CAPÍTULO II – A conquista dos territórios Kaingang no oeste paulista
2. Contatos e conflitos entre os Kaingang e os colonos
Anos antes da introdução das práticas agrícolas na região, por volta de 1842 a 1886, a pecuária havia sido a atividade aplicada à colonização pelos criadores e posseiros. Tal prática se caracterizara pela formação de núcleos de subsistência fundados por migrantes de Minas Gerais que ocuparam a região abaixo do Rio do Peixe, Feio-Aguapeí e baixo Tietê, onde havia grandes espaços livres, extensões de pastos naturais que permitiam a atividade do pastoreio. Surgiam desta maneira, os primeiros núcleos urbanos, descontínuos e escassos. Em decorrência da necessidade de comunicação entre os núcleos, de escoamento de produtos agrícolas e do transporte do gado, abriam-se estradas adentrando cada vez mais o oeste paulista.
Esta faixa de terra correspondia ao que foi denominado, pela Lei da Terra de 1850, de terras devolutas, terras pertencentes ao Estado. Quem quisesse adquiri-las, podia comprá-las, mas por falta de um corpo administrativo foi comum a invasão e a posse indiscriminadas dessas terras, onde a fraude e a violência foram constantes, desde as primeiras ocupações, originando assim os grileiros na região (TIDEI LIMA, 1978). Aos poucos foram se formando grandes fazendas no oeste paulista.
A Lei de 1850, ao tornar essas terras devolutas, ignorou a existência de qualquer contingente humano que tivesse vivido nelas; descartou a legitimidade da presença dos índios enquanto seus primeiros donos; e os títulos destas terras foram passados para as mãos dos ocupantes brancos na região.
Até 1880, segundo Pinheiro, a penetração de frentes pioneiras agrícolas e criadoras no território dominado pelos Kaingang não havia ultrapassado as regiões do centro leste, estacionando-se na cidade de Bauru (PINHEIRO, 2004, p. 364), de onde partiu uma empresa que foi determinante para o massacre indígena na região, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Antes do início dos trabalhos da empresa, houve conflitos que deixaram explícito o contato indireto com os primitivos habitantes do oeste paulista. Tem-se conhecimento de alguns episódios de choque entre os Kaingang e os não-índios no interior das matas do Rio Feio, o que foi suficiente para a disseminação de idéias acerca do índio bárbaro e hostil que habitava a região, sendo necessário o seu extermínio.
Aí estava um sinal de harmonia entre índios e civilizados. E prosperavam os retireiros sem largamente derribarem a mata. Viviam aparentemente felizes
os caingangues sem ser molestados. Assim foi até uns benditos Pintos Caldeira feriram e mataram alguns índios quando estes roubavam milho na roça, atividade que não constituía nada de novo e nem revoltante aos outros moradores brancos mais inteligentes e mais humanos. De tal feito em diante os caingangues tornaram-se hostis e ameaçaram a segurança dos povoadores. Não tardou um desfecho tremendo. Perto de 800 índios habitavam a região. No ano de 1886, num dia de mutirão realizado pelos mesmos Pintos Caldeira para derribada de matas, mais de duzentos índios surgiram no eito, à hora do almoço, e, em meio de uma gritaria infernal massacraram a maioria dos trabalhadores.(BORELLI, 1984, p. 63).
Outros conflitos foram identificados neste período, uma vez que outros povoados e fazendas cresciam e se expandiam, tornando inevitáveis os choques. Contra essa forma de ocupação, registravam-se as reações de resistência dos Kaingang. Os depoimentos que chegaram às mãos das autoridades governamentais continham denúncias a respeito da barbárie e da ferocidade das sociedades indígenas locais, que deveriam ser totalmente dominadas, sendo necessário todo e qualquer tipo de ações repressivas. Os próprios fazendeiros se organizaram para atacar os nativos e tornarem-se senhores absolutos daquelas terras. Organizavam-se as “batidas”, expedições compostas por bugreiros, os matadores de índios que eram contratados pelos latifundiários para darem fim à população indígena.
Esses bugreiros invadiam as aldeias indígenas, devastando roças, queimando casebres e matando homens, mulheres e crianças (...). Exasperados com a situação, os Kaingang tornavam-se cada vez mais hostis, chegando a constituírem um dos grupos mais aguerridos do Brasil (RIBEIRO, 1970, p. 156)
Esta prática se intensificou quando da Construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, momento de grandes conflitos e extermínio das aldeias Kaingang.
Acossados, os Kaingang concentravam-se cada vez mais na região dos rios do Peixe e Feio-Aguapeí, revidando os ataques dos bugreiros. O território dominado hoje Serra do Agudos e suas imediações já haviam sido perdidas. Instaurava-se uma verdadeira guerra. O exercício da política indigenista passou a ser, no final do século 19 e início do 20, a prática de “limpar terreno”. Procedimento que não passava de sistemático, organizado e eficiente extermínio das comunidades indígenas dispersas pelo Oeste de São Paulo. Esse conflito agravou-se ainda mais com a vinda dos trabalhadores e engenheiros da Cia. de Estradas de Ferro Noroeste do Brasil, que investiram nas “batidas”. A política indigenista executada pela elite dos latifundiários aliados aos próprios políticos nas primeiras décadas do século 20 é, portanto, uma tentativa de excluir os indígenas, as matas primitivas e tudo aquilo que simbolizasse atraso ou se configurasse em oposição à conquista e instauração da nova ordem econômica e social justificada em idéias de progresso e ordem. (PINHEIRO, 1999, pp. 88-89)
Para engrossar ainda mais o ódio contra os índios, um fato ocorrido no ano de 1901 tomou as grandes manchetes dos jornais: a morte do religioso padre Claro Monteiro do Amaral que, com o intuito de catequizar os Kaingang, organizou uma expedição formada por índios Guarani e regionais6.
