4. RELATO DE EXPERIÊNCIA NA MUSICALIZAÇÃO INFANTIL
4.2 Conteúdos desenvolvidos e primeiros contatos
Para início das aulas na turma do nível 6 procurei seguir os planos de aulas definidos com a professora da turma. Confesso que não defini um plano de curso para todo o ano devido à falta de orientação e experiência. Então, optei em estabelecer um plano semestral, ir obser-vando as necessidades das crianças dentro do projeto e avançar de acordo com o que elas res-pondessem ao longo das aulas. Na medida em que esses planos de aulas fossem sendo desen-volvidos, também seriam estruturados e definidos os próximos. Tentei direcionar minhas aulas com base numa rotina e atividades voltadas principalmente ao canto, corpo e movimento, apre-ciação musical, jogos e brincadeiras musicais, e utilização de instrumentos de bandinha rítmica e recicláveis. Tocar instrumentos musicais como violão, flauta doce e clarinete foi um fator bastante positivo que me ajudou muito no desenvolvimento dessas aulas É algo que prende bastante a atenção, gerando curiosidade e encantamento nas crianças como vemos nas figuras 8 e 9.
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Figura 8: Aula tocando clarinete.
Fonte: A autora.
Figura 9: Aula tocando flauta doce.
33 A condução de minhas aulas era dividida em dois momentos dentro desse plano de aula, como veremos a partir de agora.
1º momento: Alongamento, Música de Acolhida e Saudação 2º momento: Atividade ou Jogo Musical, Música de Despedida
Procurei estabelecer essa rotina ao decorrer de todas as aulas dentro do projeto e funci-onou muito bem. Desde o primeiro dia de aula até o último seguimos essa rotina, e considero que foi algo positivo, que trazia a ideia de sequência. As crianças por natureza precisam disso, serem conduzidas. As crianças pequenas são fisicamente ativas e inquietos, que amam o movi-mento e atividades. Elas também são muito emotivas, necessitando sempre de atenção e cari-nho. Como aponta Aronoff (1969, p.5) “os aspectos cognitivos (intelectual) e afetivo (emocio-nal) do crescimento da criança estão completamente entrelaçadas”. Os primeiros 5 a 20 minu-tos eu utilizava para a 1ª parte da aula, começando pelos alongamenminu-tos e música de Acolhida, iniciava a aula sempre com um fundo musical tranquilo e alongamentos, trabalhando a respira-ção e relaxamento do corpo como consta na figura 10.
Figura 10: Alongamento.
34 Ao terminar de alongar, seguia para o canto de Acolhida, momento no qual eu dava as boas-vindas aos meus alunos sinalizando o início da aula. A canção utilizada para esse momento durante o ano foi: “A aula de música já vai começar” de Celina Santana. Escolhi fixar durante o ano de 2018 somente um canto de entrada, para que os alunos pudessem memorizar, sabendo que ao ouvi-la a aula iria começar. Uma das sugestões feitas pela professora Feres (1998), foi a de que tanto as canções de início como de término na aula permanecessem as mesmas. As crianças nessa faixa etária captam os elementos como a melodia, ritmo, texto em um só bloco (MEJÍA, 2006). Por isso que a memorização se tornou um dos principais pontos de desenvol-vimento das aulas. Trago aqui a letra da canção de acolhida:
A aula de música, já vai começar, e o meu coração, muito alegre vai ficar Eu posso cantar, eu posso dançar e o meu coração muito alegre vai ficar
Nessa canção eu buscava explorar bastante a socialização, movimentos com o corpo, gestos e bater palmas, seguindo esse pensamento da autora Mariani (2011, p. 41), que ressalta, os movimentos naturais das crianças como andar, correr, saltitar e balançar expressam natural-mente os elementos da música. Nessa canção de acolhida eu buscava ao máximo explorar com eles gestos, palmas e ir preparando o ambiente para aula de música para então partir para a canção de saudação. Também usei a variação nos gestos eu posso gritar, eu posso rodar, eu posso pular etc. Na próxima canção, a canção de saudação, usei a mesma didática de sociali-zação, explorar o lúdico e movimentos do corpo com eles. Através dessa canção eu pedia que as crianças ficassem em duplas, uma ficava de frente para outra, valorizando o contato visual e a proximidade, e ao longo da atividade eu pedia para eles trocarem de duplas, passando por todos os coleguinhas da turma e assim fazer com que todos mudassem de pares e se conheces-sem melhor. O intuito principal dessa canção era de que ninguém fosse excluído e tivesse aquela ideia de preferência de tal coleguinha em relação ao outro. A canção trabalhada fazia com que na hora de bater palmas e abraçar gera-se esse vínculo e aproximação deles. Segue a letra da canção de Thelma Chan. A coordenação motora na hora da frase “palma, palma”, “mão na mão” e a socialização na frase “dá um abraço de coração”, foram os principais pontos trabalha-dos nesta canção.
Boa tarde como vai você meu amigo como é bom te ver, palma, palma, mão na mão, dá um abraço de coração.
