CAPÍTULO I – A ESTRUTURA AGRÁRIA E FUNDIÁRIA DO SUDOESTE
1.4 O Sudoeste do Paraná e os levantes de outubro de 1957
1.4.2 Contexto dos levantes de outubro de 1957
O movimento de 1957 aconteceu entre colonos – conforme mencionado, em sua grande maioria, migrantes do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e de outras regiões do Paraná – e companhias colonizadoras, sendo que estas se diziam detentoras das terras ocupadas por aqueles. O incentivo à migração para este espaço aconteceu justamente com a criação da CANGO, Colônia agrícola estabelecida pelo governo de Getúlio Vargas, junto ao programa político governamental denominado “Marcha para o Oeste”. Este com o objetivo de ocupar novas fronteiras agrícolas no lado Oeste do Brasil, incentivava a migração para regiões pouco exploradas, como o caso do Sudoeste paranaense.
Porém, esses colonos, ao chegarem à região, encontraram um contexto peculiar de indefinição jurídica da terra, um problema que vinha desde o início do século XX e que envolvia o estado do Paraná, a União e os interesses particulares, impedindo a titulação das terras.
Na década de 1940 e 50, essa indefinição, que envolvia as Glebas Missões e parte da gleba Chopim, em uma extensão territorial de 4.257.100.000m² para a primeira gleba e 715.080.142m² para a segunda, vai ganhar novos e significativos capítulos.76 Isso porque é eleito governador do estado do Paraná Moysés Lupion, que, em vista de seus interesses particulares ou de seu grupo, o “Grupo Lupion”, decide “colonizar” as terras em questão cobrando-as dos colonos.
76 A definição de Gleba pode ser indicada como uma porção de terra que não esteja devidamente
legalizada pelo Estado. Nestes termos, a gleba rural consiste em subdivisões de parte ou frações de terra de um determinado território. No caso do Sudoeste do Paraná, conforme fica evidente, existiam inúmeras indefinições jurídicas em relação às glebas Missões e Chopim.
Figura/Mapa 2: Área em litígio que resultou na Revolta em 1957. Fonte: Acervo da Prefeitura
Municipal de Francisco Beltrão.
Assim, com o respaldo do governador do estado do Paraná, é instalada no ano de 1951 a companhia Clevelândia Industrial e Territorial Ltda - CITLA, posteriormente, em 1955 são instaladas suas subsidiárias Apucarana e Comercial. Essas empresas se diziam detentoras das terras ocupadas pelos colonos e, assim, efetuavam a cobrança delas pela segunda vez, considerando que muitos já haviam pagado pela fração de terra quando chegaram à região. Essa cobrança, inicialmente, no primeiro mandato de Lupion à frente do governo do estado do Paraná, acontece por meio de corretores. Porém, ao perceber que muitos agricultores resistiam justamente em vista da indefinição jurídica, Lupion procura estabelecer outra estratégia.
Nas eleições para o governo do estado do Paraná de 1955, justamente com o discurso de legalização das terras, Lupion novamente foi eleito governador. Entretanto, a cobrança dos colonos passa a ser diferente. Assim, de forma violenta, por meio de jagunços, acontecem inúmeros episódios em que colonos são mortos ou ameaçados com o respaldo do governo do estado e das agências governamentais locais (prefeitos, juízes, delegados, polícia).
Essa conjuntura conduz os colonos a se organizarem, mediados pelas emissoras de rádio de Francisco Beltrão e Pato Branco, movimento cujo auge se deu nos dias 9,
10, 11 e 12 de outubro de 1957, nas cidades mais importantes da época: Pato Branco,
Francisco Beltrão, Capanema e Santo Antônio do Sudoeste.77
Após os levantes – com a ocupação dessas cidades pelos colonos –, as companhias são expulsas e os colonos conseguem a legalização da terra a partir da década de 1960, com a criação do Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do
Paraná - GETSOP,78 o qual encerra suas atividades na década de 70.79
Iria Zanoni Gomes salienta em seu trabalho que a questão da posse da terra nessa região é resultado da “política de concessões de grandes lotes de terras”, que desde o Império foi uma forma de pagamento “aos trabalhos realizados por empresas construtoras de ferrovias”.
