1.3 O MATERIAL EMPÍRICO: O FENÔMENO E SUA APARÊNCIA
1.3.1 Contexto educacional e o tradutor e intérprete de Libras: o
Migrando de uma discussão mais abrangente acerca do trabalho de tradutor e intérprete de Libras-Português, e chegando especificamente à inserção deste no espaço da educação institucionalizada, passemos a nos dedicar ao que dizem as teses de doutorado publicadas entre os anos de 2010 a 2018, selecionadas por este estudo.
Gurgel (2010) discute em seu estudo sobre os Tradutores Intérpretes de Língua de
Sinais Brasileira14 que atuam no Ensino Superior, para tanto, realizou uma pesquisa
que abrangeu cerca de 42% dos estados brasileiros, com profissionais que atuavam tanto na esfera pública quanto na esfera privada.
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A autora utiliza essa denominação na maior parte de sua tese e fazendo uso, em muitas vezes, da sigla TILS.
A autora constatou que na época em que realizou a pesquisa não havia uma clareza acerca do critério para contratação de tradutores e intérpretes para atuar no Ensino Superior, destacando que muitos dos que ali atuavam não apresentavam sequer o mesmo nível de formação. Além disso, apontou algumas das ações que tais profissionais desempenhavam em seu dia a dia, tais como, acompanhar o surdo em suas atividades discentes; ler e escrever para os surdos que não tinham fluência em português escrito; tirar dúvidas dos estudantes surdos, e; ser um difusor acerca das especificidades da Libras e dos surdos para toda a comunidade acadêmica. As quais, segundo a autora, em grande medida extrapolavam a atribuição de tradução e interpretação.
Revelou, também, algumas das queixas de seus entrevistados como: a falta de base, por parte de alguns acadêmicos surdos (lacuna esta que variava entre o não domínio de conhecimentos basilares para a área que desejavam se formar, até a pouca fluência na própria Libras ou no português escrito); a falta de conhecimento por parte dos próprios intérpretes sobre algumas disciplinas ministradas nos cursos em que atuavam, e; o não acesso prévio aos conteúdos que seriam ministrados em aula.
Em meio a muitas descobertas e reflexões, a autora sugere que os profissionais que fossem atuar no âmbito educacional, desde o Ensino Infantil ao Superior, deveriam ter formações continuadas que proporcionassem trocas de experiências com os usuários dos serviços de tradução e interpretação - no caso, os acadêmicos surdos - com outros profissionais da tradução e interpretação e com professores e gestores de instituições educativas.
Martins (2013), por sua vez, antes de analisar a função desenvolvida pelo intérprete
de língua de sinais educacional15, descortina sobre como a surdez foi inventada no
mote em que as pessoas surdas eram inscritas no campo da anormalidade, bem como o reiterado interesse social em moldar o corpo surdo. Ao tratar sobre o intérprete de língua de sinais, aponta que inicialmente esta ação era decorrente de
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A autora utiliza esta designação para se referir a esse profissional. Usa também a sigla ILSE (intérprete de língua de sinais educacional) e em outras poucas vezes TILSE (tradutor intérprete de língua de sinais educacional).
trabalhos religiosos, mas que com o passar do tempo, por influência das associações de surdos e de tradutores e intérpretes de Libras, tal cenário foi se modificando.
A autora destacou também que diverso era o entendimento dos tradutores e intérpretes sobre a sua função na escola. Enquanto alguns apontavam que estavam ali atendendo a um "chamado" missionário, outros assumiam uma postura bem pragmática ao desenvolver suas funções. Focavam seus esforços na realização da interpretação das aulas, semelhante a como fariam se estivessem em outro contexto.
Por fim, através da elaboração teórica sobre maestria ativa, Martins (2013) defende que o intérprete de língua de sinais em sala de aula, de maneira semelhante ao professor regente, ocupa a posição-mestre, uma vez que, inevitavelmente, o contexto de ensino fará com que ele seja convocado pelos próprios estudantes surdos a atuar na prática pedagógica.
Passando para outra tese, vejamos Menezes (2014). A pesquisa tomou como eixo o diálogo, de maneira presencial, com os tradutores-intérpretes de língua de sinais que atuavam no Ensino Fundamental II de 8 estados brasileiros. São eles Rio de Janeiro, Santa Catarina, Distrito Federal, Ceará, Acre, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul.
