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Em relação ao que as próprias crianças consideram que seja uma programação para crianças e para adultos, podemos encontrar muitas referências em outras pesquisas. Por exemplo, Duarte (2008) traz à tona a fala de uma criança: “Eu acho que TV é para crianças, adultos e jovem [jovens] e nós crianças devemos ver o desenho [desenhos] [...] as novelas principalmente a novela ‘Malhação’ ela é muito legal. ” Mencionando suas diferentes preferências, um outro menino, aluno de uma escola pública de São Paulo informa: “como na minha casa a minha vó não sai da televisão, só [vejo] quando ela vai para o trabalho. A minha irmã só assiste na hora da novela da tarde e da noite (...) ela [Ela] gosta mais da novela das oito” (p.89).

Outra fala que colocamos em destaque é a de Paloma, uma menina de 9 anos de Serro-MG: “As coisas ruins da TV estão sempre nos programas dos adultos. Para resolver este problema e (é) só as crianças assistirem programas infantis e os adultos procurarem os bons programas” (ALEGRIA, 2008, p,89).

Em geral o gênero telenovela não é voltado prioritariamente ao público infantil. Certamente, salvo algumas exceções, as telenovelas brasileiras veiculadas aqui tratam de temas relacionados ao mundo adolescente e/ou adulto. Entretanto, este gênero lidera a preferência do público infantil, nas faixas etárias entre 4 a 11 anos, segundo institutos de pesquisa. De acordo com os dados do Ibope do Jornal O Globo, da Coluna “Controle Remoto”, em dezembro de 2005 a novela Belíssima era líder no ranking dos programas mais assistidos pelo público que contempla esta faixa etária. Destaca-se que dos primeiros cinco programas da lista de preferidos deste público, apenas dois não eram teleficcões, como novelas, séries e minisséries (FISCHBERG, 2008, p.109).

O autor David Buckingham 20(1996) traz uma pesquisa realizada com alguns grupos de pais e crianças, a qual trata sobre o modo como as crianças reagem emocionalmente aos conteúdos televisivos, ou seja, o que elas sentem a partir do que assistem na TV. O autor fala de um cenário vivenciado nos anos 1990 na Inglaterra. No país em questão existe um horário limite: até as 21h só podem ser exibidos programas apropriados para crianças, e depois desse horário essa mediação fica por conta da família. Lembramos que no Brasil não se conta hoje com qualquer limite nesse sentido, desde a decisão do STF, já mencionada, que em 31/08/2016

liberou as emissoras para transmitirem seus programas sem respeitar os horários estabelecidos pela Classificação Indicativa.

Na pesquisa de Buckingham (1996), “tanto os pais como as crianças reivindicavam o direito de tomar as suas próprias decisões sobre o que elas deveriam ou não ver, apesar de muitas vezes tais decisões serem conflitantes" (p.303). Quase todas as crianças afirmaram que já haviam assistido a filmes e vídeos que oficialmente seriam inapropriados a elas, e a maioria também disse ter assistido programas transmitidos depois das 21h.

É importante frisar que essa pesquisa de Buckingham não foi feita com crianças tão pequenas e não aconteceu com crianças de educação infantil, e sim com crianças a partir de seis anos de idade. Conforme o autor, as famílias que mostravam fazer menor mediação, ou ainda “menos controle” diante dos conteúdos a que as crianças assistiam (idem, p.303) eram as famílias de classe trabalhadora, embora isso não acontecesse exclusivamente nelas. O autor salienta que ainda que alguns pais tenham demonstrado preocupação em relação às crianças menores quanto à possibilidade de elas imitarem as brigas e ‘lutinhas’ assistidas na televisão, o que mais os preocupava sobre o tema da violência é que as crianças pudessem ficariam emocionalmente perturbadas e assustadas.

"Respostas emocionais negativas das crianças diante da televisão, como medo, repulsa, tristeza e preocupação, mostraram ser experiências comuns" (idem, p.305), verificou a pesquisa. Todas as crianças entrevistadas puderam se lembrar de situações em que programas e filmes vistos na televisão tinham provocado nelas pesadelos, ou tinham trazido a elas ansiedades de longo prazo, tais como medo de crime, acrescenta o autor, mas observa que, no entanto, "tais respostas raramente

pareceram ser muito severas ou duradouras, e os poucos casos de crianças que ficaram traumatizadas por algo que tinham visto na televisão pareceram se limitar a crianças que já sofriam de problemas sociais ou psicológicos" (idem).

Ainda assim, a pesquisa de Buckingham (1996, p. 306) identificou que alguns temas evocaram respostas negativas de medo ou ansiedade em crianças todas as idades, tanto em meninos quanto em meninas, tanto em filmes de horror, como em noticiários ou mesmo em comédias: "Estes temas foram muito previsíveis e incluíam violação corporal, corporais, o sobrenatural, a morte de animais, ameaças à harmonia familiar e a crianças." (idem, p.306) Ao observarmos a realidade da TV brasileira, no que tange aos canais abertos, podemos estabelecer algumas relações com os gêneros televisivos mencionados na pesquisa inglesa.

Em relação às preferências das crianças, muito se poderia dizer. Ao comentar que "as crianças dedicam em média somente 25% de suas preferências à programação infantil e o resto à dos adultos" Martín- Barbero cita Joshua Meyrowitz, que para ele compreendeu o que há de revolucionário na televisão, ao afirmar: "Ao autorizar as crianças a assistirem às guerras, aos enterros, aos jogos de sedução, aos interlúdios sexuais e às intrigas criminais, a telinha as expõe aos temas que comportamentos que os adultos se esforçaram para ocultar-lhes durante séculos" (Meyrowitz, apud Martín-Barbero, 2004, p.408). Os desafios que isso impõe não podem, para Martín-Barbero, ser resolvidos de forma simplista:

Sem investigação do que estas mudanças estão produzindo culturalmente no país - e especialmente no que concerne à relação das crianças e dos jovens

com as mídias e as tecnologias audiovisuais - as políticas de comunicação, e particularmente as televisivas, continuarão presas na impotência a que são reduzidas pelos interesses cruzados dos conglomerados econômicos e grupos políticos (...). (Martín-Barbero, 2004, p. 412).

Essa advertência de Martin-Barbero, os dados apresentados quanto à programação da televisão aberta no Brasil, as orientações do Manual da Nova Classificação Indicativa (2006), bem como as pesquisas de outros autores, reforçam a ideia de que as crianças que convivem e interagem nos mesmos espaços que adultos e jovens, acabam muitas vezes por assistir programas que não são pensados para elas, ou que podem não estar de acordo com a classificação indicativa a sua faixa etária. Esperamos que nossa pesquisa possa contribuir para a compreensão dos desafios que isso acarreta.