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2.2. As peças ditas “visigóticas”

2.2.1 Contexto de achamento e reaproveitamento das peças

A quase totalidade das peças arquitectónicas, com ou sem proveniência exacta, foi reaproveitada para construções posteriores, isto é, em contexto secundário (Mourgues, 1999: 525; Cruz Villalón, 2006: 221). As muralhas e alcáçovas medievais são as construções que mais utilizaram peças do período anterior, tal como as muralhas de Beja, Sines, Mértola, Juromenha, Montemor-o-Novo e Moura. As igrejas são o outro tipo de construções que mais reutiliza peças visigóticas, tal como por exemplo a igreja de Vera Cruz de Marmelar156 (Portel), a ermida de S.

Salvador em Castelo de Vide157, a capela de S. João de Arranas no Torrão158, a igreja de Fortios159,

igreja de S. Tiago em Vila Viçosa160, a capela de S. Pedro de Almuro em Monforte161, o cruzeiro

de S. Brás de Matos162, a ermida de Mosteiro163 em Mértola ou da igreja em Mesquita164 (Mértola).

O reaproveitamento em construções privadas acontece mais em meios urbanos, como Elvas, Mértola, Beja e Sines, mas também é visível em Marmelar.

Aliado a esta questão de contexto, existe o problema da forma das peças. Uma grande quantidade destas não parece ter a sua forma original, pois ao terem sido reutilizadas, foram truncadas, novamente esculpidas, redecoradas. A título de exemplo, este parece ser o caso da

154 Além de que o adjectivo “bizantino” em si é um anacronismo, visto que foi inventado por Hieronymus Wolf, em 1557,

que inventou a palavra na sua obra “Histoire de l‟Empire byzantin” e só começou a ser vulgarizado a partir do século XVII (“Byzance”, entrada consultada na Wikipédia France a 14.02.2011). O mais certo seria de dizer “o império romano do Oriente”.

155 No que se refere à polémica datação das peças comummente ditas visigóticas e actualmente consideradas moçárabes ou

de influência islâmica, ler o artigo de Caballero Zoreda (1992), os artigos coligidos em Caballero Zoreda e Mateos (eds) (2000) e Caballero Zoreda e Mateos (eds) (2006).

156 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Évora. 157 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Portalegre. 158 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Setúbal. 159 Ver Anexo I, 2, n.º13; Anexo II, 5, fig. 13. 160 Ver Anexo I, 2, n.º5; Anexo II, 5, fig. 5. 161 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Portalegre. 162 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Évora. 163 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Beja. 164 Ver Anexo I, 1, Catálogo de Sítios, Beja

55 peça MRB.1.46 do Museu Regional de Beja (Lopes, 1993: 67). Esta peça é considerada por Licínia Wrench como possível “mesa de altar” ou “friso” (Wrench, 479), no Museu é catalogada como “friso”, Justino Maciel e M. Amélia F. de Almeida consideram-na como “mesa de altar” (Maciel, 1996; Almeida, 1987); Carlos A. F. de Almeida classifica-a como “imposta” (1988: 58) e F. de Almeida (1964: n.º211) considera que a inserção da cruz a meio de um dos lados pode ter sido uma reconversão da peça como mesa de altar. De facto, esta peça, enquanto parte arquitectónica de um edifício religioso, parece ter tido dois momentos funcionais: o primeiro com uma decoração regular de círculos de quatro fusos (como elemento decorativo tipo “friso”) e o segundo com um vazamento central que serviu para esculpir por cima uma cruz pátea, eventualmente para servir uma nova funcionalidade (mesa de altar ou lintel num sítio sagrado). Se Abel Viana considerou esta peça como moçárabe (Viana, 1946: 108) é precisamente porque este vazamento central é obviamente uma decoração não prevista inicialmente, pode ter sido feita já num momento de remodelação da igreja em questão. No entanto, a cruz pátea tem características bastante antigas, quando comparadas ao resto da Lusitania, pelo que será difícil dizer se dataria ainda do século VII ou já dos séculos VIII ou IX.

