2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.2 Utilização de gramíneas e leguminosas puras ou em associação sob
2.2.2 Consumo de forragem e desempenho de ruminantes em
trevo branco
As medidas de velocidade de ingestão numa escala de curto prazo discutidas acima nem sempre são bem correlacionadas com o consumo diário.
Dessa forma, para predizer o aporte diário de nutrientes é necessário conhecer os fatores que controlam o tempo de pastejo (Penning et al.,1995b), muito pouco investigados em comparações entre gramíneas e leguminosas. O consumo de forragem depende, ainda, do tipo de animal e de suas exigências energéticas, além do valor nutritivo do alimento e de suas características físicas
que podem ser alterados pela introdução de leguminosas e/ou pelo manejo do pastejo.
O consumo de forragem em pastagens de leguminosas em relação a gramíneas puras (TABELA 7) aumentou em 13 % no caso de novilhos pastejando alfafa comparativamente a dactylis (Alder & Minson, 1963). Vacas de cria e seus terneiros consumiram, respectivamente, 21 e 28 % mais MO quando pastejando festuca em associação com trevo branco em relação à gramínea pura (Holloways & Buts, 1983), enquanto cordeiros em crescimento aumentaram o seu consumo de MO, em cerca de 43 %, quando pastejando leguminosas (Cruickshanck et al., 1992). No caso de vacas leiteiras, Stockdale (1997) observou um consumo 30 % superior quando os animais ingeriram trevo branco ao invés de Paspalum sp.. Entretanto, essa amplitude de variação pode oscilar segundo as condições de manejo do pastejo e a porcentagem de leguminosa na pastagem. Harris et al. (1997) verificaram que a introdução de trevo branco em pastagens de azevém perene + outras gramíneas com valor nutritivo bastante inferior à leguminosa praticamente não alterou o consumo em situação de oferta de forragem baixa. Por outro lado, quando a oferta foi elevada o consumo de MO aumentou em 8, 22 e 30 % quando havia 25, 50 e 75 % de trevo na pastagem, respectivamente. Numa associação de azevém perene/trevo branco com a mesma oferta de MS total, Holmes et al. (1997) detectaram um aumento no consumo de 1,7 kg MS/vaca quando a oferta de MS de folhas verdes aumentou em 4 kg/vaca em função de diferentes manejos do pastejo no período pré-experimental. Contudo, a variação no consumo de
TABELA 7. Consumo de forragem (kg MO/animal/dia) em ruminantes pastejando gramíneas e leguminosas puras ou em associação
Animal Pastagem % leg Consumo (kg
MO/an/dia) Referência
Novilhos Medicago sativa 93,5 6,78 Alder & Minson
Dactylis glomerata 5,5 6,01 (1963)
Medicago/Dactylis 71,5 6,78
Cordeiros Bromus catharticus 0 0,45 Cruickshank et al.
Lolium perenne 0 0,53 (1992)
Vacas Az perene + outras 0 12,10 Harris et al. (1997)
leiteiras gram./Trevo branco 25 13,07 Faixas diárias
50 14,84 Oferta = 50 kg MS/ v 75 15,78 /dia ao nível do solo
Vacas Az perene + outras 0 10,89 Harris et al. (1997)
leiteiras gram./Trevo branco 25 11,10 Faixas diárias
50 11,47 Oferta = 25 kg MS/v 75 11,59 /dia ao nível do solo
† Média de 5 anos
forragem em pastagens de leguminosa comparativamente àquelas de gramíneas puras com diferentes idades de rebrotação, ainda não foi estudada.
A produção de leite de vacas pastejando azevém perene puro em relação a associações com trevo branco foi medida por vários autores (TABELA 8). As pastagens consorciadas proporcionam uma produção de leite cerca de 21,5 % superior àquela de pastagens exclusivas de azevém perene na pastagem.
Vacas em início de lactação produziram até 4,8 kg de leite a mais, quando havia 20 % de trevo na pastagem em relação a gramínea pura (Wilkins et al., 1994). Contudo, o aumento da produção leiteira em função da porcentagem de trevo na pastagem parece ser assintótico. Com 50 % de trevo na MS total foi possível obter 95 % da produção máxima (Harris et al., 1997).
