O Movimento de Adolescentes e Crianças (MAC) é um Movimento de Educação, Evangelização e Organização de crianças e de adolescentes que, em um processo formativo, articula a importância da consciência crítica destes sujeitos no contexto econômico, político e social. Para Albuquerque (2009),
o MAC é uma organização social composta por crianças, adolescentes e acompanhantes – jovens e adultos que dinamizam os grupos de base, objetivando a valorização e a promoção das crianças como sujeitos sociais. Neste sentido, o MAC se define como um movimento educativo que possibilita às crianças e aos adolescentes o desenvolvimento de uma consciência crítica do mundo, para que se tornem sujeitos históricos, capazes de contribuir para a transformação da sociedade (ALBUQUERQUE, 2009, p. 14).
O MAC está ligado ao Movimento Internacional de Apostolado das Crianças, Movimento Internacional de Meninos e Meninas (MIDADEN)9, que trabalha com a perspectiva da participação das crianças em seus distintos lugares: família, escola e bairro. Estão organizados em uma estrutura nacional, estadual e local, que se desdobra em nível nacional: coordenação nacional composta por crianças/adolescentes e acompanhantes, conselho fiscal e equipe de sistematização e produção de materiais. Em nível estadual: coordenação estadual composta por crianças/adolescentes e acompanhantes, conselho fiscal. Em nível local: grupos de base que tem uma coordenação formada por crianças/adolescentes e acompanhantes.
No Brasil, essa experiência inicia-se na década de 1960, no bojo da ditadura civil militar, tornando-se um lugar privilegiado para o trabalho da Educação Popular. A primeira experiência aconteceu em 1968, no Estado de Pernambuco, na cidade de Recife, em um alagado denominado Ilha de Maruim10. O MAC, no seu início, teve como grande incentivador
o bispo católico Dom Helder Câmara. O Movimento se desenvolveu a partir de um contexto sociopolítico que favoreceu o entrelaçamento com os movimentos sociais, religiosos e populares assegurados pelo contexto da Educação Popular. Ressalta-se que “desde as origens, essa organização de crianças e adolescentes não tinha a pretensão catequética e nem filantrópica. Buscava inserir, de forma consciente, o adolescente e a criança no contexto econômico, político e social” (ALBUQUERQUE, 2009, p. 30).
A importância de Dom Helder Câmara na formação do MAC foi relevante, pois, de antemão, trazia em sua bagagem a experiência do trabalho com a juventude, em especial da Ação Católica Operária (ACO). Neste sentido, percebe-se que
a ACO e a JOC11 tiveram uma relação muito estreita com o MAC em 1980.
Assessores do MAC também auxiliaram a ACO e a JOC. Por isso, em vários lugares que o MAC iniciou sua ação, teve como base a articulação da Ação Católica. Estabeleceu-se parcerias entre o MAC e a ACO, não só de assessoria pedagógica, mas também no financiamento de ações, especialmente nas publicações, por exemplo, Um movimento de crianças. Vários acompanhantes12 do MAC eram membros da Ação Católica Operária.
Desse modo, pais, filhos e parentes da ACO tornaram-se também integrantes do MAC (ALBUQUERQUE, 2009, p. 30-31).
9Movimento Internacional do Apostolado das Crianças, organizado em três línguas oficiais, tem as siglas: MIDADE (francês), MIDADEN (espanhol) e IMAC (inglês). Nas décadas de 1980 a sigla MIDAC – Movimento Internacional do Apostolado das crianças, na versão portuguesa era a mais utilizada. (ALBUQUERQUE, 2009, p. 30).
10 Maruim também é o nome de um inseto próprio de beira de córregos, rios e mangue. 11 Juventude Operária Católica.
Marie Guillien, uma francesa que pertencia ao MIDADEN, chega ao Brasil em 1967, para trabalhar com as crianças e os adolescentes de Recife, nos moldes da Ação Católica, portanto, diferenciado da catequese. Mas o único espaço na Arquidiocese de Recife em que se pensava a criança era a Comissão Diocesana de Catequese. De acordo com Albuquerque (2009), Marie aproxima-se desta Comissão para se inteirar do trabalho desenvolvido. Posteriormente a um período de observação da experiência, questiona a transposição do “modelo” europeu para o Brasil, desafiando a equipe a construir algo com o aspecto latino- americano. A partir dessa preocupação, a equipe prorroga o início do movimento. Decidiram conhecer a realidade das crianças residentes na região metropolitana de Recife “por meio de visitas e observações, quanto por conversas-entrevistas feitas com as próprias crianças – o que elas pensavam sobre o bairro, a família, a escola, a igreja, as brincadeiras; sobre o tratamento que os adultos davam a elas e sobre elas mesmas” (ALBUQUERQUE, 2009, p. 31-32).