No que diz respeito à iniciação do contato com a Libras, Menezes (2014) nos mostra que naquele período ainda prevalecia o contexto religioso, contudo, demonstra que havia um crescente, dentre seus entrevistados, que começaram a aprender Libras devido a vivências ocorridas em sala de aula. Alguns quando eram docentes, outros quando faziam faculdade e aqueles que estudaram com surdos.
Outro fator interessante destacado pela pesquisadora é que assim como no magistério, a maior parte dos trabalhadores da área da tradução-interpretação eram do gênero feminino. A autora pondera que isso pode ter se dado por dois fatores. Pela influência do campo do magistério que é predominantemente feminino, ou por decorrência do espaço religioso, visto que no contexto mencionado, a maior parte
das atividades ministeriais são realizadas por mulheres. Um outro destaque interessante realizado por Menezes (2014) é que no mercado de trabalho a demanda por tradutores e intérpretes de Libras é maior do que a disponibilidade desses trabalhadores.
Frente a todos esses aspectos levantados, a autora também nos traz informações de cunho trabalhista. Indica que 48,1% foram contratados em regime de designação temporária, 22,2% prestavam seus serviços através de empresas terceirizadas e 29,6% eram efetivos, sendo que, dentre os efetivados, somente três tinham o enquadramento funcional de tradutores-intérpretes de língua de sinais; o restante era composto por professores efetivos que desempenhavam a referida função (aparentemente em desvio de função).
O estudo que passaremos a explorar a partir desse momento é o de Santos (2014). A pesquisadora aponta que a Educação Bilíngue para surdos deveria ser entendida para além do uso das duas línguas (Libras e Português escrito) nos processos de ensino e aprendizagem dos estudantes surdos. Antes disso, tal forma de educação deveria ser concebida a partir da face dialética que a linguagem, por meio da língua, exerce no desenvolvimento humano, ou seja, a língua(gem) constitutiva e constituída do/pelo pensamento humano. Sendo assim, a proposta de uma Educação Bilíngue para surdos deveria ter como "língua de instrução" a Libras, o que significaria, na prática, professores ensinando diretamente em Libras.
Para tanto, de acordo com Santos (2014), seria necessário um outro tipo de organização escolar, em que os professores ministrassem suas aulas diretamente em Libras, as quais poderiam ser chamadas, em nosso entendimento, de "sala de
aula língua de instrução Libras"16.
É justamente em uma configuração semelhante à descrita acima, que Santos (2014) desenvolve sua pesquisa. Em uma escola municipal de São Paulo onde se sucedeu
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Vale destacar que essa organização escolar descrita, não seria uma "escola especial" pois, nas escolas que tivessem a "língua de instrução Libras", o currículo seguiria as mesmas determinações dadas a outras escolas.
anteriormente ao estudo da autora uma parceria com um grupo de pesquisa ligado a uma instituição de Ensino Superior.
Em suas análises sobre a ação desempenhada pelos tradutores e intérpretes de Libras em sala de aula, a pesquisadora apontou que o que acontecia naquele
espaço é um tipo específico de tradução: a tradução transcriadora17. Dessa forma,
aponta Santos (2014), o Intérprete Educacional é um coautor dos discursos proferidos pelo professor em sala de aula.
Além disso, defende que atributos como neutralidade e objetividade, que comumente são requeridos de um Tradutor e Intérprete de Língua de Sinais, não são compatíveis com a prática do Intérprete Educacional e que este profissional, ao desenvolver sua função, demanda que o professor regente lance mão de didáticas diferenciadas, as quais devem viabilizar que o Intérprete Educacional trabalhe a fim de que ocorra a formação de conceitos por parte dos estudantes surdos.
Passemos, então, para a última tese a ser analisada, Lopes (2015). Este estudo também é realizado em São Paulo, mas diferentemente da pesquisa anterior, ocorre na rede estadual de ensino. Tal rede apresenta uma outra denominação para a função sobre a qual nos debruçamos a estudar em nossa tese. Nessa rede de ensino, ocorre a contratação de "professor interlocutor", o qual desenvolve, dentre tantas atividades, a de interpretação em sala de aula regular.
