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O CONTEXTO DE SITUAÇÃO e suas VARIÁVEIS : CAMPO , SINTONIA e MODO

DENDROGRAMA 7 – Agrupamento dos Textos com base em todos os Sistemas a partir dos

2.4 O CONTEXTO DE SITUAÇÃO e suas VARIÁVEIS : CAMPO , SINTONIA e MODO

De acordo com Halliday (1978, p. 141), “O SISTEMA [da língua] é POTENCIAL DE SIGNIFICADO, o qual é realizado na forma de TEXTO; um TEXTO, por sua vez, é uma INSTÂNCIA de SIGNIFICADO SOCIAL em um CONTEXTO DE SITUAÇÃO específico”3.

Para elucidar esta citação de Halliday (1978), é necessário, em primeiro lugar, retomar o pressuposto da Linguística Sistêmico-Funcional (LSF) de que é por meio da LÍNGUA que o ser humano constrói a realidade em que vive. Esse pressuposto se explica pelo fato de a LSF considerar que a realidade é construída pelo ser humano a partir de um conjunto de

SIGNIFICADOS EM POTENCIAL (MEANING POTENTIAL), os quais compõem diversos tipos de SISTEMAS

(SOCIAIS (SOCIAL), SEMÂNTICOS (SEMANTIC), GRAMATICAIS (GRAMMATICAL)), que se materializam, ou seja, são realizados por meio dos TEXTOS. A expressão de SIGNIFICADOS (MEANINGS) por meio dos

TEXTOS é motivada pelo CONTEXTO específico em que eles estão sendo produzidos e, por sua vez, os SIGNIFICADOS que são expressos através do TEXTO em um dado CONTEXTO geram impacto nos SISTEMAS a partir do qual esses SIGNIFICADOS foram “extraídos”, reafirmando ou alterando a configuração da totalidade de SIGNIFICADOS EM POTENCIAL que compõem esses SISTEMAS.

Uma vez que o TEXTO é a expressão dos SIGNIFICADOS EM POTENCIAL que compõem o SISTEMA

SOCIAL (SOCIAL SYSTEM) e que a seleção de quais destes SIGNIFICADOS serão expressos através do

TEXTO é circunscrita pelo CONTEXTO DE SITUAÇÃO específico em que o TEXTO está sendo produzido, é possível, de acordo com Halliday (1978, p. 142), estabelecer correspondências entre os elementos que caracterizam e compõem o CONTEXTO DE SITUAÇÃO e os diferentes tipos de SIGNIFICADOS que compõem o SISTEMA SEMÂNTICO (SEMANTIC SYSTEM), os quais são representados pelas três METAFUNÇÕES (METAFUNCTIONS): IDEACIONAL (IDEATIONAL) (SIGNIFICADOS EXPERIENCIAIS (EXPERIENTIAL MEANINGS) e LÓGICOS (LOGICAL MEANINGS)), INTERPESSOAL (INTERPERSONAL) (SIGNIFICADOS INTERPESSOAIS (INTERPERSONAL MEANINGS)) e TEXTUAL (TEXTUAL) (SIGNIFICADOS TEXTUAIS

(TEXTUAL MEANINGS)). Ainda segundo Halliday (1978, p. 142), essa relação é estabelecida por meio da identificação de quais fatores que caracterizam o CONTEXTO DE SITUAÇÃO são

3 Tradução minha de: “The system is a meaning potential, which is actualized in the form of text; a text is an instance of social meaning in a particular context of situation”.

responsáveis por “ativar” cada um desses tipos de SIGNIFICADOS. É importante ressaltar que, quando se refere à SITUAÇÃO (SITUATION), Halliday (1978) não está se referindo a uma SITUAÇÃO

única, específica, isolada de todas as outras, mas sim a um conjunto de SITUAÇÕES que possuem características semelhantes e, portanto, compõem o que o teórico denomina de

TIPO DE SITUAÇÃO (SITUATION TYPE).

