2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 CONTABILIDADE E ESTRATÉGIA: ASPECTOS HISTÓRICOS
Inicialmente, cabe salientar que a palavra estratégia é de origem militar, sendo utilizada para designar o comandante-chefe militar. Deriva do grego strategos e a estratégia era vista como a arte do general. A estratégia militar lida com o planejamento e condução de campanhas, o
movimento e divisão de forças, e a burla do inimigo. Um dos grandes estudiosos da estratégia, Clausewitz (1988, p. 82), define estratégia militar como “o emprego de batalhas para obter o fim da Guerra”. Ao tentar aplicar a ideia supra para o ambiente empresarial, percebe-se que a estratégia de negócio é algo mais que um planejamento de longo prazo. E neste caso, para manter a empresa em uma posição de vantagem competitiva, dentre outros aspectos é necessário considerar os concorrentes.
Desse modo, o que se espera da contabilidade? Para responder essa questão, outro conceito de origem militar, importante nessa discussão é o de inteligência. Para Sun Tzu1, um dos grandes e mais respeitados generais da antiguidade, a inteligência era concebida como:
O meio pelo qual governantes sábios e generais sagazes se moveram e conquistaram outros, pelo qual suas realizações ultrapassaram as massas, foi o conhecimento acurado”. [...] “não pode ser obtido de fantasmas e espíritos, inferidos dos fenômenos ou projetado a partir das medidas do céu, mas deve ser obtido dos homens, porque é o conhecimento da verdadeira situação do inimigo”. [...] somente quem é sutil e perspicaz pode perceber a substância dos relatórios de inteligência. [...]. (TZU; PIN, 2002, p. 134- 135).
A inteligência, também, pode se referir à busca de informação a respeito do inimigo atual ou potencial para permitir planejar adequadamente as eventuais operações. As informações dizem respeito à capacidade tecnológica, a ordem de batalha, armas, equipamento, treinamento, bases militares, sistemas de comunicações etc.. Em contrapartida os meios de proteção das informações internas são chamados de contra-inteligência. Logo, pode se deduzir a importância da inteligência para um comandante, pois com informação privilegiada é possível fazer o uso dos recursos de forma mais eficiente e desenvolver a estratégia. Ao ajustar os conceitos antecedentes de origem militar para contabilidade é possível extrair algumas conclusões:
a) A Contabilidade Financeira, ao produzir demonstrações contábeis, cumpriria um papel de contra-inteligência, pois embora as demonstrações sejam divulgadas são carregadas de informações assimétricas, históricas, apenas mensuradas monetariamente e limitada por princípios contábeis, dentre outras características. Ou seja, de certa forma ela protege as informações e o conhecimento da organização. Contudo, sendo uma informação disponível pode
1 Consta nas referencias tradução a partir do inglês de edição conjunta da Arte da Guerra de Sun Tzu e Métodos
ser utilizada como dados iniciais.
b) A Contabilidade Gerencial se prestaria a produzir informações internas da organização para o público interno, em nível tático e operacional, de informação que não comprometa a estratégia da entidade, ou seja, teria um viés de proteção do conhecimento (contra-inteligência).
c) A CGE se encarregaria de buscar informações externas de concorrentes, fornecedores, clientes e consumidores (inteligência) e juntamente com as informações internas, verificar as melhores respostas as pressões ambientais e implantar a estratégia do negócio, ou seja, estaria em nível estratégico. Além disso, criaria mecanismos de proteção do conhecimento interno. Esse conjunto de atividades e informações deveria ser de acesso restrito até a implantação da estratégia (contra- inteligência).
Sun Tzu ensina mais o seguinte: a possibilidade de sucesso é alcançada através da preparação e o movimento é realizado de acordo com as perspectivas de ganhos. Entretanto, considera um estudo anterior ao confronto a fim de poder antecipar o resultado.
Depois de avaliar as vantagens de acordo com o que ouviste, passa a ação, complementando o poder estratégico com táticas de campo que respondam aos fatores externos. O poder estratégico, por sua vez, é o controle do desequilíbrio tático de poder de acordo com os ganhos a serem obtidos”. [...] “Aquele que antes do confronto ancestral, concluiu que será vitorioso, considerou que a maioria dos fatores está a seu favor. Aquele que, antes do confronto, no tempo ancestral, concluiu que não será vitorioso, considerou que poucos fatores estão a seu favor. (TZU; PIN, 2002, p. 51-52).
