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CAPÍTULO 2 – MEMÓRIAS, FOTOGRAFIAS, CONSUMO E CLASSES

2.3. Consumo cultural

2.3.1. Consumo cultural e os capitais simbólicos

Ao iniciar sua discussão a respeito da diferença entre o necessário e o desejável, Canclini (1995, p. 14) usa como exemplo os conflitos entre gerações na América Latina motivados pelo incremento na educação dos mais jovens que, com isso, traziam novas demandas de consumo e seus itens próprios de prestígio. O autor discute como, na atualidade, a configuração das identidades se dá através do que se possui e do que se vá possuir. Canclini (1995, p. 53) pondera a necessidade de pensar o consumo a partir dos “processos de comunicação e recepção de bens simbólicos”, uma vez que o uso e a apropriação das mercadorias se dá através de processos socioculturais. O significado dos bens precisa ser compartilhado pelos indivíduos para que essa dinâmica encontre seu sentido. Por exemplo, um carro importado ou um celular precisa que o conhecimento sobre seu valor chegue também, e especialmente, aos indivíduos que não possuem os meios para adquiri-los. Assim, tratando o consumo como uma das dimensões do processo comunicacional, pode-se dizer que, a partir dele, os sujeitos transmitem mensagens aos grupos sociais dos quais fazem parte, mas, e, também, aos grupos dos quais não fazem parte, excluindo-os dos mesmos. A “apropriação coletiva” dos bens e mercadorias imprime, então, mensagens de teor simbólico em um processo de distinção dentro da sociedade. De forma consonante pode-se destacar as reflexões de Featherstone (1990, p. 121), que compreende a sociedade contemporânea estruturada a partir de uma cultura de consumo. Partir da dimensão

100 cultural da economia é condição sine qua non64 para que os bens materiais sejam entendidos como comunicadores desse simbolismo. Desse modo, também os princípios de mercado operariam no cerne da economia dos bens culturais, estilos de vida e mercadorias.

Lugar de intensa troca social, mediada seja pelas pessoas ali presentes, pelos funcionários, pelas estratégias discursivas das exposições, suas narrativas e aparatos, o museu é um campo de negociação de subjetividades e onde é possível vislumbrar o indivíduo contemporâneo exercendo sua dinâmica social. A experiência que observei entre os visitantes do Museu Nacional, especialmente entre os indivíduos de classes populares, se dividia, na maioria das vezes, de duas maneiras: no momento da entrevista, ou eles relatavam que aquela era a primeira visita que faziam a um museu, ou que estavam retornando ao único museu que eles conheciam. Ou seja, pela primeira vez ou regressando, a instituição representava a única experiência de consumo cultural em museus que eles haviam tido.

Não era a primeira vez, por exemplo, de S. R., 43 anos, no Museu Nacional, “já não vinha há uns três anos mais ou menos, achei tudo muito bom”. Dona de casa e moradora do bairro de Curicica, ela estava acompanhada do marido e do filho de três anos e, ao final da entrevista não viu motivo para que eu mesma não preenchesse o formulário com dados socioeconômicos: “pode fazer pra mim”. Com renda familiar de um salário mínimo, ela não trabalha e somente o marido exerce atividade remunerada. No dia da entrevista, ela e sua família estavam no parque e decidiram estender o passeio até o museu: “a gente estava aqui e resolvemos entrar”; ficaram cerca de uma hora na instituição. Normalmente, a família não costuma passear nos dias de folga, “a gente não tem como não, ficamos mais em casa mesmo”.

Como ela havia dito que não conhecia outros museus na cidade, indaguei se não tinham ido nem ao Museu do Amanhã, mesmo que só para passear na nova Praça Mauá. “Não, não, a gente só conhece esse museu mesmo”, relatou.

Dentista e moradora do Recreio – com renda entre quatro e dez salários mínimos –, B.