Conforme descrito por Halliday (1978, p. 142-143), toda SITUAÇÃO é composta de três elementos: a AÇÃO SOCIAL (SOCIAL ACTION), a ESTRUTURA DE PAPÉIS (ROLE STRUCTURE) e a ORGANIZAÇÃO SIMBÓLICA (SYMBOLIC ORGANIZATION). A AÇÃO SOCIAL consiste, segundo o autor, em um conjunto de ações que se desenrolam simultaneamente e se organizam em uma configuração específica, sendo que o TEXTO sempre desempenha um papel nessa configuração e que ela está sempre associada a um determinado tópico (assunto). Já a ESTRUTURA DE PAPÉIS diz respeito ao conjunto de relações sociais estabelecidas entre os participantes da SITUAÇÃO, sejam aquelas determinadas pelas características dos participantes que independem dos papéis que cada um deles exerce na SITUAÇÃO em si, sejam aquelas que estão diretamente relacionadas aos papéis discursivos que cada um dos participantes ocupa naquela interação específica.

Finalmente, a ORGANIZAÇÃO SIMBÓLICA se relaciona à função exercida pelo TEXTO no que diz respeito à AÇÃO SOCIAL em jogo e à ESTRUTURA DE PAPÉIS representada/construída em dada

SITUAÇÃO, ao CANAL (CHANNEL)e ao MEIO (MEDIUM) por meio dos quais a informação está sendo transmitida e ao MODO RETÓRICO (RETHORICAL MODE) que caracteriza a argumentação.

À AÇÃO SOCIAL, Halliday (1978, p. 143) dá o nome de CAMPO (FIELD); à ESTRUTURA DE PAPÉIS, dá o nome de SINTONIA (TENOR); e a ORGANIZAÇÃO SIMBÓLICA, o autor chama de MODO (MODE). Esses três elementos compõem, portanto, o que o teórico denomina de CONTEXTO DE SITUAÇÃO

(CONTEXT OF SITUATION), sendo que cada um deles determina a seleção de tipos diferentes de

SIGNIFICADOS no SISTEMA SEMÂNTICO: o CAMPO normalmente está associado à ativação de

SIGNIFICADOS EXPERIENCIAIS (METAFUNÇÃO IDEACIONAL); a SINTONIA tipicamente determina a ativação de SIGNIFICADOS INTERPESSOAIS (METAFUNÇÃO INTERPESSOAL); e, finalmente, o MODO usualmente está associado à realização de SIGNIFICADOS TEXTUAIS (METAFUNÇÃO TEXTUAL). A esses três elementos –

CAMPO, SINTONIA e MODO – Halliday; Matthiessen (2014) dão o nome de VARIÁVEIS DO CONTEXTO DE SITUAÇÃO (VARIABLES OF THE CONTEXT OF SITUATION).

A VARIÁVEL CAMPO (FIELD) abrange dois aspectos da produção da LÍNGUA em dado CONTEXTO DE SITUAÇÃO: o DOMÍNIO EXPERIENCIAL (EXPERIENTIAL DOMAIN) e a ATIVIDADE SÓCIO-SEMIÓTICA (SOCIAL

-SEMIOTIC ACTIVITY). O DOMÍNIO EXPERIENCIAL diz respeito à parte de nossa experiência como seres humanos que é o tópico principal da fala em questão. Já a ATIVIDADE SÓCIO-SEMIÓTICA está relacionada à atividade em que os atores da situação de produção da LÍNGUA estão envolvidos (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 33).

