1. ECONOMIA E HAYEK NO SÉCULO XX
1.5 Economia e Conhecimento (EK)
1.5.1 Contexto intelectual
Antes de ir direto ao argumento, vale apontar o contexto intelectual de Hayek no seu trabalho sobre a noção de equilíbrio. Pretendo seguir a divisão tripartida de Caldwell (1988, p. 514) da relação de Hayek com a noção de equilíbrio.
Na primeira fase, de 1928 a 1937, ele afirmava que qualquer explicação econômica legítima deve usar alguma forma do constructo do equilíbrio.
O conceito de equilíbrio é uma ferramenta indispensável para a análise das diferenças temporais de preços como é para qualquer outra investigação na teoria econômica, já que só com a ajuda dessa noção é possível prover uma descrição sumária de um grande número de tendências de movimentos que são operativas em todos os sistemas econômicos em um ponto no tempo. (HAYEK, 1928 p.75)
No artigo “Intertemporal Price Equilibrium and Movements in the Value of Money” de 1928, Hayek aponta que toda a atividade econômica acontece no tempo. A teoria estática do equilíbrio é uma “ficção metodologicamente valiosa”
que permite abstrair do aspecto temporal da realidade. Essa pressuposição simplificadora não causa problemas quando se investiga a atividade econômica em um ponto no tempo, na análise estática do equilíbrio. Mas quando o interesse é explicar o funcionamento de uma economia monetária com preços sendo fixados em vários pontos no tempo, a abstração “faz violência ao estado real das coisas, o que causa sérias dúvidas sobre a utilidade dos resultados alcançados” (Ibid, p. 76).
A adição de temporalidade para o constructo é necessária para explicar os ciclos econômicos e aproximar a teoria do fenômeno econômico. Mas Hayek é severo com outras teorias que tentam explicar o ciclo econômico sem utilizar a teoria do equilíbrio25.
25 Em Monetary theory and the trade cycle (1933), Hayek subdivide as teorias rivais em três grupos: teorias não-monetárias do ciclo (técnicas de produção, poupança e investimento e teorias psicológicas), teorias monetárias alternativas (várias versões de teorias quantitativas que afirmam a estabilização do valor do dinheiro para encerrar o ciclo), e o abandono total de teorias para utilizar investigações estatísticas para explicar o ciclo.
Não podemos superimpor sobre o sistema de proposições fundamentais que consistem a teoria do equilíbrio uma teoria do ciclo apoiada em fundações lógicas não relacionadas.
Todos os fenômenos observados em flutuações cíclicas, particularmente a formação de preços e sua influência na direção e volume da produção, já foram explicadas pela teoria do equilíbrio; essas flutuações só podem ser integradas como uma explicação da totalidade de eventos econômicos por meio de construções fundamentalmente similares. (HAYEK, 1933 p.
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O resumo dessa citação relativamente grande é de que Hayek não queria soluções estranhas (de qualquer outra natureza epistêmica) e incompatíveis com o sistema teórico fundamental utilizado pela teoria econômica para explicar os ciclos econômicos.
Voltemos ao problema que Hayek havia identificado. O ciclo econômico é algo que não devia existir se aceitamos a pressuposição de que preços promovem um mecanismo automático para equilibrar oferta e demanda, regendo as ações dos agentes econômicos. Como pode haver um ciclo econômico - ou seja, o não equilíbrio entre oferta e demanda - cuja explicação dependa da teoria que pressupõe o equilíbrio como ponto de partida?
Para Hayek, “nenhuma teoria foi capaz de superar a contradição entre o curso de eventos econômicos descritos por ela e o sistema teórico fundamental que elas utilizam para explicar esse curso” (HAYEK, 1933, p. 52). Uma solução proposta é a de abandonar a teoria e colocar no lugar uma pesquisa puramente empírica para descrever o ciclo. Hayek nota, entretanto, que esse grupo enfatiza “a completa ausência de pressuposição teórica” (Ibid, p. 38). Para ele, estudos empíricos “não podem, em si mesmos, oferecer solução para as causas ou necessidade do ciclo econômico”26 (Ibid, p. 27).