Tais concessões foram feitas por D. Pedro II em 1889, por meio do Decreto n.º 10.432, que concedia “ao engenheiro João Teixeira Soares uma área de terras devolutas e nacionais equivalente a 9 km para cada lado da linha, na extensão total das estradas construídas, em troca da construção da estrada de ferro Itararé-Uruguay e dois ramais”.80
Assim, com o fim do Império e o advento da República:
O governo provisório da República, através do Decreto n. 305, de 7 de abril de 1890, manteve, com algumas alterações, o Decreto Imperial. Em seguida, em 1891, essas concessões foram transferidas para a Companhia União Industrial e, em 6 de maio de 1893, pelo Decreto n.1.386, para a companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, do grupo Brasil Railway Company. Foi essa companhia quem realmente construiu a Estrada de ferro Itararé- Uruguay e o ramal Jaguariaíva (Paraná) – Ourinhos (São Paulo), bem como recebeu parte das terras concedidas, ficando um resto para receber posteriormente.81
A partir desta conjuntura coube ao “Estado do Paraná a demarcação e titulação das áreas concedidas”, todavia, ainda restavam dúvidas quanto ao direito da Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande (CEFSPRG). Assim, o Ministério da Viação: “em maio de 1908, julgou procedente o direito da Companhia e, em setembro de 1917, ao se lavrar, entre ela e o Estado do Paraná, o contrato para a construção do ramal
Guarapuava, o Governo do Paraná reconhece o direito da São Paulo-Rio Grande”.82
77 GOMES, Iria Zanoni. 1957: A Revolta dos Posseiros. Curitiba: Criar Edições, 2005.
78 O GETSOP foi criado por Jânio Quadros em 1961, como resposta a uma promessa de campanha,
comprometia legalizar a posse da terra do Sudoeste paranaense. Assim, institui este órgão única e exclusivamente para resolver o litígio da terra nesta região, tanto é que, depois de compridas suas funções, já na década de 1970, o GETSOP é extinto em janeiro de 1974.
79 GOMES, op. cit. 80 Id. Ibid. p. 29. 81 Id. Ibid. p. 29. 82
Em relação a essa situação, o historiador Hermógenes Lazier nos apresenta alguns elementos sobre as transações que envolveram o estado do Paraná e a referida Companhia:
O Governo do Estado do Paraná assinou contratos com a CEFSPRG para a construção de estradas de ferro e já começou a titular terras à referida companhia. Em 17 de julho de 1913 o Presidente do Paraná, Carlos Cavalcanti de Albuquerque, titulou a gleba Chopim com a área de 715.080.141m². Mais tarde, em 1 de outubro de 1920, o Presidente do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha, titulou para a mesma companhia a gleba Missões, com a área de 4.257.100.000m². O território das glebas Missões e Chopin representa quase todo o atual Sudoeste do Paraná. Portanto, quase toda a região foi titulada para a mesma companhia.83
Lazier salienta ainda que essa mesma companhia também recebeu “títulos de terras” em outras regiões do Paraná, como pagamento pela construção de estradas de ferro. Outras glebas que foram concedidas à Companhia São Paulo-Rio Grande foram:
Santa Maria, Silva Jardim e Riosinho.84 É importante ressaltar que não foram somente
as Glebas Missões e Chopim no Sudoeste do Paraná que resultaram em conflitos sociais pela posse da terra. A gleba Silva Jardim, no atual município de Serranópolis do Iguaçu- PR, também teve conflitos sociais em decorrência destas titulações.
A etapa seguinte da questão jurídica da terra no Sudoeste do Paraná acontece na década de 1930, quando o Interventor Mário Tourinho decidiu analisar as concessões de terras feitas para a Companhia São Paulo-Rio Grande. Assim, ao perceber “irregularidades”, como o não “cumprimento do contrato”, decidiu através dos Decretos n.º 300 e n.º 29, anular algumas concessões dadas para essa companhia, dentre essas “estavam as glebas Missões e Chopim”, medida que fez as terras do Sudoeste do Paraná
voltarem a ser de domínio público.85
Insatisfeita com essa decisão, a companhia decide entrar na Justiça contra o estado do Paraná, o que acarreta novas pendências judiciais sobre essa fração de terra. Isso porque, em 1940, através dos Decretos-Leis n.º 2.073 e 2.436 é incorporada ao patrimônio da União à Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande e a Brasil Railway. Assim, neste momento, o Governo Federal também passou a reivindicar as terras do Sudoeste do Paraná, já que mesmo estando anuladas as concessões da
83 LAZIER, Hermógenes. Análise Histórica da Posse de Terra no Sudoeste Paranaense. 3. ed., Francisco
Beltrão: GRAFIT Gráfica e Editora Ltda, 1998. p. 25.
