3 Marco Teórico Conceit ual 2
3.4 O consum o de álcool e drogas na fam ília com o fat or de risco para
O uso de drogas faz parte do contexto e da história da sociedade, utilizado em rituais, em situações de festas, de lazer, cont rapondo- se ou part icipando de outros aspect os da vida das sociedades ( ADORNO, 2008) .
A idéia de fazer do álcool um aliado do prazer lícit o dat a da Ant iguidade, m ais especificam ent e visível no I m pério Rom ano. Havia, nessa época, um a t endência aos prazeres e excessos, com o por exem plo, o uso abundant e do vinho — ideologia báquica — represent ado pela figura do deus Baco da m it ologia grega, deus do prazer e da sociabilidade. Num a sociedade em que o prazer não era m enos legít im o do que a virt ude, representada por Hércules, o vinho ocupava um lugar privilegiado, ainda que j á se soubesse de seus efeit os negat ivos ( ÁRI ES; DUBY, 1990) .
No caso das sociedades ocident ais, a própria presença do vinho com o elem ent o de celebração da religião católica traz esse elem ento de ext enso significado e uso na hist ória social ( ADORNO, 2008) .
At ualm ent e, o álcool, cient ificam ent e conhecido com o et anol ( álcool etílico) , é a droga m ais consum ida em todo o m undo. Considerando- se o uso pelo m enos um a vez na vida, o álcool é a droga m ais consum ida em todas as faixas etárias, com eçando entre os dez e os doze anos. Estudo realizado por Galduróz, Not o e Carlini ( 1997) , por int erm édio do Cent ro Brasileiro de I nform ações sobre Drogas Psicot rópicas ( CEBRI D) , com est udant es de escolas de ensino fundam ent al e m édio, de dez capit ais brasileiras, revelou que o álcool e os solventes são as drogas m ais consum idas por adolescent es. A pesquisa revela, ainda, que 65% dos alunos pesquisados j á consum iram essa droga pelo m enos um a vez na vida. A cervej a foi a bebida m ais apont ada pelos adolescent es, sendo que 70% dest es relat aram seu uso, seguido pelo vinho ( 27% ) e pelos dest ilados ( 3% ) .
Esse consum o aum entou drasticam ent e com a produção de bebidas alcoólicas em escala indust rial e, part icularm ent e, após sua inserção na sociedade de consum o com o m ais um a m ercadoria a ser vendida à população. A associação ent re a produção em m assa e a divulgação, via cam panhas publicit árias, fez com que a produção brasileira de cervej a, a bebida alcoólica m ais consum ida ent re os j ovens, alcançasse a expressiva m arca de 9 bilhões de lit ros anuais, no ano de 2005 ( SI QUEI RA, 2005) .
A respeito do consum o de álcool observa Adorno ( 2008, p.7) que
a sociedade contem porânea traz à tona situações com plexas que envolvem uso e consum o com o expressão de um a lógica capitalista hegem ônica que se dá pelo consum o acelerado e por excesso, com o no ritm o exigido pelo trabalho dentro desse sistem a. Se a produção industrial e o m odelo fabril im punham um ordenam ent o social dividindo consum o/ lazer, produção/ consum o, a ponto de tornar o uso de álcool com o elem ento recreativo e presente no m om ento de térm ino ou de folga do trabalho, o uso de drogas associados quer ao lazer, quer às ações de ocupação profissional tornou- se variado e com plexo na sociedade contem porânea, podendo- se inferir ritm os específicos e usos associados a diferentes estilos, ações e significados.
Nest a direção, acredit a- se que a ent rada e a perm anência no m undo das drogas, lícitas ou ilícitas, não é um a questão que se dá ao acaso. Pensa- se, igualm ent e, que sej a produzida de algum a m aneira, diariam ent e, t alvez pela ordem social vigent e e hegem ônica ( que adot a um a visão sim plista do consum idor) , pelos m odelos sociais da sociedade capit alist a, pela const rução da m oralidade prej udicada por essa sociedade consum ist a e individualist a ou um a m ist ura desses fat ores.
Existem fatores que são postos com o fat or de risco para o consum o de subst âncias psicoat ivas. Para Toscano Junior ( 2001) , no âm bit o da cult ura e sociedade, as leis e norm as sociais favoráveis, a disponibilidade das drogas e privações econôm icas ext rem as. No âm bit o individual inclui a baixa est im a, falta de autocontrole e assertividades, com portam ento antissocial precoce, doença pré- existentes ( transtorno de déficit de at enção e hiperat ividade) , baixa religiosidade e vulnerabilidade psicossocial. No dom ínio fam iliar, o uso do álcool ou outras drogas pelos pais e fam iliares, isolam ento social entre os m em bros da fam ília, padrão fam iliar disfuncional, falt a do elem ent o pat erno.
