4.2. Uma anedota
4.4.2 Contar o mito e modificá-lo
Tomo aqui o exemplo de um filme que eu vi recentemente na televisão: o filme grego Strella (Panos, H Koutras, 2009) que manifesta, me parece, o que pode ser a “retomada-modificação narrativa” do que é, por outro lado, um mito-conceito: o proibido do incesto. Vemos o mundo do ponto de vista de um homem de uns cinquenta anos que sai da prisão, anda mais ou menos ao acaso, se instala num hotel medíocre, e começa a procura por um filho de quem ele não tem mais notícias. No corredor desse hotel, ele é interpelado da porta de um quarto vizinho por uma mulher cujo aspecto manifesta se tratar mais de uma transsexual. Se verá em seguida que ela é uma cantora que aumenta um pouco sua renda com a prostituição. Eles fazem amor (a transsexual
Bakhtiniana, São Paulo, Número Especial: 47-172, Jan./Jul. 2014 167 revelando que está em curso de transformação, aliando seios artificiais abundantes e um sexo de homem, pode-se dizer, residual). O filme se torna então expressamente diálogo ente os pontos de vista alternados de um e do outro. Pouco a pouco apaixonados um pelo outro, até que se descobre que o filho que ele procura não é outro senão “ela”. Eu pulo os acontecimentos. Em todo caso, não apenas há atos sexuais contrários à “lei”. Mas também ele/ela confessa que, justamente para reencontrar seu pai, ela o seguiu na sua saída da prisão. Ela só queria entrar em contato com ele. Mas a sexualidade fez seu trabalho. Além disso, a exotopia do autor, se podemos dizer, conduz a uma conclusão inesperada: uma festa de família com a presença de algumas amigas e amigos felizes de estar juntos em torno do casal reconciliado do pai e de seu filho ou sua filha.
Fora a “performance” notável dos dois atores principais, tudo isso poderia ser o puro objeto de uma teoria da possibilidade da felicidade apesar do erro. Ou, ainda, como no mito original, a “fábula” de Édipo ilustrar o erro como cometido na ignirância, em seguida, a revelação. Mas há aí três formas diferentes de diálogo (quer se reúna sob o nome de “dialogismo” ou não, pouco importa): a relação do autor com a tradição do mito trágico grego que ele retoma-modifica, a verdade dos pontos de vista do “drama” pelas perspectivas tomadas alternativamente pelos dois heróis e também as diferentes maneiras como uma determinada narrativa (ou determinada imagem ou determinado acontecimento ou palavra) ressoam em nós. Com, justamente, para voltar ao primeiro Bakhtin, a irretudibilidade dos tipos de existência. Na vida moral efetiva, se trataria de um problema sem dúvida dramático. Do ponto de vista da “ciência sociológica”, poderia se falar da evocação de um subconjunto de sociedade: a comunidade dos transsexuais que fazem “as loucas” no maior bom humor. Aqui, há, contrariamente à tradição dramática, a transformação inesperada em final feliz, no “bom humor” envelopante da obra, que pode mostrar, dar a pensar dentro da ficção sem se preocupar com o verossímil. Ao mesmo tempo em que se joga com a imagem da fatalidade para transgredi-la alegremente.
Mas sobretudo, essa obra “marginal” manifesta para mim o quanto o mundo cultural, e em particular o da ficção, é constitucionalmente tecido de uma heterogeneidade, de alguma forma multiplicada em relação àquela da realidade no sentido estrito.
168 Bakhtiniana, São Paulo, Número Especial: 47-172, Jan./Jul. 2014. 4.5 Considerações múltiplas sobre a narração e a heterogeneidade
Assim, pode-se perguntar se a elaboraçãoo cultural, aquela das obras, mas também aquela de nossa vida desperta não obedecem a uma lógica homóloga àquela que Freud propôs para os sonhos. Não a dicotomia violenta conteúdo manifesto de que fala o sonhador, conteúdo latente que elabora o analista. Mas assim como há do sonho restos diurnos, há na vida desperta acontecimentos, encontros dos homens, das mulheres, etc. E cada uma dessas realidades encontradas é imediatamente reelaborada por nossas maneiras de perceber, nossas expectativas, nossas recusas, tudo o que vem de uma coisa que não seja a realidade mesmo encontrada. Em suma, um complexo heterogêneo de preocupação, hábitos, razões de se aproximar ou de se distanciar, assim como se pode ver uma mesma paisagem diferentemente conforme o ponto no qual se encontra. Não estamos em sobrovoo em relação a nossas variações de “ponto de vista”. Nós somos tomados nele. Ou ainda, não há “ponto de vista” sem “movimento”, rápido ou lento, do qual podemos mais ou menos tomar consciência. Acrescentando que tanto para o “ponto de vista” como para o “movimento” nós os percebemos melhor pelos objetos, as pessoas, as situações às quais nos reportamos do que por um exame de nossa maneira propriamente de ver.
Poder-se-ia lembrar a esse respeito que nossa maneira de pensar, de reagir, se caracteriza sem dúvida pelo fato de que as diferentes dimensões, aquela do fazer, aquela do sentir, aquela do dizer podem ou não estar em acordo ou em conflito, mas jamais serem idênticas. Parece-me que se reencontra aqui alguma coisa que parece com o que apresentava Bakhtin, só que a ênfase se encontra mais sobre o jogo perpétuo entre essas maneiras de ser. Isso na relação com outras heterogeneidades fundamentais, e em primeiro lugar, aquela do presente e dos diferentes tipos de ausência. Assim como a heterogeneidade própria a um sujeito se multiplica de alguma forma com outras fontes de heterogeneidade: aquela dos grupos constrastados aos quais pertencemos ou nos opomos, aquela dos momentos da vida, aquela das sociedades distintas no espaço e no tempo. E se poderia de alguma forma multiplicar essa heterogeneidade por aquela que se manifesta sem cessar nas modalidades de nossas formas de apreender essa complexidade de outrem (ou de um grupo de outros).
Bakhtiniana, São Paulo, Número Especial: 47-172, Jan./Jul. 2014 169 Ao mesmo tempo “a vida não é necessariamente complicada” qualquer que seja a heterogeneidade, não é necessário que compreendamos perfeitamente o sentido de um gesto, de uma palavra ou de uma ação do outro para saber reagir (relativamente) adequadamente. E nos acontece de nos “comportarmos simplesmente”(!). No fim das contas (eu já evoquei), a criança pequena não conhece o que faz com que seus pais se comportem de determinada maneira ou de outra. No entanto, ela é precocemente capaz de, e mais frequentemente, distinguir quando uma ameaça é feita de verdade ou para fazer rir ou até onde ela pode ir longe demais na provocação. Há aí um saber-ser que tem pouca relação com um saber explícito. Assim como não sabemos o que é “compreender perfeitamente” e que não temos necessidade disso, não sabemos o que é explicar completamente (e não temos necessidade também). Certamente, um saber mais ou menos erudito pode integrar-se a nosso “mundo vivido”. Em determinado momento nós nos perguntamos se um tremor conduz ao cansaço, à emoção, um excesso de café, uma perturbação psicológica nascente. Podemos eventualmente ir consultar um neurologista. E essas explicações banais ou eruditas não são suficientes para dar conta da maneira como vivemos esse tremor na ansiedade, negligenciando-o ou... Não podemos, em todo caso, separar absolutamente um nível homogêneo da experiência vivida distinto daquele da ciência-técnica (como o ilustra o papel da investigação médica ou das mudanças das mídias na nossa vida mais corrente). Assim como o “mundo interior” do sentido não está necessariamente separado de nossas maneiras de ser ou de agir no “mundo comum”. Ou como determinado discurso religioso, político ou científico, assim como as palavras de amor, de prescrição, ou de desprezo que recebemos ou recebemos misturadas, o objeto heterogêneo que se vai talvez chamar, na esteira de Voloshinov, “ideologia do cotidiano”.
Além disso, tudo isso acontece no tempo e na variação/permanência. Desse ponto de vista, o discurso do indivíduo e sobre o indivíduo só pode ser narrativo. Mesmo que seja evidente que o esforço de Politzer tenha ficado programático, sua tentativa de distinguir a narrativa do drama individual do recurso à ciência legal intemporal continua legítima a meus olhos. Mas ao mesmo tempo as situações se repetem parcialmente. Daí o conflito: quer isolemos generalidades e façamos delas forças agentes, quer corramos o perigo de só considerar a especificidade de determinada vida ou de determinada história. A questão seria talvez de se perguntar em que medida
170 Bakhtiniana, São Paulo, Número Especial: 47-172, Jan./Jul. 2014.
as noções ajudam ou não a apreender o sentido de uma história ou conduzem a lhe fazer violência. Mas isso depende sem dúvida de nosso modo de compreensão. Alguns “gostam bastante” de apoiar-se em noções, outros preferem contar...