3. A VIOLÊNCIA ESTRUTURAL NA SOCIEDADE BRASILEIRA
3.1 CONTEXTO HISTÓRICO: VIOLÊNCIA, GENOCÍDIO E EXTERMÍNIO
E nas quebradas, nos guetos
Nós juventude negra, continuamos a ser exterminado. Quem se importa com o genocídio de uma população que não era nem pra existir?
A reposta é simples, é melhor a limpeza étnica;
Pra quando o IBGE chegar não ter tanta gente preta no senso. É melhor leis serem criadas pra dar passe livre à polícia, pra que esse genocídio continue instalado, do que as cotas sejam louva- das como reparação, e não como vitimismo, pra classe burguesa não se trata de vidas.
Pra eles somos apenas moeda de troca.
Somos a essência dos nossos ancestrais, a continuação dos reis e rainhas que que lutaram por nós outrora
A nossa revolução vem com os diplomas de doutores
Vem da poesia marginal, na arte que a nossa quebrada produz. Em cada gesto ou verso, somos a favela!
(Trecho da poesia Favela na Veia, de Mateus Silva)
No terceiro capítulo começamos com uma poesia que narra sobre o extermínio e o genocídio cotidiano vivenciados pelos jovens negros nas quebradas, nos guetos, nas favelas. Nesta parte do trabalho, temos como propósito abordar sobre a violência no Brasil, em particular a violência racial contra o jovem negro em seus aspectos do contexto histórico e consequências.
Parece-nos imprescindível começar com duas constatações. Primeiro, que já em 1978 Abdias do Nascimento, conhecido como fundador do Teatro Experimental do Negro, mas que foi, acima de tudo, uma das grandes referências do movimento negro no Brasil17, publicou o livro intitulado O Genocídio do Negro Brasileiro. O termo genocídio não foi por ele utilizado apenas como título, mas também para tratar do processo de um “racismo mascarado” e, principalmente, aludindo às dificuldades de “ser e viver negro no Brasil” (NASCIMENTO, 1978, p. 185).
A segunda constatação é feita na apresentação do livro Nossa Escravolândia Sociedade, Cultura e Violência: do Pitoresco ao Perverso (CONCEIÇÃO, 2015, p. 07):
Independentemente da opção dita progressista ou conservadora de quem comanda a máquina do Estado brasileiro e seus aparelhos
17 Dentre outros feitos, Abdias do Nascimento foi eleito Deputado Federal, e que teve como bandeira as questões do povo negro. Posteriormente, foi eleito também Senador, além de participar em eventos internacionais debatendo e divulgando sobre o racismo no Brasil.
ideológicos, o primado da violência contra os negros no Brasil impõe-se como uma constante trágica da história do país. Ainda que no sistema republicano. Ainda que sob o regime democrático.
Na primeira obra, Nascimento (1978) procurou demonstrar de forma emblemática o processo histórico de genocídio do povo negro brasileiro, abordando-o não numa perspectiva da eliminação genocida dos corpos negros, mas a partir de um conjunto de situações de subalternidades – parcialmente já explicitadas na primeira parte da fundamentação desta tese – que tiveram e têm como objetivo o desaparecimento desse povo. Nascimento apresenta algumas situações, a saber, “o mito do senhor benevolente”, a exploração sexual da mulher africana, o embranquecimento da raça e o embranquecimento da cultura, como estratégias de genocídio. Faz isso pontuando as marcas e as consequências da escravidão neste contexto histórico pós-escravidão.
Já na segunda obra, Conceição (2015) apresenta o que identifica como paradoxos ou questões que marcam as singularidades da realidade brasileira, especificamente da realidade baiana/soteropolitana. Segundo o autor, a Bahia/Salvador é nossa Escravolândia, o que significaria: terra de misticismos, apresentado contradições e mazelas da nossa realidade histórica nos âmbitos da política e religiosidade; terra de assassinatos, pois Salvador foi a porta de entrada dos escravizados e hoje estão os seus descendentes “amontoados em favelas e guetos, o epicentro da vida e da morte de grande parte dos negros baianos”; terra de estereótipos, na qual a Bahia/Salvador “parece ser um laboratório do reforço aos estereótipos”, destacando o papel que certos intelectuais e impressa têm tido nesse processo (ibid., p. 64).
