2.2 UNIVERSO E PROCEDIMENTOS DE PESQUISA
3.1.3 Consumo
Da preocupação da sociedade com a saúde e questões ambientais surgiu um público específico à procura alimentos saudáveis que não contaminem o meio ambiente no seu cultivo e, principalmente, não comprometam a saúde de quem os consome. O Quadro 03 resume os principais motivos para a compra de ecológicos em alguns países da União Européia, comparados com o Brasil. De forma geral, as pesquisas realizadas em diferentes países apresentam tendências semelhantes. Apontam, em primeiro lugar, uma preocupação com aspectos relacionados à própria saúde, à saúde da família e a segurança alimentar, principalmente em relação à contaminação por agrotóxicos e outros agentes químicos. Em seguida, aspectos como cuidados com o meio ambiente e qualidades intrínsecas do alimento (sabor, cheiro, frescor) são citados como fatores que impulsionam as vendas. O estilo e filosofia de vida também são apontados como fatores complementares que motivam a compra de ecológicos.
20 Segundo Silva (2006) existem, em Curitiba, 327 supermercados e 20 hipermercados.
QUADRO 03 - PRINCIPAIS MOTIVOS PARA A COMPRA DE PRODUTOS ECOLÓGICOS PELOS CONSUMIDORES EM PAÍSES DA EUROPA E BRASIL
MOTIVOS PARA COMPRAR
PAÍSES 1º Motivo 2º Motivo 3º Motivo
Áustria Saúde Responsabilidade com
alimentação das crianças Contribuição para o desenvolvimento regional
às lojas orgânicas Melhor sabor dos alimentos
Inglaterra Saúde Apoio à agricultura local
e comércio justo Proteção ao meio ambiente
Brasil Saúde Própria e da
família Segurança alimentar
(menos agrotóxicos) Filosofia de vida FONTE: IPARDES (2007).
No que se refere ao perfil destes consumidores, podemos ter uma idéia através de dois estudos regionais. O primeiro realizado por Fonseca (2005), no Estado de São Paulo, afirma que o público é, predominantemente, do sexo feminino com famílias de 3 a 4 membros, de nível de instrução correspondente ao ensino superior completo, de classe média entre 9 e 12 salários mínimos, hábito consumo diversificado atua como profissional liberal ou funcionário público e sua idade varia entre 31 e 50 anos. O segundo efetivado, por Silva (2006), com uma amostra de 600 consumidores nos supermercados em Curitiba, aponta uma predominância de um público com idade entre 20 a 40 anos (50,2%) onde a maioria dos entrevistados (40,8%) possui ensino médio com renda acima de 4 salários mínimos (45,1%). Além disso, este último estuda aponta que
muitos dos entrevistados (54,2%) disseram que a maior preocupação na hora de levar produtos para a casa é preservar a saúde da família.
A leitura cuidadosa dos rótulos dos produtos também faz parte do ritual de compras dos consumidores. Muitos deles disseram que nenhum produto entra em seus carrinhos de compras sem que eles analisem o teor de gordura e a composição química. Alguns consideram que a alimentação dos dias atuais é de péssima qualidade e pais que têm filhos em idade de crescimento sofrem com isso. (SILVA, 2006).
Ainda sobre este estudo vale frisar as fontes que os consumidores analisados buscam sobre alimentos que consomem através, principalmente, dos meios de comunicação, e em seguida por outras influências, como os contatos pessoais.
QUADRO 04 – FONTES DE INFORMAÇÕES QUE INFLUENCIARAM A ESCOLHA POR ALIMENTOS ECOLÓGICOS EM CURITIBA
Fontes de informações Número Porcentagem (%)
Televisão 470 78,3
Rádio 133 22,2
Jornais impressos 190 31,7
Revistas semanais 227 37,8
Internet 143 23,8
Contatos pessoais 264 44
Instituição de ensino 28 4,7
Igreja 18 3
Associação de bairro 4 0,7
Cursos 13 2,2
Palestras 13 2,2
Outros 19 3,2
Não sabe 11 1,8
Não respondeu 6 1,5
Total 600 100
FONTE: SILVA (2006)..
Segundo este perfil ainda há uma outra particularidade em relação aos consumidores de ecológicos. Assim, segundo Darolt (2005), pode-se identificar dois tipos específicos de consumidores ecológicos no Brasil. O primeiro é o consumidor mais antigo que motivados, bem informado e exigente não apresenta o preço como uma barreira ao consumo. Normalmente freqüenta feiras e lojas especializadas em ecológicos e tem maior nível de consciência ambiental em relação à maior parte da população. Um segundo tipo, mais recente e ainda pouco estudado, é aquele que consome nas redes de supermercados e, embora também mencione preocupações com a questão ambiental, compra mais por impulso e de forma menos regular, comparativamente com o grupo anterior.
QUADRO 05 - CARACTERÍSTICAS DOS CONSUMIDORES DE PRODUTOS ORGÂNICOS NO BRASIL
Características Novo consumidor Antigo consumidor Ato de ir à compra de
compra Supermercados Feiras e lojas
Preço suplementar
Limitantes para a compra Preço, falta de informação Procedência (origem do produto)
Valores Comprometido (1) Consciente (2)
Fonte: DAROLT (2005)
(1) Trata-se de consumidores preocupados com a coletividade, porém existe uma distância entre seu discurso e sua prática.
(2) Trata-se de consumidores preocupados com a coletividade e a melhoria da comunidade em que vivem, transformando discurso em prática.
Assim, a demanda e o perfil dos consumidores de produtos ecológicos acaba por pressionar diferentes organizações no sentido de sensibilizar, satisfazer e proteger o consumo, dando a garantia de que o produto está em conformidade com o que é apresentado. Dadas as características predominantes do atual mercado agroalimentar, é por meio da certificação, do selo e da rotulagem que vem se dando a garantia dos produtos ecológicos aos consumidores, em particular naqueles estabelecimentos do varejo onde esses desconhecem completamente a origem e o processo de produção.
Ao estudar quatro países da Europa (Itália, Inglaterra, França e Alemanha), Sylvander (apud IPARDES, 2007) mostrou que entre as principais razões para o baixo consumo de produtos ecológicos estão, em primeiro lugar, os preços, em seguida a oferta insuficiente e, em terceiro, a dúvida em relação à procedência do produto.
Quanto ao terceiro fator limitante, resultados da pesquisa realizada, no Brasil, pelo DataCenso (2002) mostra que apesar de a maioria das pessoas ser favorável à certificação, cerca de 54% não se preocupa em comprovar ou não considera relevante o selo de certificação nos produtos ecológicos. Outros estudos têm indicado que a questão da certificação é bastante flexibilizada naqueles ambientes em que predominam relações características de circuitos locais de comercialização. Nestes, as estratégias se baseiam em relações de
confiança que, normalmente, têm raízes em um processo histórico ou de reconhecimento de competência técnica e reputação em âmbito local, como é o caso das feiras, da distribuição de cestas, das lojas de produtos naturais e outras redes sociais (IPARDES, 2007).