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4.3 O FENÔMENO DO TURISMO SEXUAL E DA EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇAS

4.3.1 Percepção sobre o fenômeno

4.3.1.1 Contexto histórico, turismo e sexualidade

Salvador, o Brasil [...] durante muito tempo foi sendo preparado para essa demanda turística (a do turista sexual), [...] inclusive utilizando a imagem da mulher como atrativo do nosso país, do nosso município, ele veio dizendo que a mulher aqui é fácil, e isso foi sendo propagado (de maneira) muito forte fora do país[..] (ARAÚJO, 2007)43

Um das principais pontos mencionados de modo freqüente na exposição sobre o assunto foi o contexto histórico como fator que explica o desenvolvimento do turismo sexual além de outros elementos que intercedem no enquadramento das representações sobre o fenômeno, e que serão tratadas neste subtópico de forma secundária, mas com as devidas interseções e fronteiras estabelecidas, para a compreensão mais ampliada da questão.

Na percepção de Leite (2007), é possível observar a relação do turismo sexual com gênero, uma vez que a entrevistada associa o turismo ao tráfico de mulheres, o que é reforçado a partir do alinhamento histórico causal por ela apresentado: “o turismo sexual

começou na Ásia, a partir das guerras, onde as mulheres passaram a servir os soldados...nós acreditamos também que esse possa ter sido o começo do turismo sexual.” É

possível observar que há uma identificação histórica do fenômeno, o que cria uma esfera de conexão entre as origens do turismo sexual e sua apresentação atual, como fato da contemporaneidade.

Esta conexão histórica também aparece nas representações acerca da relação entre turismo e sexo nos discursos de outros dos consultados. Os sujeitos assumem a existência de uma condição empírica colocada, e embora muitos dos entrevistados admitam não possuir dados concretos sobre esta realidade (em especial os representantes de instituições), conectam o turismo sexual histórica e culturalmente, justificando suas construções mentais (partilhadas ou não) no que se refere ao fato de natureza social, como pode ser verificado:

“data do período colonial que os donos de terra deitavam-se com suas escravas para

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garantir seu poder sendo dono de terra e de gente e ao mesmo tempo aumentar sua riqueza procriando “filhos escravos” (VAZ, 2009)44. Nesta breve passagem, há elementos passíveis de observação: além da referência cronológica sobre o contato entre “senhores”45 e escravas, reforçando a relação assimétrica de poder entre os atores da situação, a esfera gênero novamente paira sob as origens do fenômeno.

A dimensão econômica também aparece na circunstância sexual, uma vez que um dos objetivos é aumentar a riqueza por meio da reprodução. E ainda, no trecho seguinte emergem elementos como a alteridade étnica e a idéia de sexualidade a ela associada: “daí

surgiu o mito de que mulheres negras e mestiças eram “boas de cama”, portanto feitas para o sexo, uma vez que seus donos mesmo sendo casados com mulheres brancas, as preferiam (as mulheres negras e mestiças) por causa da cor sensual”(VAZ, 2009).A partir

desta menção é possível inferir sobre a representação atribuída atualmente ao turismo sexual: relações sexuais existentes entre diferentes sujeitos, étnica e socioeconomicamente, mas que se dispõem em contato a partir de uma mesma lógica cultural de aproximação do que é ilegítimo enquanto relacionamento afetivo-sexual, a partir da assimetria de poder existente, evidenciada por questões que afloram desde a ordem econômica até fatores sociais e culturais.

Além disso, mais uma vez o tema gênero passa a ser um elemento presente por meio da infidelidade masculina e da submissão de ambas as mulheres acerca da situação apresentada.

Muitos dos entrevistados mencionaram cartões postais e promoção do Brasil internacionalmente, com campanhas atreladas à mulher e à sexualidade, conforme o representante da Emtursa informou em seu relato. Sobre esta constatação, é possível verificar até mesmo em textos críticos de feministas das relações internacionais, como Cynthia Enloe, elementos não somente textuais, mas visuais, como a capa da obra desta autora “Bananas, beaches and bases” (1990), onde Carmem Miranda aparece como figura representativa da mulher tropical e suas vertentes subliminares, de liberdade e apelo sexual.