Desse modo,
a “pesquisa” aconteceu em 13 (treze) bairros. A equipe catalogou os assuntos documentos-manifestos, como forma de socialização e denúncia do que foi pautado. Para a publicização do trabalho, o grupo organizou um evento, objetivando retratar a realidade das crianças da Arquidiocese de Olinda e Recife. O local escolhido para a manifestação foi o TPN13, espaço
cultural de tradição esquerdista, fora dos ambitos da igreja. O acontecimento contou ainda, com uma exposição de fotos que mostravam a situação gritante em que viviam as crianças das classes subalternas. Tal episódio não foi censurado pelos militares, pois era proveniente de um grupo ligado à igreja Católica, além de ser uma atividade que se referia a crianças. Neste caso, discutir sobre crianças não parecia ser “subversivo” e nem apresentava nenhuma ameaça à “segurança nacional.” Assim, durante a ditadura militar, o MAC não teve grandes problemas com perseguições, como aconteceu com a JOC e a ACO. Afinal de contas, as “criancinhas são inocentes” e “não representavam perigo algum” (ALBUQUERQUE, 2009, p. 32).
Foi neste contexto, em 1968, que a Ilha de Maruim foi escolhida para ser espaço da primeira experiência do movimento no Brasil. De acordo com Albuquerque (2009), uma equipe de seis pessoas, cinco mulheres e um homem, foi a primeira a iniciar essa proposta. Pouco tempo depois, chegaram mais duas pessoas, entre elas, um jovem da própria Ilha.
De imediato, compraram uma casa destinada para as atividades do MAC. As crianças nomearam essa casa de “Tanajura”, onde surgiram muitas sugestões para a utilização desta casa, dentre elas, a que se transformasse o espaço em uma “escolinha.” A propositura, porém, não foi aceita pela equipe, por entender que “essa não era a dimensão do trabalho educativo e nem papel deles. Além disso, não queriam criar expectativa e imagem assistencialista nas
pessoas do local” (ALBUQUERQUE, 2009, p. 33). A casa era um espaço de troca de experiências e de aprendizado
a turma mais interessada por estórias não somente ouvia, contava e inventava estórias, mas começava agora a escrevê-las e ilustrá-las em pequenos fascículos organizados com resto de cartão que elas coloriam. Era a equipe de HISTÓRIAS. A turma que gostava de modelar com lama da maré, chegou até a fazer bonecos e apresentar peças de teatro de fantoche. Surgiu também uma BIBLIOTECA, por interesse de uma equipe, que chegou a juntar até uns 50 livros. Os JARDINEIROS se encarregaram de ajardinar a Tanajura. E a ESCOLA DO GUAIANUM14 onde se estudavam
todas as curiosidades da terra, do céu e do mar, ainda hoje deixa saudades em seus antigos participantes (MAC, 2007, p. 11).
As crianças do MAC, desde o processo inicial do movimento, estiveram imersas em diferentes modos de representar o contexto social, cultural, histórico em que viviam. Diferentes relações, tanto materiais quanto simbólicas, perpassam seus modos de ver e estar no mundo. Nesta compreensão,
[os acompanhantes] vão se entrosando e participando das coisas que as crianças gostavam de fazer... Aos poucos vão percebendo interesses e aspirações; vão descobrindo habilidades e capacidades; vão identificando as patotas, os grupinhos que se formavam de acordo com interesses comuns (VELOSO, 1985 p. 24).
Percebe-se que o MAC não se preocupou, a princípio, com a transformação da escola pública, mas esteve, inicialmente, focado na articulação com os movimentos sociais que buscavam democracia, cidadania e transformação da sociedade. Nesta perspectiva, busca-se desenvolver, neste trabalho, os principais aspectos do Projeto Pedagógico do MAC, enquanto concepções educativas de Educação Popular.
O MAC, atualmente, continua sendo um espaço de formação para as crianças em muitas comunidades do Brasil. O acento em suas atividades está voltado para a formação em Educação Popular e metodologia de trabalho com adolescentes e crianças. A corrente da formação religiosa cresce a cada dia por meio das chamadas escolas bíblicas para adolescentes e crianças. O MAC aderiu às novas tecnologias, divulgando o trabalho com as crianças em seu sítio na internet e em blogs. No canal do youtube estão postados os vídeos e as músicas. As crianças são convidadas a participarem com desenhos, poesias e textos que
14 A Escola Guaiamu não era um espaço formal como as escolas oficiais, e muito menos possuía o estilo professor-aluno, adulto versus criança ou mestre e aprendiz. Guaiamu foi o nome dado pela meninada, para atividades de aprendizado em livros ou conversas sobre o que desejavam conhecer (ALBUQUERQUE, 2009, p. 34).
retratam a realidade em que vivem, contextualizando a proposta pedagógica do MAC. Geralmente, essas produções são catalogadas em uma agenda anual, desde 2009.