• Nenhum resultado encontrado

Contexto do surgimento das Televisões Católicas

Vive-se na contemporaneidade a ditadura das novas racionalidades técnicas e da movimentação compulsória, ficando difícil prognosticar o futuro e recordar o passado. As novas tecnologias consolidam uma sociedade pós-industrial, midiática, uma nova etapa do capitalismo centrado na mídia. A sociedade é reestruturada, aparelhada, produzindo novos ambientes, que passam a ser configurados de acordo com determinados aspectos, denominados pelo comunicólogo alemão Harry Pross (1989) de

“ambientes midiáticos”. É um contexto marcado pela tirania das imagens e pela

submissão alienante ao império da mídia (DEBORD, 1997) no qual a religião se transformou em mercadoria de consumo ou bens de salvação, na feliz expressão de Pierre Bourdieu (2005), que cada um busca na medida dos seus gostos e das suas necessidades.

Neste cenário midiático, dentre os diversos meios, a televisão se destaca. Ela é o palco privilegiado dos espetáculos cotidianos. A TV se inseriu de tal modo na vida cotidiana, de modo que é impossível conceber algo sem a televisão, não dá para ignorá- la. Segundo Bucci (2004), no Brasil, a TV reina praticamente sozinha, sem rivais e é ela quem molda o espaço público nacional para os brasileiros. É ela quem faz a agenda nacional acontecer e se tornar realidade. Ela, a TV é o lugar em si, onde as coisas realmente acontecem, transformando o espaço público em espaço expandido, só que de acordo com seus interesses e critérios, constituindo e conformando este mesmo espaço. Desde a década de 60 é ela quem identifica o Brasil para os brasileiros. E não foi à toa que os militares a utilizaram para concretizar a chamada integração nacional (BUCCI, 2004, p. 30-32).

É dentro deste contexto comunicacional complexo que se discute a participação das Televisões Católicas. Que tipos de ambientes midiáticos são produzidos pelas

televisões católicas do Brasil? Como estes ambientes midiáticos influenciam na consolidação e expansão da Igreja Católica no país? Como o catolicismo via televisão, de interfaces plurais, interfere na constituição da cultura contemporânea? São algumas questões que se pretende suscitar para o debate e a reflexão.

A Igreja Católica, por ser a religião predominante no país, desde o início da colonização portuguesa, demorou a considerar a comunicação de massa como uma tarefa prioritária em um país de dimensões continentais. Caso contrário aconteceu com os evangélicos que foram os pioneiros com a experiência de Igreja Eletrônica no país, forçando a Igreja Católica a buscar mais espaços na televisão, demarcando território como estratégia para conter a evasão de fiéis (Cf. KLEIN, 2004, p. 136).

A Igreja Católica saiu atrasada no campo religioso da televisão no Brasil, como poderemos constatar nesse percurso histórico do surgimento de suas televisões, com seus respectivos perfis. Acontece no Brasil um processo único e com consequências significativas, não apenas para o setor de comunicações. Trata-se do crescimento da participação das Igrejas, tanto no rádio, como na televisão. Na Televisão, a tendência de expansão foi iniciada na década de 90, tendo como marco a compra da TV Record de um lado, emissora que pertencia ao Grupo Sílvio Santos, pela Igreja Universal do Reino de Deus (1989),15 e por outro, a entrada no cenário televisivo da Rede Vida de Televisão (1995), emissora ligada à Igreja Católica.

“(...) A Igreja Católica, após longo marasmo, conscientizou-se da necessidade de utilizar os espaços dos grandes meios para veicular sua mensagem. (...) A Igreja Católica esteve presente nos meios de comunicação através das missas dominicais. Porém, a investida dos pentecostais acelerou a concorrência e gerou internamente um enorme movimento na busca de caminhos de uma presença católica nos meios de comunicação de massa. (...) A partir de iniciativas e da compre da Rede Record pela IURD, a Igreja Católica se viu na berlinda. Era evidente seu atraso no que se referia a uma presença mais contundente nos meios de comunicação” (DIAS, 2001, p. 27).

