CAPÍTULO II: Procedimentos Metodológicos
2.2 Contexto de Pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida no âmbito de uma IES de uma cidade na Grande São Paulo, onde trabalho. A instituição é a única da cidade a oferecer vários cursos, tais como Letras, Pedagogia, Direito, Administração, Turismo, Educação Física, História, Geografia e Matemática, entre outros.
A maioria dos alunos mora em cidades das proximidades, trabalha durante o dia e estuda à noite. Muitos alunos são beneficiados por programas do governo, como PROUNI e Escola da Família. O curso de Letras, locus no qual este trabalho foi desenvolvido, oferece dupla licenciatura – Língua Inglesa e Língua Portuguesa – e tem a duração de três anos. A grade curricular é a seguinte:
Quadro 1: Grade curricular do curso de Letras – lócus da pesquisa.
Letras
1º Semestre
Língua Portuguesa I -Fonologia/Introdução à Morfossintaxe
Introdução à Língua Inglesa Prática Curricular I
Introdução à Língua e Cultura Latinas Introdução aos Estudos da Linguagem Atividades Acadêmico-científico-culturais
2º. Semestre
Língua Portuguesa II- Morfossintaxe Língua Inglesa
Literatura Infanto-Juvenil Psicologia da Educação Prática Curricular II Língua e Cultura Latinas Linguística Geral Didática
Atividades Acadêmico-científico-culturais
3º. Semestre
Língua Portuguesa III- Semântica/Estilística Língua Inglesa
Prática Curricular III Literatura Brasileira Literatura Portuguesa
Estrutura e Funcionamento do Ensino Estágio Supervisionado I
Atividades Acadêmico-científico-culturais
4º. Semestre
Língua Portuguesa – Textualidade e Coesão Língua Inglesa
Prática Curricular IV Literatura Brasileira Literatura Portuguesa
Literatura Inglesa e Norte Americana Estágio Supervisionado II
Atividades Acadêmico-científico-culturais
5º. Semestre
Língua Portuguesa V – Pragmática Língua Inglesa
Prática Curricular V Literatura Brasileira Literatura Portuguesa
Literatura Inglesa e Norte Americana Estágio Supervisionado III
Atividades Acadêmico-científico-culturais
6º Semestre
Língua Portuguesa VI – Análise do Discurso Língua Inglesa
Prática Curricular VI Literatura Brasileira Literatura Portuguesa Estágio Supervisionado III Trabalho de Conclusão
Atividades Acadêmico-científico-culturais
A disciplina Língua Inglesa está presente em todos os semestres, com 4 horas/aula por semana, num total de 480 horas voltadas para o ensino da língua. As disciplinas Estágio Supervisionado I, II, III e IV são ministradas por professoras do curso de Pedagogia e não há nenhuma relação estabelecida entre elas e os professores de Língua Portuguesa e de Língua Inglesa. Além disso, somente no 6o semestre do curso os alunos têm uma disciplina voltada à prática de ensino de língua inglesa (disciplina intitulada Prática Curricular VI).
O ensino de língua inglesa sempre foi pautado por algumas dificuldades, como falta de material didático: por parte dos alunos, pois muitos não têm condições de comprar, por exemplo, livros e dicionários; por parte da instituição, que não oferece recursos didáticos adequados, como por exemplo, um laboratório de línguas com estações suficientes3. Há apenas dois laboratórios de informática para 6.000 alunos; somente 5 projetores multimídia, um pequeno número de CD players, poucos aparelhos de retroprojeção e 5 aparelhos de TV e DVD, para todo o contingente de alunos e professores.
Além dessas dificuldades estruturais, há um grande problema referente ao desnível de desenvolvimento cultural dos alunos. Muitos fizeram curso supletivo e nunca estudaram a língua inglesa, enquanto outros pouquíssimos já apresentam algum conhecimento linguístico e, muitas vezes, já lecionam inglês. É importante ressaltar que a maioria dos alunos tem como meta ser professor e prestar um concurso público, da prefeitura ou do estado.
Quando entrei na instituição, em 2005, lecionava para os alunos iniciantes, Letras I, II e III. Era a professora de Língua Inglesa, com 4 (quatro) aulas semanais em cada uma dessas turmas, sendo que, em Letras III, dividia as aulas com outro professor. No primeiro semestre, não tínhamos nenhum material didático. Fui avisada por profissional da instituição que os alunos não tinham condições de comprar materiais solicitados nas disciplinas. Já no segundo semestre de 2005, percebi que poderíamos mudar aquela situação. Analisei vários livros didáticos e consegui, através de uma editora, um livro de valor acessível, possível de ser adquirido pelos alunos. Foi uma grande conquista, mas o livro adotado não foi um consenso entre os professores, além de ser um livro estrangeiro com proposta para curso de línguas. Várias adaptações foram necessárias para conseguir trabalhar naquele contexto.
Logo depois, ocorreram mudanças na instituição e passei a lecionar para os alunos dos últimos semestres: Letras IV, V e VI, sendo que, em Letras VI, eu não seria a professora de Língua Inglesa, mas sim a de Práticas Curriculares, mais conhecida em muitas instituições como Prática de Ensino.
