5. RELAÇÕES DE PODER NO QUILOMBO RIO DOS MACACOS
5.1 Contexto
A comunidade Quilombo dos Macacos situa-se na Baía de Aratu, possui em seu entorno “ecossistemas como floresta secundária, manguezal e restinga e é local de abrigo de inúmeras famílias que utilizam do seu ecossistema diversificado para sua subsistência” (JESUS, 2014, p.13). Essa região vivenciou, nas últimas décadas, um processo de intensificação dos investimentos industriais, principalmente no final da década de sessenta, com implantação do Centro Industria de Aratu (CIA) em 1967. A área do quilombo sofreu diversas transformações estruturais desde então, do ecossistema à população da área (JESUS, 2014). De acordo com Jesus (2014):
Quando os projetos de desenvolvimento chegaram à Baía de Aratu, aquela região já era o reduto de muitas comunidades tradicionais, entre elas, os descendentes de índios, que viviam principalmente na região de Paripe, e de negros fugidos, que à época da escravidão aproveitavam os altos morros e os locais de mata fechada para se esconderem e constituir suas famílias. Nos dias de hoje, os remanescentes de quilombo vivem os impactos gerados a partir da produção das grandes indústrias, sendo os menos beneficiados com as instalações desses empreendimentos (p.13).
A área é ocupada por famílias descendente de escravos há mais de 160 anos conforme acrescenta a entrevistada M1: “A fazenda pertencia à família Martins, por décadas dona de grande parte do território do recôncavo baiano. Eles [família Martins] abdicaram da propriedade de São Tomé de Paripe com a decadência do açúcar”. Segundo a entrevistada, com o abandono das terras, os quilombolas continuaram no local fazendo uso da terra.
A localização (Figura 6) do quilombo é uma área tombada pela União Federal, hoje administrada pela Marinha do Brasil, que constrói equipamentos e desenvolve atividades desde a década de sessenta, como a construção da Vila Militar a partir da década de setenta. O principal acesso para a comunidade se dá pela guarita da Vila Militar. Ao Norte do território vivem 150 famílias assentadas pelo sindicato dos trabalhadores rurais de Simões Filho; ao Sul, é cortado pela BA-528; ao Leste, pela Via Periférica, que cortou parte do Território da Comunidade, ao Noroeste a Baía de Aratu (GEOGRAFAR, 2012).
Figura 5 – Localização geográfica do Quilombo Rio dos Macacos
Fonte: Imagem Google Maps editada por Cordeiro (2014).
Como exposto, desde 2009, a Marinha do Brasil requer a desocupação dos quilombolas da área, por meio de ação reivindicatória proposta pela Procuradoria da União, na Bahia, que solicitou a desocupação do local para atender as necessidades da Marinha.
Em setembro de 2011 a Fundação Cultural Palmares certificou o quilombo Rio dos Macacos como uma Comunidade Remanescente de Quilombo (CRQ), após grande mobilização da comunidade e de movimentos sociais que acompanharam o crescente processo de perseguição aos quilombolas frente as recentes investidas de expulsão imposta pela Marinha. Ainda em 2011, no mês novembro, o INCRA inicia a elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID).
O RTID delimitava o território quilombola em 301 hectares. Número este que reduzia em 2/3 os 900 hectares originários20 da comunidade quilombola. Em dezembro de 2012, a Secretaria Geral da Presidência da República apresenta a proposta do Governo Federal para a Comunidade do Rio dos Macacos oferecendo, oficialmente, 20 hectares para titulação21.
A proposta imoral do Governo Federal foi recusada pela comunidade quilombola. No mesmo ano, os olhares da sociedade civil, dos movimentos sociais e organizações em defesa dos direitos humanos voltaram os olhares para a comunidade em decorrência das crescentes denúncias de violência e supressão de direitos que os quilombolas estavam sendo submetidos,
20 Relatado por todos os quilombolas ouvidos nesta pesquisa que toda área hoje ocupada pela marinha se constituiu como o Quilombo dos Macacos.
tendo sido, então, produzido um relatório de denúncia das violações provocadas pela Marinha. O texto de 17 páginas foi encaminhado às Organizações das Nações Unidas (ONU) trazendo a história do quilombo, informações sobre os processos judiciais e relatos dos quilombolas.