Embora seja comum o discurso sobre os fatores que fizeram o turismo de sexo irromper no Brasil e em outros países, a reprodução não é única, são encontradas variadas construções históricas que definem a existência do fenômeno, segundo os consultados e consultadas. Para a profissional do CREAS/SENTINELA, a emergência do turismo sexual

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no Brasil está principalmente relacionada à construção da imagem turística do país: a gente

sabe que o governo em algum momento fez aquelas propagandas com aquelas mulheres bonitas, jovens, bundas, negras etc (VASCONCELOS, 2007). Esta constatação refere-se às

campanhas realizadas pelo Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo) principalmente durante a década de 1970: [...]quem estudar vai ver como foi a década de 70,80, como foi

vendido o Brasil.(VASCONCELOS, 2007) Neste trecho, além de assumir o sentido

histórico, a entrevistada assume o turismo sexual como uma realidade no Brasil: Isso é

vendido lá fora e é uma realidade (VASCONCELOS, 2007).

O que é comum aos atores da pesquisa é a justificativa da existência do fenômeno como relativo à períodos históricos anteriores, e que sempre se reporta a uma lógica de dominação, exploração, seja na citação sobre as mulheres asiáticas em relação aos soldados americanos46, dos senhores de terras no Brasil Colônia em relação às escravas47 ou na forma como o Brasil foi promovido em outros países, com a exploração da imagem da mulher em propagandas e cartões postais. As representações acerca do tema revelam visões de proporções profundamente assimétricas de poder entre os agentes (homem e mulher, branco e negra ou asiática, país em desenvolvimento e país desenvolvido). Todas estas representações têm sua lógica fundamentada não só nas percepções coletivas, partilhadas, mas também podem ser analisadas a partir de enfoques teóricos já trabalhados. Sobre esta perspectiva, vale retornar à idéia de Bourdieu (1989) sobre a violência simbólica, tratada no tópico Violência e Turismo.

Em nenhuma das entrevistas foi notada a percepção desvinculada desta lógica objetiva de exploração do fato de haver um desejo afetivo-sexual de relacionamento entre ambas as partes (brasileiras e estrangeiros); raras vezes foram citadas as relações entre turistas brasileiros e baianas no âmbito do turismo sexual, nem tampouco foram consideradas as relações homossexuais neste sentido. Tudo isso faz declarar - e homogeneizar até certo ponto - o núcleo central das idéias sobre o turismo sexual, permeada pela imagem existente da mulher brasileira (baiana, no caso) nos relacionamentos afetivo-sexuais e econômicos com turistas internacionais, reiterando também que este é o estereótipo fundamental acerca do turismo de sexo: “Salvador, há

alguns anos atrás, a BAHIATURSA fazia propaganda [...] com cartazes de uma morena

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Sobre esta abordagem, Enloe (1990) é uma das pesquisadoras feministas do campo das relações internacionais preocupadas com os impactos sociais da reconstrução e do desenvolvimento do Sudeste da Ásia após a Guerra do Vietnã e com a permanência continua das tropas militares estadunidenses na região. 47

com os seios de fora, uma tanguinha de palha, tomando água de coco, turismo tropical.”

(ESPINHEIRA, 2008)48

Dentre as outras esferas causais do turismo sexual no Brasil e na Bahia, as diferenças de ordem étnica foram apontadas como um dos fatores preponderantes: [...]a

questão da variedade de etnias[...] diversos países conhecem o Brasil apenas pela mulata que está ali na propaganda [...], a questão da imagem do Brasil e das mulheres baianas

também foi destacada: [...] acho que é uma questão que é cultural mesmo, de passar essa

imagem da mulher exótica. A erotização da mulher baiana. (SANTOS, 2007)

Discurso comum entre os entrevistados, o papel do Estado na construção de condições propícias para o desenvolvimento do turismo sexual foi apontado como um fator essencial para a emergência da associação entre turismo e sexualidade no país, conforme destaca Araújo (2007): o governo brasileiro e o governo soteropolitano não pensaram nas

conseqüências ou se pensaram (foi de forma) muito irresponsável, (sobre) o quê esse turismo iria trazer, certo?

