NA DINÂMICA REGIONAL DE SANTIAGO.
14 Idem, Parcela Territorial (um Concelho pode-se dividir em uma ou mais Freguesias).
2.3 Contexto Sócio-Espacial: Elementos da Gênese e Trajetória do Lugar
Não é possível compreender as transformações recentes ocorridas no Município, com destaque para seu principal núcleo urbano (Cidade de Assomada), sem se fazer um recuo no tempo, focalizando, mesmo que sinteticamente, o processo de ocupação e urbanização desde os primórdios da colonização do país. Qualquer estudo fundamentado na categoria socioespacial, segundo Santos (1982), deve começar tratando a gênese dessa formação e definindo o processo histórico responsável por sua forma atual, isto é, a materialidade concreta expressa no espaço.
Após o descobrimento de Cabo Verde, entre 1460 e 1462, a ilha de Santiago foi a primeira a ser ocupada pelos portugueses, em sistema de donatária, entregues à António de Nóli, responsável pela capitania do sul com sede na Ribeira Grande e Diogo Afonso, a capitania do norte, com sede em Alcatraz (CARREIRA, 1972 apud FURTADO 1993). “O valor da ilha consistia prioritariamente em ser um ponto de apoio à circulação transatlântica” (Cf. CORREIA e SILVA, 1991, p. 199).
O reduzido número de brancos e a dificuldade em se proceder o povoamento de Cabo Verde, à semelhança de Madeira e Açores, deve-se, segundo Andrade (1985, p. 34), ao rigor do clima, às dificuldades para se desenvolver culturas cerealíferas – às quais as famílias européias estavam habituadas – e a uma reduzida população da metrópole que não permitia um povoamento maciço. Daí a
15 Ausência de Instrumento de gestão: Plano Diretor Municipal (PDM) e Plano de desenvolvimento Urbano (PDU).
16 O termo Socioambientais, passou a ser empregado para evidenciar que alguns problemas ambientais têm forte conotação social, e que devem, portanto, serem tratados levando-se em consideração, tanto elementos naturais quanto os sociais que os constituem (Mendonça, 2004)
primeira carta régia do rei D. Afonso V, em 1466, concedendo vários privilégios aos moradores da ilha de Santiago.
Foi no contexto citado que se desenvolveu o primeiro núcleo de povoamento e que veio a se transformar, em 1533, na primeira Cidade européia dos trópicos, “a Cidade de Ribeira Grande”, localizada no sudoeste da Ilha de Santiago, que dispunha de um plano ambicioso e alguns condicionalismos naturais, como a dureza das condições climáticas e topológicas, isto é, situada numa ribeira17 de vale profundo e estreito e com um porto de condição limitada (CORREIA e SILVA, 2004, p. 127). Essa localização parece obedecer, segundo o autor, a dois imperativos naturais exemplarmente conjugados: o porto e a ribeira. Esta última possibilita a água para beber, para a prática de agricultura e outros usos, além de fornecer proteção ao hábitat em relação à insolação e aos ventos. O porto, por sua vez, assegura o acesso a uma rede de circulação oceânica tão vital à reprodução do povoado quanto a ribeira. Ainda sobre a relevância do respectivo porto, Amaral (1964) citado por Carneiro (1996) faz a seguinte apreciação:
A organização da vida na ilha girava em torno do porto de Ribeira-Grande (…) teve o seu período áureo, com Sé-Catedral, em plano ambicioso, Paço Episcopal, Seminário, Misericórdia, Hospital, Casa da Câmara e Prisão, Igrejas e Conventos, casas de boa construção e fortes bem artilhados. (AMARAL, 1964, apud CARNEIRO, 1996, p. 46).
A prosperidade da referida cidade foi muito efêmera, visto que a sua decadência se deu num curto espaço de tempo, tendo contribuído para tal situação fatores como: i) a insalubridade do clima, que levou alguns dos seus habitantes a se fixarem na Praia; ii) a diminuição do tráfico comercial resultante da concorrência de outras potências coloniais; iii) a pequenez do seu porto, que dificultava o acesso de barcos com maiores dimensões; iv) sucessivos ataques de corsários e piratas atraídos pelas riquezas que passavam pelo porto (CARNEIRO, 1996, p 47).
Segundo esse autor, as primeiras habitações, edificadas junto aos portos naturais, refletiam modelos europeus, principalmente do sul de Portugal, de onde era a proveniência da maior parte dos colonizadores. Eram feitas com materiais locais, com os quais ainda hoje se constroem, isto é, habitação térrea, de forma retangular,
com pavimento em terra, sem instalações sanitárias e com uma porta e duas janelas. Modelo esse que ainda domina por todo o arquipélago, não obstante uma tendência para seu desaparecimento.
A intensificação das trocas comerciais entre esses povoados, a Costa da Guiné e Portugal foi de tal ordem que levou a Coroa a aplicar a Carta Régia de 1472, obrigando os moradores de Santiago a produzir, na própria ilha, os bens que vendiam. Essa medida propiciou a valorização do interior da ilha e contribuiu para o reconhecimento das suas potencialidades, fomentando, consequentemente, seu povoamento. “A agricultura encontrava-se então submetida à dominância mercantil das ilhas. […] O algodão, o açúcar e o gado eram os principais indicadores da acentuada mercalização atingida pela agricultura” (CORREIA e SILVA, 1995. p. 73).