A instituição fam iliar é considerada um dos elos m ais fortes de um a cadeia m ult ifacet ada que pode levar ao uso abusivo de álcool e drogas, além de at uar t am bém com o im port ante fat or de prot eção. I st o se explica pelo fat o de que os diferent es com port am ent os sociais, ent re eles o consum o de subst âncias psicoat ivas, são aprendidos, predom inant em ente, a part ir das int erações est abelecidas ent re o j ovem e
suas font es prim árias de socialização que, no ocident e, são a fam ília, a escola e o grupo de am igos.
O resultado dessa constante interação é o estabelecim ento de um vínculo que possibilit a a com unicação de um conj unto de norm as. Dificuldades percebidas nest as int erações sociais podem se configurar em sérios fat ores de risco para o surgim ent o de problem as na vida dos indivíduos ( SCHENKER; MI NAYO, 2003) .
A falt a de suport e parent al, o uso de drogas pelos próprios pais, at it udes perm issivas dos pais perante o consum o e incapacidade dos pais de controlar os filhos são fatores predisponentes à iniciação ou cont inuação de uso de drogas ( BAHR; HOFMANN; YANG, 2005) .
O consum o de drogas ilícit as, com o a m aconha e a cocaína, é relat ivam ent e baixo quando com parado ao uso das drogas lícit as, com o o álcool e o t abaco ( GALDURÓZ; NOTO; CARLI NI , 1997) . Ao cont rário das drogas ilícitas, o prim eiro contato que a m aioria dos adolescentes tem com o álcool ocorre dentro de casa, sob o olhar com placent e da fam ília, que aceit a e t olera esse t ipo de subst ância.
Essa post ura fam iliar sinaliza a idéia de que o álcool, quando devidam ent e ut ilizado em sit uações sociais, t em boas funções, com o prom over encontros sociais ou o "relaxam ent o" após um dia est afant e. O problem a é que esse uso nem sem pre é devido e o exem plo exibido não é o da t aça de cham panha para brindar o ano novo, ou o de um copo de chope, no final de sem ana, m as de doses diárias para "esquecer dos problem as" ou ficar "um pouco m ais alegre".
Segundo Adorno (2008), o hábito do excesso é um a característica da sociedade de consum o na contem poraneidade; no caso do consum o do álcool pode desencadear situações desestruturantes no cotidiano e nas relações sociais, ou pode adequar-se a outros com portam entos esperados no desem penho profissional ou nos círculos de relacionam ento.
A Organização Mundial de Saúde ( WHO, 2004b) considera que o uso nocivo do álcool encontra- se entre as principais causas de enferm idades, lesões, violência dom éstica — sobret udo cont ra m ulheres e
crianças, além de out ros problem as sociais, m ort es prem at uras, repercut indo de form a grave no convívio hum ano, afet ando pessoas, fam ílias e com unidades e a sociedade em seu conj unt o, t endo fort e relação com as desigualdades sociais e sanitárias.
Dent ro da realidade brasileira, t al gravidade vem t om ando grandes proporções, não se lim it ando ao sofrim ent o e consequências individuais ou som ent e no âm bit o fam iliar, m as podendo ser percebida por agravos sociais que decorrem do alcoolism o ou que o reforçam , presentes nos m ais diversos segm ent os da sociedade.
Segundo o Minist ério da Saúde, os agravos decorrent es do uso do álcool são extrem am ente dispendiosos, afet ando a vida dos indivíduos em diversos âm bit os. Suas consequências podem ser const at adas em um a grande porcent agem de m ort es não nat urais/ acident ais, anos de incapacidade, doenças e outras com plicações indiret as aos danos acom et idos pelo uso abusivo do álcool ao longo de anos ( BRASI L, 2003) .
O uso de subst âncias psicoat ivas t em sido associado principalm ent e à ocorrência de violência. Entretanto, observa Adorno ( 2008) que é preciso cuidado em se estabelecer relações entre questões de nat ureza com plexa, com o o consum o de álcool e violência.
O autor acim a problem atiza a relação entre esses dois tem as com plexos, part indo da análise de dados em píricos obt idos de pesquisas. Em um a dessas pesquisas refere que, de um a am ost ra de 2372 dom icílios encont rados em 27 m unicípios com m ais de 200.000 habit ant es localizados no Est ado de São Paulo, det ect ou- se sit uações de violência em 31,6% dos dom icílios, e nesses 52,7% encont rava- se o relat o do uso de álcool e em 9,7% de outras drogas. Em relação aos que ingeriram álcool cerca de 91% eram hom ens, e 83,3% em relação a outras drogas. A faixa de idade dos que fizeram uso de álcool era superior aos que referiram o uso de out ras drogas. O est udo conclui que em bora t enha se t ornado do senso com um a relação entre uso de drogas e violência, esta ocorreu em um a quant idade m enor de dom icílios, relacionou- se com o uso de álcool e com consum idores do sexo m asculino, dest aca t am bém que o reverso
pode ser concluído, nem t odas as pessoas que fazem uso do álcool se envolvem em violência.