O incent ivo do turismo sexual por meio da promoção da imagem não foi só mencionada em relação à mulher brasileira/baiana, e nem somente pelo governo federal, estadual ou municipal, mas como uma prática disseminada inclusive por agentes privados do turismo, como pode ser verificado neste trecho do depoimento do educador social Lira (2007):

[...]fizemos um trabalho no Pelourinho, quando nós encontramos a foto de uma criança , deveria ter seus três ou quatro anos de idade, com um pandeiro na mão e nu, virado para o mar, a bundinha virada para câmera e o nome estava lá “ o menino e o pandeiro”[...] fizemos um movimento para descobrir quem era o cara que fazia (as fotos dos cartões postais). Quem fazia não vendia, porque normalmente tem o revendedor , pois se você passa nas lojas, os cartões são todos iguais. E descobrimos que era um cara do Pelourinho que tirava fotos e vendia, o dono de uma loja.

Esta passagem relaciona diretamente a construção da imagem que conecta turismo e sexo em Salvador, mas também permite uma reflexão sobre o incentivo à exploração sexual por meio do turismo, a ser tratada em um tópico adiante.

É apropriado apresentar a classificação da imagem do Brasil turístico, na representação de Rosana Bignami (2002). Para a autora, a imagem e a atratividade do Brasil para o turismo pode ser resumida nas seguintes categorias, ou estereótipos:

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• O Brasil Paraíso: onde a autora menciona as idéias de ambiente selvagem, exótico em atrativos naturais e paisagísticos, e cita como exemplo o enunciado da Carta de Pero Vaz de Caminha: “dar-se-á nela tudo” (p. 110).

• O Lugar de Sexo Fácil: esta categoria se remete mais claramente a elementos como sensualidade, beleza, libertinagem, “o símbolo da mulher brasileira, a concepção de vida nos trópicos” (p. 110).

• O Brasil do Brasileiro: características atribuídas ao povo brasileiro, como “musicalidade, hospitalidade, malandragem, doçura, alegria, ausência de racismo ou preconceito e a cordialidade” (p. 110).

• O País do Carnaval: são incluídas as manifestações festivas, folclóricas e culturais mais conhecidas, veiculadas pela mídia, e que mais uma vez associam o Brasil a elementos como felicidade e outros elementos que constam nestes eventos, como a sexualidade no Carnaval.

• O Lugar do Exótico e do Místico: ritos e rituais, religiosidade, mistério, cultura indígena etc.

A importância de citar estas categorias apresentadas pela autora está na percepção de que elas são interdependentes - uma alimenta e reforça a outra - e que constroem as idéias principais e mais marcantes sobre a imagem do Brasil no turismo internacional, como fragmentos que se relacionam e tornam o país repleto de estereótipos, idéias simplificadas sobre sua realidade, e que se traduzem nos discursos do turismo sexual, seja por parte dos atores entrevistados para esta pesquisa, seja por outros indivíduos, que possuem alguma ligação com o tema. Além disso, é possível verificar que estas idéias são mencionadas por diferentes autores que analisam o turismo sexual por óticas distintas (da infância, da sexualidade, da violê ncia etc).

Sobre o segundo tópico (Lugar de Sexo Fácil) a relação entre este estereótipo e o desenvolvimento do turismo sexual no Brasil é óbvia, mas quando se refere às outras categorias, pode-se ter algumas constatações interessantes: sobre “O Brasil Paraíso”, embora Bignami (2002) remeta-se a elementos paisagísticos e naturais, a denominação dada à categoria permite algumas associações. Afinal, a idéia de paraíso também pode ser acompanhada de prazer e sexualidade, assim como a menção à Carta de Pero Vaz de Caminha pode ampliar a interpretação sobre a fertilidade das terras brasileiras.

A respeito do “Brasil do Brasileiro”, as características citadas sobre este tópico podem permitir uma interpretação pejorativa, pois hospitalidade e cordialidade por exemplo, se relacionadas ao estereótipo do “Lugar do Sexo Fácil”, podem ser percebidas como acolhimento e submissão às propostas sexuais vindas de turistas, assim como malandragem pode ser interpretada como a busca de obtenção de vantagens, mesmo a partir da exploração da própria sexualidade ou de outrem.

Já “O País do Carnaval” parece ser uma categoria que se remete ao chamado “fato social total”, termo utilizado por Mauss (1974) para se referir a determinados eventos sociais que condensam em si a totalidade da sociedade e de suas instituições. Portanto, também pode ser interpretada como algo que resume algumas características do Brasil e do brasileiro, dentre elas o modo como a população manifesta permissividade e sua sexualidade.

