O Brasil é um país de dimensões continentais, dessa forma, a partir da análise dos dados coletados depreende-se que não é possível caracterizar o contexto nacional de forma generalizada como se este fosse capaz de representar diferentes contextos locais tão multifacetados. Assim sendo, antes de partir para a apresentação da oferta de EI no país, julgou-se pertinente proceder uma breve contextualização acerca dos municípios brasileiros, a partir de alguns indicadores demográficos e populacionais, evidenciando intensas assimetrias.
Cumpre esclarecer que a maioria dos indicadores apresentados neste subitem (porte populacional, taxa de urbanização, renda per capita e IDHM) são referentes a 2010, pois os dados censitários que lhes servem de base são coletados decenalmente. Por não haver outra fonte mais atualizada disponível, optou-se por utilizar estes indicadores, entretanto, cabe reconhecer que podem ter ocorrido mudanças nos cenários municipais nos últimos anos, todavia, entendemos ser de grande relevância apresentar tais aspectos, ainda que com ressalvas, pois eles podem auxiliar na compreensão do fenômeno, a fim de caracterizar o cenário da pesquisa, permeado por desigualdades inter/intra estaduais e regionais.
No ano de 2010 a população brasileira era de 190.587.786 habitantes, os quais se distribuíam percentualmente nas regiões da seguinte forma: 8% no Norte, 28% no Nordeste, 8% no Centro-Oeste, 42% no Sudeste e 14% no Sul. Deste total, 16.711.770, ou seja, 8,8% do total, eram crianças na faixa etária correspondente à EI, estando 11% no Norte, 31% no Nordeste, 8% no Centro-Oeste, 37% no Sudeste e 13% no Sul.
A projeção da população brasileira em 2017 (IBGE) foi de 207.660.929 habitantes, dos quais, conforme levantamento realizado pelo INEP (2020), 15.738.119 (7,6%) estariam na faixa etária de 0 a 5 anos, distribuídos desta maneira: 11% no Norte, 29% no Nordeste, 8%
no Centro-Oeste, 38% no Sudeste e 14% no Sul. A única região que apresenta crescimento populacional na referida faixa etária foi a Sul, crescendo de 2.140.887 para 2.142.170 (0,1%), todas as demais apresentam decréscimo, cuja taxa de 2010 a 2017 foi de -11,5% no Nordeste, -7,9% no Norte, -4,0% no Sudeste e -0,4% no Centro-Oeste.
Em relação ao perfil demográfico dos municípios brasileiros, ao discutir a divisão de responsabilidades entre os entes federados na oferta de EB no país, Pinto (2012, p. 159) crescer”, isto porque, no mesmo estudo, constatou-se que 57% dos municípios brasileiros não possuíam uma secretaria de educação exclusiva, chegando a 71% nos municípios com até 5 mil habitantes.
Neste estudo, a população censitária foi organizada em sete portes populacionais, constante na Tabela 3, considerando as mesmas faixas organizadas no estudo de Pinto (2012).
(conclusão)
FONTE: IBGE, Censo Demográfico (2010). Dados tabulados pela autora (2020).
Corroborando com os estudos de Pinto (2012), em 2010 evidencia-se que 70,4%
(3.914) dos municípios brasileiros tinham até 20 mil habitantes e apenas 5,1% (283) tinham mais de 100 mil, sendo que destes últimos quase a metade (139) se encontra na região mais populosa do país, o Sudeste, especialmente em SP. Aqueles que possuíam até 10 mil habitantes se concentram proporcionalmente por região da seguinte forma: Sul (59,4%), Centro-Oeste (53%), Sudeste (47,3%), Norte (37,2%) e Nordeste (33,6%). Os menores
Brasil 1.301 23,4 1.212 21,8 1.401 25,2 1.043 18,7 325 5,8 245 4,4 38 0,7 5.565
Até 5000
dos municípios do Sul, 30,7% do Centro-Oeste, 23,9% do Sudeste, 19,2% do Norte e 13,4%
do Nordeste.
Outro indicador demográfico considerado neste estudo é a taxa de urbanização18, a qual evidencia que o país possui um perfil eminentemente urbano; em 2010 o Brasil apresentava taxa de urbanização de 84,4%. Em relação às regiões: o Nordeste possuía a menor taxa, de 73,1%; seguida pela Norte, com 73,7%; Sul, com 84,9%; Centro-Oeste, com 88,8%; e Sudeste, com 92,9%.
