhos que não versavam sobre a escolarização nesses contextos regulares de ensino. Sete trabalhos, descritos no Quadro 3, foram considerados:
Quadro 3 – Pesquisas que tratam da Consultoria Colaborativa na Educação Infantil publicadas entre 2014 e 2018
Autor (Data) Objetivos Participantes Resultados
Baleotti e Zafani (2017)
Descrever o processo de inclusão escolar de alunos com deficiência física inseridos em classes regulares da Educação Infantil do município de Marília/SP, por meio da
colaboração entre saúde e educação.
Alunos com deficiência física do Ensino Infantil, professores das salas regulares e do
AEE dos alunos inseridos na pesquisa do município de Marília/SP.
Os resultados apontam que o vínculo estabelecido entre o terapeuta e os professores foi muito importante
para a implementação dos recursos da Tecnologia Assistiva via conexão saúde e educação através da
consultoria colaborativa escolar. Calheiros e
Mendes (2016)
Avaliar um serviço de consultoria colaborativa a distância em Tecnologia
Assistiva para professores, utilizando abordagem qualitativa do tipo
exploratório.
Seis professoras da SRM do município de Maceió/AL, e Rio Claro/SP três consultoras em Tecnologia Assistiva.
Os resultados indicam a consultoria colaborativa como propicia na atuação das consultoras e das
professoras de alunos com paralisia cerebral.
Calheiros, Mendes, Lourenço, Gonçalves, Manzini (2019)
Planejar, implementar e avaliar um serviço de consultoria colaborativa a distância em
Tecnologia Assistiva (TA), para duas professoras de SRM.
Duas professoras da Sala de Recursos Multifuncionais da Secretaria de Educação
do município de Rio Claro/SP e três consultoras da área de TA.
Os resultados evidenciam que é possível desenvolver uma parceria entre os profissionais da área da
educação e da equipe multidisciplinar na escolarização de crianças e jovens com paralisia cerebral que requeiram o uso de recursos de TA. Caneguim
(2016)
Planejar, implementar e avaliar um trabalho em formato de consultoria colaborativa voltado para o planejamento,
execução e análise de situações de ensino de habilidades pré-aritméticas.
Uma professora de Educação Infantil da rede municipal de uma cidade do interior de
São Paulo em colaboração com uma consultora de Psicologia.
Os resultados indicam como pontos positivos a interação da pesquisadora e a professora: a docente
contribuiu descrevendo práticas para o ensino de habilidades pré-aritméticas com a intervenção da pesquisadora (a avaliação funcional descritiva é vista
como uma ferramenta com potencial para trabalhos colaborativos com professores). Como ponto negativo, a corresponsabilidade pelo trabalho foi apontada como
Folha e Monteiro
(2017)
Analisar os efeitos de ações de prevenção e promoção na saúde do escolar com
dificuldade de aprendizagem pelo terapeuta ocupacional, por meio da consultoria colaborativa com professores.
Cinco alunos e três professoras. Dois alunos frequentavam o 1º ano do Ensino Fundamental e três frequentavam a
Educação Infantil. Cada turma era acompanhada por uma professora. Os alunos encontravam-se na faixa etária de
cinco a seis anos.
O modelo de Consultoria Colaborativa resultou no provimento de recursos e estratégias de suporte a fim
de minimizar os impactos das dificuldades de aprendizagem no desempenho escolar dos alunos, contribuindo assim para a promoção e prevenção da saúde do educando, bem como prevenindo possíveis
agravos à saúde do estudante. Sant’anna e
Manzini (2018)
Identificar as necessidades iniciais para uma formação continuada em serviço para professores da Educação Infantil, focando
as brincadeiras de crianças.
Seis professoras de duas crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento no Centro Municipal de Educação Infantil
(CMEI), em São Paulo.
Os resultados indicam o desconhecimento dos professores das reais competências e necessidades dos
alunos alvo, seus interesses, dentre outros aspectos. Concluiu-se que conhecer e identificar as necessidades do público-alvo da Educação Especial é
elemento fundamental para alicerçar a formação. Olmedo e
Walter (2015)
Elaborar, implementar e avaliar um programa de formação de professores e mediadores da Educação Infantil no uso da
comunicação alternativa, especificamente o PECS Adaptado, para crianças com TEA, não orais ou sem fala funcional
incluídos em uma creche.
Nove participantes, sendo quatro crianças três professoras e duas mediadoras, com idade entre dois e cinco anos e onze meses,
não orais ou sem fala funcional e que possuíam diagnóstico (TEA), numa cidade
de médio porte do sul do estado do Rio de Janeiro.
Os resultados apontam a capacitação, a estrutura do programa, os encontros e o material como sendo satisfatórios, assim como o formador fonoaudiólogo e
a participação deles no programa. Os professores destacaram que a formação conseguiu modificar sua prática e interação com as crianças em sala de aula e que a orientação e intervenção do fonoaudiólogo é de
suma importância na creche. Fonte: autoria própria (2019).