O aumento na produção de leite guarda uma relação quase que diretamente proporcional com o consumo de MS de forragem. Uma relação de 1 kg de leite a mais para cada kg de MS de forragem ingerida foi descrita por Peyraud (2001) a partir da análise conjunta de seis experimentos conduzidos em pastagens de azevém perene em cultivo estreme. Essa mesma relação pode ser observada em pastagens de associação azevém perene + outras gramíneas/trevo branco, quando se analisa os dados de Harris et al. (1997), onde foram observados valores de consumo na faixa de 11-13 kg de MS de forragem por animal por dia. Entretanto, quando considera-se o intervalo de 11-16 kg MS de forragem ingerida por animal por dia, o incremento em produção de leite cai para 0,8 kg de leite por kg de aumento no consumo de MS de forragem. Comparando trevo branco com Paspalum, de digestibilidade bem
Tabela 8. Produção de leite de vacas pastejando azevém perene em cultivo
Azevém perene - 22,2 Faixas, Oferta = 6kg Thomson et al. (1985)
Trevo branco 100 25,0 13,6 MS/100 kg PV
Azevém perene - 20,6 - Pastejo continuo a Willkins et al. (1994)
Az. perene/TB 15 22,8 10,7 6 cm, início de
Az. perene/TB 20 25,4 23,3 lactação
Azevém perene - 11,4 - Faixas, 35 kg de MS/ Johnson & Thomson
Trevo branco 77 13,5 18,4 vaca/dia (> 6 cm az. (1996)
> 3 cm trevo)
Azevém perene - 14,6 - Faixas, 15 kg de MS/
Trevo branco 86 16,4 12,3 vaca/dia (> 6 cm az.
> 3 cm trevo)
Az.perene+outras - 10,2 - Pastejo em faixas Harris et al. (1997)
Az. per. + outras/TB 25 12,5 22,5 50 kg de MS/vaca/dia Az. per. + outras/TB 50 13,6 32,5 Ao nível do solo
Az. per. + outras/TB 75 13,7 34,0
Az.perene+outras - 9,0 - Pastejo em faixas Harris et al. (1997)
Az. per. + outras/TB 25 11,2 22,9 25 kg de MS/vaca/dia Az. per. + outras/TB 50 11,1 23,0 Ao nível do solo
Az. per. + outras/TB 75 12,4 37,7
Azevém perene - 18,9 - Pastejo continuo Phillips & James
Az. perene/TB 15 22,1 16,9 a 6 cm (1998)
Azevém perene - 11,5 - Pastejo continuo Phillips et al. (2000)
Az. perene/TB 22 13,0 13,0 a 4 cm
Média gramínea - 13,5
-Média leguminosas 49 16,4 21,5
†Aumento percentual de produção de leite em relação ao tratamento testemunha (gramínea pura)
inferior à da leguminosa, Stockdale (1997) observou que a produção de leite foi proporcional ao consumo de MO digestível ingerida.
O efeito das leguminosas sobre os teores de gordura bruta e proteína do leite ainda não foram bem esclarecidos. No caso do trevo branco, diminuições nos teores de gordura em pastagens em associação com trevo, em relação a gramínea pura, foram observados por Johnson & Thomson (1996) -com uma oferta de 15 kg de MS/vaca/dia -, Harris et al. (1997) e Phillips &
James (1998). Por outro lado, Willkins et al. (1994) e Johnson & Thomson (1996) – com uma oferta de 35 kg de MS/vaca/dia – não observaram alteração significativa do teor de gordura no leite com a presença da leguminosa. O teor de proteína pode aumentar com a presença do trevo em vacas em início de lactação (Wilkins et al., 1994), mas na maior parte dos casos ocorre muito pouca variação (Johnson & Thomson, 1996; Harris et al., 1997; Phillips &
James, 1998; Phillips et al., 2000).
2.3 Utilização de leguminosas em sistemas de produção de leite