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Barberena (1977) foi o primeiro pesquisador a propor um zoneamento bioestratigráfico para a Formação Santa Maria com base na diferença entre as paleofaunas que ocorriam em diferentes localidades (Pinheiros, Candelária, Chiniquá, São Pedro do Sul e Santa Maria) (Lacerda, 2012). Três zonas de associação foram apresentadas, da base para o topo: Cenozona de Therapsida, Cenozona de Dicroidium e Cenozona de Rynchocephalia. A Cenozona de Therapsida (reconhecida nas localidades de Pinheiros e Chiniquá) era caracterizada pela abundância de terápsidos e rauissúquios (“tecodontes”) e pela ausência de rincossauros (LACERDA, 2012). A segunda, Cenozona de Dicroidium, era composta por uma paleoflora representada por um único gênero, Dicroidium, alguns invertebrados e peixes. A terceira cenozona, chamada de Rynchocephalia (Santa Maria), apresentava abundância de rincossauros e poucos registros de cinodontes (RAUGUST, 2014).

Mais tarde, Barberena et al., (1985) dividiram o intervalo Permo-Triássico nas chamadas Faunas-Locais, sendo quatro delas pertencentes ao Meso/Neotrássico. São elas: Fauna-Local de Pinheiros (Ladiniano), Fauna-Local de Chiniquá (Ladiniano), Fauna-

Local de Alemoa (Carniano) e a Fauna-Local de Botucaraí (Neocarniano-Eonoriano) (MASTRANTÔNIO, 2010; LACERDA, 2012; RAUGUST, 2014). No que diz respeito ao registro dos “rauissúquios”, Prestosuchus chiniquensis (materiais publicados por Huene, 1938-42), Prestosuchus loricatus e Procerosuchus celer são provenientes da Fauna-Local de Chiniquá, interior de São Pedro do Sul e o espécime UFRGS-PV-0156-T (publicado por BARBERENA, 1978) pertence à Fauna-Local de Pinheiros em Candelária. Já as espécies Rauisuchus tiradentes e Hoplitosuchus raui (descritas por HUENE, 1938-42) pertencem a Fauna-Local de Alemoa em Santa Maria (MASTRANTÔNIO, 2010).

Schultz et al., (2000) retomaram a proposta das Zonas de Associação (as cenozonas de BARBERENA, 1977), porém utilizando apenas paleofaunas de tetrápodes. Da base para o topo, mantiveram-se as cenozonas de Therapsida e de Rynchosauria, sendo acrescentado o intervalo de Jachaleria, o qual integrava a Fauna-Local de Botucaraí. Posteriormente, Abdala (2001) propôs uma mudança na nomenclatura das Cenozonas: de Therapsida para Dinodontosaurus e de Rynchosauria para Hyperdapedon. Definiu ainda um novo intervalo bioestratigráfico entre essas duas, o de Traversodontidae (LACERDA, 2012).

Rubert & Schultz (2004), apresentaram um novo horizonte de correlação, a Cenozona de Ictidosauria, compondo a parte basal da Formação Caturrita, ampliando dessa forma o intervalo de Jachaleria. Além desse gênero de dicinodonte, também foram encontrados dentes de arcossauros indeterminados, o dinossauro Guaibasaurus

candelariensis Bonaparte et al., 1999, parte do rostro de um fitossauro (KISCHLAT &

LUCAS, 2003), microvertebrados (mammaliamorfos como Riograndia por exemplo), esfenodontídeos (posteriormente descritos como Clevosaurus brasiliensis BONAPARTE & SUESS, 2006) e um procolofonídeo (Soturnia caliodon), (LACERDA, 2012; RAUGUST, 2014).

Duas associações de fauna são consistentemente reconhecidas para o Meso/Neo Triássico do Sul do Brasil, tendo como base comparações com as faunas Argentinas, agora chamadas de Zonas de Assembléia: a de Dinodontosaurus (Ladiniano) e a de

Hyperodapedon são comparáves às faunas de tetrápodes das formações Los Chañares e

Langer et al., (2007) apresentaram um estudo bioestratigráfico considerando a fauna de tetrápodes do Sul do Brasil, afirmando que o Triássico Médio (Formação Santa Maria) possuiria uma idade Ladiniana. Essa afirmação teve com base as correlações de faunas (em grande parte, formadas por cinodontes e dicinodontes) com a Formação Los Chañares na Argentina. Essa fauna faria parte, portanto, da Zona de Assembléia de

Dinodontosaurus. Entretanto, esses autores chamam a atenção para possíveis

discrepâncias de idades entre as diferentes localidades pertencententes a Sequência Santa Maria I (ZERFASS et al., 2003).