84 Para maiores esclarecimentos sobre a localização destas glebas no estado do Paraná, ver:
WESTPHALEN, Cecília Maria. História documental do Paraná: primórdios da colonização moderna da
Região de Itaipu. Curitiba: SBPH-Pr, 1987. 85
Companhia (CEFSPRG), ela recorria judicialmente e ainda se considerava detentora daquelas terras, que com estes decretos passaram a ser da União.
Essa ação do Governo Federal é justificada por considerar que a empresa devia aos cofres públicos mais de “três milhões de libras que recebera a título de adiantamento para ser deduzida de sua receita bruta”. Além disso, o governo concluiu que o
patrimônio da empresa foi construído com “recursos sonegados dos cofres públicos”.86
Sobre essa conjuntura Gomes destaca os seguintes aspectos:
A incorporação, portanto, significou uma desapropriação em pagamento, utilizada pelo Governo para a defesa do decoro e do erário públicos. [...] E, para administrar os bens incorporados, o Governo Federal criou a SEIPN – Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional. Como, pela incorporação, as terras situadas no Estado do Paraná e Santa Catarina, pertencentes à companhia, passaram ao domínio da União, as glebas Missões e Chopim, que faziam parte do patrimônio da mesma passaram a ser administras pela Superintendência.87
Tal conjuntura indica para a questão jurídica da terra envolvendo basicamente a CEFSPRG, o Estado do Paraná e a União, assim, com a incorporação dos bens da companhia pela União, o litígio que envolvia as Glebas Missões e Chopim parecia estar resolvido. O Governo Federal não só considerou isso, como criou a Colônia Agrícola Nacional General Osório – CANGO, com a intenção de ocupar esse espaço e expandir a fronteira agrícola brasileira.
Todavia, a questão jurídica da terra estava longe de ser resolvida, isso porque quem também tinha interesses nessas glebas era José Rupp, que obteve no final do século XIX, junto ao Governo de Santa Catarina, um contrato de “terras consideradas devolutas, para explorar ervais e matas”. Entretanto, naquele mesmo período, essas mesmas terras também pertenciam a CEFSPRG, que agiu judicialmente para manter sua posse. Assim, em um primeiro momento, ao ganhar judicialmente a manutenção de sua
posse, a Companhia “apreendeu erva-mate e madeira” de Rupp.88
Mas tarde, quando as concessões da CEFSPRG foram cassadas, Rupp decidiu contestar a companhia judicialmente, pedindo a indenização dos bens – madeira e erva- mate – que haviam sido retirados. Foi através destas ações que Rupp consegue a
86 GOMES, Iria Zanoni. 1957: A Revolta dos Posseiros. Curitiba: Criar Edições, 2005. p. 32. 87 Id. Ibid. p. 33.
88
penhora de várias glebas que pertenciam a CEFSPRG, dentre estas estavam a Missões e
Chopim que em 1940 já haviam sido incorporadas ao patrimônio público da União.89
A União Federal ao reconhecer essa situação “ofereceu embargos de terceiro senhor e possuidor, alegando, entre outros fundamentos o da impenhorabilidade daquelas glebas, por constituírem propriedade sua”.90
Por outro lado, Gomes destaca que Rupp tentou várias vezes “de forma amigável” receber em terras o pagamento de sua indenização, tendo seus pedidos sempre indeferidos tanto pela Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional, quanto pelo ministro da Fazenda.
Dado este contexto, José Rupp em junho de 1950 vende seus direitos a Clevelândia Industrial e Territorial Ltda (CITLA), que “fazia parte do Grupo de Moysés Lupion”, que além da CITLA também era composto pelas empresas: M. Lupion e Cia; Mineração de Carvão Norte do Paraná, Indústrias Brasileiras de Papel e Serrarias Reunidas Santisi.91
O que chama mais atenção após essa transação é que em novembro de 1950, pouco mais de quatro meses após Rupp vender seus direitos a CITLA, ela não só consegue resolver seu litígio junto ao Governo Federal, mas também com condições favoráveis para seus empreendimentos na região. Conforme elenca Gomes:
Com a mudança do credor mudaram também as regras do jogo. Num passe de mágica, o que era ilegal passou a ser legítimo. Aquilo que em constantes petições havia sido indeferido, passou a ser deferido. A mesma Superintendência, que negara acordo em 1 de julho de 1950, quatro meses após, não só aceita o pedido anterior, a titulação da Gleba Missões, como titula também parte da Gleba Chopim.92
Conforme notamos, a transação foi realizada com a clara intenção de beneficiar a companhia CITLA, assim, a “escritura de dação em pagamento, assinada em 17 de novembro de 1950, abrangeu uma área de 198.000 alqueires, incluindo a faixa de
fronteira com a Argentina”.93
Cabe salientar também que nessa mesma área já atuava a CANGO, tendo registrado mais de 3.000 famílias, ou seja, a ilegal ação da CITLA na região teve consequentemente que bater de frente com a CANGO, que já estava instalada naquele espaço, dando suporte e orientação técnica aos colonos.