Baleotti e Zafani (2017) descrevem a experiência de um projeto de extensão desenvolvido por meio da cooperação entre a universidade e o Centro Escola Municipal de Atendimento Educacional Especializado (CEMAEE), vinculado à Secretaria Municipal de Educação de Marília/SP. Esse projeto teve como objetivo contribuir no processo de escolarização de alunos com deficiência física inseridos em classes regulares do Ensino Infantil do município de Marília/SP, por meio da colaboração entre saúde e educação. A interação dos profissionais da saúde com a escola se deu por meio da implementação dos recursos da Tecnologia Assistiva através da consultoria colaborativa escolar. O projeto foi desenvolvido em seis estágios de intervenção. No primeiro, foram identificados os professores que seriam convidados a participar do projeto, ou seja, os que atendiam alunos com deficiência física e recebiam atendimento no estágio supervisionado de Terapia Ocupacional em Neuropediatria. Na segunda etapa foi feito um levantamento, por meio de entrevista com o educador, a fim de identificar as necessidades vivenciadas pelo professor em contexto educacional. Em seguida foi feita a análise dos dados advindos da entrevista e dos registros videografados. Na quarta fase foi ofertado aos alunos com deficiência física e seus professores recursos da TA como uma das possibilidades para o Ensino Inclusivo e a participação desses alunos no contexto escolar. No quinto e sexto estágios foi realizada uma avaliação por meio de um protocolo da eficácia do uso da TA. Os resultados apontam que tal projeto proporcionou um vínculo entre o terapeuta ocupacional e os educadores, estabelecendo uma interação entre as áreas de saúde e educação como suporte à inclusão e à participação efetiva de alunos com deficiências em contextos educacionais inclusivos.
Calheiros e Mendes (2016) investigaram os limites e as possibilidades da Consultoria Colaborativa escolar entre os profissionais de equipe multiprofissional, os terapeutas ocupacionais e os fisioterapeutas, para apoiar a implementação de recursos de TA. Em sequência, um ambiente virtual de aprendizagem foi construído para prestar consultoria e coletar os dados na forma de respostas a questionários para consultores e professores. As ações centraram-se na acessibilidade dos estudantes à escola (ambiente, material escolar, atividades) e na capacitação específica das professoras. Os resultados obtidos indicaram que todas as professoras foram favorecidas em suas atuações profissionais por meio da consultoria colaborativa a distância. Entre os benefícios assinalados, destacam-se: possibilidades de tirar dúvidas sobre o processo de escolarização de estudantes público-alvo da Educação Especial, possibilidades de reflexão profissional, oportunidades de vivenciar novas propostas de intervenção envolvendo o uso da TA em colaboração com profissionais de áreas distintas e aprofundamento teórico sobre o campo da TA.
A pesquisa Calheiros et al. (2019) teve como proposta avaliar um serviço de consultoria colaborativa a distância em Tecnologia Assistiva para duas professores de sala de recursos multifuncionais em um estudo de caso (LÜDKE; ANDRÉ, 1986 apud CALHEIROS, 2019). Os direcionamentos da formação ocorreram na plataforma Moodle, um Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), que foi adaptado às características dessa pesquisa, que presumia ferramentas de comunicação/colaboração entre as professoras e as consultoras, visando garantir o uso dos recursos de TA no processo de inclusão escolar. A investigação contou também com a assessoria de uma designer instrucional, responsável por desenvolver o AVA e resolver os problemas técnicos relacionados a esse ambiente. De modo geral, pode-se dizer que o estudo produziu resultados positivos sobre os procedimentos empregados, evidenciando: 1) a importância do suporte oferecido às professoras por meio da consultoria colaborativa escolar em TA com a participação de profissionais capacitados realizando orientações virtuais; e 2) as melhorias no desempenho acadêmico do estudante alvo da pesquisa, a partir das recomendações fornecidas pelos profissionais especializados na área da TA.
O estudo de Caneguim (2016) teve como objetivo planejar, implementar e avaliar um trabalho em formato de consultoria colaborativa voltado para o planejamento, a execução e a análise de situações de ensino de habilidades pré-aritméticas, bem como identificar princípios e procedimentos descritos pela Análise do Comportamento que contribuiriam com um ensino efetivo na Educação Infantil. A pesquisa foi dividida em seis etapas. A primeira fase consistia na gravação e observação de duas aulas sobre as práticas usadas pela professora para o ensino de habilidades pré-aritméticas. Na segunda etapa foram realizadas entrevistas semiestruturadas e aplicação do programa de ensino de habilidades pré-aritméticas com a professora do EI. Na terceira foram elaborados os planejamentos de aulas para trabalhar habilidades pré-aritméticas. Na quarta foi realizada uma gravação e observação de aula com o objetivo de analisar os procedimentos de ensino utilizados pela professora para a prática de habilidades pré- aritméticas. Na última fase, a pesquisadora analisou duas aulas da primeira etapa e duas aulas da segunda para investigar as relações funcionais entre as práticas da professora e os padrões de desempenho dos alunos que interagiram com essas práticas. Por fim, observou-se que, através da Consultoria Colaborativa, é possível haver aproximações entre a avaliação funcional descritiva e procedimentos descritos pela Análise do Comportamento sobre ensino, saberes e necessidades de docentes de diferentes ciclos educacionais.