A autora, em seu estudo, aponta como a educação de pessoas surdas ao longo dos anos foi sendo situada no bojo das políticas da Educação Especial, mas que tal desenho vem sendo contestado pelas comunidades de surdos desde o final dos anos 90, a qual demanda por uma Educação Bilíngue.
Lopes (2015), destaca o Decreto nº 5.626/2005 como um documento basilar na consolidação da política de Educação Bilíngue para surdos, o qual estipula no seu art. 14, inciso III, que uma escola de proposição bilíngue deve dispor dos seguintes profissionais:
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De acordo com Santos (2014) a transcriação é uma forma de tradução defendida por Haroldo de Campos, que em linhas gerais é caracterizada por priorizar a ideia central no movimento de tradução, mesmo que para isso sejam recriadas a forma e a carga semântica do texto.
a) professor de Libras ou instrutor de Libras;
b) tradutor e intérprete de Libras - Língua Portuguesa;
c) professor para o ensino de Língua Portuguesa como segunda língua para pessoas surdas; e
d) professor regente de classe com conhecimento acerca da singularidade lingüística manifestada pelos alunos surdos.
Uma vez que o decreto traz que a formação necessária para ser tradutor e intérprete de Libras-Língua Portuguesa deve se dar em curso voltado para a tradução e interpretação (aspecto sobre o qual iremos nos ater mais adiante em nossa tese), a autora faz a defesa de que a função do intérprete se distingue da função de professor. Argumenta também que, sendo a função de intermediador para estudantes surdos nas escolas regulares do estado de São Paulo descrita como professor interlocutor, cabe a este a atribuição de organizar situações propícias e sistematizar conteúdos para que o desenvolvimento dos alunos aconteça em suas máximas potencialidades.
A autora também aponta, após aplicar o "Exame Prolibras"18 em participantes do
estudo, que apenas 43% destes seriam aprovados no referido exame, o que denota, segundo palavras da própria Lopes (2015), que parte significativa de "[...] tais profissionais não estavam suficientemente preparados sequer para compreenderem informações em Libras, e menos ainda para transmitirem informações nessa língua" (p.133).
As discussões e dados produzidos nas teses analisadas nos fornecem aspectos importantes para pensarmos a respeito desta pesquisa. Observamos que todos os estudos, de alguma forma, revelam que os tradutores e intérpretes de Libras- Português que atuam em escolas, ao desenvolverem seu trabalho, em algum momento, são evocados a realizar o trabalho educativo, ou seja, recai sobre eles a demanda de planejar, confeccionar e realizar atividades que possibilitem ao estudante surdo se apropriar de conhecimentos.
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Esse exame se configurou como um conjunto de avaliações promovido simultaneamente (semelhante à forma como é aplicado o Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM), uma vez por ano, pelo MEC, e tinha como um de seus objetivos avaliar a fluência em Libras. Tal exame, após cada edição, era disponibilizado na internet, fonte de onde a pesquisadora retirou o exame aplicado em seu estudo.
Martins (2013) e Santos (2014), produzem teorizações que viabilizam a caracterização do trabalho que é desenvolvido por esses profissionais como uma forma, ou vertente, da tradução e interpretação. Por sua vez, Lopes (2015) aponta que ambos (tradução e interpretação e trabalho educativo) são atividades que guardam características e formação que situam cada uma das ações em atividades profissionais distintas.
Santos (2014) e Menezes (2014) nos anunciam a instabilidade (e, possivelmente, a não continuidade de um ano letivo para o outro) do vínculo empregatício desses trabalhadores que atuam na área da educação, visto que processos seletivos de designação temporária e contrato via terceirização da mão de obra se revelam frequentes nesse campo de atuação.
Gurgel (2010) e Lopes (2015) trazem à tona um assunto importante. Embora cada uma das pesquisas enfoque sujeitos diferentes, a falta de fluência em Libras é algo importante. Enquanto a primeira pesquisadora revelou, através dos enunciados de seus participantes de pesquisa, que até no Ensino Superior há estudantes surdos que não são fluentes em Libras e contam com os serviços de tradução e interpretação dessa língua como meio de acessibilidade; a segunda pesquisadora evidencia que existem nas escolas regulares pessoas que ocupam um cargo que tem como atribuição principal a intermediação entre duas línguas, mas que não têm fluência em pelo menos uma das línguas.
1.3.2 Documentos nacionais e editais estaduais: o que eles nos dizem sobre o