2.5 PROCEDIMENTOS PARA COLETA DE DADOS
2.5.2 O contato com as educadoras
A fim de iniciar a coleta, em março de 2006 voltei ao abrigo, no início da tarde, para me apresentar às educadoras e agendar alguma entrevista. Chegando lá, fui recebida por Aline, a quem assim chamarei nesse estudo, a primeira “Educadora” que aceitou ser participante, demonstrando muita boa vontade. Embora não tivesse expectativa de já realizar entrevista naquele momento, não deixei de levar comigo o gravador, o roteiro e o termo de consentimento. Logo após me apresentar e trocar com Aline as primeiras palavras, ela foi logo me levando para uma salinha mais reservada, do lado da cozinha, no interior do abrigo. Essa pequena salinha tinha algumas roupas, sapatos e mochilas de crianças e também remédios. O acesso desse local pareceu-me mais restrito às educadoras, onde vi algumas bolsas, celulares e objetos pessoais das mesmas. Também ali se encontravam os livros: de bater o ponto e de anotar as medicações das crianças. Chamou-me a atenção a organização com que eram mantidos os remédios, com o nome de cada criança e os horários para a ingestão dos mesmos. Expliquei-lhe os objetivos da pesquisa, os aspectos contidos no termo de consentimento, da necessidade da entrevista ser gravada, etc. Aline mostrou-se bastante solícita e entusiasmada em conceder entrevista já naquele momento, preocupando-se somente em se certificar se em função de suas atividades no abrigo ela seria realmente alguém a ser entrevistada.
Pode-se dizer que esse contato foi importante porque ela me acolheu de tal forma que auxiliou muito meu trânsito pela Instituição, tornando-se um ponto de apoio inicial que facilitou meu contato com as outras educadoras, dando várias dicas referentes aos melhores
horários, dias, folgas, turnos e rotina do abrigo. Aline valorizou muito a pesquisa dizendo ser muito importante esse tipo de trabalho.
Ao entrar em contato com as educadoras do abrigo, ou por telefone ou pessoalmente, para me apresentar e agendar um horário com elas, não houve, quase na maioria das vezes, impedimentos. Colocavam-se sempre à disposição, deixando por minha conta a definição das possibilidades, dando algumas dicas esclarecendo os dias mais adequados. Assim procurei não atrapalhar suas rotinas encontrando-as nos dias considerados os mais tranqüilos e nos períodos em que se encontravam no abrigo. Dessa forma, quase não houve necessidade de agendar as entrevistas, uma vez que no primeiro contato com cada educadora, quase todas já demonstravam estar preparadas para conceder entrevista, aceitando de imediato a realização da mesma.
Assim, uma ia dando dicas sobre o dia de trabalho da outra, licença, períodos de férias e turnos. Na minha percepção, esse acolhimento e essa atitude de colaboração foi obtida pela maioria das educadoras tanto com a pesquisadora, quanto com as colegas.
A colaboração das educadoras umas com as outras para que houvesse a possibilidade da realização da entrevista era notável. Sempre uma combinava com a outra quem concederia a entrevista naquele dia e se predispunham a fazer o serviço daquela que forneceria a entrevista durante a realização da mesma. Ao me verem chegar, houve uma educadora que disse para a colega:
“vai você fazer entrevista que eu cuido dos remédios para você/ olho a nenê […]” (Dora)17
Assim, as entrevistas foram realizadas respeitando os horários que as educadoras estavam na casa mais disponíveis para a concessão das entrevistas, que eram geralmente os
17 A postura de boa vontade e colaboração para viabilizar a realização das entrevistas também foi observada em
outras situações e não somente comigo. Por exemplo, num outro momento uma educadora [Ana] disse para outra [Rose] que amassava rosca junto à cozinheira: “vai você conversar com ela [pesquisadora] que eu amasso a
rosca” (Ana). Disse isso rindo e aproximando-se de mim, fazendo gestos para acompanhá-la até a salinha. No
final da entrevista, fui convidada para conhecer a casa. Durante a “visita”, observei Ana no contato com algumas crianças que a solicitavam algo. Ela respondia às crianças de forma carinhosa e afetiva. No final da visita, retornamos para a cozinha, onde a cozinheira me perguntou: “quer rosca bem?” Antes que eu respondesse, Ana respondeu: “claro que ela quer”. Foi ela mesma quem me serviu.
horários de início da tarde por volta das 13horas, momento em havia menos crianças na casa, sendo que as que ficavam na casa estariam dormindo. No período da noite os melhores horários eram após 22 horas depois que as crianças dormiam.
Percebi que a maioria das educadoras preferia concluir a entrevista no mesmo dia. Antes de iniciar a mesma, eu esclarecia que seria uma entrevista longa e gravada, deixando-as livres para interromper a qualquer momento, caso sentissem necessidade. Entretanto, a maioria delas preferia continuar e alegavam não estarem cansadas e até pelo contrário, relatavam ser um momento de prazer e diziam gostar muito de ter aquela oportunidade. Isso foi um ponto que me chamou a atenção, pois houve momentos em que eu estava cansada antes de iniciar a entrevista, principalmente nas realizadas após 22 horas e 30 minutos. Pensava que seria muito cansativo tanto para mim, quanto para elas. Mas fui surpreendida todas às vezes, pois acabava me envolvendo tanto, que quando percebia, já eram duas da manhã e nem tinha visto o tempo passar. Embora tivessem sido na maioria das vezes, momentos bastante intensos, onde ri, chorei, entusiasmei e entristeci diante daquelas histórias e relatos que me eram comunicados. Assim, houve vezes que não resisti e vivenciei com elas o que estava sendo revivido ali comigo naquele instante. Em outros momentos me contive diante da dor, do choro ou da alegria que estavam demonstrando.
