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CAPÍTULO 3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.1 Contexto da Pesquisa

A pesquisa foi desenvolvida no período inicial de implementação da Nova Proposta Curricular/2008 da Secretaria do Estado de São Paulo, na época dirigida pela Secretária Maria Helena Guimarães de Castro, que foi assessorada por uma Equipe dividida em três setores: Execução, Gestão e Apoio. Essa implementação estendeu-se de fevereiro a dezembro/2008 e, a partir de 2009, essa proposta tornou-se o Currículo Oficial do Estado. É importante ressaltar que essa medida da Secretaria (implementação de um novo currículo) faz parte das dez metas do Governo do Estado de São Paulo (Governo Serra)1.

O setor responsável pela Execução da Proposta é liderado pela Profª Maria Inês Fini, ao lado dos professores Guiomar Namo de Melo, Lino de Macedo, Luis Carlos de Menezes e Ruy Berger. No setor de Gestão, temos como responsáveis a Fundação Carlos Alberto Vanzolini; o presidente do Conselho

Curador, Antonio Rafael Namur Muscat; o Presidente da Diretoria Executiva, Mauro Zilbovicius; o Diretor de Gestão de Tecnologias aplicadas à Educação, Guilherme Ary Plonski; foram Coordenadoras Executivas de Projetos Beatriz Scavazza e Ângela Sprenger. No Setor de Apoio, a CENP (Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas) e a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação).

Vivenciei todo esse movimento histórico-social, em que a Educação Básica de Ensino do Estado de São Paulo estava sendo reformulada, como professora e como professora-coordenadora da área de Língua Portuguesa de uma das Oficinas Pedagógicas das Diretorias de Ensino. Assim, tal como os outros profissionais da educação, pude participar e acompanhar todas as mudanças e determinações decorrentes do novo plano de ensino governamental, mais especificamente da Nova Proposta Curricular/2008, que chegou de forma súbita, causando surpresa a todos nós.

Para uma melhor compreensão dos motivos da escolha desse

documento oficial, a Nova Proposta Curricular/2008, como objeto de estudo, de sua importância e influência sobre o trabalho do professor, descrevo a seguir o modo como ela nos foi apresentada pela Secretaria da Educação.

A SEE, para implementar essa nova proposta, tomou algumas medidas prévias. A primeira foi a elaboração e divulgação de dois documentos para orientar todos os profissionais da educação:

I- Documento de esclarecimento da proposta curricular: seus objetivos, suas metas e o currículo proposto1.

1 Documentos disponíveis no site da Secretaria da Educação:

II- Documento que trata da gestão do currículo e tem como objetivo apoiar dirigentes de ensino e gestores escolares (supervisores, diretores, professores coordenadores das oficinas pedagógicas, professores coordenadores de escolas) a orientar a implementação da proposta curricular.

A segunda medida incluiu uma recuperação intensiva dos alunos, nos meses de fevereiro e março/2008, com a duração de 42 dias corridos, iniciada no primeiro dia letivo desse período. Essa recuperação envolveu todas as disciplinas do currículo básico para os Ensinos Fundamental (ciclo II) e Médio, tendo como foco o desenvolvimento das habilidades leitoras e escritoras e habilidades relacionadas ao raciocínio lógico. Terminada essa etapa, a SEE preparou uma Avaliação Diagnóstica, com uma prova objetiva e dissertativa de Língua Portuguesa e uma prova de Matemática, para avaliar o processo de ensino- aprendizagem no período de recuperação intensiva.

A terceira medida foi a divulgação do currículo por bimestres, apoiado em material já pronto, em um documento intitulado “Caderno do Professor”, que foi enviado a todos os professores da Rede pela SEE. Esse material contém orientações e situações de aprendizagem com conteúdos disciplinares específicos, para que o professor desenvolva em seus alunos as habilidades e competências necessárias requeridas no processo de ensino-aprendizagem. Também no final dos primeiros bimestres, a SEE preparou Avaliações, que foram testes simulados da PROVA DO ENEM2, baseadas no modelo e nos critérios do ano de 2007, com

algumas reformulações autorizadas pela Secretaria, com o objetivo de preparar o aluno para a Avaliação Oficial do ENEM de 2008.

