II CARTOGRAFIA GEOTÉCNICA: fundamentos e aplicações
2. Cartografia geotécnica: fundamentos e aplicações
2.2. Tipos de mapas
2.2.2. Conteúdo dos mapas geotécnicos
Caracterização global do terreno, a escalas entre 1:25.000 e 1:50.000, valorização geotécnica das unidades no seu conjunto, com dados de propriedades e indicadores de qualidade;
Zonamento geotécnico para projectos de engenharia a escalas entre 1:5.000 e 1:25.000, com informação quantitativa de acordo com a sua aplicação (fundações, escavações, materiais para construção, etc.);
Cartografia geotécnica de detalhe, a escalas entre 1:100 e 1:2.000, com informação e dados geotécnicos para uma obra concreta.
Enquanto que os mapas geotécnicos a pequena e média escala são elaborados frequentemente por instituições governamentais ou centros de investigação, os mapas locais a escalas maiores de 1:10.000 são elaborados por especialistas em geotecnia ou geologia de engenharia e, dependendo do conteúdo, em geologia estrutural, geomorfologia, hidrogeologia, etc., recorrendo a outros especialistas, nomeadamente geólogos estruturalistas, geomorfólogos e hidrogeólogos (González de Vallejo et al., 2002; Zuquette &
Gandolfi, 2004).
2.2.2. Conteúdo dos mapas geotécnicos
Independentemente do tipo de mapa geotécnico, estes deverão incluir uma série de informações básicas (González de Vallejo et al., 2002; Zuquette & Gandolfi, 2004):
• Topografia, toponímia, rede hidrográfica, hidroclimatologia;
• Distribuição e descrição litológica das unidades geológicas;
• Espessura de solos, formações superficiais e grau de alteração;
• Grau de fracturação e dados geológico‐estruturais dos maciços;
• Classificação geotécnica de solos e rochas;
• Condições hidrogeológicas;
• Condições geomorfológicas;
• Processos dinâmicos;
• Investigações geológico‐geotécnicas prévias;
• Riscos geológicos e naturais (em termos de susceptibilidade, perigosidade e riscos propriamente ditos).
Destes factores, os mais importantes são de seguida detalhados.
2.2.2.1. Classificação e propriedades geotécnicas de solos e rochas
A delimitação e a cartografia de unidades de rochas ou solos homogéneos enquanto as suas propriedades físicas e mecânicas, como a resistência, a deformabilidade, a permeabilidade, a durabilidade, etc., realizam‐se com base nas propriedades geológicas e petrofísicas. As composições mineralógica e litológica estão directamente relacionadas com a densidade e plasticidade dos materiais geológicos. Nas rochas, a sua composição determina a dureza, a resistência, a alterabilidade, etc. A textura e a estrutura dos geomateriais são também consideradas como aspectos que proporcionam informação sobre o seu comportamento geomecânico. As condições hidrogeológicas são determinantes para a consistência dos solos e para as condições do grau de alteração em solos e rochas. No caso de maciços rochosos, a frequência de distribuição, o tipo de descontinuidades e o grau de fracturação, proporcionam informação vital sobre a resistência, a deformabilidade e a permeabilidade.
Os parâmetros geológicos, petrofísicos e geotécnicos a representar na cartografia geotécnica, função da escala e finalidade do mapa, da informação e dos dados disponíveis, são (González de Vallejo et al., 2002):
• Densidade;
• Porosidade;
• Consistência e actividade mineralógica;
• Permeabilidade;
• Resistência à compressão simples e à tracção;
• Deformabilidade;
• Durabilidade e alterabilidade.
As classificações geotécnicas de solos (baseadas, em regra, no sistema unificado USCS ou no sistema ASTM; West, 1991) e rochas (suportadas nas diferentes propriedades físicas e mecânicas;
ISRM, 1981, 2007) e a aplicação de expressões, de correlações empíricas e de índices de campo permitem a avaliação de propriedades geotécnicas e proporcionam dados quantitativos (e.g., Dearman & Eyles 1982; West, 1991; Ferreira Gomes & Mendes, 1996). As unidades geotécnicas e a sua distribuição espacial estabelecem‐se, geralmente, a partir da litologia e das características mineralógicas e geológicas dos materiais, de observações geológico‐estruturais de campo e, nos casos em que é possível ou necessário, a partir da realização de sondagens e ensaios in situ e em laboratório e de análises de amostras (e.g., Deere, 1964; Deere & Deere, 1988). De acordo com a escala do mapa e dos dados disponíveis, estas definem‐se com um distinto grau de homogeneidade e, assim, uma dada unidade geotécnica pode aglutinar uma ou mais unidades
geológicas. A IAEG (1981a) propôs um procedimento a seguir para a classificação e descrição dos maciços rochosos e/ou terrosos com vista à cartografia geotécnica, como se pode observar na figura 2.