N., de 36 anos, visitou o Museu com o marido e os dois filhos (uma menina com seis e um menino com um ano de idade). O passeio durou cerca de uma hora e quarenta minutos e a opção pelo Museu aconteceu, segundo ela, porque o Zoológico encontrava-se muito cheio. Apesar de não planejada, B. N. declarou ter adorado a visita e que percorreu todas as salas da instituição.

Também essa família estava retornando ao Paço de São Cristóvão naquela ocasião. No entanto, como o filho mais novo é muito pequeno, B. N. tem optado por ficar em casa nos dias de folga:

64 Sem a qual não, indispensável.

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“nós gostamos de passear, mas com o bebê fica mais difícil”. Apesar disso, eles foram ao Museu Imperial esse ano e conhecem outros museus da cidade, como o Centro Cultural Banco do Brasil e o Museu de Arte do Rio.

Mesmo que pertençam a classes sociais diferentes, as duas interlocutoras compartilharam de uma mesma experiência ao revisitar o Museu Nacional naquele dia. No entanto, enquanto para a primeira aquela permanece como única experiência do gênero, para a segunda se tratava de uma prática comum. Não quero com isso, tratar da situação das duas interlocutoras como se entre elas devesse existir um abismo tal que ambas não pudessem frequentar os mesmos espaços. Pelo contrário, com esse exemplo, gostaria de demonstrar como a situação de classes é muito mais complexa do que uma simples divisão entre bens, moradia ou hábitos de lazer. Como bem aponta Featherstone (1990, p. 124) “classes distintas têm modos de vida e concepções diferentes sobre a natureza das relações sociais, que formam a matriz na qual ocorre o consumo”. Ou seja, as diferenças precisam ser reconhecidas e legitimadas socialmente.

Desse modo, as estruturas e processos que cercam as escolhas de bens e estilo de vida necessitam ser analisadas com cuidado, para que não se caia em uma generalização. Mas, também, sem ignorar as disputas pela legitimação de gostos que ocorrem no enredo das distinções proposto por Bourdieu (2007a). No momento,proponho observarmos o consumo e sua relação com o gosto a partir da reflexão do autor sobre as formas de capitais – capital econômico, cultural, social e, também, simbólico, “geralmente chamado de prestígio, reputação, fama etc. que é a forma percebida e reconhecida como legítima das diferentes espécies de capital” (BOURDIEU, 1989, p. 134-135). Segundo o sociólogo francês, os agentes ou grupos de agentes estão imersos em um campo social multidimensional, em que as suas posições são definidas a partir do volume de capital que possuem e da composição do mesmo.

Nesse sentido, os tipos de capitais, tais como “trunfos num jogo”, são os poderes que irão estabelecer as chances de “ganho” em determinado campo (BOURDIEU, 1989, p. 134).

Por exemplo, o volume do capital cultural [...] determina as probabilidades agregadas de ganho em todos os jogos em que o capital cultural é eficiente, contribuindo deste modo para determinar a posição no espaço social (BOURDIEU, 1989, p. 134).

No que se refere a noção de capital cultural, Bourdieu (1989) afirma que ela pode existir em três estados: incorporado, objetivado e institucionalizado. O capital cultural incorporado não pode ser transmitido automaticamente por doação ou por compra ou por troca. Ele é pessoal, dessa forma, para adquiri-lo o sujeito deve dedicar um tempo trabalhando sobre si

102 mesmo. O autor assinala em suas reflexões que essa aquisição de capital está relacionada ao tempo que a família pode assegurar ao sujeito para que ele possa investir nisso, como pontua Bourdieu, refere-se ao “tempo liberado da necessidade econômica que é a condição de acumulação inicial (tempo que pode ser avaliado como tempo em que se deixa de ganhar)”