O estudo de Folha e Monteiro (2017) teve como foco avaliar os efeitos educacionais da Consultoria Colaborativa prestada pelo terapeuta ocupacional, por meio de ações de prevenção e promoção na saúde de escolares com dificuldade de aprendizagem, a partir da identificação
de demandas apresentadas por professores do Ensino Infantil. Foram oferecidas orientações sobre os tipos de atividades e recursos a serem utilizados, bem como sobre a possível adequação deles, a forma de abordagem e a adequação ambiental. As sugestões dessas estratégias foram registradas e disponibilizadas à professora para que pudesse consultá-las sempre que necessário. Os resultados da pesquisa apontam a Consultoria Colaborativa como uma prática promissora no trabalho desenvolvido pelo profissional da saúde (terapeuta ocupacional) e a escola, considerando também importante o envolvimento dos pais dos alunos nesse processo. Além disso, essa ação conferiu destaque para as ações desse profissional no ambiente escolar, indicando a viabilidade e a necessidade de maior inserção desses profissionais no campo da educação no município de Belém/PA.
O estudo de Sant’anna e Manzini (2018) teve como objetivo identificar e descrever as necessidades iniciais para uma formação continuada em serviço para professores da Educação Infantil, focando as brincadeiras de crianças com deficiências. Participaram dessa pesquisa seis professoras de duas crianças com Transtornos Globais do Desenvolvimento. Na primeira fase do estudo foram realizadas entrevistas para diagnosticar as principais dificuldades com os professores, pais, mais a filmagem da atuação do professor em três tipos de brincadeira: com o brinquedo trazido de casa, na sala e no pátio do CMEI com brinquedos diversos. Foram evidenciadas nessa fase: 1) a falta de conhecimento do professor em relação às necessidades e potencialidades dos alunos com deficiências; 2) a ausência de estratégias e recursos pedagógico para envolver os alunos nas brincadeiras; 3) a ausência de um planejamento direcionado para as reais necessidades do grupo. Ao final dessa primeira fase, percebeu-se a necessidade de formação continuada em serviço através de uma Consultoria Colaborativa entre o terapeuta ocupacional, o professor, o aluno e a família, com a finalidade de subsidiar os professores nas estratégias e recursos pedagógicos das brincadeiras dos alunos com deficiências.
O objetivo do estudo de Olmedo e Walter (2015) foi analisar a eficácia de uma proposta pedagógica de intervenção escolar, de cunho colaborativo, na escolarização de crianças com autismo (não orais ou sem fala funcional) incluídos em uma creche. Como procedimento metodológico foi utilizado o modelo de Consultoria Colaborativa. Os dados, coletados ao longo de sete meses, versaram sobre a formação desenvolvida em colaboração com professores e mediadores que atuavam com as crianças com autismos matriculados na creche. Os resultados revelaram pontos positivos e negativos no programa de formação. Quanto aos pontos positivos, a Consultoria Colaborativa foi uma estratégia eficaz e satisfatória para o processo de inclusão dos alunos na creche, melhorando não só a interação comunicativa entre os educadores e a criança, bem como a inclusão dessas crianças no ambiente da creche. Quantos aos negativos,
foram elencados como insatisfatórios o local e o tempo destinado à formação prática. Além disso, foi constatado que, após a saída da pesquisadora do estudo, diminuíram tanto as interações comunicativas da criança com a educadora quanto as iniciativas de comunicação da professora com a criança.
Os estudos acima revisados salientam os resultados promissores da realização de capacitações em serviço de professores do Ensino Infantil, empregando o modelo da consultoria colaborativa. A despeito desses achados, a literatura registra uma carência de pesquisas envolvendo participantes com TEA. Nessa perspectiva, diante das lacunas salientadas, foram estabelecidos, para a presente dissertação, os objetivos descritos a seguir.
Como objetivo geral, vamos avaliar a eficácia de uma proposta pedagógica de intervenção escolar, de cunho colaborativo, na escolarização de uma criança com TEA, regularmente matriculada no Ensino Infantil na cidade de Tenente Laurentino Cruz/RN. Assim, nossos objetivos específicos são: 1) elaborar, junto à professora regente e cuidadora, uma proposta interventiva para o desenvolvimento de habilidades acadêmicas e funcionais do educando com TEA no contexto da Educação Infantil; 2) avaliar os efeitos da proposta interventiva no nível de mediação da professora regente; e 3) avaliar os efeitos da proposta interventiva no desenvolvimento das habilidades acadêmicas e funcionais do aluno.
4 METODOLOGIA