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O CONTEXTO GERAL DA REORIENTAÇÃO

O programa de estabilização macroeconômica conhecido como Plano Real (1994) havia proporcionado, após sucessivas tentativas não exitosas nos

anos 80 e início dos anos 9033, a estabilização dos preços, refletida por

diversos índices de inflação disponíveis. A taxa de inflação34 que estava ao

redor de 50% ao mês, por ocasião de seu lançamento, em julho de 1994, reduziu-se para algo em torno de 2% ao mês, cerca de um ano depois.

No entanto, no período 1995-1998, houve uma grave deterioração dos principais indicadores macroeconômicos: a taxa de câmbio real foi mantida bastante apreciada e o governo não cogitava mudá-la; o déficit em conta corrente era crescente por conta da combinação da valorização da taxa de câmbio real e da política monetária restritiva que mantinha elevadas taxas de juros básicos (SELIC); o resultado primário das contas públicas era insuficiente para fazer frente ao crescente serviço da dívida pública; e, havia ainda o elevado crescimento da relação dívida pública/PIB, grande parte dela “dolarizada”. Em 4 anos, por conta da fragilidade destes indicadores e por conta de um contexto internacional ruim, o país sofreu os efeitos de três crises cambiais: a do México (1995), a da Ásia (1997) e a da Rússia (1998), inclusive com grave fuga de capitais.

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Plano Cruzado (1986), Cruzado II (1987), Plano Verão (1989), Plano Collor (1990), Plano Collor II (1991).

Também na área social, houve piora em alguns importantes indicadores. Destacamos a questão do emprego e da renda do trabalhador que nesse período conheceu: elevado aumento da taxa de desemprego, especialmente nas áreas metropolitanas; queda continuada da renda real do trabalhador; crescimento do emprego informal e precário; e flexibilização dos direitos trabalhistas. Para Salm (2004), o desemprego foi “a verdadeira âncora da

estabilização dos preços”.

“A utilização de elevadas taxas de juros como instrumento singular para coibir a ameaça de recrudescimento da inflação, além de conspirar contra a diminuição da dívida pública, acabou fazendo do desemprego a verdadeira âncora da estabilização dos preços” (Salm, 2004).

Na verdade, a deterioração da questão do emprego no Brasil, especialmente nos anos 90, seria um dos reflexos do baixo crescimento econômico do período. Gimenez e outros (2003) apontam os demais resultados desse pífio crescimento econômico:

“Precarização, desintegração do tecido social, desemprego, queda de rendimentos, violência generalizada, ampliação dos bolsões de pobreza nos grandes centros urbanos, explosão da informalidade, trabalho escravo, multiplicação dos trabalhadores por conta-própria, numa busca desesperada por alternativas de sobrevivência” (Gimenez e outros, 2003:24).

Nesse contexto, em novembro de 1998, com uma grave crise de balanço de pagamentos no horizonte decorrente da Crise da Rússia em agosto daquele ano, o governo federal recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O acordo para um pacote de ajuda foi fechado nesse mesmo ano e veio impor ao país um forte ajuste econômico baseado, principalmente, na obtenção de

superávits primários35 e corte de gastos em diversas áreas, entre elas a área

social.

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Superávit Primário - diferença entre receitas e despesas do governo, excluindo-se as despesas com os juros da dívida pública.

Por imposição do acordo, o projeto orçamentário para o ano de 1999, que já havia sido encaminhado ao Congresso Nacional, foi alterado, incorporando cortes de gastos em diversas áreas. O compromisso assumido pelo governo brasileiro junto ao FMI era para a geração de superávit primário - já em 1999 - da ordem de 2,6% do PIB.

O governo brasileiro, no entanto, comprometia-se a minimizar os efeitos dos cortes orçamentários sobre os programas sociais. De acordo com o Memorando de Política Econômica de 13/11/1998:

“Programas sociais com metas claras e bem definidas desempenham um papel vital na redução da pobreza e no desenvolvimento do capital humano. À parte do sistema previdenciário a maior parte dos programas sociais estão no domínio dos estados, mas o governo federal é responsável pelo financiamento de uma parte de suas despesas e tem seus próprios programas. A meta básica do governo federal será a de aumentar a parcela do orçamento destinados aos níveis primários de ensino e à assistência médica; para promover o uso mais eficiente e o financiamento da saúde e do ensino particularmente nos níveis mais elevados; e para melhor direcionar as despesas sociais para os pobres. Para tanto o governo federal minimizará os cortes orçamentários nos programas sociais que beneficiem os pobres esforçando-se para melhorar seu objetivo e eficiência. Estes esforços devem receber o apoio do Banco Mundial e do BID”.36

Como parte do acordo com o FMI, foi proposta a criação de uma Rede de Proteção Social para que pudessem ser compensadas as conseqüências do ajuste econômico.

A Rede de Proteção Social era um conjunto de programas que, segundo a Mensagem do Presidente da República ao Congresso Nacional de 2002, “ampara os mais vulneráveis entre os pobres: as crianças, desde a gestação;

as mulheres gestantes e com filhos em amamentação; os idosos; os portadores de deficiência; os desempregados e os pequenos agricultores atingidos pela seca no Nordeste”. (Presidência da República, 2002a:47). Em 2002, eram 12

os programas – essencialmente programas de transferência de renda - que compuseram essa rede que era considerada pelo governo “a mais significativa

e abrangente redistribuição de renda em favor dos mais pobres jamais realizada pelo Estado brasileiro”. (Ibid: 47).

QUADRO 8 – PROGRAMAS DA REDE DE PROTEÇÃO SOCIAL

In: Presidência da República (2002).

36 Ver http://www.fazenda.gov.br/portugues/fmi/fmimpe01.asp

Segundo o governo, em 2002, a Rede teria por volta de 31 milhões de beneficiários e transferiria quase R$ 29,5 bilhões, “o que equivale,

aproximadamente, à parcela da União na arrecadação do Imposto de Renda de pessoas físicas e jurídicas”. (Ibid: 47). É importante destacar que estava

prevista para 2002 a implantação - por parte do governo federal em parceria com Estados e Municípios - do Cadastro Único das famílias, o que possibilitaria o repasse dos recursos previstos em cada programa da rede “diretamente aos

beneficiários por meio de um cartão social”. (Ibid: 49).

No entanto, a articulação da rede teria sido incapaz, segundo avaliações

existentes, de amenizar os efeitos sociais dos cortes orçamentários37.

O período 1999-2002, portanto, inicia-se sob a égide do acordo com o FMI e suas conseqüências sobre a gestão da política econômica e da política social. É possível compreender que, dada a “impossibilidade” de mudanças na política econômica, pautada pelo acordo com o FMI, a área social direcionasse seus esforços para a melhor gestão, focalização e maior eficiência e coordenação dos recursos disponíveis e dos programas existentes.

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