CAPÍTULO 4: LIVROS COMO PROVA DE SUBVERSÃO: UM PROCESSO JUDICIAL
4.2 Contexto de 1970 e as Apreensões de Livros
O fato da Lei de Segurança Nacional mais severa da ditadura ter sido promulgada, em setembro de 1969, não é um fato isolado do contexto do regime. O período que vai da edição do Ato Institucional n° 5 – AI-5, em dezembro de 1968, até 1974, com o desmantelamento dos grupos guerrilheiros de esquerda no país, ficou conhecido como “anos de chumbo”.
Nessa conjuntura, não fugiu da lógica repressiva o ano de 1970 aparecer como o principal em apreensão de livros, depois de analisarmos todas as referências às apreensões nos 707 processos que compõe o BNM. No entanto, a atuação das forças policiais contra a produção de livros existe desde o golpe, em 1964.
As ações confiscatórias ocorriam de forma primária, improvisada, efetuada por pessoas mal treinadas para este tipo de operação, e eram justificadas através da necessidade de garantir a Segurança Nacional e a
63 BRASIL. Lei nº 6.620, de 17 de dezembro de 1978. Define os crimes contra a Segurança Nacional, estabelece a sistemática para o seu processo e julgamento e dá outras providências. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-6620-17-dezembro-1978- 365788-publicacaooriginal-1-pl.html>. Acesso em: 18 de janeiro de 2017.
ordem moral. Objetivava confiscar todo material considerado subversivo, contra o Regime, ou pornográfico, contra a família e os costumes64.
Um dos casos mais conhecidos de repressão a livros é o do editor e dono da Editora Civilização Brasileira (ECB), Ênio Silveira. Preso sete vezes durante a ditadura, Silveira viu sua editora sofrer com diversas apreensões de livros, em gráficas ou livrarias, e com a pressão para que os livreiros não comprassem mais livros da ECB. A perseguição era tamanha que “muitos policiais se contentavam com qualquer coisa que tivesse a marca da Civilização Brasileira”.65
Em uma das prisões de Ênio, em maio de 1965, com a alegação que ele havia recebido o ex-governador pernambucano deposto Miguel Arraes em sua casa, o presidente Castello Branco enviou ao chefe do Gabinete Militar, Ernesto Geisel, um bilhete em que dizia:
Por que a prisão do Ênio? Só para depor? A repercussão é contrária a nós, em grande escala. O resultado está sendo absolutamente negativo. (...) Há como que uma preocupação em mostrar ‘que se pode prender’. Isso nos rebaixa. (...) Apreensão de livros. Nunca se fez isso no Brasil. (...) Os resultados são os piores possíveis contra nós. É mesmo um terror cultural.66
Em entrevista para o livro “Editando o editor”, Silveira conta que ouviu do coronel Gerson Pina a seguinte justificativa por enfrentar tanta pressão:
Porque você é uma das mais eficientes armas de sabotagem dos nossos princípios de vida. Uma editora é uma arma perigosíssima, que você arma silenciosa e constantemente. (...) Você é mais perigoso para nós que um sujeito que está assaltando um banco.67
Nesse clima de caça aos livros que atentavam contra a Segurança Nacional, dentro da ideologia militar de ver como ameaça qualquer propagação de ideia diferente do Estado vigente, em 1965 é produzida pelo Departamento Federal de Segurança Pública, Divisão de Ordem Política e Social, a primeira lista de “livros tidos como subversivos” que se tem notícia. A lista é composta por trinta e três livros. A maioria com orientação de esquerda, de filosofia marxista, sobre história
64 STEPHANOU, A. A. Censura no Regime Militar e Militarização das Artes. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001, p. 215.
65 HALLEWELL, L. Op. cit., p. 633.
66 GASPARI, E. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.231. 67 FERREIRA, J. P. F. (Org.). Ênio Silveira. (Coleção Editando o Editor, 3). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, Com-Arte, 1992, p.94.
ou política. Uma reprodução dessa lista foi encontrada no Arquivo do Estado de São Paulo. Em papel timbrado da Secretaria de Segurança Pública, departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo, o documento afirma que é uma cópia autenticada do protocolo 32.960, de 1965.
Figura 4 – Lista de livros tidos por subversivos
Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.68
Juntamente com a lista, há um ofício com orientações:
68 Documento encontrado no Acervo do DEOPS-SP, no Arquivo Público de São Paulo. Site da Instituição: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/. Consulta presencial.
Figura 5 – Orientações para apreensão
Fonte: Arquivo do Estado de São Paulo.69
69 Documento encontrado no Acervo do DEOPS-SP, no Arquivo Público de São Paulo. Site da Instituição: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/. Consulta presencial.
O texto do ofício ainda afirma que a medida de apreensão é “desnecessária nesta Capital, em Santos e Bauru, onde já procedemos às devidas providências”, indicando que apreensões já haviam sido feitas nesses locais. Não é possível saber se outras listas, como essa, foram publicadas. Mas essa é um indicativo de que, mesmo sem nenhuma legislação que impedisse a edição, publicação e circulação de livros com temáticas filosóficas e políticas, que desse embasamento jurídico às apreensões, elas ocorreram e foram orientadas pelo Governo Federal.
Em 22 de janeiro de 1966, o Jornal do Brasil publicou em editorial sua visão sobre as apreensões que estavam acontecendo em São Paulo.
Figura 6 – Editorial do Jornal do Brasil – 22/01/1966
Fonte: Editorial do Jornal do Brasil70
Ao se comparar a relação dos autores de livros apreendidos publicada no JB e a lista da polícia, apenas Feuerbach (Ludwig Andreas Feuerbach) não consta da lista dos “tidos por subversivos” e teve um de seus livros apreendido. Todos os
70 JORNAL DO BRASIL. 22 de janeiro de 1966. Disponível em:
<https://news.google.com/newspapers?nid=0qX8s2k1IRwC&dat=19660122&printsec=frontpage&hl =pt-BR>. Acesso em: 30 de dezembro de 2016.
outros tinham obras que deveriam ser “apreendidas”: Marx, Engels, Plekhanov, Mikhail Cholokov, Afanasiev, Draguiley, Ivostok, Zubok, Vladimirov.
O jornal ainda usa de ironia para descrever o que chama de “festival feérico do ridículo”:
[...] pelo que se depreende do material apreendido, todo livro cujo o título se referia a socialismo, marxismo, comunismo ou tenha na capa nome de autor russo, ou assemelhado, deve ser recolhido à fogueira purificadora do DOPS. E por aí os equívocos cometidos são de tal ordem que parece apenas ter escapado o Livro Vermelho de telefones.71