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1 INTRODUÇÃO

1.5 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

1.5.2 Consumo Sustentável

A dinâmica exploratória estabelecida pela divisão dicotômica entre países do eixo norte e países do eixo sul, arraigou uma concepção desequilibrada de desenvolvimento desde os tempos das missões civilizatórias do ocidente capitalista e industrial. A busca desenfreada pelo progresso teve como justificativa a necessidade de modernização, a qual a partir de uma visão eurocêntrica tenta impor até os dias atuais um padrão de desenvolvimento que exclui as especificidades regionais em sua maioria (PORTO-GONÇALVES, 2012).

O modelo de desenvolvimento ancorado apenas no crescimento econômico produz consequências nefastas para a sociedade e muitas vezes irreversíveis para o ambiente. Com o intuito de suprir as necessidades dos países imperialistas, foi necessário subjugar os territórios colonizados, os quais convalesceram em penúria orbitando na periferia de um processo de desenvolvimento excludente. A homogeneização desejada pelo sistema capitalista, não considera os limites e a capacidade de regeneração da natureza. Porto-Gonçalves (2012) ainda alerta para o fato de que houve uma transformação visível nas relações de poder no âmbito do

trabalho com a Revolução Industrial e a substituição do trabalho humano pelas máquinas. Mais precisamente durante a pós Segunda-Guerra Mundial, os níveis de consumo cresceram, a alta da produtividade através da inserção do modelo tayloriano-fordista nas fábricas orientando a produção viabilizou uma o aumento da fabricação de produtos duráveis e não- duráveis (LIPOVETSKY, 2007). Ost (1998, p. 304) afirma que,

Todas as componentes da tragédia parecem estar assim reunidas: a enormidade das questões em jogo, a irreversibilidade dos processos em curso e o constrangimento, quase irresistível, de um movimento de desenvolvimento que arrasta nações num consumo sempre acrescido, de que sabemos, contudo, conduzir, a uma ruptura de carga do sistema ecológico.

Lipovetsky (2007) faz inferências sobre as fases que marcaram o que o autor chama de três eras do capitalismo de consumo. A primeira constituiu a fase do nascimento dos mercados de massa mediante a expansão da produção, o surgimento de marcas célebres através de grandes ações publicitárias; A segunda fase foi caracterizada pela “sociedade da abundância”, a difusão do hedonismo individualista, o crédito é disseminado para que cada vez mais rápido as pessoas tivessem acesso aos bens materiais que quisessem; A fase três destaca-se pelo hiperconsumo, o consumo emocional em contrapartida ao consumo funcional dos produtos sob a ótica da fusão das empresas surgem grandes aglomerados de marcas e o cliente passa a ser o centro das atenções. Toda essa dinâmica contribuiu para a consolidação do que o autor supracitado chama de Homo consumericus, uma figura plenamente adestrada cativada pelo consumo sem freio, o consumo-mundo.

A sociedade, em grande parte, ainda acredita que “a qualidade de vida está diretamente atrelada à capacidade de consumo de cada cidadão, fato que gera grandes consequências ambientais ante a incapacidade de se restabelecer a natureza degradada” (ROCHA, et al., 2016). Esse consumo desmedido presente em maior parte nos países do eixo norte, fazendo valer a situação dos países chamados subdesenvolvidos evidencia as consequências de uma dinâmica exploratória para suprir necessidades duvidosas. Os países localizados na tangente desse processo desfrutam de uma realidade agravada pelo o aumento demográfico, a urbanização sem planejamento e a vontade de pertencer à uma classe consumidora dentro de uma escala de aquisição efêmera aos moldes dos países ditos desenvolvidos.

Em razão da predominância da vertente econômica nas diretrizes do desenvolvimento, este conduz a sociedade para um estilo de vida atrelado ao modelo de produção predatório, o

qual a aquisição cada vez maior de bens é necessária para que os indivíduos se sintam pertencentes. Echegaray (2012), por sua vez, infere sobre a politização do consumo como forma de exercer ou expressar a cidadania a partir da escolha de determinados produtos. Em suma,

expressa práticas individuais de seleção ou rejeição de produtos e/ou produtores com base em considerações socioambientais, políticas ou éticas, e com o objetivo de promover algum resultado de cunho político (que afete direta ou indiretamente a produção ou distribuição de bens públicos e seus geradores privados) (ECHEGARAY, 2012, p. 49).

