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4.2 Processo de institucionalização da Festa do Divino no centro de Florianópolis

4.2.1 Contexto inicial de institucionalização (1806 – 1983)

A Irmandade do Divino Espírito Santo (IDES) é a principal organização responsável pela coordenação e realização da Festa do Divino Espírito Santo no centro de Florianópolis, desde o seu surgimento. Fundada em 10 de junho de 1773, com cinqüenta pessoas inscritas, a Irmandade foi criada com o objetivo de preservar as tradições açorianas, especificamente o culto ao Divino.

De acordo com o atual provedor da Irmandade, Sr. Washington do Valle Pereira “corria o ano de 1773, os imigrantes açorianos que haviam chegado à Vila de Nossa Senhora do Desterro não esqueciam suas tradições e costumes. Dentre eles, destacava-se o culto ao Divino Espírito Santo. Esta saudade levou-os a fundar a Irmandade do Divino Espírito Santo” (depoimento em documento interno da IDES).

Assim em 1774, chegavam, de Portugal, a coroa, o cetro e a custódia para a capela e, em 1776, era realizada a primeira Festa do Divino. Em 1804, chegava de Portugal a salva4, e em 1806, realizou-se a primeira festa de coroação do imperador, sendo coroado o Capitão Manoel Francisco da Costa.

De acordo com o Sr Washington do Valle Pereira “durante todo o século XIX, a Irmandade prosseguiu sua atividade religiosa e cultural, difundindo e consolidando a fé no Divino Espírito Santo perpetuando assim as festividades populares” (depoimento em documento interno da IDES). Constata-se que neste período a festa, como fenômeno social, fundamentava-se exclusivamente em torno de valores e costumes relacionados à tradição e símbolos religiosos.

Contudo, a partir de 1896, verifica-se uma mudança no ambiente organizacional da IDES, por pressões políticas, relacionadas à legislação. Atendendo a política implementada5 pelo primeiro Bispo de Curitiba (a quem o Estado de Santa Catarina estava religiosamente dependente), os membros da Irmandade resolveram dedicar-se à assistência social, com a instituição de um orfanato para crianças carentes.

Em 08 de setembro de 1910 a IDES, inaugurou o orfanato São Vicente de Paulo, no centro de Florianópolis, e foi firmado um convênio6, com as Irmãs da Congregação da Divina Providência, para auxiliar na administração e educação das crianças atendidas. A partir da fundação do orfanato, a IDES passou a atender crianças carentes, aumentando a dependência de recursos financeiros externos para manutenção de sua estrutura. Mas, a parceria com o colégio controlado pelas Irmãs e as doações realizadas pelos membros da IDES, passaram a ser as principais fontes de recursos para a manutenção da estrutura do orfanato.

Nesse contexto, as doações dos membros da IDES que eram anteriormente alocadas na festa, foram transferidas para a manutenção do orfanato, causando mudanças no ambiente técnico. Para a festa continuar ocorrendo, esta deveria tornar-se auto-sustentável, gerando os recursos necessários para sua realização. Assim, foram incorporados aos seus rituais (peditório, cortejo e coroação do Imperador), as folias e os folguedos, com a comercialização

5 Em 1o de novembro de 1896, Dom José de Camargo Barros, Bispo de Curitiba, determina que “todas as Irmandades que não tivessem hospitais, asilos ou outras casas de caridade ao seu encargo, deveriam repassar 10% de suas rendas líquidas as instituições pias da Paróquia”. A IDES apesar de não se incluir em nenhum destes itens, obteve a dispensa regular da taxa ao planejar a criação e implementação de um orfanato. 6 O convênio permaneceu até 1984.

de produtos e alimentos em barraquinhas, e a realização de rifas e bingos, geridos pelos membros da Irmandade e por voluntários da comunidade, para saldar os custos da festa.

Faz-se necessário ressaltar, que neste estágio a festa não gerava receita excedente para a manutenção do asilo, mas apenas, recursos para a sua própria realização, sem necessitar que as doações dos membros da IDES, fossem alocadas para realização da festa, mas fossem empregadas exclusivamente na manutenção do orfanato.

Verifica-se que neste estágio, a remoção de incentivos para a realização da festa, o que ocasionou mudanças na sua forma de organização e realização. Surgiram novas necessidades funcionais, que propiciaram a institucionalização de valores relacionados não só a religiosidade, mas também ao caráter de festividade e lazer, pois a festa incorporou novos elementos, que propiciavam a diversão e socialização, como pode ser evidenciado pelo depoimento do Sr. Moisés Leandro da Silva.

A festa do Divino sempre foi muito tradicional aqui na Ilha. Era uma oportunidade das pessoas se encontrarem e se divertir. Depois da missa, as pessoas iam pra rua, na frente da praça e tinham barraquinhas de pescaria e doces, além do leilão. A juventude também aproveitava muito, porque surgiam muitas flertes e namoros na festa. Era uma festa muito freqüentada pela alta sociedade, porque os festeiros eram sempre pessoas de famílias tradicionais e do meio político. Eu lembro que as pessoas mandavam fazer roupa pra ir à festa, porque era um momento aguardado o ano todo (Sr. Moisés Leandro da Silva, 85 anos, aposentado. Entrevista em 20/12/2005).

É importante salientar que ao incorporar a comercialização de produtos, a festa segmentou-se para um público específico, ou seja, as tradicionais famílias da elite florianopolitana e suas figuras políticas.

Verificando o desenvolvimento histórico da festa, constata-se que pessoas de renome político e social, como prefeitos, governadores e deputados, participaram como festeiros, em várias edições da festa, destacando-a como um evento muito importante na cidade, isto porque apesar de ser realizado num espaço público, era caracterizado pela presença de figuras do

meio político e das tradicionais famílias de Florianópolis. Assim a festa manteve-se institucionalizada e fortemente legitimada durante anos.

Contudo, por pressões políticas, funcionais e sociais, que serão expostos na seção seguinte, a festa sofreu um processo de desinstitucionalização e foi extinta em 1983.

O contexto descrito pode ser representado pela curva do processo inicial de institucionalização, definida por Lawrence, Winn e Jennings (2001), apresentada a na figura 6(4).

Legitimação e resistência a novos valores e práticas

Pressões da dinâmica social Percentual de adaptação Celebração dos valores Religiosos Forma de lazer e

entretenimento para a elite

Desinstitucionalização 1806 Realização da 1a festa 1910 Fundação do orfanato 1983 Extinção da festa

Figura 6(4) - Curva do contexto inicial de institucionalização (1806 – 1983) da Festa do Divino Espírito Santo do centro de Florianópolis.

Fonte: Interpretada a partir do modelo de Lawrence, Winn e Jennings (2001, p. 626).