SEÇÃO III: ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES EM GOIÁS
3.1 Contexto educacional, econômico e político do estado de
O estado de Goiás situa-se no centro do País e fazia divisa com os estados de Minas Gerais, Mato Grosso, Maranhão, Bahia e Piauí. O estado teve seu momento maior no período da exploração de ouro e foi elevado à categoria de capitania, porém, com o esgotamento das jazidas de ouro, houve uma alteração na economia goiana para as atividades agropecuárias. Com o fim do período de exploração de ouro, Goiás sofre um esvaziamento populacional e a sua reestruturação ocorreu de forma lenta.
Para entender o contexto de Goiás, faz-se necessário apresentar que, nos primeiros anos da República, a região goiana despertou o interesse das autoridades, assim como de investidores de outros estados, devido à potencialidade de sua economia. No entanto, persistia um problema enorme nas comunicações por terra, pois as rodovias que ligavam ao Triângulo Mineiro e daí a São Paulo, maior centro produtivo do País, não eram constantes, por serem de
terra batida. No período de chuvas o trânsito ficava dificultado e atrasava a condução, que era feita por animais. Não existia uma rede de transporte confiável para o envio da produção goiana. Portanto, a “pecuária surge inicialmente como apoio e insumo alimentício para o garimpo e posteriormente, como atividade de exportação de carne e couro para as regiões do Sudeste, notadamente para São Paulo” (PAIXÃO; SILVA, 2013, p. 220). A questão geográfica justifica a prevalência econômica da pecuária nesse período: como Goiás estava longe dos maiores mercados consumidores e a malha rodoviária do estado era precária, o gado era a melhor alternativa econômica. Nessa fase a agricultura era de subsistência para as famílias alojadas na região.
Em se tratando de dimensões territoriais, o estado de Goiás era o quarto da lista, perdendo apenas para Amazonas, Mato Grosso e Pará. Em função da sua localização territorial, Freitas aponta que
A economia goiana, restrita à agricultura de subsistência, produzia poucos excedentes, que eram comercializados nos arraiais e currutelas disseminados pela vastidão dos sertões. As atividades pastoris eram também limitadas, pois as distâncias e as dificuldades de transporte cerceavam empreendimentos de maior vulto (FREITAS, 2009, p. 82).
A falta de transportes e de vias rodoviárias para o transporte aparecem como dificultadores do crescimento do estado goiano, pois devido à distância dos grandes centros, notava-se pouco interesse de pessoas que quisessem vir para Goiás produzir e trabalhar.
É interessante verificar que a chegada do telégrafo representou um avanço para a capital e para o estado de Goiás, pois possibilitou as comunicações com outras localidades. Outro fato que permitiu seu desenvolvimento foi a chegada da estrada de ferro, no início do século XX. Isso foi essencial para a urbanização da região e para sua ligação com outras partes do Brasil. Devido à difícil localização da Cidade de Goiás, capital do estado na época, não foi possível levar os trilhos até lá, assim como ao norte goiano, devido à falta de recursos financeiros. Dessa forma, esses locais continuavam incomunicáveis e inicia-se, por conseguinte, o predomínio da região sul na pecuária, a qual veio a se tornar um polo elementar da economia de Goiás. Segundo Barros (2012, p. 24),
O Estado de Goiás teve sua ocupação no século XVIII marcada pela mineração, o que proporcionou uma formação inicialmente urbana. Contudo, com o declínio da produção aurífera, a pecuária tornou-se a principal atividade econômica e ruralizou a região. A ocupação de terras por grupos familiares gerou os latifúndios e por consequência a região se tornou basicamente rural, pelo menos até meados do século XX.
Mesmo com todos os problemas enfrentados no desenvolvimento do estado, a partir do século XX a ocupação do território goiano aumentou gradativamente, possibilitando a urbanização das cidades. Com esse processo, surgem a demanda por mais escolas e a tentativa de sanar as necessidades dos jovens que estavam ociosos pelas ruas.
No relatório de 1905 do Secretário de Instrução e Justiça, Terras e Obras Públicas, o bacharel José Alves de Castro, ao Presidente do Estado de Goiás, Dr. José Xavier de Almeida, é feito um alerta sobre as condições dos prédios escolares: “[...] os edifícios onde funcionam as escolas públicas devem merecer certa atenção do poder legislativo” (CASTRO, 2003).
A realidade da capital goiana com relação aos prédios destinados ao funcionamento de escolas não era diferente do restante do estado de Goiás: os poucos existentes eram inadequados. A Cidade de Goiás possuía poucos recintos para acomodar novas instalações de instituições escolares, de acordo com Bretas:
Toda instituição nova de ensino que se fundava na Capital tinha que se abrigar no Liceu, único prédio público existente na cidade destinado ao ensino. Deve-se lembrar que a Capital de Goiás era paupérrima em prédios públicos. Só havia o Palácio do Governo (Conde dos Arcos), a casa do Ouro, pegada neste, a Cadeia pública, o Quartel do 20º Batalhão e um sobradão na praça, construído por iniciativa privada e depois adquirido pelo governo para nele se instalar a Fazenda Pública, e mais tarde os Correios, e onde esteve também o Liceu, todos esses prédios construídos nos tempos coloniais. Durante o Império e a primeira República não se construiu um só prédio para serviços públicos, a não ser um pequeno sobrado ao lado da Cadeia, destinado ao Gabinete Literário (BRETAS, 1991, p. 509).
Essa era a realidade da capital no ano de 1909, quando é sancionado o decreto de criação das EAAs – vale lembrar que essas escolas deveriam ser instaladas na capital de cada estado brasileiro. Com essa realidade de carência de espaços públicos destinados à educação, o governo estadual precisava encontrar um local para a instalação da EAA goiana.