Na Tabela 4 é possível observar a taxa de urbanização nos 5.565 municípios brasileiros em 2010. Os dados desagregados ratificam a elevada urbanização nacional, haja vista que há apenas 130 (2,3%) municípios com taxa de 0 a 20%, dos quais a maioria se concentra no Nordeste (60) e no Sul (50), já em relação a entes estaduais nesta faixa destaca-se o RS (35).
TABELA 4 - TAXA DE URBANIZAÇÃO POR MUNICÍPIO POR FAIXA (BRASIL, 2010)
18 A taxa de urbanização foi obtida a partir da divisão da população urbana pela população total e o resultado foi
multiplicado por cem. Esta taxa permite mensurar a porcentagem de habitantes que residem em áreas urbanas em relação ao total da população.
Nordeste 60 3,3 401 22,4 637 35,5 493 27,5 203 11,3 1.794
AL 5 4,9 23 22,5 28 27,5 27 26,5 19 18,6 102
FONTE: IBGE, Censo Demográfico (2010). Dados tabulados pela autora (2020).
O Sudeste se destaca como a região com maior quantidade de municípios na faixa de 81% a 100% de taxa de urbanização, tanto absoluta (770) quanto percentualmente (46,2%), com destaque para RJ e SP, nos quais mais de 90% dos municípios estão na faixa de 61% a 100%; nesta mesma faixa encontram-se 76% (354) dos municípios do Centro-Oeste e 50,9%
(605) do Sul. E por fim, a faixa de 41% a 80% é a mais significativa no Nordeste com 63%
(1.130) e Norte com 65,3% (293) dos seus municípios.
Ao caracterizar as regiões brasileiras, faz-se necessário mencionar as desigualdades existentes, conforme o Atlas da Exclusão Social no Brasil, que apresenta um estudo realizado a partir do Índice de Exclusão Social (IES)19 referente ao ano de 2010, evidencia-se que em pleno século XXI ainda predomina uma intensa desigualdade social no país, haja vista que “os maiores graus de exclusão social estão localizados nas regiões Norte e Nordeste, enquanto as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste mantêm níveis mais elevados de qualidade de vida ou, pelo menos, de serviços disponíveis à população” (GUERRA; POCHMANN; SILVA, 2014, p. 86).
19 O Índice de Exclusão Social (IES) sintetiza três dimensões: vida digna, conhecimento e vulnerabilidade juvenil, a partir de sete variáveis. Varia entre 0 e 1, quanto mais próximo de zero, pior é a situação e maior é o grau de exclusão social. São considerados como municípios de alto grau de exclusão social aqueles que apresentam índice igual ou inferior a 0,45 (GUERRA; POCHMANN; SILVA, 2014).
Região
Sudeste 3 0,2 115 6,9 281 16,8 499 29,9 770 46,2 1.668
MG 3 0,4 88 10,3 214 25,1 297 34,8 251 29,4 853
Brasil 130 2,3 881 15,8 1.447 26,0 1.592 28,6 1.515 27,2 5.565
% Total
O Norte corresponde a 45% do território brasileiro, possui um dos piores quadros de vulnerabilidade do país, é formado por sete estados e 449 municípios, dos quais 238 (53,0%) encontravam-se no grupo com pior IES. O Nordeste possui 18% do território nacional, dividido em nove estados e 1.794 municípios, sendo que 898 (48,8%) destes compõem o grupo com pior desempenho no IES. A região Centro-Oeste é formada por quatro unidades da federação, incluindo o DF e ocupa 18,9% do território nacional; dos 466 entes que a compõe, 13 (2,8%) estavam no grupo de pior IES em 2010. A área do Sudeste corresponde a 10,6% do Brasil, possui quatro estados e 1,6 mil municípios, dos quais apenas 35 (2,1%) estão no grupo de pior IES. E, por fim, o Sul abrange 6,8% do território nacional, conta com três estados divididos em 1.188 municípios, destes apenas 4 (0,3%) estão no grupo de pior IES (GUERRA; POCHMANN; SILVA, 2014).
Este aspecto pode ser constatado nos indicadores referentes à renda per capita e IDHM, a seguir apresentados, pois as regiões Norte e Nordeste sempre apresentam valores inferiores aos do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, evidenciando um quadro de maior vulnerabilidade social.
Para expor o nível socioeconômico dos municípios recorreu-se à renda per capita20, os dados foram agrupados em faixas considerando o salário mínimo vigente em 2010 (R$510), quando o dado foi coletado.
