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4 Cartografando possibilidades de análise e desconstrução das políticas identitárias: por uma política

4.2 Contemporaneidade: as sociedades do controle

A dor do doutor, a dor do doutor ela é a dor dos fracos e é bem um retrato desse mundo a se acabar. Então nossos soldados vamos limpar no mundo dos fracos como a gente limpa os fracos, como a gente limpa os fardos, como a gente limpa os ratos porque nós soldados somos os gatos (Rescala/Abreu/Carvalho).

Com a passagem do capitalismo pesado para o leve, por um lado, diminui-se a exigência de que os indivíduos moldem seus comportamentos a partir de quadros de referência fixados de uma vez por todas. Por outro, intensificam-se os dispositivos de controle, os quais estão operando por outras vias que não a rigidez disciplinar, sendo o consumo uma delas (Bauman, 2001).

(...) Porque eu como, eu bebo, eu visto, tá? Eu consumo. Não é porque eu sou uma usuária de CAPS que eu vou estar lá em um manicômio, no hospício, sei lá, que eu não vou consumir. Eu consumo. Eu preciso consumir. Tá? Eu preciso trabalhar pra eu me sustentar e isso eles não deram esse tipo de suporte que é... a proposta deles era essa. (...) eu não quero ficar no CAPS não. Eu quero sair, agora eu quero sair com condições de subsistir lá fora, tá?

De acordo com Coimbra (2001, p. 30), a sociedade do controle “desde o final da segunda guerra mundial, vem se mesclando com a sociedade disciplinar (aquela que surgiu com a implantação do capitalismo industrial)”. Tal sociedade caracteriza-se por atualizar de modo cada vez mais intenso:

(...) as formas ultrapassadas de controle ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas que operavam na duração de um sistema fechado (família, escola, fábrica, hospital, prisão). O marketing é agora o instrumento de controle social (...). O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado (Deleuze, 1992,p. 220).

Nesse cenário, “os espetáculos tomam o lugar da supervisão sem perder o poder disciplinador [ou melhor, controlador] do antecessor” (Bauman, 2001, p. 101). Desse modo, nas sociedades do controle/do consumo/do espetáculo, a fim de se administrar os indivíduos e a população, trabalha-se, primordialmente, com imagens134.

Acenando possibilidades de progresso, de ascensão e de status social, tendemos a ser seduzidos135 por imagens midiatizadas, as quais modelam nossos comportamentos de acordo com os câmbios do mercado: “adquirir uma imagem ‘competente’, ‘confiável’, ‘pós-moderna’ através da compra de um sistema de signos, como roupas de grife, carros da moda, discursos e saberes ‘avançados’ é o significado da vida” (Coimbra, 2001, p. 36). Ou seja, consumimos virtualidades e, embebidos no mito do consumo, fazemos com que tais virtualidades tornem- se realidades concretas em nossas existências:

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Razão pela qual se costuma intitular a era do consumismo como era das imagens.

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Bauman (2001, p. 101) afirma que “a obediência a padrões (uma maleável e estranhamente ajustável obediência a padrões eminentemente flexíveis, acrescento) tende a ser alcançada hoje em dia pela tentação e pela sedução” do espetáculo. Ou seja, ao lado da regulação normalizadora, utiliza-se, agora, do dispositivo da sedução, a qual pode ser definida como produção mercadológica do desejo.

(...) Investimos toda nossa energia vital – de desejo, de afeto, de conhecimento, de imaginação, de intelecto, de erotismo, de ação etc. – para atualizar em nossas existências estes mundos virtuais de signos, através do consumo de objetos e serviços que os mesmos nos propõem (Rolnik, 1998, p. 20).

Diante desse quadro, a economia de poder da atualidade tem seus focos concentrados “cada vez mais nos aparelhos responsáveis pela produção de signos, síntese e de subjetividades” (Coimbra, 2001, p. 24). Desse modo, a publicidade e os meios de comunicação de massa constituem-se, atualmente, como veículos fundamentais de divulgação e circulação das práticas e dos discursos considerados ‘Verdadeiros’, ou seja, como um dos mais importantes equipamentos sociais na direção de produzir esquemas dominantes de significação e interpretação do mundo. “Os meios de comunicação falam pelos e para os indivíduos136” (Santos in Guatarri & Rolnik, 2000, p. 57-58):

(...) Através de uma ininterrupta construção de modelos137 de unidade, de racionalidade, de legitimidade, de justiça, de beleza, de cientificidade, os meios de comunicação de massa produzem subjetividades que nos indicam como nos relacionar, como, enfim, ser e viver dentro de um permanente processo de modelização (Coimbra, 2001, p. 29-30).