O mundo contemporâneo tem como uma das suas características marcantes a convivência com as mais diversas formas de violências, uma vez que as sociedades viabilizaram tanto mecanismos que funcionam como formas de coibi-la como de reforça-la. Segundo Levisky (2010), a violência não é um estigma da sociedade contemporânea. Isso porque, mesmo pensando a violência enquanto um fenômeno sociológico, ela acompanha o homem desde tempos imemoriais; porém, a cada tempo histórico ela se manifesta de formas e em circunstâncias diferentes (LEVISKY, 2010, p. 06).
No Brasil, nas últimas décadas, entre os problemas que mais preocupam a população está à violência. Entretanto, ganha preponderância no cenário nacional outras questões ligadas ao atual momento político, econômico e social, com destaque para a corrupção nos altos escalões do Estado. O tema, mesmo não sendo objeto deste estudo, pode ser pensado seja
como resultado, seja como meio que pode vir a contribuir para um contexto violento de dominação de cunho étnico-racial.
Consideramos, assim, pertinente iniciar essa parte com uma discussão conceitual sobre os temas violência, homicídios, extermínio e genocídio. Porque fazem parte deste estudo e do ponto de vista por ele abordado, e também porque essa apresentação preliminar fundamentará e contribuirá para reafirmar uma leitura da história brasileira como marcada pela ocorrência de episódios de violências contra o povo negro, para além das que serão o campo empírico da tese – os assassinatos praticados por policiais militares enquanto operadores do sistema público e os linchamentos executados por populares contra jovens negros.
Qual a definição de violência condizente com o contexto atual, ou melhor, apropriada para o estudo ora em desenvolvimento? Iniciaremos com o entendimento sobre violência da Organização Mundial de Saúde OMS, a qual afirma que é:
o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação.18
Além de definir a violência, para este estudo se faz necessário também situar o tipo de violência que atinge sobremaneira o grupo alvo da pesquisa, os jovens negros, que é a violência letal, em decorrência da violência racial que tem contribuído para os dados alarmantes dos homicídios. Segundo o Código Penal Brasileiro, Decreto-Lei 2.848 de 07 de dezembro de 194019, explicitado na Parte Especial Título I- Dos Crimes Contra a Pessoa e Capítulo I- Dos Crimes Contra a Vida, em seu artigo 121, o ato de matar alguém apresenta subcategorias em função das intenções de quem o comente, e que também designam o quantitativo da pena, que é de reclusão de seis a vinte anos. Entretanto, vemos que nas situações especificas das mortes violentas dos jovens negros, a norma prevista não tem sido cumprida, haja vista a expressiva não aplicação da punição para quem as tenha cometido. Principalmente nos casos específicos em que as mortes tenham sido praticadas por policiais na condição de operadores do sistema da segurança pública, em grande medida em situações inexplicáveis e injustificáveis.
18 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232006000500007.
19 http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-2848-7-dezembro-1940-412868-publicacaooriginal-1-pe.html.
Desta forma, a dimensão que as mortes de jovens negros tomou no Brasil nas últimas décadas do século XX – mesmo quando o país teve avanços democráticos e algumas conquistas de cunho econômico, apesar dos retrocessos vivenciados a partir da metade da segunda década do século XXI – tem mobilizado parte da sociedade, principalmente representantes de movimentos sociais negros, pesquisadores e organizações internacionais, a tratar do tema a partir de uma perspectiva que supõe um processo de genocídio. Por esse motivo, consideramos bastante pertinente destacar mais alguns aspectos da obra clássica de Nascimento (1978).
Logo no início do livro são apresentadas duas definições da palavra genocídio que são, primeiro, a definição do Dictionary of the English Language, Massachusettes, 1967, a qual afirma que genocídio é:
O uso de medidas deliberadas e sistemáticas (como morte, injúria corporal e mental, impossíveis condições de vida, prevenção de nascimentos), calculadas para a exterminação de um grupo racial, político ou cultural, ou para destruir a língua, a religião ou a cultura de um grupo. (NASCIMENTO, 1978, p. 14)
A seguir está à definição do Dicionário Escolar do Professor, organizado por Francisco da Silveira Bueno (Ministério da Educação e Cultura, 1963, p. 580), que afirma:
Genocídio s.m. (neol.) Recusa do direito de existência a grupos humanos inteiros, pela exterminação de seus indivíduos, desintegração de suas instituições políticas, sociais, culturais, linguísticas e de seus sentimentos nacionais e religiosos.