No documento a comunidade expos a necessidade de que órgãos públicos internacionais e nacionais intercedessem pela garantia de uma série de direitos básicos que lhes estavam sendo negados em função do conflito. Devido a configuração imposta pela Marinha, de alto controle no território, a comunidade evidenciou uma série de dificuldades referente a acesso água potável, saneamento básico, energia elétrica, saúde, o direito à moradia, a posse da terra, inclusive tiverem cerceado o direito de ir vir. Foram evidenciadas também proibições de práticas religiosas de matriz africana, a destruição de áreas sagradas como a Fonte de Luzia, relatado pela entrevistada C2, além de perseguições diversas a moradores. A Marinha do Brasil diante de exposição dos fatos negou todas as acusações contra a sua instituição. Sobre a relação entre a comunidade e a Marinha, acrescentaram Cordeiro et al. (2016):
A instalação da Marinha no território fora marcada pela imposição de novos fluxos e estranhas dinâmicas, dentre essas, destacam-se a expulsão de moradores através do impedimento da construção ou reformas de suas casas, a negação da manutenção das culturas de subsistência através dos roçados e do acesso à infraestrutura básica como água e energia elétrica, além do ataque direto a religiosidade quilombola, culminando no fechamento e na destruição de terreiros de candomblé (p. 3).
Mesmo com a elaboração do RTID, o INCRA não prosseguiu com a regularização fundiária do território, a então crescente mobilização em torno do conflito deu a comunidade condições de iniciar o longo processo de negociações, que se arrasta até os dias de hoje, com a Marinha do Brasil, a Secretaria Geral da Presidência da República, a extinta Secretaria de Políticas para Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), e suas assessorias representadas pelos movimentos sociais (CPP, CDCN, AATR, etc.), com a mediação Ministério Público Federal e Estadual.
Em maio de 2014, uma nova proposta que destinava 86 hectares é recusada pela comunidade, de acordo com a Associação de Moradores do Quilombo Rio dos Macacos a área destinada na proposta era inviável para a sustentabilidade da comunidade considerando as perdas no território original e o posterior RTID do INCRA. A comunidade propôs uma contraproposta que previa o uso compartilhado da barragem, o acesso a sítios sagrados e a consolidação de área de produção agrícola e agroflorestal. Ficou-se evidente que o principal motivo de divergência entre as propostas do governo e as respostas da comunidade é negação por parte da primeira do acesso aos recursos hídricos pelos quilombolas, tanto ao Rio quanto à barragem.
O governo Federal apresentou o que seria a última proposta à comunidade, aumentando para uma área de 104 hectares. Área que representava a fragmentação do território em duas glebas: a primeira, na área norte-noroeste do território, com 98,2755 ha; a segunda com 5,8057 ha e está localizada a sudoeste - proposta que ignora as escolhas quilombolas contrárias a divisão do território (POLLI et al. 2014).
Em 2015 é publicado no Diário Oficial da União a Portaria 623, que declara como terras da comunidade, uma área de 301 hectares, com base do RTID, dos quais somente 104 hectares foram destinados para titulação de posse. Titulação e posse essas não realizadas até então devido aos processos burocráticos e da instabilidade democrática instaurada a partir do impeachment da presidenta Dilma.
Hoje, a justificativa oficial para a não demarcação e titulação é que se espera um acordo entre as partes quanto a construção de um muro, já iniciada pela Marinha, que objetiva separar a comunidade do rio e da barragem, alegando a garantia da segurança dos recursos hídricos da região. De acordo com o comando da Marinha do Brasil a proteção do rio dos Macacos é um procedimento para a defesa da Baía de Todos os Santos. A comunidade quilombola se recusa a aceitar qualquer tipo de acordo que os impossibilite de ter acesso a fonte de água, considerando que as casas não possuem rede de água para consumo. Privar o acesso a água se traduz em privar condições de vida para a comunidade.