A prosperidade da cidade de Ribeira Grande foi de curta duração, bem como da recém-formada vila da Praia, pois houve ataques de navios franceses aos barcos portugueses e castelhanos nos seus portos. A partir da década de oitenta (século XVII), as condições de segurança agravaram-se. Corsários Ingleses passaram a atentar não apenas os navios, mas também a própria Vila. Essa insegurança, associada à carência de água – ocasionada pela sucessão de anos secos, ocorridos entre 1606 e 1611 –, provocou os êxodos urbanos, fazendo com que muitos abandonassem suas casas nos burgos em favor de fixação definitiva no interior da ilha de Santiago (CORREIA e SILVA, 2004, p.154).
A transferência da população do litoral para o interior, devido à decadência do comércio, marcou a segunda etapa da ocupação no interior da ilha, e a base da economia do arquipélago passou então a ser a agricultura e/ou pecuária. Surgiram assim grandes propriedades (Morgadios e Capelas)18 no seio das quais se construíram casas senhoriais com dois pisos (os denominados “sobrados”), onde
18 Morgadios e Capelas são vínculos correspondentes às grandes e médias propriedades, instituídos na Ilha de Santiago e Fogo, pertencentes aos senhores escravistas no início do povoamento. “Os instrumentos jurídicos de instituição consignam cláusulas destinadas a regular a formação de Morgadios e Capelas, e a fixar regras de transmissão, por morte dos instituidores, assim como as obrigações de natureza civil e religiosa que sobre eles deveriam recair (acervos em terra, moradias, capelas e ermidas, engenhos de açúcar e respectiva aparelhagem…)” (CARREIRA, 1977, p. 26).
viviam os Morgados – modelos diferentes das habitações edificadas no início do povoamento (CARNEIRO, op. cit., p. 53).
Destaca-se que estes se instalaram nas melhores terras, isto é, no fundo dos vales, abundantes em água e que apresentavam um clima mais saudável:
O interior da ilha abrigado de ventos do sul, menos expostos às calmarias, e sujeito aos alísios de nordeste, constituía um espaço muito mais sadio aos europeus do que a cidade19. (…) É também no enlaço destes homens e dos seus escravos que se implanta no coração das principais ribeiras, a igreja da freguesia, marcando a centralidade sobre a região envolvente. A freguesia centrada na ribeira é, na sociedade rural, a unidade socio-espacial de base (CORREIA e SILVA, 1995, p. 284).
Concomitante a essa, ergueram-se formas de povoamentos dispersos e pouco concentrados, desenvolvidos, predominantemente, por mestiços e negros livres que ocuparam-se das terras menos férteis, das “achadas e cumes”, praticando uma agricultura de subsistência que predomina até hoje.
O Município de Santa Catarina inclui-se nas características acima mencionadas, isto é, excelentes fatores de atratividade humana (amenidade do clima, água nas suas ribeiras etc.). Ele é constituído por um extenso planalto encaixado entre dois sistemas montanhosos (Pico de Antónia e Serra Malagueta), com uma altitude média de cerca de 500 metros e ladeado por um conjunto de ribeiras expressivas e abertas em que se destaca a de Águas Belas e/ou de Engenho, onde foi instalado um dos mais importantes Morgadios de Santiago e mesmo de Cabo Verde (Morgadio de Mosquito). Esse fato demonstra sua expressividade no contexto das oito freguesias descritas por Correia e Silva ao se falar de “ilha-adentro”, conforme caracterização feita na altura (op. cit., p. 279). Vieira (1993) reforça a idéia segundo a qual, mesmo antes da criação do Concelho de Santa Catarina, os morgados já tinham optado em se fixarem em seus domínios no interior, dada a situação de insegurança prevalecente.
O Concelho de Santa Catarina foi criado em 1834, na sequência da transferência não-oficial da sede do Concelho da Cidade da Ribeira Grande para os
19 Pe Baltasar Barreira citado por C. e Silva, 1995. A sociedade agrária, gentes das águas: Senhores, Escravos e Forros. In História Geral de Cabo Verde, v. II, p. 277.
Picos, Freguesia de São Salvador do Mundo. Segundo Vieira (op. cit.), a sede, que sofria frequentes ataques dos piratas e corsários, foi transferida para as seguras terras do interior de Santiago, embora não houvesse nenhum decreto Régio que outorgasse tal medida (idem p. 14).
Registra-se que a iniciativa de Manuel António Martins, então Governador da Província de Cabo Verde, contribuiu para a criação de infra-estruturas e para o desenvolvimento do Concelho de Santa Catarina e, de um modo geral, todo o interior da ilha de Santiago.
Outro fato digno de realce nessa primeira fase prende-se às vicissitudes pelas quais a sede do Concelho passou durante um longo período (de 1834 a 1912), até que, pela portaria N.º 146 de 4 de Maio de 1912, Assomada adquiriu definitivamente a posse da sede do Concelho de Santa Catarina.
Embora carecendo de documentos que permitam fazer uma análise das motivações que estiveram na base das sucessivas mudanças da sede desse Concelho, denota-se que a transferência para o interior se relaciona com problemas ligados à insegurança e à consequente decadência de Ribeira Grande. Também o interesse de caráter hegemônico pode ser apontado como uma das razões em virtude da importância da agricultura e o papel que os grandes proprietários desempenhavam no seio da sociedade. Os Presidentes da Câmara e Administradores eram escolhidos entre os Proprietários. Sendo assim, as respectivas casas serviam de Paços de Concelho. Nesse caso concreto, Amaral aponta exemplo de localidades que desempenharam tal função, como: Ribeira da Barca, em 1845; Casa grande nos Picos, em 1845 e de 1851 a 1857; Flamengos, entre 1846 e 1849; Achada Falcão (em Carreira) – 1859; e “Mangue” no Tarrafal, em 1869 ” (op. cit., p. 326).