A cartografia geotécnica não pode nunca dissociar‐se da hidrogeologia, na medida em que a presença de água nos maciços afecta as suas propriedades e o seu comportamento mecânico. As condições hidrogeológicas adquirem bastante importância quando o objectivo da cartografia é o planeamento e ordenamento do território, a gestão/exploração de recursos hídricos, a selecção de locais para a implantação de obras ou outro qualquer tipo de actuações que estejam directamente relacionadas com as condições hidrogeológicas (local de aterros sanitários, reservatórios, etc.).
Por outro lado, as variações das condições hidrogeológicas dos materiais e das suas propriedades geotécnicas, podem dar lugar a processos de meteorização física e química provocando alterações de relevo e movimentos de terreno. Pode também assistir‐se a variações “forçadas” nas condições hidrogeológicas naturais através da implementação de obras de engenharia, estruturas hidráulicas, urbanização, desflorestação e movimentos de terra, ou seja, é frequente o contributo antrópico alterar o estado hidrológico natural através das actuações de infra‐estruturas nos maciços. Há relatos de acidentes provocados pela alteração das condições hidrogeológicas, pelo que se pode admitir que a presença de água nas obras de engenharia aumenta a complexidade das mesmas e dificulta, muitas vezes, os respectivos trabalhos (Zuquette & Gandolfi, 2004).
Todas as condições hidroclimatológicas e hidrológicas deverão ser analisadas e estudadas, bem como a hidrogeografia superficial da rede de drenagem. Também devem ser cartografadas as zonas inundadas no passado ou as zonas de potencial inundação, assim como a frequência ou período de retorno de inundações.
Os dados hidrogeológicos devem estar presentes nos mapas geotécnicos por forma a que o utilizador seja capaz de poder prever qualquer alteração das suas condições e se possível reportar informação para que se possa minimizar, atenuar, controlar ou até mesmo evitar tais alterações.
Os dados, em geral, incluídos são os seguintes (González de Vallejo et al., 2002; Zuquette &
Gandolfi, 2004):
• Distribuição e conteúdos de água dos materiais geológicos;
• Formações aquíferas;
• Lagos, rios, nascentes, etc;
• Níveis piezométricos, profundidade e flutuações estacionais ou de outro tipo;
• Fluxos, direcção e velocidade. Hidráulica subterrânea e superficial;
• Zonas e condições de infiltração;
• Parâmetros hidrológicos: permeabilidade;
• Propriedades hidroquímicas e qualidade de água.
2.2.2.3. Condições geomorfológicas
A informação relacionada com as condições e processos geomorfológicos de interesse incluem (González de Vallejo et al., 2002; Zuquette & Gandolfi, 2004):
• Topografia;
• Elementos do relevo: vales, terraços, taludes, escarpas, etc. Unidades geomorfológicas;
• Estudo da paisagem e de relevo. Análise dos processos geomórficos;
• Origem, evolução e idade dos elementos geomorfológicos;
• Hidrogeomorfologia;
• Análise dos processos dinâmicos;
• Predição e análise dos processos de erosão, subsidência, movimentos de encostas, etc.
Os aspectos geomorfológicos e a interpretação da topografia são de grande importância no que se refere à caracterização física do território. A informação sobre os processos de instabilidade e zonas instáveis é fulcral para a caracterização de uma dada região. Os locais e os traçados de muitas obras de engenharia estão condicionados por estes factores.
2.2.2.4. Processos geodinâmicos
Os mapas geotécnicos devem reflectir o carácter dinâmico do meio geológico, bem como as suas implicações com as solicitações que se projectam sobre o terreno. Devem reportar informação espacial e dados sobre os processos dinâmicos externos e internos. A informação a incluir nas cartografias geotécnicas, em função da escala e dados disponíveis, é a seguinte (González de Vallejo et al., 2002; Zuquette & Gandolfi, 2004):
• Limites cartográficos das unidades geológicas. Caracterização e descrição das unidades geológicas. Potencial tectonossísmico;
• Localização e extensão dos processos geodinâmicos (internos e externos);
• Intensidade e frequência de ocorrência;
• Grau de actividade, velocidade;
• Condições, causas e factores condicionantes;
• Previsões de processos potenciais.
Estes processos podem representar‐se em todos os tipos de mapa e o grau de detalhe dependerá da escala. Outros aspectos importantes relacionados com os processos geodinâmicos são os riscos geológicos que podem afectar as zonas povoadas, infra‐estruturas e construções.