35 Logo percebendo a necessidade de trabalhar com essa turma sobre disciplina e respeito com o coleguinha e a professora, passei a inserir também uma música de tio Rufino que se chama “o meu amigo eu vou respeitar”, buscando seguir um princípio do projeto que é inserir a cultura de paz na escola. Esse livro que vem acompanhado de CD foi lançado pelo professor Éliton Rufino e trabalha justamente elementos que o projeto valoriza, que é o respeito entre os alunos, os valores sociais e busca ensinar que o bullying não pode ocorrer. Veja em seguida a letra da canção.
O meu amigo eu vou respeitar, o meu amigo eu vou respeitar, Não pode bater, não pode morder, não pode beliscar,
Tem que fazer carinho,
Tem que dar um abraço e tem que ajudar.
Nessa canção eu busquei explorar bastante com eles os gestos de não pode bater, fazer carinho alisando a mão no coleguinha, abraçar, e que precisamos ajudar sempre o coleguinha. Também usei expressão corporal e trabalhei a questão rítmica quando cantavam a palavra res-peitar, nas silabas pei - tar batiam duas palmas conforme pulsação da música, sempre buscando inculcar neles uma cultura da paz, tema muito trabalhado na escola nesse ano. Também variava a palavra de amigo substituindo pôr a minha amiga eu vou respeitar, a professora, a diretora, o vigilante, a merendeira etc., inculcando neles o respeito por todos da escola.
Em todas as minhas aulas adotei o formato de desenvolver as atividades em círculo, por acreditar que gera proximidade e mais interação, também sempre optei pela presença da professora oficial da turma na sala.
Para o 2.º momento da aula eu procurei seguir com atividades de brincadeiras e jogos musicais que trabalhassem as propriedades do som quanto à Altura, Duração e Intensidade, intercalando com a preparação das apresentações festivas da escola e do recital de fim de ano, evento muito importante que marcou a passagem dessa turma para o 1.º ano do ensino funda-mental. Praticamente passei todo o ano desenvolvendo atividades seguindo esse cronograma. Uma das atividades de bastante relevância desenvolvida com eles e que inclusive de-senvolvi em todas as turmas do projeto foi a construção de instrumentos recicláveis a partir de garrafas pets. Observando que eu não teria instrumentos de bandinha rítmica necessários para suprir toda a turma. Com a construção desses ganzás de garrafas pets explorei bastante a cria-tividade deles no processo de construção, em que cada um pode confeccionar o seu próprio ganzá, decorar o lado externo da garrafinha com EVA ou fita colorida, na parte interna usamos grãos de arroz e feijão para distinguir o som grave e o som agudo. Também na construção dos
36 ganzás procurei enfatizar e conscientizar de como devemos nos preocupar e preservar o meio ambiente, através da reciclagem. Utilizei bastante esses ganzás, na maioria das aulas em que eles acompanhavam de forma livre as canções folclóricas. Na canção sobre as notas musicais de autor desconhecido, foram trabalhadas a questão da propriedade do som referente à Altura, em que o som é mais grave ou agudo, e quanto a sua intensidade ser mais forte ou fraca. A primeira possibilidade de atividade desenvolvida com eles nessa canção aconteceu da seguinte maneira: Quando os meninos tivessem cantando iríamos tocar com os ganzás que representa-vam a voz grave com os feijões, quando fossem as meninas cantando iríamos tocar apenas com os ganzás que representavam a voz aguda do arroz. Mudava também o andamento entre mais lento e mais rápido, trabalhando a questão do ritmo com eles. Segue a letra da canção retirada da série Joca e os Cupins do videoclipe sete notas musicais, de autor desconhecido:
Sete, sete, são sete sons e não são iguais
Sete, sete são sete sons são sete as notas musicais Do, ré, mi, fá, sol, lá, si, do
A segunda possibilidade de atividade com eles foi em relação a propriedade do som intensidade, e a atividade se desenvolveu da seguinte forma: Ao cantar o som forte, simultane-amente tocaríamos os ganzás de feijões com a mesma intensidade e ao cantar o som piano, tocaríamos os ganzás de arroz com menos intensidade. Mais uma possibilidade que criamos em torno dessa canção foi o de substituir o toque dos ganzás apenas na hora de cantar as notas musicais: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Em vez de cantar as sete notas musicais eles apenas tocariam os ganzás, primeiro os meninos tocariam os ganzás de feijão e na segunda vez só as meninas tocariam os ganzás de arroz. Ao longo de várias semanas utilizamos muitas atividades que exploraram a utilização desse instrumento que eles próprios construíram. Ao terminar de usar esses instrumentos, todos ficavam guardados nos armários da sala e assim foram preserva-dos e utilizapreserva-dos por muito tempo dentro do projeto. E de forma especial nas apresentações ao longo do ano dentro do projeto e no recital de fim de ano. No próximo capitulo trarei como foi a preparação desse recital até o dia de sua apresentação.