Na Tabela 5 é visível a grande desigualdade econômica existente no Brasil; havia 1.180 (21,2%) municípios cuja renda per capita era de até meio salário mínimo em 2010, o que representava uma renda mensal de até R$265 por integrante da família; o quadro mais precário encontra-se no Nordeste, onde 982 entes, ou seja, mais da metade (54,7%) estava nesta faixa, seguida pela região Norte com 147 municípios (32,7%), já no Centro-Oeste havia apenas um caso (0,2%) nesta situação, no Sudeste havia 50 (3,0%), todos em MG, e nenhum no Sul, ratificando os estudos de Guerra, Pochmann e Silva (2014).
A faixa de meio a um salário mínimo, isto é, de R$266 a 510, é a mais numerosa a nível nacional, representando 1.908 (34,3%) municípios; novamente destacam-se as regiões Norte com 256 municípios (57,0%) e Nordeste com 766 (42,7%) nesta classe, seguida pelo Sudeste com 561 (33,6%), Centro-Oeste com 148 (31,8%) e Sul com 177 (14,9%).
20 A renda per capita compreende a razão entre o somatório da renda de todos os indivíduos residentes em domicílios particulares permanentes e o número total desses indivíduos.
TABELA 5 - RENDA PER CAPITA MENSAL POR MUNICÍPIO POR FAIXA (BRASIL, 2010)
FONTE: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2010). Dados tabulados pela autora (2020).
A terceira faixa de R$511 (um salário) a R$765 (um salário e meio), é a segunda mais expressiva no país, contemplando 1.709 casos, ou seja, 30,7% dos municípios brasileiros. Em relação às regiões, esta também é a percentualmente maior no Centro-Oeste com 56,4% (263
Região
Brasil 1.180 21,2 1.908 34,3 1.709 30,7 631 11,3 103 1,9 20 0,4 14 0,3 5.565 Mais de 3 Salários Mínimos
entes), no Sul com 50,6% (601) e Sudeste com 46,4% (774), entretanto, é pouco expressiva no Nordeste (1,8%) e Norte (8,5%).
A faixa de R$766 (um salário e meio) a R$1.020 (dois salários) contempla 631 municípios (11,3%) nacionalmente. A região Sul é a que possui maior percentual nesta faixa (28,3% com 336 entes), seguida do Sudeste (13,8% com 231 entes), Centro-Oeste (10,5%
com 49 entes), sendo ínfima no Norte (1,6% com 7 entes) e Nordeste (0,4% com 8 entes).
A quinta faixa, de R$1.021 (dois salários e meio) a R$1.275 (três salários), é pouco expressiva, representando 1,9%, ou seja, 103 municípios no país. As únicas regiões acima de um ponto percentual são: Sul com 5% (59 entes) e Sudeste com 2,1% (35 entes), destacando-se o RS com 7,9% dos destacando-seus municípios (39 entes) e SP com 4,5% (29 entes) nesta clasdestacando-se.
Em relação à sexta e sétima faixa (R$1.276 a mais de R$1.531), no país apenas 34 municípios (0,7%) se encontram nesta, não havendo representação na região Nordeste e Norte. No Centro-Oeste apenas o DF está nesta classe, no Sul há 1,2% (15 entes) e no Sudeste há 1,0% (17 entes), novamente com destaque para SP com 12 casos (1,9%) e RS com 9 entes (1,8%).
De modo geral, é possível perceber que as regiões Nordeste e Norte apresentam a menor renda per capita mensal, pois 97,4% dos municípios nordestinos e 89,7% dos nortistas apresentavam renda de no máximo um salário mínimo em 2010. Nas regiões Centro-Oeste e Sudeste a maioria dos municípios está na faixa de um salário a um salário e meio, representando, respectivamente, 88,2% e 80,0% de seus entes. Já a maior renda per capita localiza-se na região Sul, pois 78,9% de seus municípios têm renda de um salário e meio a dois salários. É possível perceber que dentro de uma mesma região há estados com quadro mais precários do que a média regional, exemplos disso são AL, MA e PI, que têm mais de 70% de seus municípios na faixa de até meio salário mínimo, ainda que a média da região Nordeste seja 54,7% nesta classe.
O último indicador referente ao contexto municipal é o IDHM21. Um índice de 0 a 0,499 é considerado como muito baixo; há apenas 32 (0,6%) municípios no país nesta condição, dos quais 18 (4,0%) são da região Norte e 14 (0,8%) da Nordeste, não havendo nenhum município no Centro-Oeste, Sudeste e Sul nesta faixa, conforme Tabela 6.