Em outras palavras, a fim de viabilizar uma específica produção de subjetividade, opera-se, sutilmente, uma sujeição subjetiva que não se refere apenas à publicidade para a produção e consumo de bens. Ao contrário, a idéia de consumo empregada nesse contexto extrapola a aquisição de bens materiais, estendendo-se ao comportamento, à atitude, à subjetividade: “as mercadorias (...) falam de sexo, corpos bonitos, sorrisos radiantes, estar à vontade no mundo, ser charmoso, cativante, “elaborado”, desembaraçado e tudo mais” (Fridman, 2000, p. 71). Em outros termos, a construção dos homens ocidentais contemporâneos costuma incorporar os valores do consumo, aquisição, compra e posse.

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“Apesar disso, somos convencidos cotidianamente pelos meios de comunicação de massa de que pensamos, sentimos, agimos, decidimos por nós mesmos, de que exercemos o tão decantado livre arbítrio – uma das grandes falácias forjadas pela democracia liberal burguesa” (Coimbra, 2001, p. 30).

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Vende-se a ilusão de “positividade” do modelo de organização social: as atualizações continuam prometendo “positividade” para um modelo que, por inúmeras vezes e de diversas formas, que não cumpre tal promessa. Se não problematizarmos o modelo CAPS, este seguirá participando dessa venda de ilusões: “esperando, esperando, esperando o sol, esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o filho para esperar também” (Chico Buarque, o operário em construção).

Pioezani Filho (2004, p. 148) destaca a ubiqüidade midiática nas sociedades do espetáculo, uma vez que tal dispositivo pode prover controle de curto prazo e rotação rápida, contínua e ilimitadamente: “a sociedade do controle se caracteriza pela abertura e continuidade das instituições, observando-se o aumento da atuação midiática que, para além da transmissão de informações e entretenimento, pretende supostamente exercer papéis políticos e pedagógicos”.

Torna-se claro, então, que, no contexto das sociedades de controle, inaugurado no século XX, a mídia, com sua cultura de massa138 torna-se um mecanismo fundamental de

disseminação e propagação da produção de subjetividade capitalística. A cultura de massa, como cultura de equivalência e, por isso, englobalizante e desterritorializante, constitui-se num outro elemento de captura das forças múltiplas, num veículo por meio do qual se engendra subjetividades capitalísticas, indivíduos serializados, identificáveis, normalizados, articulados uns aos outros conforme sistemas hierárquicos, conjuntos de valores e tecnologias dissimuladas de submissão. Sobre isso, aponta Guattari (Guattari & Rolnik, 2000, p.39):

(...) A imprensa, enquanto produtora de cultura de massa, alimenta-se de fluxos de singularidade para produzir, dia-a-dia, individualidades serializadas. Sendo assim, ela “amassa” os processos de vida social, em sua riqueza e diferenciação e, com isso, produz indivíduos iguais e processos empobrecidos. A função da máquina capitalística é exatamente esta: produzir indivíduos deslocáveis ao sabor do mercado e, para isso, precisa interceptar seu acesso aos processos de singularização.

Ressalte-se que, “na busca permanente da adesão de novos sujeitos, o discurso publicitário reprocessa enunciados de fontes variadas” (Fischer, 2001, p. 212). Desse modo, cientistas/especialistas (médicos, psicólogos etc.) são interpelados a ratificar as representações e as experiências corporais veiculadas pela mídia. Impõe-se assim uma ordem do discurso rígida e amplamente controlada, ainda que sob a forma das leves e homeopáticas doses de sugestões sobre a boa forma, o bom relacionamento com o próprio corpo e com o corpo do outro: “assim que se dá o movimento que permite o pronunciamento/controle das condutas corporais. Uma vez mais a política (aí singela e delicada, mas contundentemente sentida e eficaz) no corpo” (Piovezani Filho, 2004, p. 149-50): o corpo continua a ser uma realidade bio-política e a medicina, a psicologia, os mass midia, uma estratégia bio-política.

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Cultura que é produzida em série, sendo destinada a um grande número de pessoas e veiculada pelos meios de comunicação de massa (rádio, televisão etc). Vale, ainda, mencionar, que uma característica fundamental da cultura de massa é o fato dela não ser produzida pelos indivíduos que a consomem (Chaves, 2003).

Disseminam-se, assim, discursos e práticas mediáticos e midiáticos, os quais controlam ou, ao menos, intentam controlar os usos do corpo: se nascemos e morremos inseridos na Ordem Médica, dos exames pré-natais à verificação na autópsia; dormimos e acordamos imersos na virtualidade midiática. A TV, o rádio entram casa a dentro, vinte e quatro horas, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano.