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UMA SEQUÊNCIA DIDÁTICA SOBRE AQUECIMENTO GLOBAL UTILIZANDO A LITERATURA DE CORDEL

3.2 Um contexto híbrido: Ilha de Maré

Nossa abordagem multi/intercultural tem inspiração no autor Néstor Garcia Canclini (1997), que aponta para as novas modalidades de organização da cultura, e a hibridação das tradições. Como trabalhamos com um contexto híbrido, no qual existem práticas, estruturas e objetos que refletem um passado e misturam-se a um

presente de modernidade, como a Ilha de Maré, e trabalhamos um tema científico,

devemos atentar para outras formas de aproximação entre diferentes saberes e de operacionalização da pesquisa em ensino de Ciências. Situamos esta pesquisa-ação no que Canclini designou como “culturas híbridas”, concebidas como resultantes de processos socioculturais nos quais estruturas ou práticas discretas, que existiam de forma separada, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas (CANCLINI, 2011, p. XIX).

Com esse aspecto delineado torna-se necessário estudar o contexto da pesquisa com o cuidado de analisar as manifestações culturais da Ilha de Maré, reconhecendo a possibilidade de pesquisar e encontrar materiais que são

denominados por Canclini (1997) de “não enquadráveis” no que é posto nos

programas de pesquisa em ciências sociais. Para melhor entendimento do termo hibridação, o autor analisa nuances do conceito e estilos de forma ampla e clara.

O crescimento populacional e o trânsito de pessoas transformaram a cidade na unidade analítica para os estudos interculturais, já que, “sem dúvida, a expansão urbana é uma das causas que intensificam a hibridação cultural” (CANCLINI, 1997,

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p.2). Mas como a Ilha de Maré se encaixa nesse contexto? Apesar de separada do continente a Ilha faz parte do município de Salvador, o que classificaria essa região remanescente quilombola como pertencente a uma cidade. Os estudantes vêm ao continente diariamente para concluir seu ciclo de estudos e os moradores também se deslocam para o continente para vender o artesanato e produtos oriundos do extrativismo vegetal local, para aquisição de bens materiais e para acesso a serviços não disponíveis na ilha.

Essa realidade coloca a Ilha de Maré em consonância com o que Canclini (1997) chamou de “trama majoritariamente urbana”, na qual se dispõe de símbolos heterogêneos causados por uma constante interação do local com “redes nacionais e transnacionais de comunicação”, citando como exemplos as interações comerciais e a recepção de mídias eletrônicas, nada mais sendo do que uma localidade verdadeiramente híbrida.

Canclini foi pioneiro nas pesquisas para a compreensão da cultura urbana, da cultura popular, do consumo de bens simbólicos gerados pela hibridação. O autor ressalta as reivindicações sociais que emergem desses contextos múltiplos, com o argumento de que as ações “são de baixa ressonância [ao se] usar formas tradicionais de comunicação - textos escritos que circulam de mão em mão – seu poder cresce se atuam nas redes massivas”.

O alcance e o poder da Literatura de Cordel têm se tornado expressivamente maiores com o auxílio das mídias, fazendo-os chegar em comunidades onde sua utilização não é tradição, como no contexto da Ilha de Maré. Feito este parêntese retomemos a discussão sociopolítica trazida por Canclini ao utilizar o termo “cultura urbana”, e como relacionamos a Ilha de Maré a essa expressão. A relação com a Ilha e as consequências desse processo ficam claros quando observamos a proximidade de um pólo petroquímico com a comunidade e como isso afeta a qualidade da água e dos peixes e mariscos que são utilizados para a subsistência. Além disso, os gases poluentes que são liberados pelas chaminés das usinas do pólo prejudicam a qualidade do ar, sendo a poluição um agente intensificador do efeito estufa que, por conseguinte, eleva a temperatura do planeta. O fenômeno global, associado aos modelos de produção e consumo da nossa sociedade, interfere no contexto local, situação que influencia diretamente a qualidade de vida dos indivíduos da Ilha de Maré e seu entorno.

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Um dos seus principais objetos de pesquisa de Canclini são as contradições da

cultura urbana, aquelas que presidem a realização de um projeto emancipador, expansivo, renovador e democratizador (GAGLIETTI; BARBOSA, 2007), sendo que dois processos, o descolecionamento e a desterritorização, estariam na base deste processo. O descolecionamento corresponde ao fim da produção de bens colecionáveis, tendo como resultado a quebra ou no mínimo a diluição dos limites entre as culturas elitista, popular e massiva, sendo esse fenômeno favorecido pelo uso de recursos tecnológicos. Um bem cultural localizado numa região específica agora estaria disponibilizado para as mais distantes localidades, a exemplo do Cordel, que passou a ganhar o mundo ao sair das pequenas cidades dos confins do nordeste brasileiro.

O segundo processo é a desterritorialização, baseada na transnacionalização

dos mercados simbólicos, ocasionada pela disseminação das multinacionais, e também pelas migrações e diásporas. Como resultado desses processos surge então o que Canclini denomina de gêneros impuros (SOUSA, 2012), dando como exemplo os quadrinhos e o grafite, que além da sua capacidade de ilustração e comicidade, hoje são utilizados também para protestar e dar voz à população. A literatura de Cordel também tem um papel importante na divulgação de mensagens de protesto, vários folhetos versam sobre problemas socioambientais e trazem a opinião da população mais simples sobre acontecimentos locais, regionais, nacionais e internacionais.

Nosso entendimento se aproxima das ideias de Canclini (2011), ao

compreender o processo de hibridização como um fenômeno intercultural capaz de possibilitar esse caminhar por entre os limites e fronteiras dos saberes, nos mais diversos locais, utilizando os mais variados gêneros discursivos e com esses gêneros trilhar novos caminhos de aprendizagem ao tratar assuntos científicos. como o Aquecimento Global, com poesia, quadrinhos, Cordel, jornal, entres outros, e a partir disso construir e reconstruir nossa prática pedagógica.

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