Ex: perseguição hitlerista aos judeus, segregação racial etc. (NASCIMENTO, 1978, p. 15)
No ano de 1948, poucos anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, marcada pela ocorrência do genocídio do povo Judeu, as Nações Unidas, em assembleia realizada em 11 de dezembro do mesmo ano, aprovam a Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio20. No art. II da Convenção ficou definido como crime de genocídio uma série de atos “cometidos com a intenção de destruir no todo ou em parte, um grupo nacional,
étnico, racial ou religioso”. No Brasil, já em 1952, a referida Convenção foi ratificada pelo governo brasileiro21.
Como podemos observar, na segunda definição é citada como exemplo de Genocídio a perseguição hitlerista aos judeus e a segregação racial, e de modo recorrente o termo genocídio tem sido empregado para se referir às mortes do povo Judeu vítima do nazismo de Hitler e seus seguidores. Inclusive a referida Convenção é aprovada pelas Nações Unidas exatamente após o final da Segunda Guerra Mundial. Mas, historicamente, as sociedades têm conhecimento de que muitos outros povos foram vítimas de genocídios. Césaire (2010), em seu livro Discurso sobre o Colonialismo, faz um comentário sobre o nazismo e o genocídio cometido na Europa contra o homem branco europeu em relação aos que foram identificados por ele como “pseudo humanismo”.
Propõe que,
(...) no fundo o que não é perdoável em Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do homem em si, senão o contra o homem branco, e haver aplicado na Europa procedimentos colonialistas que até agora só concerniam aos árabes da Argélia, aos coolies da Índia e aos negros da África. (CÉSAÍRE, 2010, p. 22)
Consideramos apropriada e condizente com a citação esboçada acima a matéria de capa da revista da UNESCO (ELNADI e RIFAAT, 1994). Na revista foi ressaltado que 200 anos após a primeira abolição, a escravidão continuava um crime sem castigo. Referindo-se ao fato histórico segundo o qual a França, mesmo alguns anos depois de ter iniciado o processo revolucionário de abolir a escravidão, ainda sustente a escravidão em algumas colônias francesas.
A matéria pontua ainda alguns questionamentos:
Como é possível que, durante milênios, certos homens, certos povos tenham sido comprados, vendidos como animais? E como esse crime contra a humanidade pode ter permanecido impune mesmo depois da consagração dos Direitos Humanos?
Talvez não haja uma resposta simples para essas terríveis questões. Sabemos, porém que não devemos jamais deixar de formulá-las. (ELNADI e RIFAAT, 1994, p. 05 - Revista da UNESCO).
21 http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1950-1959/decreto-30822-6-maio-1952-339476-publicacaooriginal-1-pe.html.
Dentre outros aspectos de fundamental importância ressaltados por Fernandes, autor do prefácio do livro de Nascimento (1978), consideramos marcante quando ele atenta para a contribuição que “se vincula ao uso sem restrições do conceito de genocídio aplicado ao negro brasileiro”. Além disso, diz que “trata-se de uma palavra terrível e chocante para a hipocrisia conservadora” (NASCIMENTO, 1978, p. 21).
Fernandes (NASCIMENTO, 1978) se questiona se o tratamento dado ao negro, no passado e atualmente, merece outra qualificação que não genocídio. Sobre isso, argumenta que “da escravidão, no início do período colonial, até os dias que correm, as populações negras e mulatas têm sofrido um genocídio institucionalizado, sistemático, embora silencioso”. O termo, desse modo, não seria nem apelo retórico, nem um jogo político (ibid., p. 21).
