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Contexto Brasileiro a partir dos Anos de 1990

1 O SURGIMENTO DA VIA CAMPESINA: TRANSFORMAÇÕES E

2.2 Contexto Brasileiro a partir dos Anos de 1990

Como vimos no primeiro capítulo, o Brasil foi um país colonizado, que trás na raiz da Colônia a essência do capitalismo. Seu desenvolvimento histórico e suas características geográficas e culturais, fazem deste, um país com especificidades, diante dos demais países da América Latina, começando pelo fato de ser o único país que usa o português ao invés do espanhol, como idioma oficial.

Como outros países da América Latina, o Brasil passou pela Ditadura Militar e mais tarde, nos anos 1990, pelo processo de Neoliberalismo, que buscava conter as organizações populares. O início da democratização brasileira pós-ditadura, é mais uma particularidade deste país, já que foi embricado com este processo anterior, a partir de combinações entre a nova democracia e a velha ditadura, conforme nos explica Sader (2009, p. 74):

Tal aspecto levou a substituição de Ulysses Guimarães pelo mais moderado Tancredo Neves e, com a morte deste a posse de José Sarney, que até poucos meses antes era presidente do partido da ditadura militar, como primeiro presidente civil pós-ditadura. Assim, o novo regime democrático combina elementos novos e outros de continuidade com a ditadura, condenando a um impulso fugaz o processo de democratização.

Se no Brasil Colônia tivemos a semente do novo dentro do velho, no Brasil democrático temos sementes do velho dentro do novo, isso porque de fundo temos, tanto na Colônia quanto na república, a afirmação de um projeto de modernidade que não é só nacional ou da América Latina, mas mundial.

Depois de Sarney, veio o governo Collor, que iniciou o processo do Neoliberalismo a partir de privatizações e aberturas econômicas:

O consenso neoliberal consolidou-se amplamente no país, ancorado nas aceleradas transformações que o novo governo implantou: abertura violenta da economia, privatização concentrada das empresas estatais, retirada do Estado da economia, retração de suas funções sociais, desregulamentação, promoção do mercado como eixo central das relações econômicas, criminalização dos movimentos sociais, desqualificação dos funcionários públicos e precarização das relações de trabalho. (SADER, 2009, p. 76)

Todas estas ações levam-me a dizer que dentro do capitalismo, desde o princípio da formação brasileira, sempre que houve ameaça ao poder, houve uma resposta. Foi assim no início da estruturação capitalista no Brasil, quando a burguesia nacional desconectou-se de qualquer menção democrática e nacional/burguesa e reprimiu pressões de igualdade econômica3, na Ditadura e no Neoliberalismo, para conter qualquer tipo de organização popular e garantir o poder à classe que está no poder.

O processo de Neoliberalismo vai ser paralelo e complementar à reconfiguração de poder interno no Brasil. Já que era muito recente este processo de democratização, era necessário estruturar e afirmar-se como país democrático, assim como dentro da democracia liberal, será necessário afirmar e reconfigurar a estrutura de classe e poder. Esse processo é efetivado mais tarde no governo de Fernando Henrique Cardoso:

O governo Collor esboçou, mas foi o governo FHC que reconstitui o bloco de classes no poder, agora sob a hegemonia do capital financeiro, em aliança com o grande empresariado industrial, sobretudo com o setor exportador. A incorporação da socialdemocracia, liderada por um presidente com características intelectuais, e

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que havia participado da oposição a ditadura, fortaleceu o novo bloco de direita no poder. (SADER, 2009, p. 80)

Foi neste período, que cada vez fica mais difícil a organização popular, que os movimentos sociais perderam uma grande aliada, a Igreja. Nestes tempos a Igreja já havia revisto sua proposta de ação mais política, junto aos obres e retomava as ações puramente de caridade. É bom lembrar que no Rio Grande do Sul a Igreja teve um papel fundamental na organização de todos os movimentos da Via Campesina, perdê-la como aliada tem um peso muito grande, já que em muitos lugares a igreja era a porta de entrada para formação e mais tarde a organização da população. Esta perda é tão importante que Gohn cita em seu livro sobre movimentos sociais: “Acrescenta-se ainda que os movimentos populares progressistas perderam, nos anos 90, o apoio irrestrito do maior aliado que tiveram ao longo dos anos 70 e por parte dos anos 80 no Brasil: a Igreja Católica em sua ala da Teologia da Libertação” (GOHN, 1997, p. 314).

