2 PERCURSO METODOLÓGICO
2.1 Contexto da pesquisa e seus participantes
A pesquisa foi realizada com alunos de um Curso de Letras de uma institui- ção de ensino superior situada no estado do Rio Grande do Sul. Sobre a instituição, importa dizer, primeiramente, que é pública e, além disso, que oferece quatro habili- tações distintas na área de Letras, sendo três Licenciaturas – habilitação em Língua Portuguesa e respectivas Literaturas (na modalidade presencial e a distância), habili- tação em Língua Espanhola e respectivas Literaturas (na modalidade presencial e a distância), habilitação em Língua Inglesa e respectivas Literaturas – e um Bachare- lado (habilitação em Língua Portuguesa e respectivas Literaturas).
Tendo em vista o direcionamento de nossa pesquisa para o trabalho do pro- fessor, evidentemente que escolheríamos investigar as representações de alunos da Licenciatura. Já a escolha por um Curso de Letras e pela habilitação específica de Língua Portuguesa deveu-se meramente ao fato de ser o contexto mais próximo, em que as demais pesquisadoras de iniciação científica e eu estudávamos no ano de início da pesquisa e no qual a própria orientadora do projeto ministra aulas. Desse modo, teríamos a oportunidade de um olhar mais analítico e reflexivo sobre o nosso próprio contexto de estudo/trabalho e sobre o processo de formação pelo qual pas-
21 O termo “participante(s)”, assim como o termo “aluno(s)”, é usado genericamente para aludirmos a
todos os entrevistados do projeto “Representações do Trabalho Docente”. Quando fizermos referên- cia ao aluno cujo texto tornar-se-á objeto de nossa análise, usaremos o termo “sujeito”.
samos. As razões da escolha pela habilitação em Língua Portuguesa, contudo, limi- tam-se à alçada do que ora foi dito. Ressaltamo-lo para prevenir que o leitor crie fal- sas expectativas e para deixar claro que não temos, com esta pesquisa22, a ambição de problematizar (ao menos não de forma aprofundada) questões referentes propri- amente ao objeto de ensino específico do professor de Língua Portuguesa, mas sim, especialmente, questões relativas ao trabalho docente em geral, aquelas que são comuns ao métier do professor de qualquer disciplina, dentro e fora da sala de aula.
Se, aos moldes dos estudos de Bronckart e Machado, investigamos, em prin- cípio, as representações que circundam o “trabalho do professor”, lato sensu, é por- que entendemos que, anterior à ausência de um perfil identitário quer para o educa- dor linguístico quer para o educador matemático, é a ausência de uma identidade para o profissional docente. O trabalho do professor, seja de que área for, já contém, por si só, características que o diferenciam de todos outros tipos de trabalho, con- forme pudemos observar pela explanação de Machado, no capítulo anterior. Assim, sem negar que o que caracteriza o trabalho docente é, dentre outros aspectos, o domínio de conhecimentos e competências relativas ao objeto específico de ensino, consideramos fundamental que, antes mesmo de tentar traçar um perfil profissional para o professor de língua portuguesa, por exemplo, busque-se conferir ao trabalho docente em geral uma identidade verdadeiramente profissional, e não meramente vocacional, como lhe conferem vozes não só externas, mas também internas ao sis- tema docente (lembrando que toda e qualquer licenciatura fornece ao futuro profes- sor, paralelamente aos conhecimentos relativos ao objeto da habilitação específica, bases científicas comuns referentes aos fundamentos da educação, à psicologia educativa, a teorias de ensino-aprendizagem, a abordagens didáticas etc.).
Voltando à caracterização do contexto de pesquisa, o Curso de Licenciatura em Letras-Português tem duração de quatro anos e, conforme consta em seu Proje- to Político Pedagógico, tem por objetivo principal formar professores para Ensino Fundamental e Ensino Médio e para cursos pré-vestibulares. Os profissionais egres- sos também podem “trabalhar como pesquisadores, críticos literários, revisores de texto e roteiristas”. O Curso é diurno, havendo aulas no turno matutino e vespertino. No primeiro ano de Curso, o aluno geralmente não estabelece contato com as esco-
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Em possível fase de doutoramento, pretendemos dar continuidade à presente pesquisa, avançando inclusive no sentido de dar atenção à especificidade do objeto de ensino do professor de Língua Por- tuguesa. Duas pesquisas de doutorado, em andamento dentro do projeto “Representações do Traba- lho Docente”, já trazem contribuições nesse sentido.
las, a não ser que eventualmente algum professor proponha atividades práticas em contexto escolar. No segundo ano, especificamente no quarto semestre do curso, o aluno desenvolve, na disciplina de Didática, seu primeiro projeto na escola, realizan- do tarefas típicas do trabalho docente, como o planejamento de aulas, a própria au- la, os processos de avaliação. No terceiro ano, o acadêmico faz seu estágio no En- sino Fundamental, sendo o primeiro semestre para a observação da turma e o se- gundo para a regência. E, por fim, no último ano da graduação, desenvolve o estágio no Ensino Médio, sendo também o primeiro semestre para observação do contexto e o segundo para regência, e podendo esta, agora, ser feita tanto na disciplina de Lín- gua Portuguesa quando na de Literatura.
Participaram do estudo alunos da turma que ingressou no Curso em 2011, ano em que começamos a desenvolver o projeto. Um primeiro critério de exclusão foi adotado já nessa etapa, sendo que não convidamos para participar do estudo aqueles alunos egressos do Ensino Médio há mais tempo e os quais poderiam, por isso, ter um repertório mais vasto e diversificado de vivências pessoais, formativas e mesmo profissionais23. Desse modo, convidamos apenas alunos que vieram direta- mente do Ensino Médio (tolerando-se a passagem por curso pré-vestibular) para o Ensino Superior, através de vestibular ou de outro processo seletivo. Todos os alu- nos convidados aceitaram participar da pesquisa e assinaram o Termo de Consen- timento (Anexo C), pelo qual também garantimos sigilo sobre as suas identidades. Com isso, obtivemos um total de 28 participantes24, com idades entre 17 e 21 anos, sendo 26 do sexo feminino e 02 do sexo masculino.
Considerando as etapas do Curso demarcadas anteriormente, optamos por realizar coletas anuais com os alunos, em quatro25 momentos bem pontuais da gra- duação: primeiro semestre (período dos primeiros contatos com o curso), terceiro semestre (período anterior à disciplina de Didática e ao estágio), quinto semestre
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Se tivéssemos incluído esses alunos no estudo, provavelmente teríamos que tratar do texto desses sujeitos de um modo particular, constituindo uma categoria específica para esse grupo.
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Importa destacar que esse número de 28 participantes não se manteve até o quarto ano, sendo que houve alunos que desistiram do Curso para ingressar em outro (por razões cuja análise e inter- pretação renderiam uma nova e interessante pesquisa).
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Com o sujeito selecionado, acabamos realizando cinco coletas, pois, temendo que a coleta do oita- vo semestre não se concretizasse a tempo da elaboração desta dissertação, fizemos uma entrevista no sétimo semestre de curso, no período de transição do sujeito entre a experiência de um estágio e a experiência do outro. Depois, havendo tempo, acabamos realizando uma coleta também no oitavo semestre, quando o sujeito já havia finalizado inclusive o segundo estágio.
(período posterior à disciplina de Didática, mas anterior ao estágio) e oitavo semes- tre (período posterior aos estágios). Vejamos, a seguir, como se deu esse processo de coleta de dados.