Chama a atenção o fato de, no prefácio, Fernandes destacar que “quanto à escravidão, o genocídio já estava à época que o livro foi escrito amplamente documentado e explicitado pelos melhores e mais insuspeitos historiadores”. Reafirma ainda que, ao contrário do que se poderia pensar, a abolição não dá fim ao genocídio, mas o agrava. Portanto, o genocídio ocorreu e ainda está ocorrendo; e é um grande mérito de Abdias do Nascimento suscitá-lo como tema concreto. Desta forma, reafirma que ao ser “condenado à periferia da sociedade de classes foram neste sentido expostos a um extermínio moral e cultural que teve sequelas econômicas e demográficas” (NASCIMENTO, 1978, p. 21).
Durante as últimas décadas do século XX é possível destacar a ocorrência de pelo menos cinco grandes episódios identificados como genocídios, quais sejam: na Armênia, 1915; dos Curdos, 1986-1989; na Bósnia, 1992-1995; em Ruanda, 1994 e no Timor Leste, 1999. Por um lado, é patente a atualidade do tema, seja de modo geral, seja especificamente na realidade brasileira, caracterizada pela violência. Por outro, entretanto, é lamentável observar que mesmo assim permanecem as dificuldades para aqueles, dos movimentos negros, pesquisadores, ativistas, que buscam estabelecer uma possível relação entre a violência letal decorrente da violência racista contra jovens negros e o contexto brasileiro, marcado pela ocorrência da escravidão e do racismo, em especial quando consideramos esses acontecimentos como genocídio22.
22 Citamos como exemplo um episódio pouco conhecido da realidade brasileira, descrito por Arbex (2013), responsável pela pesquisa e publicação do livro “Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 Mil Mortes no Maior Hospício do Brasil”.
Entretanto, os altos índices de mortes dos jovens negros têm mobilizado também organismos internacionais, não só devido às proporções que tal situação vem tomando, mas também porque eles têm sido acionados pelos familiares dos jovens, bem como pelos movimentos sociais negros. A ONU Brasil publicou em seu Portal, em 15/03/2016, a seguinte notícia: “Brasil: Violência, pobreza e criminalização ‘ainda têm cor’”.
Segundo a matéria:
publicado nesta semana, a especialista independente da ONU sobre minorias, Rita Izsák, alertou: cerca de 23 mil jovens negros morrem por ano, muitos dos quais são vítimas de violência pelo Estado. Cenário evidencia ‘dimensão racial da violência’, que movimentos sociais descrevem como ‘genocídio da juventude negra’23.
A Anistia Internacional é outro organismo internacional que também tem realizado campanha diante dos altos números de mortes de jovens negro no Brasil. A campanha tem como tema “Jovem Negro Vivo” – “Queremos ver os jovens vivos!”.
O Brasil é o país onde mais se mata no mundo, superando muitos países em situação de guerra. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados24
Adiante, eles demonstram sua indignação com o fato:
Mais absurdo que estes números, só a indiferença.
A morte não pode ser o destino de tantos jovens, especialmente quando falamos de jovens negros. As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas
O destino de todos os jovens é viver. Você se importa?
Eu me importo!25
Com o objetivo apenas de aprofundar a compreensão de um histórico brasileiro marcado pela violência e por ter relação com o tema do genocídio do jovem negro,
23 https://nacoesunidas.org/brasil-violencia-pobreza-e-criminalizacao-ainda-tem-cor-diz-relatora-da-onu-sobre-minorias/.
24 https://anistia.org.br/entre-em-acao/peticao/chegadehomicidios/.
abordaremos, mesmo que de forma superficial, o significado de extermino. Segundo a CPI do extermínio (2006), extermínios são execuções sumárias, arbitrárias e extrajudiciais. Historicamente o termo extermínio tem sido utilizado como referência para contextualizar a dizimação em massa dos povos indígenas a partir da ocupação e colonização da “terra brasillis” pelos portugueses.
Dos grupos de extermínios que atuam de forma constante na atualidade brasileira destacaremos os do Nordeste no século XX, principalmente durante o período da ditadura. Segundo dados apresentados no relatório da CPI (2006) sobre grupos de extermínio que atuava nos estados do Nordeste, estes eram, ou ainda são, formados e comandados em sua maioria por policiais, inclusive aposentados. As ações de tais grupos de matadores no Nordeste, no geral, eram nos bairros periféricos das cidades, e contavam com o apoio e interesses de pessoas poderosas.
