3.1 Aspectos informativos da informação contábil
3.1.2 Contabilidade gerencial – construindo valor informacional
O propósito do conjunto de informações contábil-financeiras gerados pela Contabilidade societária, como foi apontado, vai além da relevante função de comunicação ao usuário externo, congrega um instrumento potencial para a gestão das diversas atividades que envolvem decisões no entorno de recursos financeiros.
Enquanto a Contabilidade Societária concentra-se em como as demonstrações contábeis devem ser elaboradas para expressar as características qualitativas da informação contábil, a Contabilidade gerencial, com enfoque na administração financeira, concentra-se em como essas demonstrações são utilizadas pelos gestores, para melhorar o desempenho da empresa, como ponto de partida para planejar medidas que afetarão o curso futuro dos eventos (BRIGHAM; GAPENSKI; EHRHARDT, 2008).
A análise das demonstrações contábeis constitui um dos estudos mais importantes das Finanças Corporativas, despertando enorme interesse tanto para os administradores internos da empresa como para os diversos segmentos de analistas externos (ASSAF NETO; LIMA, 2011, p. 215).
Ainda que existam alguns critérios sofisticados, o uso de índices constitui-se a técnica mais comumente empregada pelos administradores que buscam avaliar os reflexos que as decisões financeiras tomadas por uma empresa implicam sobre sua liquidez, (capacidade de saldar suas dívidas), estrutura patrimonial (capital de terceiros e capital próprio) e rentabilidade relatam Assaf Neto e Lima (2011) e Garrison, Noreen e Brewer (2007).
Entretanto, é preciso ressaltar que um índice isolado de outros complementares ou que delineiam a causa de seu comportamento não fornece elementos suficientes para uma
conclusão definitiva, além do que, é preciso empreender análise comparativa temporal e setorial até mesmo de um conjunto de índices complementares. Segundo Assaf Neto e Lima (2011) essas análises se constituem em comparação temporal e comparação setorial.
A comparação temporal consiste em conhecer a evolução desses indicadores nos últimos anos, com o objetivo de avaliar a dinâmica do desempenho econômico e financeiro e conhecer as tendências para elaboração de cenários prospectivos.
A comparação setorial é desenvolvida por meio de um confronto dos resultados da empresa com os de seus principais concorrentes e, também, com as médias de mercado e de seu setor de atividade.
Os benefícios com esse tipo de análise são inúmeros, incluindo a possibilidade de maximizar o valor da empresa. A possibilidade decorre pela dinâmica em determinar e aproveitar os pontos fortes e, simultaneamente, minimizar as fraquezas detectadas com base nas análises comparativas e empreender medidas para melhorar o desempenho econômico e financeiro e, ao mesmo tempo, acelerar comportamento frente aos padrões de mercado (BRIGHAM; GAPENSKI; EHRHARDT, 2008).
Para apontar direcionadores de valor, as demonstrações contábeis devem subsidiar, principalmente, decisões no tocante às três grandes áreas, classificadas em: atividades de operações, de investimento e de financiamento segundo Assaf Neto e Lima (2011) e Hoji (2007). São áreas de decisões que incitam necessidades informacionais no qual o processo de identificação, análise e satisfação da necessidade deve gerar resultados considerados direcionadores de valor, conforme demonstrado no Quadro 12, uma dinâmica que contribui com a aprendizagem organizacional e um desenvolvimento sustentável da organização.
Quadro 12 - Necessidades e direcionadores de valor. Atividades
Áreas de decisão
Processo Decisório Direcionadores de Valor Operacional O que produzir e vender? Crescimento das vendas;
Retorno por produto; Giro dos estoques;
Prazos operacionais de Cobrança e pagamentos; Margem de lucro;
Alavancagem operacional; Investimento Onde Investir? Retorno e Risco de Investimento;
Alavancagem Financeira; Financiamento Como financiar? Estrutura de capital;
Custo do capital próprio; Custo do capital de terceiros Risco financeiro
Essas atividades ou áreas de decisão agrupam funções que caracterizam a natureza de cada uma delas e são resumidas com base em Assaf Neto e Lima (2011) e Hoji (2007) em:
x Atividades de operações: são pertinentes ao objetivo da empresa, ou seja, elas
são decorrentes em função do negócio da empresa, finalidade para qual ela foi criada e opera, pode ser no ramo da indústria, comércio ou serviço; estão relacionadas às operações de compra e venda de mercadorias, compra de matéria-prima e sua transformação, armazenagem e distribuição. Hoji (2007) destaca que as atividades de suporte tais como administração geral, marketing, Contabilidade, finanças e jurídico também estão englobados na atividade operacional;
x Atividades de investimento: são realizadas para dar suporte às atividades
operacionais. Abrangem, principalmente, os investimentos de natureza permanente e de longo prazo, tais como a compra de máquinas e equipamentos, imóveis para funcionamento da empresa, etc.;
x Atividades de financiamento: são executadas para suprir a empresa de recursos
financeiros consumidos nas atividades operacionais e de investimento.
Todas as atividades estabelecidas como área de decisão envolvem recursos financeiros, os quais pela dinâmica natural dos negócios devem ser conduzidos para geração de lucro (HOJI, 2007), entretanto Assaf Neto e Lima (2011, p.317) destacam que em mercados competitivos é preciso gerir recursos financeiros com eficiência para agregar valor econômico às decisões, o que implica em gerar lucro econômico, segundo os autores “[...] o lucro conforme apurado pela Contabilidade, somente garante a continuidade de um empreendimento se conseguir, pelo menos, igualar-se ao custo de oportunidade do capital investido”.