Segundo Halliday; Matthiessen (2014, p. 35), as ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS estão divididas em dois principais tipos, aquelas relacionadas ao “fazer” e aquelas relacionadas ao “significar”, sendo que as ATIVIDADES relacionadas ao “significar” são separadas em subtipos. Ainda conforme descrito pelos autores (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 35-36), unindo-se essas duas grandes categorias de ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS –as de “fazer” e as de “significar” e seus subtipos –, pode-se afirmar que, prototipicamente, há oito tipos de ATIVIDADES SÓCIO

-SEMIÓTICAS possíveis de ocorrer nas interações entre seres humanos: FAZER (DOING), HABILITAR

(ENABLING), RECOMENDAR (RECOMMENDING), EXPLORAR (EXPLORING), EXPLICAR (EXPOUNDING), RELATAR (REPORTING), RECRIAR (RECREATING) e COMPARTILHAR (SHARING). Halliday; Matthiessen (2014, p. 35-36) descrevem cada um desses oito tipos de ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS, conforme apresentado a seguir:

FAZER: “a situação se constitui em alguma forma de comportamento social, envolvendo uma ou mais pessoas. A linguagem ou algum outro tipo de sistema semiótico, como gestos, olhares e expressões faciais, podem estar envolvidos, de modo a facilitar o desempenho da atividade, como nos casos em que a linguagem é utilizada para coordenar um grupo”4 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 35);

HABILITAR: “viabilizar algum tipo de atividade, seja instruindo pessoas sobre como realizá-la, seja regulando a atividade, por meio do controle do comportamento das pessoas envolvidas”5 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 36);

4 Tradução minha de: “the situation is constituted in some form of social behaviour, involving one or more persons. Language or other semiotic systems such as gesture, gaze and facial expression may be engaged to facilitate the performance of the activity, as when language is used to coordinate a team”.

5 Tradução minha de: “enabling some course of activity, either enabling the activity by instructing people in how to undertake it or regulating the activity by controlling people’s actions”.

RECOMENDAR:“recomendar algum tipo de atividade, ou em benefício do locutor, por meio da promoção de algum produto, ou em benefício do interlocutor, dando-lhe algum conselho”6 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 36);

EXPLORAR: “explorar valores e posições sociais, prototipicamente na esfera pública”7 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 36);

EXPLICAR:“expor conhecimentos sobre o mundo – sobre classes gerais de fenômenos, categorizando-os ou explicando-os”8 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 35);

RELATAR:“relatar determinados fenômenos, narrando o fluxo dos eventos, mapeando os espaços ou inventariando as entidades envolvidas”9 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 35);

RECRIAR:“recriar qualquer aspecto prototípico da vida humana de forma imaginativa, por meio da dramatização ou da narração dos eventos”10 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 36);

COMPARTILHAR: “compartilhar experiências e valores pessoais, prototipicamente na esfera privada”11 (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 36).

A partir das descrições dos oito tipos de ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS é possível perceber que, aumentando-se o nível de DELICADEZA (DELICACY),elas podem ainda ser subdivididas. Portanto, as oito principais ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS descritas por Halliday; Matthiessen (2014) são consideradas do tipo primário, as quais, em um nível maior de DELICADEZA (DELICACY), são subdivididas em tipos secundários de ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 33 e 36). Todas as ATIVIDADES SÓCIO-SEMIÓTICAS, tanto as de nível primário quanto as de nível secundário de DELICADEZA, estão relacionadas entre si, estando mais próximas em seus objetivos e características de umas do que de outras – conforme ilustrado pela FIGURA 4 a seguir:

6 Tradução minha de: “recommending some course of activity, either for the sake of the speaker through promotion of some commodity or for the sake of addressee through advice”.

7 Tradução minha de: “exploring societal values and positions, prototypically in the public arena”.

8 Tradução minha de: “expounding knowledge about the world – about general classes of phenomena,

11 Tradução minha de: “sharing personal experiences and values, prototypically in private”.

FIGURA 4 – Tipologia/Topologia de PROCESSOS SÓCIO-SEMIÓTICOS

Fonte: Adaptação de HALLIDAY; MATTHIESSEN (2014, p. 37) extraída de PAGANO (2015, p. 25).