Com relação à Bahia, foi ressaltado no relatório CPI do Extermínio (2006, p. 07) que:
Camaçari, Feira de Santana, Cruz das Almas, Juazeiro, Senhor do Bonfim, Santo Antônio de Jesus e bairros periféricos de Salvador são áreas de atuação mais intensa. Tráfico de drogas, máfia do combustível e roubos de cargas são os pontos de atuação do extermínio. No Sertão baiano, mais precisamente na cidade de Juazeiro, um grupo agia sob o conhecimento e, segundo denúncia, sob o comando do Coronel da PM, Carlos Alberto Müller Andrade, que era comandante da PM de Juazeiro entre 1999 e 2003. Pelo menos 198 jovens foram assassinados “por encomenda” na região.
É importante registrar as realizações das CPIs. Mas cabe uma pergunta: será que são resolutas, que colocam em prática as resoluções a que chegam, ou, na melhor das hipóteses, têm contribuído para impediram novas ocorrências das situações que motivaram a sua realização? A motivação para a pergunta está relacionada ao fato de que na periferia de Salvador permanecem atuando grupos de extermínios, com destaque para as ocorrências nas regiões periféricas de Cajazeira/Jaguaribe, em 2013, e Subúrbio, em 2015.
Outra forma de violência que também tem vitimizado o jovem negro e que precisam ser mais evidenciadas são as chacinas, definidas como “ação de matar muitas pessoas ao mesmo tempo26”. Tais ações também podem ser identificadas como marcas determinantes do contexto histórico brasileiro de violência. Poderíamos citar várias, dezenas de chacinas cometidas em períodos recentes da história do país, porém registrarem só algumas que
tiveram repercussões nacionais e internacionais: Acari, Carandiru, Candelária. Em Salvador, destacaremos duas chacinas que tiveram forte repercussão. A primeira no bairro do Lobato, onde quatro jovens foram assassinados em 26 de agosto de 1993. Em homenagem aos jovens, o dia 26 de agosto foi aprovado como o Dia Estadual de Combate aos Homicídios e à Impunidade. A segunda, ocorrida em 06 de fevereiro de 2015, que desta vez vitimou sumariamente 12 jovens no bairro do Cabula.
Retomando a discussão sobre o genocídio e mais uma vez reafirmado a dimensão política do problema da violência contra os jovens negros brasileiros, constatamos que em 2015 foi instalada Comissão Parlamentar de Inquérito Homicídios de Jovens Negros e Pobres. A CPI foi uma demanda dos movimentos negros e do Conselho Nacional da Juventude – CONJUVE, que desde 2013 alertava para gravidade do problema (Relatório CPIHJNP, p. 04).
Vale ressaltar que a CPI foi criada com o seguinte objetivo:
(...) investigar o assassinato de jovens no Brasil. A ideia foi identificar as causas e os principais responsáveis pela violência letal que assaca nossa juventude, a fim de criar mecanismos para prevenir e combater este grave problema. (Relatório da CPI de Assassinatos de Jovem, 2016 p. 04)
No relatório foi evidenciado que:
Os índices atuais assumiram níveis gritantes. A cada 23 minutos ocorre a morte de um jovem negro no Brasil. A militância do Movimento Negro auscultada pela CPI, em sua totalidade, classificou como sendo um verdadeiro Genocídio da População Negra o que ocorre atualmente em nossa sociedade. De fato, os índices de mortalidade assumem dimensões de países em guerra. (Relatório da CPI de Assassinatos de Jovem, 2016 p. 32)
Mas é de fundamental importância ser constatada ainda a seguinte observação:
E mais impactante é o silencio da sociedade, das camadas médias e superiores, para quem esses assassinatos não constituem um problema social, pelo contrário, sendo considerados por muitos uma necessária estratégia de erradicação da bandidagem. (Relatório da CPI de Assassinatos de Jovem, 2016 p. 32)
Durante o funcionamento da CPI seus membros realizaram audiências públicas nos estados da federação. Em Salvador ela ocorreu em 11 de maio de 2015, ocasião na qual a autora deste estudo, na condição de pesquisadora, teve a autorização para assistir como