4 ANÁLISE DE DADOS
4.1 CONTEXTO ORGANIZACIONAL
No Brasil, assim como em outros países, observa-se o crescimento do terceiro setor, coexistindo com os dois setores tradicionais: o primeiro setor, aquele no qual a origem e a destinação dos recursos são públicas, corresponde às ações do Estado e o segundo setor, correspondente ao capital privado, sendo a aplicação dos recursos revertida em benefício de seus acionistas. O terceiro setor tem atuação pública não-estatal, formado a partir de iniciativas privadas e civis, voluntárias e remuneradas, sem fins lucrativos, no sentido do bem comum (GESET, 2001).
Para Fernandes (2005), o "terceiro setor" é composto de organizações sem fins lucrativos, criadas e mantidas pela ênfase na participação voluntária, num âmbito não governamental, dando continuidade às práticas tradicionais da caridade, da filantropia e do mecenato e expandindo o seu sentido para outros domínios, graças, sobretudo, à incorporação do conceito de cidadania e de suas múltiplas manifestações na sociedade civil.
Alguns autores (TAVARES, 2000; RAMOS, 1981) consideram que o terceiro setor é composto por organizações em que suas ações são motivadas pela racionalidade substantiva, ou até mesmo por serem organizações substantivas.
De acordo com Anheier e Seibel (1990), a base de sustentação das organizações do Terceiro Setor depende de quatro aspectos: racionalidade instrumental, formalidade, solidariedade e tipos de troca com o mundo exterior.
Alves (2002) afirma que dessa maneira, as organizações do Terceiro Setor tenderiam a caracterizar-se por baixos níveis de racionalidade instrumental e formalidade; e por altos níveis de solidariedade e troca direta com o seu público.
No contexto norte-americano, foi o empenho em defender um conceito essencial da democracia – a liberdade – que deu origem às entidades dedicadas às atividades filantrópicas e associativas. De fato, no pensamento corrente da sociedade americana do séc. XIX, em uma
democracia marcada pela igualdade entre os membros, o indivíduo isolado tornava-se mais fraco e dependente, de modo que quase nada podia fazer por si mesmo, o que poderia levar o governo a uma forma de tirania; assim sendo, os membros dessa sociedade acabaram por aprender a unir-se, aumentando seu poder de influência dentro da esfera democrática (TEIXEIRA, 2004).
Segundo Fernandes (2005), a expressão foi traduzida do inglês - third sector — e faz parte do vocabulário sociológico corrente nos Estados Unidos. No Brasil, começa a ser usada com naturalidade por alguns círculos ainda restritos.
Nos Estados Unidos, também usam o termo para organizações sem fins lucrativos no profit organizations, que significa um tipo de instituição cujos benefícios financeiros não podem ser distribuídos entre seus diretores e associados. A lei inglesa utiliza termos como caridade (charilies), o que remete à memória religiosa medieval e enfatiza o aspecto da doação (FERNANDES; 2005).
A noção de filantropia, contraponto moderno e humanista à caridade religiosa, também aparece com frequência, sobretudo na literatura anglo-saxã. Mecenato é outra palavra correlata, lembra a Renascença e o prestígio derivado do apoio generoso às artes e ciências (FERNANDES; 2005).
Da Europa Continental, vem o predomínio da expressão organizações não governamentais (ONGs), cuja origem está na nomenclatura do sistema de representações das Nações Unidas. Chamou-se assim às organizações internacionais que, embora não representassem governos, pareciam significativas o bastante para justificar uma presença formal na ONU. O Conselho Mundial de Igrejas e a Organização Internacional do Trabalho eram exemplos em pauta (FERNADES, 2005).
Segundo dados do IBGE (2002) o setor sem fins lucrativos cresceu 157%, passando de 105 mil para 276 mil entre os anos de 1996 e 2002. Segundo dados do IBGE (2012), entre 2006 e 2010, observou-se um crescimento da ordem de 8,8% dessas instituições que se registraram, passando de 267,3 mil para 290,7 mil.
Diante do desenvolvimento das iniciativas do terceiro setor e do desenvolvimento do mercado BOP surge um novo setor que possui a terminologia de setor 2.5 que tem características distintas, mas com finalidades similares.
Muitas organizações do setor 2.5 nascem dentro do terceiro setor através de parcerias, incubação e consultoria desenvolvida pelo terceiro setor. O conceito do setor 2.5 está em construção no Brasil surgiu devido ao crescimento de empresas com fins sociais ou aquelas que possuam estratégias de mercado para atingir sua missão principal de transformação social com possibilidade de lucro.
Esse setor está inserido entre o primeiro setor e o terceiro setor em busca de atender aos ODS da ONU. Esse novo setor surge no mundo a partir dos anos 1970 com Yunnus e no Brasil nos anos 90 (Yunnus Centre, 2017; Artemísia, 2017; SEBRAE, 2017; INEI, 2014).
O setor 2.5 trabalha com a lógica do mercado e busca demonstrar ser possível o alinhamento entre objetivos sociais e sustentabilidade financeira. Há muitas semelhanças entre organizações do terceiro setor e setor 2.5, sendo a principal o propósito social, mas uma grande diferença que prevalece entre elas é a possibilidade de lucro.
Diante desse contexto há necessidade de abordar os conceitos sobre o setor 2.5 que nesse objeto de estudo se assemelham ao conceito de negócios sociais. O projeto principal da OSC objeto desse estudo é a incubadora de negócios sócias que desenvolve o setor 2.5.