89 Id. Ibid. p. 34. 90 Id. Ibid. p. 35. 91 Id. Ibid. p. 35. 92 Id. Ibid. p. 35. 93 Id. Ibid. p. 35, 36.
Assim, em seguida no ano de 1951, a CITLA instala-se na região, todavia, teve pouco tempo para desenvolver suas atividades, já que Bento Munhoz da Rocha, que governou o Paraná de 1951-1955 “julgando conveniente que se aguardasse a decisão judicial sobre a escritura de dação em pagamento, a favor da CITLA”, proibiu o recolhimento das “Sisas”, imposto de transmissão imobiliária de qualquer transação que
envolve terras dentro das glebas Missões e Chopim.94
Essas ações de Bento Munhoz da Rocha provisoriamente minaram as intenções da CITLA, que já tinha começado a comercializar terras e cobrar aqueles colonos que supostamente estavam devendo suas terras. Por outro lado, Wachowicz destaca que Mário Fontana sócio majoritário e gerente da CITLA queixava-se dessa decisão, ao mesmo tempo em que aguardava uma reviravolta política no governo do estado.
Wachowicz salienta que mesmo a CITLA não podendo fazer movimentações de registro de propriedades continuou atuando na região, com escritórios funcionando em Francisco Beltrão e Santo Antônio do Sudoeste, além disso, “quando ganhava qualquer questão meramente processual, na justiça, fazia o maior estardalhaço”, distribuindo jornais e fazendo churrascos alegando vitória judicial.95
A mudança tão esperada pela CITLA ocorre quando Moysés Lupion, que também era acionista da mesma, sobe ao poder frente ao governo do estado do Paraná no ano de 1955. Wachowicz destaca que:
O governador Lupion, agora em seu segundo mandato, fez revogar a portaria 419, de 2 de junho de 1953, do Secretário da Fazenda. Desta forma, ignoraram-se todos os problemas jurídicos que existiam na gleba Missões e a CITLA, com a Sisa do governo do Estado, poderia vender e fornecer livremente a escritura, para aqueles que comprassem terras na gleba Missões.96
A partir de então, com o respaldo do governo do estado, a CITLA começa a atuar livremente, organizando esta atuação através de duas subsidiárias: a Companhia Comercial e Agrícola Paraná Ltda, que atuava na região de Verê e Dois Vizinhos, enquanto a Apucarana na região de fronteira com a Argentina, basicamente em Capanema e Santo Antonio do Sudoeste. Por outro lado, a CITLA ficou com sua atenção voltada para a sede de Francisco Beltrão.
94 Id. Ibid. p. 39.
95 WACHOWICZ, Ruy Christovam. Paraná, Sudoeste: ocupação e colonização. 2. ed., Curitiba: Lítero-
Técnica, 1985. p. 192.
96
É importante ressaltar que o avanço das companhias a partir de 1955 acontece, sobretudo, por meio dos chamados jagunços – muitos destes eram foragidos da justiça, outros foram recrutados justamente pela fama de serem cruéis e não possuírem pudor em relação aos serviços que lhes eram solicitados. Estes indivíduos contratados para a cobrança da terra dos colonos marcam o início das ações violentas na região, isso porque até 1955 a atuação da CITLA era mais propagandista e por meio de corretores de imóveis, porém ao perceber a resistência dos colonos em pagar a terra, decide inserir na região a figura do jagunço.
Outra questão que também deve ser considerada é a conflitualidade de interesses que se apresentavam, isso porque, não só as companhias CITLA, Apucarana e Comercial tinham projetos para a região, mas também a CANGO, que já atuava a mais de 10 anos e via com o avanço das companhias colonizadoras seu projeto para os agricultores ruir.