15 Em 1989 a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) fez o investimento mais audacioso em mídia no

Brasil, fazendo muito barulho na aquisição da Rede Record de televisão pelo valor de 45 milhões de dólares. O fato de abocanhar uma rede nacional de televisão para fazer expandir o seu empreendimento pentecostal incomodou as principais emissoras concorrentes, entre elas, a Rede Globo de televisão, que passou a colocar no ar uma série de reportagens em 1990 sobre os conglomerados evangélicos que exploravam a fé das pessoas, objetivando extorquir dinheiro delas. Logo após a compra da Record, a IURD investiu pesado na compra de novas emissoras e na modernização dos seus equipamentos, algo em torno de 30 milhões de dólares. No ano de 2004 ela já contava com 67 emissoras de televisão (afiliadas e próprias).

Atraso esse, também confirmado pelo Pe. Antônio Maria (um dos padres cantores, também padre midiático, muito presente nas atuais televisões de inspiração católica, geralmente como convidado especial) em depoimento a Arlindo Pereira Dias:

“A Igreja demorou a entrar na televisão, ‘dormiu em berço esplêndido’. Aquela ideia de que nós somos os ‘donos do pedaço’, ‘Brasil católico’, ‘maior país católico do mundo’, ‘Arquidiocese de São Paulo é a maior diocese do mundo’, tudo é maior aqui no Brasil, o sono também foi maior.

Dormimos sim, É uma pena que isso aconteceu” (Apud DIAS, 2001, p. 27).16

O que fez a Igreja Católica acordar para a urgência da sua presença na televisão, foi, sobretudo, o avanço pentecostal, que a pressionou a buscar mais espaço nesse meio, demarcando também o seu território, como estratégia para conter a evasão de fiéis. Daí foram surgindo as atuais televisões de inspiração católicas, a Canção Nova (1989), a Rede Vida (1995), a TV Horizonte (1998), a TV Século 21 (1999). Como constatamos, a TV Canção Nova, uma TV carismática, foi a pioneira, abrindo caminhos para as demais, mesmo que nos seus primórdios ainda sem a abrangência nacional.

Porque a Igreja Católica no Brasil demorou a se fazer presente com sua ação evangelizadora através da Televisão? Segundo José Marques de Mello, seriam três os principais motivos para a inércia da Igreja Católica: um primeiro motivo seria o de os bispos desconhecerem o potencial de alcance do poder da televisão. É uma mídia com um forte capital social de mobilização; um segundo motivo seria a falta de recursos e de pessoal profissional capacitado, juntamente com a falta de investimentos no campo comunicacional, para fazer alavancar o processo e, um último motivo seriam as diferentes posições do episcopado em relação ao uso dos meios tecnológicos, que, segundo Gomes (2010, p. 52) podem ser classificadas em três tendências: uma que dá ênfase no conteúdo, outra que dá ênfase no resultado e uma terceira que dá ênfase no processo. São posições distintas e antagônicas e coexistem até hoje, posturas que refletem um episcopado muito heterogêneo na sua composição e uma igreja católica que assumiu a sua identidade plural.

A Igreja Católica possui uma longa tradição de experiências na imprensa e no rádio. Só para termos uma ideia, no Brasil ela possui em torno de 211 emissoras espalhadas pelo país, entre rádios AM e FM, Ondas Curtas e Ondas Tropicais e a maioria delas também já está na internet. Em relação à televisão brasileira, a presença católica se resumia às missas católicas e a raros padres cantores. Algumas experiências

foram realizadas com a Difusora de Porto Alegre e a TV Pato Branco no Paraná até finalmente se decidir investir numa rede de televisão de alcance nacional como forma de reação ao avanço pentecostal. Mas antes da mobilização e articulação pela Rede Vida de Televisão, capitaneada pelo Jornalista Monteiro e dois bispos influentes na CNBB, Dom Luciano e Dom Antônio, a rede católica que tomou frente e impulsionou as demais foi a Rede Canção Nova de Televisão, inaugurada em 1989.

Nesse primeiro momento, analisa-se os ambientes midiáticos que o catolicismo produz, com sua ida para a mídia televisiva. Num segundo momento, enfoca-se os ambientes sacralizados pela mídia, com a presença do catolicismo nela.