O setor da economia que interliga as atividades sociais e ambientais com a lucratividade, de forma inclusiva, é chamado de 2.5. Ele é considerado um intermediário entre o segundo e terceiro setor, sendo formado por empresas que em sua constituição jurídica, têm, ao mesmo tempo, fins lucrativos e objetivos sociais inclusivos. Ou seja, é o setor privado movido pela consciência social e ambiental, cujos novos empreendimentos chamamos de Startups 2.5 (INEI, 2014).
Negócios sociais ou negócios de impacto crescem no Brasil e compõem o setor 2.5, ficando entre o segundo setor (privado) e o terceiro setor (ONGs). Nesse cenário estão os empreendedores que querem fazer algo de bom pela sociedade, mas por meio dos negócios e não de uma ONG (SGB, 2017).
De acordo com INEI (2014) o Brasil ainda não possui uma regulamentação oficial para este tipo de empresa, nem pesquisas mais consistentes sobre o setor, mas este tipo de negócio vem crescendo no país, segundo o relatório do SEBRAE. Do total de empresas que procuram o SEBRAE, entre 20% e 30% são projetos com este perfil. Um exemplo clássico de empresa do setor 2.5 é o Grameen Bank.
Setor 2.5 ou setor dois e meio, é o termo adotado por algumas organizações para tentar definir um segmento considerado emergente e inovador da economia. A origem desse setor data da década de 70 e 80 quando Muhammad Yunus cria o Grameen Bank. Na década de 90 e o início dos anos 2000, diferentes países lançaram modelos de negócios idealizados nos moldes da empresa social e do setor 2.5 (ECYCLE, 2017).
Segundo Ecycle (2017) a primeira experiência relatada em um país desenvolvido ocorreu no Reino Unido, em 2002, e tratava-se de duas organizações: a “Social Enterprise Coalition”, uma organização de incentivo à pesquisa, e a “Social Enterprise Unit”, que buscava promover negócios sociais. Em 2004, o Ministério da Indústria e do Comércio do
Reino Unido estabeleceu as formas legais associadas ao conceito inglês de negócio social, denominada de Community Interest Company (CICs).
Nos Estados Unidos, a experiência mais conhecida ocorreu em 2007. Foi o desdobramento do Grameen Bank, fundado por Yunus em Bangladesh. O ‘Grameen América’ foi aberto no Queens para conceder pequenos empréstimos, sem garantias, a mulheres locais que desejavam abrir negócios modestos ou expandir os que já operavam (ECYCLE, 2017).
No Brasil, as experiências ainda são mais contidas. Um dos exemplos desse setor no Brasil é a empresa Artemísia, fundada em 2004, pioneira em negócios sociais no país. Foi criada com o objetivo de atrair e formar pessoas qualificadas para atuar no desenvolvimento desse novo modelo de negócio, oferecendo formação prática, e apoiando negócios sociais. Dessa forma, contribui ativamente para a articulação de massa crítica e desenvolvimento dos negócios sociais no Brasil (ARTEMISIA, 2017).
Segundo dados da organização Artemísia (2017) apontam que em 2010, existia apenas um fundo de investimento com foco em negócios de impacto no Brasil. Hoje são 10 fundos investidores. Além disso, atualmente há entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões disponíveis para investimento em negócios de impacto social no país.
A Artemísia articulou mais de R$ 26 milhões para negócios acelerados, que beneficiaram mais de três milhões de pessoas e geraram mais de 350 empregos diretos pelas empresas aceleradas. Em 2011, quando foi realizado o primeiro mapeamento do setor, foram identificados 140 negócios sociais (ARTEMISIA, 2017).
Segundo dados do SEBRAE (2016) os primeiros negócios com este perfil no Brasil cresceram entre 2006 e 2007. E o perfil dos empreendedores do setor 2.5 tem mudado nos últimos anos, o perfil mais comum até 2010 eram jovens iniciantes e atualmente o perfil são de pessoas que já atuaram em grandes empresas como bancos e em consultorias.
Para financiar estes projetos, existem diversos fundos para investimento em iniciativas sociais e aceleradoras e incubadoras de negócios que auxiliam os empreendedores a escalar seus projetos e aprimorar o modelo de negócios.
O setor 2.5 se trata de um campo novo e um modelo em evolução, são várias influências conceituais, entendimentos e nomenclaturas. São também chamados de negócios de impacto social e empresas sociais, empresas 2.5, empresas BOP (base da pirâmide) ou negócios inclusivos (SEBRAE, 2016).
Conforme diretrizes estratégicas do SEBRAE (2016) há um entendimento que os negócios de impacto social buscam gerar por meio da operação do seu próprio core business impacto social positivo, ou seja, sua atividade principal deve beneficiar diretamente a
sociedade, devendo impactar pessoas das classes C, D e E e/ou pessoas da classe A e B, mas, sobretudo impactar a Base da Pirâmide (BOP), das camadas sociais mais pobres da população. No Brasil considera se que há 100 milhões de pessoas que fazem parte da Base da Pirâmide (com patamar abaixo de R$ 1.838,00 de renda familiar/mês).
Os negócios sociais também são chamados de empresas sociais, empresas 2.5, empresas base da pirâmide ou negócios inclusivos. Podem distribuir seus lucros entre os investidores e sócios, da mesma maneira que podem reinvestir todo o resultado no próprio negócio de forma a gerar mais resultados e mais impacto social.
A organização objeto desse estudo está inserida no terceiro setor e desenvolve projetos para o setor 2.5. As ações que a OSC desenvolve para o setor 2.5 são de incubação, criação de metodologia de negócio e consultoria para os negócios sociais. Na próxima seção será apresentada a história da organização objeto desse estudo.