• Nenhum resultado encontrado

CONTESTANDO A IRRESPONSABILIDADE DA GESTÃO

No documento Políticas de participação e saúde (páginas 124-128)

PARTICIPAÇÃO NA SAÚDE E INTERNET: NOTAS PARA O DEBATE

CONTESTANDO A IRRESPONSABILIDADE DA GESTÃO

O Programa de Valorização Profissional da Atenção Básica O Programa de Valorização Profissional da Atenção Básica (Provab) foi lançado no segundo semestre de 2011 e, naquele mo- mento, representava uma das principais ações apresentadas pelo gover- no federal para dar conta de um importante problema do Sistema Único de Saúde (SUS): a dificuldade de prover profissionais, sobretudo 4 A análise dos atores desse processo, sua constituição (ou não) enquanto

sujeitos coletivos e das matrizes discursivas está sendo desenvolvida por Felipe Cavalcanti, um dos autores deste texto, em sua pesquisa de doutoramento.

médicos, em locais isolados ou periferias de regiões metropolitanas do Brasil.5 Naquele momento, o programa funcionava num esquema

de adesão voluntária de municípios e profissionais, contemplando três categorias: enfermeiros, cirurgiões-dentistas e médicos.

Para estimular os médicos a participarem do programa, foi formulado um arranjo por meio do qual os profissionais que se inte- grassem do programa teriam um abono de 10% sobre a nota dos programas de residência após permanecerem trabalhando por um ano na atenção básica. O percentual poderia chegar a 20% no caso da permanência ser prolongada por mais um ano. Esse dispositivo foi pactuado com a Comissão Nacional de Residência Médica e com as entidades médicas, e o acordo para que fosse implantado incluía uma modalidade de acompanhamento denominada supervisão, que, em alguns aspectos, assemelhava-se à preceptoria das residências médicas.

Apesar disso, o programa gerou uma reação significativa da corporação, especialmente agregando candidatos às vagas de residência, os quais, por um lado, viam na medida um constran- gimento para trabalhar em um ambiente profissional historicamente desvalorizado e relegado a um segundo plano no imaginário da corporação. Afinal, a atenção básica costuma aparecer no discurso dos profissionais, dentro e fora das escolas médicas, como uma medicina de “pobre para pobre”. Por outra parte, a esse primeiro discurso agregou-se outro, que enxergava na medida uma quebra da meritocracia na seleção para as especialidades médicas mais concorridas. A reação, que era maior entre os estudantes das es- colas médicas consideradas de excelência, circulou amplamente nas redes. Apareceu em materiais como vídeos – por exemplo, aquele em que estudantes da Universidade de São Paulo (USP) contestam pessoalmente o ministro da Saúde; nas redes sociais – por exemplo, um grupo criado no Facebook intitulado “Brasil contra o Provab”; 5 Até o presente momento, estão em andamento outras ações, em especial a cha-

mada internacional de médicos no âmbito do “Mais Médicos”, um programa do governo federal que tem como objetivo aumentar o número de médicos por 1.000 habitantes no país.

e, curiosamente, foi alvo de piada em um material didático do principal programa de preparação para provas de residência mé- dica: o Medcurso.

A reação mais forte, entretanto, deu-se quando os municípios que aderiram ao Provab passaram a se recusar a efetivar a contratação de enfermeiros e cirurgiões-dentistas selecionados pelo programa. O número de médicos que efetivamente procuraram os municípios para contratação foi bem menor do que o número necessário para preencher a demanda dos municípios, de forma que, no segundo semestre de 2012, apenas 383 médicos haviam sido contratados de um universo de quase 2.500 que aderiram inicialmente. Ao constatar que não seriam contemplados com os médicos necessários para preencher as vagas abertas, os municípios se recusaram a con- tratar os profissionais das outras duas categorias, pois a maioria dos municípios já possuía esses profissionais nas equipes da atenção básica. Desse modo, houve um descumprimento dos termos do compromisso assinado pelos municípios no ato de adesão ao Provab, no qual se comprometiam a contratar os profissionais selecionados pelo programa. Os argumentos para tal descumprimento reve- lam, no mínimo, uma irresponsabilidade da gestão, pois a alegação corrente era de que não se havia compreendido que a adesão ao programa, por meio da assinatura do termo de compromisso, implicava a contratação dos profissionais selecionados e não apenas dos médicos.

Já a adesão de enfermeiros foi da ordem de quase 16 mil e a de cirurgiões-dentistas, de 2.300. Dentro desse universo, mesmo os selecionados para contratação ficaram em uma situação delicada, pois, ao procurarem os municípios para os quais foram selecionados, tiveram sua contratação negada. Nesse quadro, iniciou-se uma forte campanha de contestação que se dirigia ao Ministério da Saúde, órgão propositor do Provab, por meio da abordagem direta dos perfis institucionais do ministério nas redes sociais, assim como dos perfis pessoais dos dirigentes dos departamentos do ministério então res- ponsáveis pelo programa: o Departamento de Atenção Básica e o

Departamento de Gestão da Educação na Saúde. A mobilização provocou um constrangimento importante no governo federal, que se viu obrigado a encontrar uma solução que contemplasse algum grau de satisfação dos profissionais enfermeiros e cirurgiões- dentistas selecionados. A solução encontrada para tamponar o problema foi a remuneração direta desses profissionais pelo Ministério da Saúde, por meio do pagamento de uma bolsa para cirurgiões-dentistas e enfermeiros não contratados pelos municípios, que representava um número que correspondia a oito vezes o número de médicos contratados diretamente pelos municípios. Em agosto de 2012, o número de profissionais remunerados por bolsa era de 1.198, enquanto o dos contratados diretamente pelos municípios era de apenas 126 enfermeiros e 110 cirurgiões-dentistas (Brasil, 2012).

Nesse caso, a internet foi o meio pelo qual duas perspectivas diferentes encontraram uma forma de expressar seus pontos de vista. De um lado, os médicos e estudantes de medicina contestavam o próprio objeto do programa, elaborando um discurso conservador que colocava a atenção básica relegada a um lugar menor no SUS, afirmando-a como uma “medicina de pobres para pobres”. Por outro lado, a internet serviu como meio para que a irresponsabilidade da gestão, que se comprometera com a contratação de um número relevante de profissionais, fosse contestada em uma perspectiva de reivindicação do que esses profissionais compreendiam como um direito, dado que a sua seleção deveria ter implicado na sua efetiva contratação por parte dos municípios.

No momento em que escrevemos este capítulo, estão em curso as inscrições para a segunda versão do programa, que, no momento, contempla apenas a chamada para médicos, ainda sem perspectiva de uma nova convocação para as demais categorias profissionais. Tal diretriz, definida pelo Ministério da Saúde, está sendo contestada por vários profissionais dessas categorias, sob a alegação de que o minis- tério estaria desconsiderando a valorização profissional de enfermeiros e cirurgiões-dentistas na atenção básica, implícita no próprio nome do programa, ao fazer uma nova versão apenas para médicos.

No documento Políticas de participação e saúde (páginas 124-128)