Com a intensificação da cobrança, também se intensificou a resistência e isso ocorreu tanto no meio social quanto no político. Exemplo disso foi a organização empreendida pelo vereador Pedro José da Silva, que representava o distrito de Verê na câmara municipal de Pato Branco. Este vereador decidiu reunir assinaturas dos colonos com a intenção de apresentá-las ao governo federal em forma de denúncia contra as atrocidades que vinham sendo cometidas pelas companhias colonizadoras.
Entretanto, Pedrinho Barbeiro, como era conhecido o vereador, não teve tempo de apresentar seu documento ao governo federal, no dia 21 de maio de 1957 bateram a sua casa alguns jagunços interessados em negócios com o vereador, que não teve tempo de esboçar qualquer reação, sendo assassinado pelos jagunços da companhia Comercial. Este e inúmeros outros casos similares fizeram com que os colonos buscassem uma organização para resistir. Uma dessas ações foi empreendida no dia 2 de agosto de 1957, também no distrito de Verê, colonos decidiram empreender uma ação armada contra o escritório da companhia Comercial existente naquela localidade.
Nesta ação, mais dois colonos foram mortos, por outro lado, os jagunços partiram em direção a Francisco Beltrão carregando em seus jipes alguns mortos e feridos. Gomes destaca que a situação de tensão que existia na região fez inúmeras vítimas e salienta que Othon Mäder fez um levantamento “das atrocidades cometidas na região, conseguindo documentar, com provas, 14 mortos, 2 desaparecidos, e 47 vítimas de espancamentos, sevícias, mutilações, estupros, assaltos, saques, incêndios” e extorsões, todas essas vítimas foram resultado das ações violentas empreendidas pelas
companhias que se diziam colonizadoras e que tinham o total respaldo do governo do
estado e do seu governador Moysés Lupion.97
A partir dessa conjuntura os posseiros da região ampliaram sua organização em diferentes formas de resistência contra as companhias colonizadoras. Uma dessas foi o apoio de alguns radialistas da região, das rádios colmeia de Francisco Beltrão e Pato Branco, que alertavam os colonos sobre a ilegalidade das companhias e também ajudavam a organizá-los.
Hermógenes Lazier destaca da seguinte maneira este contexto:
Os posseiros e os habitantes da região foram ampliando sua organização e suas lutas. Finalmente venceram. Tomaram os municípios de Capanema, Barracão, Santo Antônio, Pato Branco e Francisco Beltrão. A conquista de Francisco Beltrão, no dia 10/10/1957, foi o ápice da luta, pois nesta cidade funcionavam os escritórios sedes da CITLA e da Comercial. Era o quartel- general dos jagunços.
Dia 11 de outubro de 1957 começou a depredação dos escritórios das companhias. Tudo foi jogado para a rua, principalmente as notas promissórias. Foi um acontecimento marcante e uma grande festa para os posseiros.98
A tomada da sede dos principais núcleos urbanos na época marca a vitória dos colonos. É importante ressaltar que a ação dos colonos em Francisco Beltrão foi executada sem que ocorresse confronto bélico aberto com os jagunços, já que os mesmos foram retirados da região após o levante. Isso contribuiu para que os levantes, apesar de acontecerem em um contexto de grande tensão social, com jagunços e colonos fortemente armados, ocorressem sem confronto direto entre as partes.
Iria Zanoni Gomes salienta que o movimento de 1957 não se encerra neste momento, mas, sim, somente após a conquista do título de propriedade da terra a partir de 1962 com a criação do GETSOP. Assim, em sua opinião, o movimento de 1957 tinha dois objetivos, “primeiro a expulsão das companhias de terra” e em seguida “a conquista do título de propriedade”.99
Além disso, cabe considerar que a luta dos colonos somente foi empreendida por não perceberem outra solução senão por meio da resistência frente às companhias colonizadoras. Ao mesmo tempo, a atuação dos colonos foi realizada por terem consciência que a ação das companhias era ilegal e que a conjuntura política, o respaldo
97 GOMES, Iria Zanoni. 1957: A Revolta dos Posseiros. Curitiba: Criar Edições, 2005. p. 63.
98 LAZIER, Hermógenes. Análise Histórica da Posse de Terra no Sudoeste Paranaense. 3. ed., Francisco
Beltrão: GRAFIT Gráfica e Editora Ltda, 1998. p. 59.
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do governador Lupion, facilitava a atuação das mesmas. Assim, foi de extrema importância a oposição política que constantemente alertou os colonos sobre a ilegalidade das companhias colonizadoras.