Além disso, o contato com as crianças também me fez vivenciar várias sensações intensas tanto no interior do abrigo, quanto ao sair dele. Isso porque o ambiente da Instituição mobilizava em mim sentimentos muito ambivalentes, como de alegria e prazer, e também angustiantes, como de tristeza, dor, pena e outros. Foi muito difícil ter presenciado as crianças na frente da televisão sem atividades; algumas chorando sozinhas, outras abandonadas no cercadinho, algumas brigando, outras pedindo para eu adotá-las como madrinhas. Isso me tornou mais empática com as educadoras que passavam grande tempo no abrigo e relatavam ser o ambiente muito cansativo.
Com isso, percebi que não estava tendo condições de cumprir minha programação inicial – realizar ao menos duas entrevistas por semana. Tinha necessidade de espaçar mais o intervalo entre as entrevistas. Naquele momento, embora não tivesse clareza dos motivos pelos quais sentia essa necessidade, fui me dando conta, ao longo do tempo, de que precisava de um intervalo maior para que aqueles sentimentos angustiantes acomodassem e assim eu pudesse retomar minha condição de realizar as entrevistas.
Outro fator que me fez espaçar mais o tempo é referente à realização da própria entrevista. No início, pretendia realizar de uma a duas entrevistas por semana, até cheguei a experimentar, mas achei que não estava sendo produtivo. Tanto que nas primeiras entrevistas alguns pontos não foram investigados. Pontos esses que percebi somente após a realização da quarta entrevista, quando resolvi parar para a transcrição das mesmas. Então, resolvi dar um intervalo maior entre a realização das entrevistas. Percebi que dando um tempo maior de intervalo podia estar mais livre, tranqüila e à vontade para estar diante da história de outra educadora. Pude perceber também que respeitando esse tempo, parecia estar mais atenta a pontos que não haviam sido abordados e de importância para o trabalho.
Outros aspectos que merecem ser citados referem-se também ao contato com as educadoras, que pode nos mostrar como a experiência de participar desse estudo pareceu ser vista por elas como um espaço importante para falarem de si e da vivência no dia-a-dia do abrigo. Isso pode ter sido percebido em várias situações, por exemplo, numa em que já estava de saída do abrigo, logo após terminar a entrevista com Keila – oitava a ser entrevistada. Passei pela cozinha, onde estavam mais duas educadoras, a diretora e a assistente social e a cozinheira. Ia me despedir quando as educadoras (que já haviam sido entrevistadas) aproximaram-se de mim, fazendo uma espécie de rodinha. Uma delas falou olhando para mim e referindo-se às entrevistas: “[…] tem umas que falam de mais […] tem umas que choram” [riu] […] essa moça [pesquisadora] faz a gente chorar!” (Aline) [risos]. Depois, as
educadoras dizem, em tom de brincadeira, olhando para a assistente social, que se mantém afastada: “quem vai ser a próxima?” Elas voltam o olhar para mim e dizem: você devia fazer entrevista com ela [a assistente social]. Elas continuam conversando comigo depois que a assistente social diz recusar-se a conceder entrevista. Dora pergunta: “quem falta você
entrevistar? Ah, falta a Thaís e a Luíza, né?” (Dora). “[…] ih, pode trazer umas cinco fitas para entrevistar a Thaís […]” [risos de todas]. Aline complementa: “nossa, é mesmo, aquela lá fala […]”. Depois elas me falam dos horários e dias da semana que as colegas que não
haviam conversado comigo estariam na Casa. Esse episódio me faz sentir muito junto delas, quase como se tivessem incorporado meu trabalho às suas rotinas.
Outra situação foi no final do ano de 2006 decidi levar uma lembrança a todas com um bilhete agradecendo a participação para as que já haviam realizado a entrevista. Quando cheguei ao abrigo, era véspera de natal. Havia várias crianças no pátio, com algumas pessoas que eram seus padrinhos. Algumas crianças aproximaram-se de mim, perguntando se eu seria madrinha de alguém. Respondi que não era madrinha de nenhuma criança. Entrei na Casa. Na sala, encontrei duas educadoras com outras crianças. Contei o que havia acontecido e perguntei se havia alguma criança sem madrinha: “quem está precisando de madrinha”? Uma delas me respondeu: “a gente” [risos]. Ficamos ali conversando um pouco, elas me contavam algumas novidades sobre o funcionamento da Casa, sobre as crianças que foram desabrigadas, etc. Depois de um tempo, uma criança aproximou-se de nós e perguntou para uma educadora que aqui chamarei de Thelma: “quem é ela, tia”? [olhando para mim]. Thelma olhou para a colega e depois para mim como se também aguardasse uma resposta minha. A criança continuou: “ela é madrinha de alguma criança?” Thelma responde: “ela,
não [...] ela não é madrinha”. A criança prossegue: “então, quem é ela? O que ela veio fazer aqui?”. Thelma responde: “ela veio conversar com a tia”. A criança diz: “ela cuida de vocês, tia?”. As duas educadoras sorriem e respondem: “é, ela cuida da gente”.