Sobre “O Lugar do Exótico e do Místico”, a autora cita a cultura indígena, que também inclui a nudez, mencionada nas entrevistas - e que será analisada ainda neste tópico, no subtema sobre turismo e sexualidade, em um trecho mais apropriado sobre este elemento. Inferindo sobre a classificação da autora, o exótico também está associado à idéia de miscigenação de etnias, uma leitura sobre o Brasil e seu povo.

Além disso, todas as categorias incluem representações que se relacionam com algo como instintivo, emocional, natural, e nenhuma delas parece considerar elementos positivos relacionados por exemplo à racionalidade, ao desenvolvimento socioeconômico, à tecnologia ou ao conhecimento. Em suma, pode-se inferir que todas estas categorias podem trazer uma interpretação do brasileiro enquanto um ser humano manipulável por sua cordialidade, por exemplo, ligado à religião e distanciado do conhecimento científico, repleto de rituais e festas, mas enfartado de questões socioeconômicas a serem desembaraçadas, uma população mestiça, com fenótipos dos mais variados no mundo, uma vitrine que contém pessoas de todas as cores e traços, cordiais e prontos para a sexualidade. Sobre isso, para Adriana Piscitelli (2006), conforme citado no capítulo 2, “Turismo sexual: dimensões do fenômeno e a construção do conceito de turismo sexual”, este refere-se também à recriação de locais destinados ao consumo do sexo, por meio de um quadro ideológico em que populações pobres dispostas e incentivadas a se envolver no mercado de sexo.

Não há a intenção, por meio do que foi exposto neste subtema, de vitimizar o(a) brasileiro(a) diante do olhar do turista internacional, eliminando a possibilidade de

expectativa de troca – com ganhos de ambos os lados - nos relacionamentos estabelecidos entre autóctones e visitantes, mas há que se alertar para as interpretações possíveis contidas nas imagens que situam o Brasil na atividade turística (na classificação de Bignami, 2002) e que o teor de sexualidade pode se apresentar de forma oblíqua, amainada ao primeiro olhar. Vale retomar o caso de dois turistas alemães que estavam no aeroporto de Salvador em fevereiro de 200949:

Dois turistas alemães foram indiciados sob acusação de ato obsceno após trocarem de roupa no saguão do Aeroporto Internacional de Salvador (BA). Passageiros procuraram a polícia reclamando da conduta da dupla estrangeira. A delegada titular da Deltur (Delegacia de Proteção ao Turista), Maritta Souza, disse que um dos alemães afirmou não ter se sentido constrangido com o que fez. "Ele disse que pelo que ele vê nas praias e como é vendido o Brasil lá fora, achou que era normal fazer isso aqui." Segundo relatos de passageiros à polícia, na tarde de ontem os alemães chegaram a ficar de cueca no saguão enquanto trocavam de roupa. Os dois turistas --um administrador, de 64 anos, e um engenheiro, de 66-- contaram à polícia ter dado início à troca de roupas no saguão porque estavam em cima do horário para o embarque em uma aeronave.

Este fato demonstra que, apesar dos esforços de transformação da imagem do Brasil desvinculada da permissividade, e conseqüentemente do apelo à sexualidade, esta percepção é consolidada entre turistas estrangeiros. Vale também ressaltar o pensamento de Silva e Blanchette (2005), em sua pesquisa realizada na boate Help em Copacabana sobre turismo sexual, em que constataram:

As mulheres que operam na interseção entre turismo internacional e sexo são ativas na manutenção de uma visão do Brasil como campo para as realizações de fantasias sexuais e afetivas. Longe de serem simples vítimas, elas detêm um controle notável sobre as suas ações e representações, lançando mão de vários artifícios para construírem uma almejada ascensão social através do forjamento de ligações com estrangeiros itinerantes. (p. 278)

Desta forma, campanhas para reestruturação da imagem do Brasil no turismo não enfrentam desafios somente históricos, mas também de agentes que mantêm um estereótipo por meio da atuação enquanto atores deste contexto, conforme expectativas previamente colocadas, pois a imagem turística também influencia no comportamento de sujeitos pertencentes à população local, não só o contrário é verdadeiro.