Dessa forma, a única solução é a de “ampliar as pressuposições” da teoria corrente do equilíbrio, para explicar a diferença entre o curso de eventos descritos pela teoria estática do equilíbrio (que só permitem movimentos para
26 Essa afirmação deve ser interpretada no sentido kuhniano (e kantiano) de que a teoria vem primeiro. Hayek e, de maneira geral, a escola austríaca tem inspiração kantiana, especialmente pela praxeologia de Mises. Portanto, a necessidade e as causas vem da teoria, uma afirmação bastante kantiana. Hayek reconhece ter tomado como dada a filosofia de Kant em “The Primacy of the Abstract” quando desenvolveu sua teoria psicológica em “The Sensory Order” (HAYEK, 1978, p.45. Nota de rodapé).
um equilíbrio) e o curso real dos eventos. Essa ampliação culmina no artigo que mais nos interessa nesta seção.
Na segunda fase, com “Economics and Knowledge” 27, Hayek avança uma nova definição de equilíbrio, preocupada com conhecimento e sua aquisição, de como incorporar proposições sobre informação e expectativas na teoria econômica. Neste artigo, Hayek afirma que o problema da coordenação é o problema das ciências sociais. Ele conclui que a teoria do equilíbrio, por assumir perfeito conhecimento, é incapaz de iluminar a solução do problema de coordenação econômica, admitindo incerteza sobre as consequências desse dilema para o futuro teórico do campo.
Finalmente, a terceira fase termina com a publicação do seu último trabalho técnico em economia, The Pure Theory of Capital, em 1941. Mesmo em posse de um constructo de equilíbrio intertemporal, ele no prefácio se desculpa por utilizá-lo, apesar de achá-lo um avanço em relação ao anterior (HAYEK, 1941, vii). Hayek sugere que a análise teórica pela noção de equilíbrio é na melhor das hipóteses preparatória para uma análise causal do fenômeno econômico.
Vale a pena ler um pouco das suas palavras, porque elas antecipam acontecimentos atuais:
Eu tinha uma vaga ideia de que a tarefa de sistematizar [a teoria econômica de Jevons, Böhm-Bawerk e Wicksell]
revelaria lacunas sérias no raciocínio, que ainda precisavam ser preenchidas, e que algumas simplificações empregadas pelos escritores originais teriam consequências de longo alcance, a ponto de tornar suas ferramentas conceituais quase inúteis para a análise de situações mais complicadas (HAYEK, 1941, vi).
Para os propósitos dessa seção, meu foco estará na segunda fase onde se encontra o artigo EK. Porque não utilizar a terceira fase ao invés da segunda, ainda mais considerando o título que define a terceira fase: The Pure Theory of Capital? A resposta é bastante simples: esse livro é uma tentativa de
27 “Foi, na verdade, o começo de ver as coisas sobre uma nova luz. Até aquele momento eu estava desenvolvendo ideias convencionais. Com “Economia e conhecimento”, comecei a desenvolver minha própria forma de pensar. As vezes em particular digo que fiz uma descoberta nas ciências sociais: a abordagem da utilização do conhecimento disperso. “(CALDWELL, 2005, p. 206)
salvar e ajustar a heurística do equilíbrio com as inspirações subjetivas da segunda fase. Hayek avança pouco e reconhece isso no prefácio. Ademais,
“Economics and Knowledge” apresenta sinteticamente todas as questões econômicas e filosóficas relevantes para a compreensão dos meus propósitos.
Este artigo concentra as principais questões e ao mesmo tempo é cotejado por afirmações metodológicas. Essa combinação rara de trabalho técnico com afirmações metodológicas explícitas atinge diretamente o sistema formal da teoria econômica, aquele que seria depois atribuído ao trio de economistas Walras, Jevons e Menger, abordados na seção anterior.
O que Hayek inadvertidamente fez foi identificar dificuldades que lhe permitiram trabalhar sua concepção de economia em contraste com a teoria econômica vigente. Nesse contexto, Hayek depois opta por reconceber seu campo e articular uma fundação nova que contornasse essas dificuldades.
Essa seria a razão para seu desligamento da pesquisa econômica para se dedicar a questões de ordem psicológicas, sociológicas e até mesmo à definição de ciência, direcionadas contra o cientismo na década de 40 e 50.