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2.6 Constituição de framework para pesquisa

2.6.2 Conteúdos plurais e de poder

Conforme apresentado no capítulo 2.2 o Whittington (2002, 2004, 2006) desenvolveu em seus estudos uma forma de enxergar os movimentos de formulação de estratégias sob uma nova ótica. Categoriza esses movimentos em uma matriz que classifica sob quatro visões distintas: racional (abordagem clássica), fatalista (abordagem evolucionária), pragmática (abordagem processual) e relativista (abordagem sistêmica). Desta forma avança em relação ao conservadorismo do modelo econômico, a matriz passa a ver a abordagem econômica dominante como apenas um dos quadrantes de possibilidades de formulação de estratégias. O estudo apresenta as estratégias como imperfeitas, o autor explica que o objetivo é confrontar problemas em sua complexidade e reconhecer meios de resolvê-los, questionando o que é estratégia.

Dessa forma Whittington (2002, 2004, 2006) faz com sua matriz seja vista como uma importante ferramenta de alternativas e não prescrições no que se refere às abordagens em estratégia. O autor sintetiza o próprio conceito de pluralismo mostrando que estas abordagens não são totalmente estanques na sua aplicação, reforça que sempre as estratégias pendem para alguma direção, mas nem sempre estão totalmente ligadas a um modelo ou uma única abordagem. O fato é que em alguns casos pode haver transferência de responsabilidade do contexto social sobre a proteção dos direitos do cidadão do poder público para organizações e este fato também merece ser criticado.

A escola de poder referendada pelos autores Mintzberg, et al. (2000) caracteriza estratégia como um processo aberto à influência na sua formação, enfatizando o uso de poder e política para negociar estratégias favoráveis a determinados interesses. O poder macro reflete a interdependência de uma organização com seu ambiente. As organizações precisam lidar com fornecedores e compradores, sindicatos, concorrentes, reguladores governamentais, além dos stakeholders.

É com a globalização que ocorre uma mudança, reorientação das demandas de uma extensa comunidade de stakeholders sobre as empresas. As empresas privadas, sobretudo as grandes empresas, são um veículo privilegiado do espírito capitalista

neoliberal, que em muitos aspectos se mostra predador. Se as dinâmicas do livre- mercado geram desequilíbrios, é papel do Estado, e não das companhias privadas, corrigirem seus defeitos. Além disso, os críticos questionam a competência e a

legitimidade que teriam os gestores e empresários para efetuar escolhas e tomar decisões no campo das políticas sociais (KREITLON e QUINTELLA 2001). Este movimento tem levado à transferência de responsabilidade sobre a proteção dos direitos individuais do cidadão dos governos para as corporações, assim definidas como a nova cidadania corporativa (HENDRY, 2000).

Atualmente as empresas com o poder que detêm brincam de Deus com o destino das pessoas e do planeta, o que supera muitas vezes o poder dos próprios Estados. Os governos, por sua vez, têm-se mostrado praticamente impotentes em face de esses novos desafios, enquanto que as associações políticas tradicionais, tais como partidos e sindicatos, parecem representar cada vez menos as aspirações sempre mais particularizadas de grupos sociais que se caracterizam pela especificidade de seus interesses e de suas identidades (KREITLON e QUINTELLA, 2001).

A consequência de todos esses fatos acima é a expansão da governança corporativa que resultou do vácuo formado pela incapacidade do poder público em prover segurança social e gestão do mercado de trabalho. A estratégia de uma perspectiva de poder macro consiste, em primeiro lugar, do gerenciamento das demandas desses agentes e, em segundo, de se fazer uso seletivo dos mesmos em beneficio da organização.

Hoje se costuma afirmar que, no que tange à atuação das empresas (seja na esfera econômica, ambiental ou social), o próprio mercado é capaz de exercer pressão suficiente para que ocorram iniciativas voluntárias de auto-regulamentação por parte das mesmas, seja graças a algum sentimento genuíno de responsabilidade social – ou, o que é mais frequente, ao perceberem risco para suas marcas, SOARES (2004). Em resumo, a RSC consistiria em uma forma de atuação que pode ser descrita como promotora do interesse público, mas que não é imposta, ou regulada, pelo aparelho estatal.

Os padrões, normas e certificações que vêm sendo adotados pelas empresas no campo da RSC são muitas vezes desenvolvidos e propostos por grupos de interesse, como ONGs ou outras instituições, estas muitas vezes também realizam o monitoramento ou auditoria dos processos. O que também se argumenta é que qualquer

decisão relativa a políticas sociais tomada por empresas é ilegítima e configura uma privatização da esfera pública (PAOLI, 2002). Ressalta-se, nesse sentido, a natureza

pública das questões atinentes à RSC, e o fato de que as mesmas não devem ser tratadas em fóruns privados, mas transferidas para instâncias onde o efeito cumulativo das preferências individuais possa se manifestar (como o mercado), ou para instâncias de expressão coletiva do julgamento (como o processo político).

Esta é uma perspectiva importante para esse estudo, na medida em que é considerada uma empresa privada multinacional gerida pelos seus fundadores, líder de mercado no setor químico e com preocupações de responsabilidade social inseridas na estratégia social da empresa. Uma das questões que se pode inferir, e que liga à empresa a regulação, é que um de seus fundadores/acionista tem papel de conselheiro em órgãos como o Instituto ETHOS (2009), tendo inclusive participado da fundação do mesmo contribuindo financeiramente para que o possa exercer sua função junto a diversas empresas privadas.

Outro fator importante é que os valores e a missão da empresa pesquisada trazem em sua essência o conceito de RSC muito arraigada, a princípio pode-se especular que o interesse na preservação dos valores e principalmente na construção de uma imagem positiva frente à sociedade, isso se traduz em dúvida sobre se há um intuito de estratégia social puramente dita ou se há questões ligadas à política e poder.

Esse fato é relevante no sentido de ter essa empresa ao longo de sua trajetória dada à construção da sua marca um forte apelo de RSC. A pesquisa baseada neste framework é identificar através das narrativas dos “atores” – os praticantes de estratégia social, se a gestão estratégia dessa empresa é de fato uma estratégia de responsabilidade efetivamente social ou se a mesma usa essa estratégia para obter vantagens econômicas.

Desta forma, a ênfase desse estudo, se propõe a compreender todas as nuances que estão por trás do discurso utilizado pela elite nas organizações como forma de manutenção de poder e que se utiliza de jargões como “vantagens competitivas” ou “competências essenciais”, reproduzidas dentro de uma abordagem com foco econômico.