Nesse sentido, lucro econômico pode ser definido como o resultado da dedução do lucro contábil àquela parcela que se deixou de ganhar por não investir em alternativas de risco semelhante, ou seja, o custo oportunidade. Isso porque o lucro contábil sofre impacto apenas do custo com juros referente dívidas financeiras contraídas, sem levar em conta o custo do capital próprio investido na empresa, ou seja, não considera a remuneração desse capital. Entretanto, a partir do lucro contábil, é possível gerar informação adicional sobre a criação de valor econômico.
Assaf Neto e Lima (2011) destacam a relevância das demonstrações contábeis no desenvolvimento de medidas de retorno e criação de valor econômico como indicadores fundamentais para avaliação da gestão da empresa. O indicador conhecido, internacionalmente, como Valor Econômico Agregado (EVA) se apresenta como uma medida
para concretizar a apuração da geração de valor econômico. EVA é uma sigla da expressão em inglês de Economic Value Added, tratando-se de uma marca registrada da empresa de consultoria Stern Steward & Company, considerado um dos indicadores mais utilizados na prática (BRIGHAM; GAPENSKI; EHRHARDT, 2008). O EVA pode ser apurado a partir do Lucro Operacional ou do Spread, conforme pode ser observado na expressão abaixo:
EVA = Lucro Operacional – (WACC x Investimento) Onde:
- O Lucro operacional é uma informação divulgada no Balanço Patrimonial;
- WACC em inglês weighted average cost of capital, representa o custo médio ponderado de capital da empresa, conhecido como CMPC, embora em finanças seja muito comum manter as siglas em inglês. Seu cálculo envolve os custos do capital próprio e de terceiros ponderado pela respectiva participação relativa de cada fonte de recursos na estrutura de capital que está financiando o investimento, sendo que:
Estrutura de capital = Recursos Próprios e de terceiros (oneroso)
Investimento = Ativo Total – Passivo de Funcionamento
WACC ou CMPC = (Wp x Ki) + (Wpl x Ke)
Wp proporção de recursos de terceiros (oneroso)
Wpl proporção de recursos próprios
Ki custo do capital de terceiros
Ke custo do capital próprio
Custo do capital próprio (Ke): reflete o custo oportunidade dos proprietários, ou
seja, a melhor taxa de retorno, de risco semelhante, àquela em que o investidor renunciou para aplicar seus recursos no capital da empresa. Essa taxa varia segundo o setor de atividade da empresa e as condições da economia em que a empresa opera.
Custo do capital de terceiros (Ki): representa a relação entre as despesas
financeiras líquidas e o passivo oneroso, sendo o cálculo do EVA pelo spread da empresa a seguinte expressão:
EVA = Investimento x (ROI – WACC) Onde:
x Spread: é a diferença entre ROI e WACC, quanto maior o retorno maior será a
x Retorno sobre Investimento (ROI) = Lucro Operacional / Patrimônio Líquido
x WACC = (Wp x Ki) + (Wpl x Ke)
A relação entre (ROI – WACC) é chamada de spread da empresa, revela a taxa de retorno do investimento que excede o custo do capital aplicado. O valor do EVA deve ser o mesmo daquele apurado pela primeira proposta, entretanto sob essa perspectiva para que haja viabilidade é necessário que o retorno sobre o investimento cubra, pelo menos, o custo do total do capital aplicado:
Viabilidade econômica = ROI > ou = WACC
Ao apurar EVA pelo spread da empresa é possível analisar a atuação do ROI e de seus vetores, posto que, o seu desempenho em determinado período é consequência básica de duas estratégias:
x Estratégia operacional: envolvendo política de preços, escala de produção,
qualidade, política de compra e estocagem;
x Estratégia de investimento: uso mais produtivo do capital, tecnologia,
eliminação de ativos menos rentáveis, identificação de novos investimentos economicamente mais rentáveis.
Assaf Neto e Lima (2011) enfatizam que nem todas as decisões que levam ao lucro são capazes de produzirem um retorno suficiente para remunerar o custo oportunidade dos proprietários de capital, ou seja, de criar valor agregado. Os autores Assaf Neto e Lima (2011, p. 323) chamam a atenção para a necessidade de uma “[...] gestão baseada no valor”, condição possível com a adoção eficiente de estratégias financeiras, trabalhadas de forma integrada com as estratégias operacionais e de investimento, apoiadas na identificação e uso das capacidades diferenciadoras.
Para avaliar as capacidades de geração de lucro é necessário determinar alguns direcionadores de valor, conforme apontados no Quadro 15. Esses podem ser entendidos como “[...] qualquer variável que exprime efetivamente uma influência sobre o valor da empresa.” A análise desses indicadores deve permitir conhecimento de toda a cadeia de resultados que agrega valor a empresa e a identificação dos pontos fortes e fracos na gestão de recursos de cada uma das áreas responsáveis pelas várias decisões (ASSAF NETO; LIMA, 2011, p. 323).
Neste estudo, dentre os vários aportes da Contabilidade gerencial, foi dado recorte às informações geradas a partir das demonstrações contábeis para construir conhecimento e
subsidiar as decisões financeiras pertinentes à dinâmica do que produzir, onde investir e como financiar com foco na geração de valor, isto é, na construção de riqueza para a sustentabilidade da empresa em mercados competitivos.
Porém, para êxito de uma gestão baseada em valor, é preciso mudança de atitudes em relação à informação contábil, principalmente as pequenas e médias empresas, que muitas vezes percebem a Contabilidade apenas para recolhimento de tributos, atribuindo apenas à Contabilidade fiscal a ênfase de gestão da informação.