Sacerdote estimado e respeitado entres as classes cultas de São Paulo, pelas suas altas virtudes e saber, o Padre Claro decidiu ir quase sozinho ao encontro dos Caingangue, com o fito de os pacificar e conduzir para o grêmio da igreja católica. Para isso fês construir nas cabeceiras do Feio, três canoas que tripulou com Guaranis e nelas descendo o rio ia deixando pelas ribanceiras, onde encontrava vestígios dos índios, espelhos facões e outros brindes (BARBOSA, 1913, pp. 42/43).
Por falta de alimentos e pelo tanto que já haviam se distanciado, o padre junto com sua comitiva resolveu subir o Rio Feio de volta. Neste trajeto foram atacados pelos Kaingang que atiraram nuvens de flechas contra a expedição. Deste ataque o Padre e os índios Guarani não saíram vivos. O episódio só veio a fortalecer os argumentos dos fazendeiros sobre o extermínio dos indígenas. O fato veio dar legitimidade àqueles que queriam acabar com os ferozes seres que não tinham em suas almas nada de humano, para assim maltratarem um homem que nunca os molestara e que tanto sacrifícios afrontava, só movido pelo desejo de lhes fazer o bem. (BARBOSA, 1913, p. 43). Vozes de todos os cantos apareciam clamando por justiça. Morte aos índios, era esta a justiça a ser feita. O que se soube posteriormente é que tinha sido colocada, entre os presentes deixados para os índios, uma espingarda. Sendo uma arma freqüentemente usada pelos regionais e bugreiros para assassinarem os índios. Segundo Horta Barbosa, os Kaingang acreditavam que aquela arma disparava sozinha; daí teriam concluído que a arma havia sido ali deixada com a intenção de matar os que dela se aproximassem, atraídos pelos outros presentes (IDEM). Portanto, a interpretação que os 6
De acordo com as leituras feitas e meu conhecimento sobre a atuação de missões religiosas, posso dizer que os Kaingang paulistas não foram submetidos a essas instituições. Houve tentativas, como mostra a do Padre Claro Monteiro Amaral, e também a tentativa do governo estadual em 1903. “Em vão colocou o Governo Estadual as suas esperanças na catequese subvencionada desde 1903 até hoje, que devia ser organizada pelos frades Capuchinhos; em Campos Novos ; - a situação continuava a piorar de ano para ano.” (BARBOZA, 1913: 44). Também Silvia Helena Simões Borelli chegou às seguintes conclusões: “Em 1888 e 1890, Frei Mariano de Bagnala, por Campos Novos do Paranapanema, e Frei Sabino de Rimini, pelo ribeirão Batalha, tentaram contatar os índios e nada conseguiram”. Pelas informações de Rezende e Motta, novas tentativas foram feitas quando, em 1901, partiu de São Paulo Frei Bernardino de Lavalle com destino a Campos Novos de Paranapanema. Em sua viagem, passou por São Pedro do Turvo, São Domingos, Serra dos Agudos, Piratininga e regressou por Lençóis, onde pode recolher informações sobre o trabalho religioso desenvolvido na área. Retornando a São Paulo, decidiu retomar a catequese em Campos Novos, organizando nova expedição que partiu em maio de 1902, integrada por mais quatro missionários. De Campos Novos seguiram para Platina e estabeleceram-se na Serra do Mirante, nas proximidades da fazenda do Coronel Sancho de Figueiredo, ao qual pediram apoio e proteção. Esta vinculação ao coronel pode ter sido a razão do insucesso da missão religiosa, pois conflitos tinham ocorrido anteriormente entre os Kaingang e o fazendeiro. Vários contatos foram tentados, todos sem nenhum resultado. Os Capuchinhos ficaram ainda em São Fidélis - nome dado ao local onde seria a sede da missão - até 1907, sem nada terem conseguido. (BORELLI, 64/65: 1984)
índios fizeram da intenção do religioso não poderia ser positiva, visto que muitas eram as batidas organizadas pelos moradores de Campos Novos do Paranapanema para os dizimarem. E penso que não poderia ter sido outra a interpretação, pois era por causa de grupos organizados como o do padre, mas armados e com outras intenções, que muitos Kaingang perdiam suas vidas. Se o padre desejava se aproximar dos índios para catequizá-los, ele fracassou. Dessa forma, o que ficou claro neste episódio foi o conflito entre esses dois mundos de valores adversos expressos nos significados de seus símbolos. A interpretação dos índios acerca da arma encontrada permeava o seu imaginário sobre os usos da mesma, pois já haviam sofrido com seus disparos. Dessa forma, a arma foi entendida como símbolo da violência.