Sob essa perspectiva, a reflexão acerca do momento que é consumido determinado produto e qual o impacto deste no meio ambiente e demais esferas é estimulado. Logo, uma forma de se posicionar contra ou a favor de um produto é a reorientação do consumo. A decisão pela compra de produtos ambientalmente corretos que atendem aos preceitos da sustentabilidade, através da logística reversa e outros elementos, implica numa “conexão explícita sobre a influência de uma decisão de compra na geração de resultados coletivos desejáveis que direcione os consumidores a favor de determinados produtos ou marcas” (ECHEGARAY, 2012, p. 53). Essa atuação pode favorecer à um redirecionamento do mercado, com foco no desenvolvimento de produtos sustentáveis; entretanto vale ressaltar que isso também pode caracterizar a essência básica do capitalismo, mascarando o verdadeiro objetivo do mercado, a obtenção de lucro a qualquer custo. É bastante plausível e salutar a reorientação da produção, contudo, deve estar atrelada à um decrescimento gradual (MENDONÇA et al., 2017).

Nesse sentido, Latouche (2009), defende a reinserção do desenvolvimento numa nova lógica, a do decrescimento, em abandono ao foco do crescimento ilimitado, o qual visa apenas o lucro per se gerando consequências desastrosas nas diversas facetas da sociedade. O produtivismo mercante levou a dilapidação dos recursos naturais, acumulação de resíduos e dejetos, poluição excessiva dos países em desenvolvimento os quais convertmem-se em sumidouros do “lixo” dos países desenvolvidos, dentre outros aspectos caracterizam a negligência com as questões socioambientais, onde a natureza é manipulada e a sociedade inebriada por um falso desenvolvimento submetido à lei do lucro e do capital (PASSET, 2002).

Dito isto, o fundamento do crescimento ilimitado pode ser questionado perante a incompatibilidade das vertentes socioambientais negligenciadas em contraposição à unilateralidade da visão econômica. Nessa esfera, a preocupação com a redução do consumo é

legitimada pelo fracasso da ciência, da técnica e do discurso do progresso no alcance de melhores condições e qualidade de vida. Santos (2000) ressalta uma realidade contemporânea árida, baseada em tendências como “uma produção acelerada e artificial de necessidades; uma incorporação limitada de modos de vida ditos racionais; e por fim uma produção ilimitada de carência e escassez”, as quais criam um círculo vicioso de consumo. Fagúndez (2004) alerta para o fato de que,

A sociedade capitalista de consumo não consegue conter a sua própria vontade de autodestruição. O interesse é imediato. É a vontade de suprir uma necessidade inexistente. Ou uma necessidade que, uma vez suprida, gera novas necessidades. Em decorrência, fundamentalmente, do marketing, que não vê barreiras para a expansão do capitalismo, o qual, à medida que avança, provoca lesões irreversíveis nas relações individuais e coletivas existentes no tecido social. A sociedade do ter também é a sociedade que nos leva à reflexão para construção de um novo paradigma (FACÚNDEZ, 2004, p. 585).

O estabelecimento de um novo modelo econômico, de produção e consumo racional que permitam uma distribuição mais igualitária dos bens e serviços, pode promover uma qualidade de vida efetiva para a sociedade, sob a ótica de “uma outra globalização” (SANTOS, 2000). Atentar para uma mudança nos hábitos de consumo é primordial para alcançar o desenvolvimento sustentável. Numa sociedade órfã de valores como é o caso do Brasil, pensar na adoção de critérios/preceitos de sustentabilidade requer uma mudança institucional e cultural por parte do Poder Público capaz de direcionar e estimular os demais setores. Para isto é preciso internalizar outro conceito também importante, o de sustentabilidade ambiental, o qual, segundo Veiga (2008, p. 171) assegura que esta “é baseada no duplo imperativo ético de solidariedade sincrônica com a geração atual e de solidariedade diacrônica com as gerações futuras”. De fato, orientar mudanças no desenvolvimento, nos hábitos de consumo dentre outros elementos agregando fundamentos da sustentabilidade requer novas estratégias mais humanitárias, mediante uma balança mais equilibrada a respeito das externalidades negativas que majoritariamente recaem no campo socioambiental.

Nessa perspectiva, a Administração Pública pode se configurar como relevante exemplo de eficiência socioambiental na sociedade ao adotar mudanças mediante o que foi citado acima. Sabe-se que antes de um bom planejamento, orçamento disponível, e recursos humanos para efetivar algo nesse âmbito é preciso vontade política. A existência de administradores públicos indôneos, éticos nem sempre garante que um planejamento socioambiental alcance todos os objetivos o qual se dispôs, contudo é relevante para a transparência do processo.