Foi exatamente nessa época que percebi que algo deveria ser feito, pois pude notar que os alunos ainda não haviam internalizado a idéia de que estavam fazendo um curso de licenciatura, ou seja, de formação de professores.
Os alunos chegavam ao final do curso querendo sempre um conteúdo voltado para o ensino de gramática, com a elucidação de regras, aplicação e correção de exercícios, como se o ensino de uma língua fosse apenas isso. Dado o contexto de história de vida desses alunos, e todas as questões relacionadas ao papel do ensino na vida das pessoas, à forma como historicamente o ensino carrega práticas cristalizadas, eu conseguia entender o porquê do querer desses alunos: era uma concepção de currículo conteudista, em forma de receita, do mesmo jeito como haviam aprendido até então. Entretanto, dali para frente, eles seriam os agentes, os professores, aqueles que iriam ensinar. Eu entendia a necessidade, mas não sabia como operacionalizá-la. Segundo Aarão (2003), a sala de aula é um laboratório, sim, mas não existem fórmulas prontas; não é possível quantificar, mensurar e ditar padrões.
A primeira proposta de monitoria surgiu, então, no primeiro semestre de 2007, quando eu contava com três monitores, que atuavam em dias diferentes da semana, com turmas
distintas. Era difícil organizar os encontros, pois cada um, com sua agenda já repleta de compromissos, tinha aquele horário para a monitoria já como um “extra” em seu dia corrido, e nossos encontros e discussões ficavam muito prejudicados. É claro que o trabalho de monitoria acabava sendo prejudicado por vários fatores: feriados, falta dos alunos, semana de provas, entre outros.
Precisávamos determinar qual seria o formato da monitoria e o que trabalharíamos. Por meio de discussão de leituras feitas, eu e os monitores decidimos que o nosso foco estaria na noção de Gêneros e Temas Transversais4, em um trabalho voltado para a leitura. A monitoria se constituiria em um momento a mais de trabalho e discussão e, por que não, mais um espaço para pensar o ser professor. Observo que muitas dessas sugestões vinham da percepção que tinha das turmas, em minhas aulas, ou seja, percebia uma dificuldade no trabalho, relacionada aos assuntos que eles, futuros professores, deveriam também trabalhar com seus alunos. É claro que muito desse encaminhamento se deve à minha prática com o trabalho de Autoria de Material Didático e Formação Continuada de Professores, e à minha percepção, a cada palestra ou oficina, sobre as dificuldades apresentadas pelos participantes, relacionadas ao seu contexto profissional.
Nesse outro contexto, trabalho com professores em serviço, que atuam em escolas particulares e, há poucos anos, também em escolas públicas. Isso se deve ao fato de muitas prefeituras terem adotado, recentemente, sistemas de ensino para as escolas municipais. Além de trabalhar com questões de Língua Inglesa (material que escrevo), também faço palestras e oficinas sobre formação geral de professores. Como o sistema de ensino é vendido em todo o território nacional, tenho a oportunidade de conhecer realidades muito diferentes da minha.
Depois de um tempo trabalhando com os três monitores, percebemos a necessidade de trabalhar de maneira mais próxima e colaborativa e, por essa razão, o participante focal da pesquisa passou a ser Alexandre. A razão da escolha se deve ao fato desse aluno-monitor ter- se mostrado, ao longo do trabalho, mais empenhado e engajado nas atividades propostas.
Os dados referentes a esta pesquisa foram coletados ao longo do segundo semestre de 2007. Iniciamos com o chamado Primeiro Momento da pesquisa e nesse momento, o foco recaiu na criação do sistema de atividade monitoria. A coleta de dados desse momento se deu por meio de um questionário sobre o que é ser monitor e sobre o papel da monitoria
4 A transversalidade diz respeito à possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre
aprender na realidade e da realidade conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real e sua transformação (aprender na realidade e da realidade).”(Documento PCN TEMAS TRANSVERSAIS, p.30). Os temas são: ética, pluralidade cultural, orientação sexual, saúde, meio ambiente, trabalho e consumo.
(anexo 1). Tal questionário foi proposto com o propósito de entender quais eram os sentidos- e-significados iniciais atribuídos pelo aluno-monitor colaborador aos dois itens: ser monitor e papel da monitoria. Em seguida, foi realizado um encontro de formação para discutir as respostas dadas ao questionário (anexo 2). Nesse encontro de formação professora/monitor, discutimos a importância da elaboração de um questionário sobre Necessidades dos Alunos (anexo 3), pois nos permitiria conhecer melhor os alunos e determinar os próximos passos a seguir. Os resultados foram discutidos em outro encontro de formação (anexo 4).
A seguir, passamos ao Segundo Momento da pesquisa, denominado execução do
sistema de atividade monitoria. A coleta de dados se deu pela gravação dos encontros de
formação, nos quais foram discutidas as ações a serem realizadas em sala de aula, a escolha dos materiais a serem utilizados, a escolha dos conteúdos a serem abordados e a forma como abordá-los. Seis (6) encontros de formação foram selecionados (anexos 5,6,7,8,9 e 10). Por fim, foi realizado um Questionário Final para o aluno-monitor (anexo 11), finalizando nossa prática de monitoria e encontros de formação.
Passo, agora, à descrição dos participantes desta pesquisa.