Fat o a considerar nos dados apresent ados do est udo acim a referido é o percentual m aj oritário de hom ens que ingerem álcool e outras drogas, o que nos levou a buscar na lit erat ura com o se apresent a o consum o entre as m ulheres, visto que nosso cenário de estudo são m ães agressoras dos filhos que convivem com o consum o abusivo pessoal e fam iliar de álcool em seu cont ext o relacional.
Encont ram os grande dificuldade, pela escassez de estudos sobre alcoolism o fem inino e suas especificidades, não só em est udos biom édicos, m as tam bém na área das ciências sociais. Além disso, dentre os estudos levantados, m uit os se referem às dificuldades não apenas no t rat am ento de t ais especificidades, com o no próprio diagnóst ico do alcoolism o em m ulheres. Est a dificuldade em diagnost icar o alcoolism o na população fem inina j á nos levant a alguns quest ionam ent os quant o à invisibilidade da m ulher alcoolist a, sej a na form a com o é t rat ada, na própria form a com o adoece, nas dificuldades na procura por aj uda em serviços de saúde, ou ainda, nas lacunas no diagnóst ico dest es serviços sobre o alcoolism o fem inino.
Em estudos sobre dependência de álcool no período ent re 1970 e 1984 verificou que apenas 8% dos participantes eram m ulheres. Apenas 25 est udos sobre dependência apoiou as diferenças ent re sexos no período ent re 1984 e 1989 ( HOCHGRAF; BRASI LI ANO, 2004) .
Em bora considerando que não há um a relação linear ent re consum ir álcool e envolver- se com situações de violência, é possível ident ificar na lit erat ura est udos que buscam analisar a relação ent re o beber fem inino e a violência de gênero sofrida:
Observam os que o beber fem inino está atravessado por essas relações e interações sociais onde as relações de gênero est ão m uito presentes. Particularm ente, observam os um a questão grave que é a relação do beber fem inino com a violência. Não da perspectiva ( não m enos significat iva) onde o alcoolism o provoca a violência, m as sim , onde a violência pode contribuir para gerar alcoolism o ( CÉSAR, 2005) .
A leitura de César (2005) considera as experiências de violência de gênero em diversas situações, às quais as m ulheres foram subm etidas com o fatores envolvidos na dinâm ica de sofrim ento e evolução do alcoolism o. Em sua análise, César sugere a violência com o um fator que contribui para gerar o alcoolism o, ou seja, o alcoolism o poderia ser interpretado com o um efeito possível de tal violência, não desconsiderando outros fatores associados neste processo de adoecim ento, m as tam bém não ignorando a relevância destas experiências na história destas m ulheres, atravessada pelas construções e violências de gênero.
A autora aponta o sofrimento e violência vividos por mulheres alcoolistas e a relação possível destas vivências com a abstinência e o abuso da bebida, sinalizando a presença de contradições entre estereótipos de gênero e a história e condições de vida das mulheres entrevistadas em sua pesquisa. César faz referência ainda a sentimentos como insatisfação e frustração associadas a não adequação dessas mulheres tanto às expectativas tradicionais, quanto às ideologias novas sobre o ser mulher; o que pode favorecer uma sensação de tristeza e desamparo pelo não pertencimento e não cumprimento de papéis femininos. A autora discute a presença dos estereótipos de gênero nos conflitos vividos por estas mulheres, apontando uma relação dialética entre o alcoolismo e estas experiências, onde a dinâmica do ‘beber’ atravessa a construção do ‘ser mulher’:
Ser m ulher, com o se vêem enquant o m ulher e m ulher alcoolist a são face da m esm a m oeda. Refletem toda a am biguidade da sexualidade fem inina e m ais, a am biguidade do beber fem inino. E a am biguidade do beber reflete as relações de gênero, os estereótipos, portanto, a m arca social do gênero fem inino no alcoolism o em m ulheres. ( CÉSAR, 2005, p.104)
Considerações sobre o alcoolism o e o uso de drogas por m ulheres e os reflexos no at o de ser m ãe as colocam frequentem ent e com o rot uladas de negligent es, sendo ainda ligadas aos est ereót ipos de m ulheres que são m ais agressivas, t endendo à prom iscuidade e que falharam ao t ent ar desem penhar o papel dom éstico ( HOCHGRAF; BRASI LI ANO, 2004; KEARNEY; MURPHY; ROSENBAUM, 1994) .