Estas observações mostram que durante ainda a Antiguidade Tardia e durante os séculos que se seguiram, um mesmo edifício sofria remodelações e reestruturações enquanto edifício religioso em funcionamento, ainda antes de servir de cantaria quando já estivesse em ruínas. Ou seja, o processo tafonómico das peças é tal, que se revela extremamente complicado saber a primeira função de uma peça no seio de uma igreja. Basta ver a evolução do estudo das peças entre D. Fernando de Almeida nos anos 60 e hoje, com a tese de Licínia Wrench, cujas denominações mudam para cada investigador, o que prova a quase impossibilidade de conhecer a forma original, e consequentemente, a função das peças. No que respeita o Sul da Lusitania, parece que as peças embutidas nas paredes de Vera Cruz são aquelas que foram menos reutilizadas mas ainda assim não estão em contexto primário. O mesmo se pode dizer para as impostas do portão ocidental da ermida de S. Salvador em Castelo de Vide.

Que valor podem assim ter peças arquitectónicas visigóticas no estudo da cristianização de um determinado território se nenhuma delas tem um contexto seguro e cujos aspectos formais mudaram durante os séculos seguintes?

O primeiro indicador de base que estas peças nos fornecem é o de revelarem, pura e simplesmente, a existência de edifícios religiosos durante a Antiguidade Tardia, mesmo que não se saiba quantos nem onde exactamente se encontrariam. A segunda informação que se pode extrair será o da sua matéria-prima, para o caso de peças não reutilizadas, que indica que pedreiras estariam ainda em uso durante a Antiguidade Tardia (cf. peça visigótica descoberta na pedreira de Bencatel165). Em terceiro lugar, o interesse reside na confrontação de uma peça arquitectónica

com outras que provêm de um mesmo arqueosítio: apesar de serem quase exclusivamente peças encontradas fora de contexto, em alguns casos foram encontrados outros materiais (arqueológicos, epigráficos) no mesmo arqueosítio do mesmo período; haverá assim um conjunto de dados que poderão ser confrontados e quiçá dar informação sobre um possível edifício religioso ou mesmo ajudar a datar as peças. De facto, até agora as peças arquitectónicas foram estudadas per se, mas em alguns casos elas faziam parte de conjuntos coesos, como por exemplo no cemitério visigótico de Silveirona (Estremoz), no cemitério de Terrugem (Elvas), as peças de Mértola etc.

Uma outra informação que se pode extrair das peças arquitectónicas, e que consideramos o mais notável, será o da decoração escultórica166. Contrariamente ao estudo das formas

165 Anexo I, 2, n.º4; Anexo II, 5, fig. 4.

166 O significado simbólico dos motivos não será aqui analisado, este já tendo sido realizado na tese de doutoramento de

56 arquitectónicas que já foi realizado167 e que é, como vimos, difícil de ser concludente por causa

das grandes modificações ao longo da vida de uma peça, a análise de padrões decorativos em todas as peças do Sul da Lusitania permitirá perceber as recorrências em determinadas áreas geográficas. Determinamos por “padrões” os conjuntos de motivos decorativos que se encontram nas peças, não como motivos isolados, e estudados per se168, mas entendidos como um

“programa decorativo”. Estes “padrões” podem indicar a existência de edifícios religiosos ou, pelo menos, a existência de estilos regionais ou ateliers de lapicida regionais, tal como já o propuseram Maria Cruz Villalón (1985) e Licínia Wrench (2008). Ao tentar descobrir a existência destes “programas decorativos” poder-se-á ver as centenas de peças arquitectónicas em termos de conjuntos (de um edifício, de uma “escola” ou de um atelier) e não só como peças avulsas, sem nexo entre elas169.

Ao realizarmos esta base de dados, demo-nos conta que as peças, apesar de várias vezes reutilizadas, não foram deslocadas para grandes distâncias. Existe evidentemente excepções mas em geral, observamos que as peças do mesmo tipo se encontram todas mais ou menos numa área geográfica coesa. O peso do material deve ser a maior razão para esta dispersão controlada.