A partir dos relatos que se enquadram no subtema denominado “Contexto histórico, turismo e sexualidade”, é também possível constatar que para todos os consultados, embora tenham apresentado visões distintas sobre o fenômeno, o turismo sexual é uma realidade no Brasil e em Salvador, e além disso, crianças e adolescentes se inserem neste enredo. Sobre

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as definições expostas sobre a temática, vale apresentar algumas idéias destacadas pelos consultados:

Para Leite (2007), que coordena o Centro Humanitário de Apoio à Mulher (CHAME), o turismo sexual aparece como um fator atrelado ao tráfico de seres humanos, como pode ser observado em seu relato: “nossa visão é de que o turismo sexual é uma

forma de tráfico de mulheres, uma forma de aliciamento para o tráfico. Isso, em termos gerais, pensando nos países de recepção, para onde essas mulheres vão.”

Para Araújo (2007), profissional de uma organização não governa mental dedicada ao enfrentamento da violência na infância e adolescência (CEDECA-BA), “o

turismo surgiu como esse “alavancador” [...] inclusive de tráfico (de pessoas) [...] é ele que traz essa possibilidade de “vem aqui eu vou casar com você” [...] Aquela idéia do príncipe encantado [...] eu não tenho dúvida que o turismo veio trazendo essas situações que ninguém imaginava que iria trazer.” Embora o turismo sexual seja atrelado ao tráfico

de pessoas, para o profissional, essa é uma das possibilidades, e além disso, há um destaque para as aspirações possivelmente da adolescência e da juventude sobre a idéia do príncipe encantado.

Pedreira (2007), pesquisadora do trabalho infantil que desenvolve suas atividades na UFBA, “aqui em Salvador tem muita exploração por meio do turismo. Essa questão do

Casquinha50, que é totalmente voltado para o turista estrangeiro [...] e aí eles (os donos da barraca) tentaram “moralizar” (fazer com que o local não fosse mais foco de encontro entre turistas e autóctones para o turismo sexual) e parece que não deu certo, então eles já estão voltando a permitir. Pelourinho também é um foco [...]quando eles (meninos e meninas) estão nas ruas, acaba sempre tendo alguém que explora.”, finaliza a

pesquisadora, referindo-se à todas as crianç as e adolescentes que estão “nas ruas”, em atividades como por exemplo a venda de balas nos semáforos, de artigos artesanais no Pelourinho etc. A partir deste trecho, é possível também notar a interseção de idéias sobre turismo e exploração.

Victória (2007), representante do setor de turismo, gerente de hotelaria, expõe sua definição: “turismo sexual em minha opinião é aquele motivado por razões ligadas ao

sexo. Ele compreende todo e qualquer fluxo de viagens realizadas com a finalidade exclusiva ou não da obtenção do prazer ligado ao sexo. A exploração sexual infanto-

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Restaurante em Salvador chamado “Casquinha de Siri”, próximo à praia. Local de muito movimento de pessoas da cidade e turistas.

juvenil, em meu entendimento, é toda a atividade [...] com o fim de obter vantagens de qualquer natureza, sejam elas comerciais ou não, a partir da sexualidade dos jovens menores.” O entrevistado relaciona o turismo sexual à realização de viagens que ocorrem

com intenção primordial ou não de ter relacionamentos sexuais. Esta visão se aproxima do panorama do turismo sexual desenvolvido por Oppermmann51 (1998), em que o turismo sexual pode ser analisado de forma mais ampliada, permitindo diferentes situações e contextos.

O consultado também estabelece uma distinção entre turismo sexual e exploração sexual de crianças e adolescentes, admitindo duas realidades, e estabelecendo uma distinção entre elas, uma vez que a primeira tem como finalidade o prazer através do sexo, e a segunda, a obtenção de vantagens por meio da exploração da sexualidade.

Uma vez que, em uma visão abrangente, o turismo sexual surge do encontro entre o deslocamento de pessoas proporcionado pela atividade turística e o exercer da sexualidade, este é um dos fatores não raramente mencionados nas entrevistas.

Gadelha (2009), define o turismo sexual como um fator assim estabelecido: “um

exercício assimétrico de poder econômico reforçado por um modelo historicamente construído de dominação da sexualidade do outro”, onde a sexualidade emerge como

instrumento de dominação e violência simbólica (BOURDIEU, 1989). Neste trecho, é possível perceber a interseção entre distintos elementos relacionados ao turismo sexual: violência, contexto histórico, sexualidade.

A sexualidade exacerbada, supervalorizada também foi um dos elementos que surgiram, na fala de Leite (2007): “nós brasileiros incentivamos muito isso [...] quantos