2 Prova do ENEM-Avaliação diagnóstica do Ensino Nacional para Ensino Médio

Em relação às avaliações aplicadas aos alunos da Rede Estadual (Ensino Fundamental II e Ensino Médio), foram feitos diagnósticos junto às Diretorias Regionais de Ensino nos quais se constatou a necessidade de um acompanhamento mais específico por meio das chamadas recuperações paralelas e contínuas, para que os alunos em dificuldade pudessem acompanhar os conteúdos específicos de cada disciplina contidos na Nova Proposta Curricular. Essa medida pode ser classificada como sendo a quarta medida tomada pela SEE, a que propõe a “Recuperação Paralela Especial em Língua Portuguesa e Matemática”, que se iniciou em agosto, com término em novembro/2008. Seu objetivo era conseguir deixar, em 2009, todos os alunos da Rede Estadual de Ensino em condições de acompanhar a Proposta Curricular, que neste ano de 2009 passou a ser o Novo Currículo oficial da SEE. Dentre as medidas aplicadas no ano de 2008, não podemos deixar de mencionar as que contemplaram ações direcionadas a professores e à equipe de suporte pedagógico da Rede4, por meio de um Curso de Ensino a Distância (EAD) de trinta horas, chamado “A Rede aprende com a Rede”, disponível no site da Secretaria da Educação5 do Estado de São Paulo.

Foi nesse contexto, como já mencionamos na introdução dessa pesquisa, que decidimos analisar o documento a Nova Proposta Curricular/2008. O motivo dessa escolha foi o fato de ele se configurar como um referencial maior para a (re) elaboração da proposta de ensino- aprendizagem do Ensino Fundamental (ciclo II) e do Ensino Médio da Rede Estadual, visto que, a Secretaria da Educação do Estado tem “autonomia” para intervir na política educacional das escolas, nos trabalhos da gestão escolar e, consequentemente, no trabalho dos professores no que diz respeito às suas tarefas, ações, planejamentos e metodologias.

4 Equipe de suporte pedagógico da Rede, formada por professores- coordenadores das oficinas pedagógicas das Diretorias Regionais de Ensino, que receberam orientações técnicas-pedagógicas da SEE para mediarem os professores da Rede que se inscreveram no curso “A Rede aprende com a Rede”.

5 Disponível em: www.educacao.sp.gov.br

Outro motivo para a decisão de tomar a Proposta como objeto de análise foi o desejo de investigarmos como esse documento avalia o trabalho docente, quais as representações verbalizadas nos textos sobre o papel do professor; quais os elementos de seu trabalho que este documento supostamente tematizaria como partes constitutivas do trabalho docente. Além disso, decidimos investigar igualmente as (re-) configurações das propostas construídas nos textos produzidos pelos próprios professores. Dessa forma, convidamos alguns deles, que trabalhavam no período de implementação da Proposta (fevereiro/2008) e continuam trabalhando ativamente, agora, no processo de aplicação do “Currículo Oficial de 2009”, a participar da pesquisa. Dentre seis professores contatados, cinco concordaram em participar da pesquisa e apenas um, mesmo querendo participar, não conseguiu, pois não teve tempo hábil para produzir seus textos. Para a produção desses textos, foi pedido aos professores que descrevessem suas atividades de trabalho e também descrevessem a maneira como estavam recebendo as novas mudanças propostas pela Secretaria da Educação no tocante à implementação da Nova Proposta. É importante ressaltar que não foi dada nenhuma explicação sobre os conceitos teóricos de trabalho prescrito, trabalho realizado e trabalho real com que opera a Clínica da Atividade (Clot, 1999/2006), para evitar que o resultado dessa pesquisa sofresse alguma interferência direta por parte do pesquisador.

O objetivo da produção desses textos, para nós, portanto, deveria ser o de permitir que detectássemos as (re-) configurações do agir construídas nos e pelos textos sobre o trabalho do professor, bem como nos dar condições de descobrir quais os elementos constitutivos do trabalho docente que são tematizados e avaliados por esses professores, assim como as avaliações feitas em relação às determinações impostas pela Proposta. Assim, esses professores puderam lançar em seus textos suas impressões sobre seu próprio trabalho, fazendo reflexões sobre as aulas dadas e/ou previstas, de forma pessoal (no sentido de não formal). É importante ressaltar que a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa e que todos os 67

participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e a Declaração de Concordância do participante.