Após o exame precedente, são enumerados os aspectos relacionados à contabilidade que possibilitem uma perspectiva estratégica em comparação aos entendimentos de Sun Tzu. Por conseguinte, na revisão da literatura serão perseguidos os estudos que investiguem, dentre outros, os seguintes tópicos:
a) Os meios de inteligência organizacional, ou seja, a busca de informações dos concorrentes, fornecedores e clientes em relação ao negócio da organização e também ao ambiente. E ainda, os mecanismos de proteção da informação interna.
b) Os movimentos necessários para responder aos fatores externos.
c) O estudo precedente ao confronto organizacional com objetivo de antecipar o resultado da interação entre as organizações.
Além dos tópicos anteriores, também, procurou-se um balizamento com aspectos da estratégia militar e o seu correspondente na estratégia empresarial conforme o Quadro 2, visando:
a) confirmar adequação dos conteúdos relacionados à inteligência e a TJ para estratégia; b) e também, ordenar a estratégia empresarial numa sequência voltada a sua execução.
Quadro 2 - Comparação de aspectos relacionados à estratégia militar e estratégia empresarial.
Aspectos Estratégia militar Estratégia empresarial
Entidade Estado soberano Empresa
Objetivo
Assegurar a soberania, democracia, paz social, progresso, integração nacional e integridade do patrimônio nacional, progresso internacional integrado e sustentado.
Resultados econômicos e financeiros capaz de manter a continuidade e remunerar os stakeholders satisfatoriamente. Construir imagem voltada ao desenvolvimento sustentado.
O que deve ser
feito Defesa nacional. Manter e/ou ampliar fatia de mercado. Estrategista Comandante (chefe militar) / Estado Maior. Presidente da empresa / alta administração.
Meios na linha de
frente Poder Nacional (Forças Armadas). Produtos e serviços.
Estratégia O ardil2 e o informe3. Liderança de custos ou diferenciação nos
produtos e serviços.
Objetivo da
estratégia Dissuasão4. Vantagem competitiva.
Produção do conhecimento
Inteligência militar – informações próprias, do inimigo, do terreno e do clima. E também, opções de combate e capacidade própria e do inimigo.
Inteligência organizacional.
Contabilidade Gerencial Estratégica (informações próprias, dos concorrentes, fornecedores, clientes e do ambiente. Assim como o acompanhamento do desempenho).
Proteção do conhecimento
Contra-inteligência - proteção do conhecimento até a implantação da estratégia.
Inteligência organizacional (Contra- inteligência - proteção do conhecimento até a implantação da estratégia).
Estudo precedente ao
conflito/interação
Estudo ancestral para detectar o poder do inimigo e antecipar o resultado antes de fazer frente a um exército em campo. Utilização da Teoria dos Jogos.
Estudar as estratégias próprias e de outros agentes visando antecipar o resultado. Análise S.W.O.T., cinco forças de Porter e Teoria dos Jogos.
Implantação da
estratégia Planejamento de campanha. Planejamento estratégico. Medir eficácia e
eficiência Manobra militar. Modelo de Gestão.
Fonte: Elaborado pelo autor, 2010
Analisando o Quadro 2, verifica-se que a CGE encontra-se mais centrada no aspecto produção do conhecimento; entretanto, devido ao seu objetivo de produção de informação, facilmente,
2 Produção de informe com o objetivo de confundir o inimigo e forçá-lo a agir de uma forma predeterminada, com
isso obter uma vantagem explorável. Para tanto, é imprescindível a ocultação dos planos.
3 Criação de falsas aparências, ou seja, medidas falsas, dissimulações, prevaricações, fingimento de situações
caóticas com o objetivo de enganar o inimigo e fazê-lo se mostrar.
percebe-se a sua importância, pois tem relação com todos os outros aspectos da estratégia empresarial. Assim, a análise do tópico a seguir visa encontrar as conexões que correspondam a essa comparação.