Schultz & Soares (2011) propuseram uma mudança nomenclatural para a Cenozona de Ictidiosauria, com base na identificação e discussão de problemas taxonômicos, para Cenozona de Mammaliomorpha alegando que seria mais adequado em termos filogenéticos, devido à predominância de pequenos cinodontes não- mamaliaformes nesse horizonte (Riograndia, Irajatherium, Brasilodon, Brasilitherium). No mesmo ano, Soares et al., (2011) definiram que Zona de Associação de Riograndia seria um nome de intervalo bioestratigráfico mais adequado para esse horizonte, devido à predominância de fósseis desse gênero em comparação com os demais encontrados nesses níveis sedimentares. Atualmente, o esquema biostratigráfico baseado em tetrápodes para o Triássico Médio e Superior se organiza da seguinte forma, da base para o topo: Zona de Associação de Dinodontosaurus, Zona de Associação de Santacruzodon, Zona de Associação de Hyperodapedon e, finalmente, Zona de Associação de Riograndia (SOARES et al., 2011), (Fig 11 abaixo-legenda na próxima página).

Fig 11. Carta bioestratigrafica das faunas terrestres triássicas do Gondwana mostrando ZA Riograndia; ZA

Dinodontosaurus (sensu BARBERENA et al., 1985); ZA Santacruzodon (sensu ABDALA & RIBEIRO,

2010); ZA Hyperodapedon (Sensu ABDALA et al., 2001). Ans, Anisian; AZ, Assemblage Zone; Crn, Carniano; Ind, Induano; Lad, Ladiniano; Mad, Madagascar; Nor, Noriano; Ol, Olenekiano; Rht, Retico; S. Africa, South Africa. Modificado de Abdala and Ribeiro (2010). Escala do tempo geologico basedo em Gradstein & Ogg (2004). Retirado de Soares et al., (2011).

Mais recentemente, Horn et al., (2014) apresentaram uma nova nomenclatura para as sequências deposicionais, com base nas distintas associações de fauna, tendo como base o trabalho realizado por Zerfass et al., (2003). (Fig. 12).

Fig 12. Proposta bioestratigráfica apresentada por Zerfass et al., (2003) modificada por Horn et al., (2014).

No esquema das figuras 12 e 13, tanto a Sequência Pinheiros-Chiniquá quanto a Sequência Santa Cruz tem idade Ladiniana. Recentemente, Marscicano et al., (2016), com base em datações radioisotópicas em depósitos da Argentina (Formação Los Chañares), chegaram a calibragens diferentes das conhecidas até então apenas com base em assembleias de tetrápodes. Segundo esses autores, o topo desses depósitos seria 5-10 milhões de anos mais recente do que anteriormente proposto, atribuindo para Los Chañares uma idade referente ao Eocarniano. Isso levanta a possibilidade de que há discrepâncias de idade semelhantes em outras bacias Gondwanicas, como é o caso da Bacia do Paraná. Sendo assim, a sequência Pinheiros-Chiniquá anteriormente interpretada como pertencendo ao Ladiniano, pode também incluir pertence aos estratos neotriássicos. (MARSICANO et al., 2016; ROMO-de-VIVAR-MARTINÉZ et al., 2016). Assim, a Sequência Pinheiros-Chiniquá (Z.A. Dinodontosaurus) pode, na verdade, adentrar no Carniano e a Sequência Santa Cruz (Z. A. Santacruzodon) pode ter sido toda depositada

nesse mesmo andar. Contudo, é preciso que sejam feitas datações absolutas desses depósitos da Bacia do Paraná para corroborar tal hipótese.

Fig 13. Crono e bioestratigrafia modificado de Zerfass et al., (2003) e Horn et al., (2014). Datações radiométricas de 236, 231.4 e 225. 9 Ma correspondente a primeira metade da Formação Chañares (MARSICANO et al., 2015), a base da Formação Ischigualasto e a base da Formação Los Colorados (MARTÍNEZ et al., 2013). Em A, Prestosuchus chiniquensis; B, Decuriasuchus quartacolonia; C,

Dagasuchus santacruzensis; D, Rauisuchus tiradentes. Retirado de Romo-de-Vivar-Martínez et al., (2016).

9 - MATERIAIS E MÉTODOS

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