21 O Índice Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)está disponível no site Atlas Brasil, foi produzido em 2012 por PNUD Brasil, Ipea e Fundação João Pinheiro a partir das informações dos três últimos Censos Demográficos do IBGE (1991, 2000 e 2010), considerando três aspectos: longevidade (expectativa de vida ao nascer), renda (municipal per capita) e educação (escolaridade da população adulta e fluxo escolar da população jovem). É um índice que varia de 0 a 1, sendo que quanto mais próximo de 1, melhor é o desenvolvimento humano no ente analisado.
TABELA 6 – ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO HUMANO MUNICIPAL POR FAIXA (BRASIL, 2010)
FONTE: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil (2010). Dados tabulados pela autora (2020).
De 0,500 a 0,599 considera-se que o desenvolvimento humano é baixo. No Brasil há 1.367 entes (24,6%) nesta faixa, sendo que a maioria (1.099) se encontra no Nordeste, o que corresponde a 61,3% dos municípios daquela região, seguido de 180 (40,1%) da região Norte.
As menores ocorrências encontram-se no Sul, onde há 5 entes (0,4%) nesta situação, no
Região Estado
Centro-Oeste 0 0,0 10 2,1 265 56,9 190 40,8 1 0,2 466
DF 0 0,0 0 0,0 0 0,0 0 0,0 1 100,0 1
GO 0 0,0 3 1,2 129 52,4 114 46,3 0 0,0 246
MS 0 0,0 4 5,1 47 60,3 27 34,6 0 0,0 78
MT 0 0,0 3 2,1 89 63,1 49 34,8 0 0,0 141
Nordeste 14 0,8 1.099 61,3 647 36,1 34 1,9 0 0,0 1.794
AL 2 2,0 86 84,3 13 12,7 1 1,0 0 0,0 102
Brasil 32 0,6 1.367 24,6 2.233 40,1 1.889 33,9 44 0,8 5.565
De 0,700 a 0,799
Centro-Oeste há 10 (2,1%) e no Sudeste há 73 (4,4%), sendo que nesta última região todos os casos são de MG.
A faixa de 0,600 a 0,699 representa um nível médio de desenvolvimento humano, nesta encontra-se a maior quantidade de casos nacionais (40,1%), correspondendo a 2.233 municípios. Desagregando por regiões, esta faixa também é a mais representativa no Centro-Oeste com 265 entes (56,9%), seguido pelo Norte com 226 (50,3%), Sudeste com 695 (41,7%), Nordeste com 647 (36,1%) e Sul com 400 (33,7%).
De 0,700 a 0,799, o IDHM é tido como alto, nacionalmente há 1.889 casos (33,9%), sendo que a maioria se concentra no Sul e no Sudeste, respectivamente, com 769 (64,7%) e 871 (51,2%) casos, seguido pelo Centro-Oeste com 190 entes (40,8%). Destaca-se o baixo percentual presente na região Norte, com 25 municípios (5,6%) e, no Nordeste, com 34 (1,9%).
O IDHM acima de 0,800 é julgado como muito alto, destaca-se a pouca representatividade nesta faixa a nível nacional, chegando apenas a 44 municípios (0,8%), os quais concentram-se no Sudeste, havendo 29 casos (1,7%) nesta faixa, com notoriedade para SP com 24 entes (3,7%); e na região Sul com 14 entes (1,2%), destacando-se SC com 11 (3,8%) casos; no Centro-Oeste somente o DF está nesta faixa. As regiões Norte e Nordeste não possuem nenhum caso de IDHM muito alto.
Este mapeamento envolvendo dados demográficos e socioeconômicos dos 5.565 municípios brasileiros nos permitiu conhecer o contexto de cada ente municipal em 2010, assim como em âmbito regional e nacional, evidenciando: i) maior concentração populacional no Sudeste e no Nordeste, seguido pelo Sul, Norte e Centro-Oeste; ii) portes populacionais variados no país, com predominância de municípios de até 20.000 habitantes; iii) elevada taxa de urbanização no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, já as menores encontram-se no Nordeste e Norte; iv) maior exclusão social nas regiões Norte e Nordeste, as quais apresentam os piores índices analisados (IES, IDHM e renda per capita). Sendo possível constatar ainda que a análise dos contextos locais nos permite captar desigualdades inter e intraestaduais ainda mais intensas.
Infere-se que os indicadores selecionados tendem a ser variáveis potencialmente explicativas para o contexto de oferta educacional na EI, os quais foram correlacionados com o uso de software estatístico, a fim de evidenciar se as referidas variáveis assumem valores que apresentam vinculação entre si. Os dados de contexto de oferta são explanados detalhadamente no próximo subitem e as correlações ao final do capítulo.