(BOURDIEU, 2007b, p. 76). A respeito desse aspecto, Bourdieu usa o exemplo da educação escolar, isto é, quando os pais não podem prolongar além do ensino básico por não proverem de condições financeiras. Havendo, nesse sentindo, uma distinção já na acumulação dessa forma de capital cultural. Em relação ao capital cultural objetivado, Bourdieu (2007b, p. 74) afirma que ele se apresenta como bens culturais – “quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas, etc.”. Trata-se de um estado de capital transmissível. Nesse sentido, segundo o autor, ele pode ser apropriado de forma material, o que exigirá um investimento de capital econômico, ou de forma simbólica, o que demandará capital cultural incorporado. Já o estado de capital institucionalizado é fruto da convertibilidade de capital econômico em capital cultural. Ele diz respeito a um reconhecimento institucional, objetivado na forma do diploma,

“[...] essa certidão de competência que confere ao seu portador um valor convencional, constante e juridicamente garantido no que diz respeito à cultura” (BOURDIEU, 2007b, p. 78).

Ao detê-lo, o sujeito pode obter lucro ao revertê-lo em capital econômico no mercado de trabalho.

Por entender a existência de uma hierarquia subjacente aos capitais culturais, em sua leitura sobre a noção de patrimônio, Canclini (2000) expõe a força política desse conceito.

Desse modo, considerando a apropriação desses bens a partir da proposição de Bourdieu (1989) e de sua reversibilidade econômica, essa fica também condicionada a um ordenamento que difere culturas tidas como populares ou subalternas das consideradas como de grupos hegemônicos. Porquanto exista essa hierarquia, os patrimônios passam a figurar como um processo social que, como o capital financeiro “acumula-se, reestrutura-se, produz rendimentos e é apropriado de maneira desigual por diversos setores” (CANCLINI, 2000, p. 195), tornando-se um lugar de disputa simbólica entre clastornando-ses, grupos e etnias. Entendo essa reflexão como fundamental para o despertar de uma outra ponderação que irá surgir ao longo deste trabalho.

Se o modo de apropriação desses bens culturais se dá de modo diverso, a depender da classe social a que “pertence” e da classe que a consome, tanto a apropriação quanto a reversibilidade a que se refere Bourdieu (1989) são absolutamente condicionadas a outros fatores que o autor não considerou para a elaboração de sua teoria. Ou seja, em termos de consumo cultural, não

103 basta ao indivíduo simplesmente ir a um museu para que de lá ele saia munido de um capital simbólico que lhe traga distinção imediata. Esse acúmulo dependerá de um capital de leitura que provém da fronteira simbólica que abrange a divisão social do trabalho, mas também a heterogeneidade cultural, que, como aponta Velho65 (2013, p. 88), decorre de origens étnicas, religiosas ou ocupacionais. Retomando Canclini (2000), o autor pondera o papel das transformações trazidas pela indústria cultural, que tornaram possível uma maior fluidez desses bens simbólicos através de canais eletrônicos de circulação da informação. Ainda assim, o autor sustenta que o consumo da cultura é parte de uma engrenagem de teatralização do poder, em que pese a construção visual e cênica da significação, na vida cotidiana, em que museus seriam um dos palcos da performance dos patrimônios. Desse modo, a condição de culto condicionar-se-ia, para além da apreensão de conhecimentos, da frequência a esses locais em que “os grupos hegemônicos fazem com que a sociedade apresente para si mesma o espetáculo de sua origem”.

(CANCLINI, 2000, p. 162).

65 Em uma sociedade complexa tal qual definida por Velho (2013), para além das categorias sociais distinguíveis historicamente há que se levar em conta a heterogeneidade cultural que se baseia em tradições de origem étnica, religiosa ou ocupacional. Cabe à antropologia, segundo o autor, navegar na relação entre essas duas dimensões, inclusive investigando quando uma é causal à outra. Esta tarefa só será possível ao se identificar experiências comuns a determinados grupos que possam traçar as fronteiras simbólicas entre cada um deles.

104 CAPÍTULO 3 - CIBERCULTURA, POLYMEDIA E EXPERIÊNCIA DE CLASSES