2 CONTEXTO AMBIENTAL E ARQUEOLÓGICO
2.2 CONTEXTO LOCAL: COMPLEXO ARQUEOLÓGICO SERRA DAS PARIDAS
O complexo Arqueológico Serra das Paridas foi descoberto em 2005 por catadores de mangaba após incêndio florestal na Chapada Diamantina. É composto por dezoito locais, até então identificados, com ocorrência de pinturas, dentre os quais estão abertos á visitação os sítios I, II, III e IV. O corpus analítico dessa dissertação são exatamente esses quatro sítios mais conhecidos e de fácil acesso.
Para ter acesso ao sítio é percorrida uma distância de 24 km saindo de Lençóis via BR e mais 12 km numa estrada de terra (Figura 23). No local de entrada, ainda na
estrada, já é possível visualizar os afloramentos que emergem na paisagem. Do mesmo modo, a visão de dentro do complexo para o horizonte é extensa. A área é particular e é explorada como local turístico por uma empresa especializada. Dessa forma, há uma delimitação do espaço e uma adequação do ambiente para receber pessoas. No local há uma casa, banheiros externos, corrimão feito de madeira morta para delimitar o espaço do visitante e auxiliar no trajeto, água encanada e a inserção de animais domésticos.
Figura 23 – Localização do complexo Serra das Paridas em relação aos municípios do entorno.
Fonte: (ETCHEVARNE, 2007).
O primeiro sítio, Serra das Paridas I, é composto por cinco afloramentos com pinturas que formam um único conjunto pela sua proximidade (como pode ser observado na figura 24) e se encontram a 751 metros de altitude em relação ao nível do mar. Porém, como se poderá observar nas próximas seções, a utilização dos suportes rochosos foi bem diversificada para a construção dos painéis gráficos. A maioria dos painéis encontra-se em áreas abertas classificadas como paredões, apenas quatro são abrigos, contra nove paredes, dentre os painéis, o destaque é o majestoso paredão do segundo afloramento que fica visível a mais de 1 km de distância.
Figura 24 – Mapa de localização dos afloramentos com pintura no sítio Serra das Paridas I.
Fonte: (ETCHEVARNE, 2007).
O sítio II está em um conjunto extenso de afloramentos areníticos localizados em uma área de grande altitude. Nesse espaço é possível ter uma visibilidade privilegiada para o outro conjunto de afloramento que abriga o sítio I, bem como para o entorno da paisagem. Apenas dois afloramentos foram utilizados como suporte para pinturas, ambos com extensos paredões altos. No terceiro sítio apenas um afloramento foi grafado, mas em todo o seu entorno. Há áreas abrigadas na extensão leste e oeste do suporte, onde foram organizados os painéis de maior complexidade gráfica. A visibilidade para o entorno é boa, apesar da localização em pouca altura, por conta da vegetação de pequeno e médio porte encontrada no local.
O quarto e último sítio encontra-se bem afastado dos demais, o que exige uma caminhada que dura em média uma hora. Apenas um extenso paredão no alto foi grafado quase que em sua totalidade. Na área imediatamente a frente do painel, a vista para o entorno é muito privilegiada, sobretudo para a direção do poente, onde se localiza o município vizinho Wagner.
A vegetação local é característica dos campos rupestres, com árvores de pequeno porte que florescem em solos pobres de nutrientes ou nas frestas de afloramentos rochosos, como as bromélias e os cactos. A árvore que se destaca atualmente no complexo é a mangabeira que no verão floresce e dá frutos em grandes quantidades.
Os afloramentos rochosos que possuem grafismos pertencem à formação geológica Morro do Chapéu, com a predominância do arenito silicificado servindo como suporte para as pinturas. Devido ao processo de acamadamento e compressão, há locais em que as rochas formam paredes lisas e planas, mas também ocorrem aquelas que se apresentam com fortes ondulações e visível separação das camadas.
A topografia dos afloramentos que resultaram da formação Morro do Chapéu é bem diversificada, há formatos e alturas bem distintos. De acordo com Etchevarne (2009), os afloramentos formam colinas e serras, além de se apresentarem em conjuntos isolados em forma de cogumelos que apresentam na base espaços abrigados, pouco profundos, ideais para a permanência de um grupo e para que eles plasmem em suas paredes internas os sistemas gráficos que lhes eram próprios (ETCHEVARNE, 2009).
O solo é arenoso e pouco profundo, devido ao processo de erosão das rochas que produzem grãos de quartzo, facilmente levados pela ação dos ventos. Dessa forma, podemos caracterizá-lo como litossolo, raso e pedregoso. Para exemplificar os tipos de solo encontrados no complexo, na escavação de 2013 em um abrigo do sítio Paridas I, a profundidade máxima de uma quadrícula foi 50 cm, mas a matriz rochosa já podia ser percebida a partir dos 20 cm em algumas áreas.
O recurso hídrico que se encontra nas proximidades, atualmente, é o rio Utinga, de caráter intermitente, que corre a 1 km da localidade. Porém, fontes de água temporárias, como poços e charcos, podem ter ocorrido, devido à topografia acidentada que produz esse tipo de armazenamento natural de águas pluviais.
As cores encontradas no painel, em grau de ocorrência, são: vermelho, amarelo, branco e preto. A cor vermelha é a que mais varia na tonalidade, as nuances passam de vermelho alaranjados até tons voltados para o roxo. Tais diferenças podem ser explicadas pelo espaço temporal entre distintos momentos de pintura e seu desgaste, bem como a manipulação diferenciada no momento de produzir a pasta que serve de pigmento ou ambas as proposições. Tosello (2005) observou através da manipulação experimental com a hematita que a modificação do aglutinante e dos processos de produção da pasta resulta em diferentes tons de vermelho.
Em artigo publicado em 2008, Cavalcante e colaboradores analisaram a composição química dos pigmentos no sítio Serra das Paridas I e chegaram a seguinte conclusão:
Os resultados das análises mostraram que as pinturas em vermelho presentes no Sítio Serra das Paridas I foram feitas com pigmento à base de hematita (á- Fe2O3), uma argila corriqueiramente chamada de ocre, facilmente encontrada no Piauí em locais próximos de rios e riachos. (CAVALCANTE et al., 2008, p. 70).
Em 2013, durante a escavação já citada, a matéria prima apontada nos resultados da pesquisa de Cavalcante e colaboradores (2008), a hematita, foi encontrada in situ com marcas de desgaste por raspagem. Etchevarne (2013) afirma que os blocos de pigmento: “[...] apresentam sinais de raspagem (estrias paralelas e arredondamento de alguma face do bloco), o que corrobora a interpretação de terem sido utilizados para preparação de tintas” (ETCHEVARNE, 2013). Na ocasião, foram coletados também blocos na cor amarela.
De maneira geral, os lugares escolhidos para ser grafados são locais altos, com boa visibilidade para o entorno e de destaque na paisagem. A maioria dos painéis está na direção do poente, mas não parece ser um critério fixo, pois em todos os afloramentos com as duas faces laterais de fácil acesso ambas foram utilizadas.