O processo do quilombo Rio dos Macacos evidencia que a titulação e regularização fundiária de terras quilombolas envolvem inúmeras situações conflitantes, que relacionam uma série de interesses que se contrapõem, envolvendo atores distintos e diversos, a exemplo de fazendeiros, latifundiários e, inclusive, setores do Estado, como as forças militares do país (CORDEIRO et al. 2014).
Conforme discutimos nas seções anteriores, o território quilombola extrapola os sentidos do espaço geográfico configurando como um lugar de enfrentamento ao sistema de opressões e subjugação que são históricos e se atualizam na modernidade. Enfrentar estes atores que atuam em função do capital representa a preservação da vida quilombola.
Durante todo este processo a Sepromi se apresentou como mediadora do conflito político. Institucionalmente a Secretaria esteve presente em seguidas rodadas de diálogo, e fisicamente em 15 visitas técnicas ao quilombo Rio dos Macacos. O papel de mediação e a viabilização de alternativas cabe ao Ministério Público da Bahia, entretanto, a Sepromi tem se colocado nessa condição - quando busca atuar num fazer político de mediação passiva a Sepromi atua de maneira pouco efetiva, considerando as suas obrigações legais. Compreendemos mediação como uma forma através da qual as partes em conflito, auxiliadas
por um mediador, constroem ferramenta e possibilidades para que criem as condições de solução do conflito (SANTOS et al. 2007).
Em 2014 a Sepromi destinou um montante de R$ 8 milhões do Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza, determinado pelo Estatuto da Igualdade Racial e de Combate à Intolerância Religiosa, em benefício da comunidade. O recurso seria destinado a assegurar serviços de habitação (R$ 3,6 milhões), que envolve construção e reformas das casas, um sistema de abastecimento de água e inclusão produtiva (R$ 4,4 milhões).
Para este montante estavam previstas ações que compõem o Plano Estadual de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais 2016-2019, desenvolvido pela Sepromi, que volta suas ações para 4 eixos principais, 1) Acesso aos Territórios Tradicionais e aos Recursos Naturais; 2) Fomento e Produção Sustentável; 3) Inclusão Social e 4) Infraestrutura. Para o quilombo Rio dos Macacos o montante estaria previsto para os eixos de Fomento e Produção Sustentável e Infraestrutura. A Sepromi teve como orientação a promoção da inclusão por meio das diferentes esferas que garantissem os direitos básicos dos quilombolas, envolvendo, a elaboração e implementação de projetos de garantia de acesso a saúde, formação, educação de qualidade, dentre outras iniciativas. Para o Eixo de Infraestrutura estavam previstas, além das reformas e construções das casas, a implementação de instrumentos de inclusão produtiva com a casa de beneficiamento e casa de farinha.
Contudo, já na fase orçamentária do projeto a Sepromi alegou as primeiras dificuldades no acesso à território quilombola considerando que a entrada oficial se dá pela portaria da Vila Militar, mediante a autorização prévia do comando da Marinha – alegando que não haveria como adentrar na comunidade por negativas da marinha, o recurso não foi operacionalizado, virando moeda de negociação para exigir que a comunidade cedesse na negociação.
Entre 2014 e 2017 o recurso do FUNCEP foi a bandeira da Sepromi para a execução da política quilombola na comunidade. O recurso que esteve assegurado para melhoria da qualidade de vida da comunidade nos eixos de Fomento e Produção Sustentável, Inclusão Social e Infraestrutura, porém, não foi executado pelos impasses de relações de poder entre Estado, comunidade e movimentos sociais.
Objetivamente, o Estado, a Sepromi alegou que foi impossibilitado pelo próprio Estado (Marinha do Brasil) de executar a sua função. Vale ressaltar que essa não distinção entre os poderes do Estado é determinante na leitura da comunidade acerca do conflito. Para o quilombo, Sepromi e Marinha do Brasil representam figuras burocratas que tratam dos seus
interesses institucionais, enquanto a Marinha assume e defende o distanciamento da agenda comunitária a Secretaria tenta defender o que lhe cabe no jogo dos poderes políticos.