Com relação à SINTONIA (TENOR), os aspectos a serem levados em consideração são os PAPÉIS INSTITUCIONAL (INSTITUTIONAL ROLE), SOCIAL (SOCIAL ROLE), DISCURSIVO (DISCOURSE ROLE)e SOCIOMÉTRICO

(SOCIOMETRIC ROLE) dos interlocutores envolvidos na interação, a DISTÂNCIA SOCIAL (CONTACT ROLE) existente entre eles e a VALORAÇÃO12 desses interlocutores em relação ao que está sendo dito, se neutra, positiva ou negativa. No que tange aos papéis exercidos pelos interlocutores, o

PAPEL INSTITUCIONAL diz respeito ao papel atribuído a cada um deles pela instituição a que está vinculada a SITUAÇÃO e seu CONTEXTO; o PAPEL SOCIAL diz respeito às relações de poder existentes entre os falantes no que tange a diversos aspectos, como expertise e classe social, por exemplo; o PAPEL DISCURSIVO é o papel criado pela LÍNGUA, para cada um dos falantes, por meio do sistema de troca de turnos; e, finalmente, o PAPEL SOCIOMÉTRICO diz respeito ao fato de o comportamento do falante em relação aos outros interlocutores, em uma situação de fala, ser cooperativo ou dissociativo (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 33; HALLIDAY, 1978, p. 9).

12 Tradução proposta por Pagano (2015) para o aspecto da sintonia que Halliday; Matthiessen (2014, p. 33) definem como “the values that the interactants imbue the domain with (either neutral or loaded, positively or negatively)”.

Por fim, a variável MODO (MODE) é caracterizada pelos seguintes aspectos: o MEIO (MEDIUM) pelo qual a linguagem está sendo produzida, se escrito ou falado; o CANAL (CHANNEL), se fônico, gráfico (ou eletrônico); o MODO RETÓRICO (RHETORICAL MODE), se argumentativo, descritivo, narrativo, instrucional etc.; a DIVISÃO DE TAREFAS13 entre a linguagem e outros

SISTEMAS SEMIÓTICOS (SEMIOTIC SYSTEMS), como a imagem e o som, por exemplo; a ORIENTAÇÃO

(ORIENTATION) da LÍNGUA, se está mais voltada para o CAMPO, ou seja, a explicação de um

DOMÍNIO EXPERIENCIAL (EXPERIENTIAL DOMAIN), ou para a SINTONIA – se tem por objetivo principal regular o comportamento social; e o TURNO (TURN) da interação, se é MONOLÓGICO (MONOLOGIC) ou DIALÓGICO (DIALOGIC) (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 33-34).

Por meio do CONTÍNUO DE INSTANCIAÇÃO e de tudo o que já foi descrito até este ponto sobre a visão da LÍNGUA a partir da teoria sistêmica, pode-se constatar que só é possível considerar os

TEXTOS como fazendo parte de um determinado TIPO DE TEXTO e como associados a um determinado CONTEXTO DE SITUAÇÃO por meio da descrição desses TEXTOS. Falta ainda, portanto, esclarecer de que forma é possível fazer a descrição de cada uma das INSTÂNCIAs que compõem o conjunto de um determinado TIPO DE TEXTO, sendo esse o tema do tópico que virá a seguir.

Com relação à pesquisa objeto do presente trabalho, o primeiro passo seguido para mapear o funcionamento de cada uma das INSTÂNCIAS que compõem o corpus analisado e a relação entre elas foi descrever o CONTEXTO DE SITUAÇÃO em que cada uma delas estava envolvida, caracterizando o CAMPO, a SINTONIA e o MODO de cada TEXTO e apontando as semelhanças e diferenças encontradas.

13 Tradução proposta por Pagano (2015) para o aspecto do modo que Halliday; Matthiessen (2014, p. 33) definem como “the division of labour between linguistic activities and other semiotic activities”.