Todos estes acontecimentos vão acumulando uma força desmobilizadora na população. Esta força desmobilizadora vai somar-se a ideia do fim da história4, que não enxerga outra organização possível na sociedade.

Surge uma nova ideia de participação e colaboração que expressa o convite de realizar esta sociedade como a única possível – e daí o fracasso de outras propostas. Gera-se então uma dinâmica de aceitação da flexibilização do mercado e da existência de excluídos dentro dele – aqueles que perdem. Aceitar-se o precário faz parte do processo. (MEJÍA, 1996, p. 15)

Chegamos então em uma sociedade na qual lutar contra o capitalismo passa a ser uma ação ridicularizada, pois não há outra forma possível de sociedade. Diante das demandas mais pontuais, os novos movimentos sociais se encarregam de fazer a reivindicação. Eles se encaixam perfeitamente nesta sociedade atual, já que tem estruturas frágeis5, portanto, são aceitos, pois afirmam o caráter democrático da sociedade e não ameaçam sua estrutura.

Além das ocorrências econômicas e sociais desta nova fase da sociedade que inicia com o processo neoliberal, existe o avanço científico que vai cada vez mais, mudando muitas noções de nossas vidas, e vai se constituindo como verdade absoluta, junto disto também há um processo que vai ocorrer junto de individualização da sociedade. Segundo Mejía (1996, p. 15-16) o resultado na nossa sociedade é que:

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Também a vida privada se atualiza. Tudo o que se torna possível na sociedade é transportado para o horizonte do indivíduo. Tudo está na esfera do pessoal. No meio de uma grande flexibilidade, confina-se esse mesmo indivíduo a uma micromoral individualista que o impede de construir referentes e estabelecer responsabilidades sobre o que acontece em esferas de caráter global. Dessa forma ninguém, aparentemente, parece responsável pelo que acontece, porque um olhar pretensamente científico mostra este acontecimento como sendo orientado pela ciência e pelo conhecimento.

Retomamos assim, a crise do paradigma da modernidade, pois a modernidade, amparada em bases sólidas (razão, Estado de Direito e capitalismo), e em uma ciência com métodos rígidos e absolutos, constituiu-se, a partir de seu próprio desenvolvimento, em uma sociedade de indivíduos individuais, e assim em uma sociedade cada vez mais plural. A sociedade moderna que buscava uma verdade absoluta, agora tem muitas verdades, muitas pluralidades, é difícil controlar uma sociedade assim, é preciso mecanismos mais eficazes, um Estado mais efetivo e um Direito mais abrangente. Assim:

Encontramo-nos em trânsito entre um sistema rígido e que tudo pretende compreender, com normas e pautas rígidas, e uma rede variável de crenças em que é possível uma pluralização dos estilos de vida que permite a cada um viver como quiser e sem responsabilidade de cunho coletivo. Forma-se então uma vaga ideia de uma nova unidade de cidadão de direitos e deveres, um lugar onde seríamos UM (societal), mas ao mesmo tempo fragmentados (variadas e numerosas individualidades). (MEJÍA, 1996, p. 18-19)

Os anos de 1990, marcam então, o desenvolvimento, cada vez mais rápido da tecnologia, este desenvolvimento dentro da sociedade capitalista, trouxe consequências tanto para o mundo rural, quanto para o mundo urbano. São os processos da microeletrônica que se aprofundam e produzem uma reestruturação em todos os âmbitos da sociedade. A biociência, a física, a química quântica se desenvolvem e todos estes avanços e processos vão, mais uma vez prover uma reestruturação na base de produção rural.

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