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ONÇALVES IntroduçãoEste capítulo tem como objetivo central apresentar uma relação direta entre o território pesquisado e os sujeitos envolvidos em um processo de invisi-bilidade social, permitindo a constatação das vivências das gentes pantaneiras no Pantanal Transfronteiriço, que abarca parte da Bolívia, Brasil e Paraguai. Pro-curamos evidenciar quem são as outras “gentes pantaneiras” que habitam esse ambiente, e são inseridas num processo onde as territorialidades que esses su-jeitos produzem junto ao Pantanal são desprezados por grupos de interesse. Em nossa análise optamos por utilizar o termo Pantanal Transfronteiriço, tal qual é pontuado por Gonçalves (2019), por entender que esse ambiente perpassa as fronteiras entre Bolívia-Brasil-Paraguai, estando localizado entre os biomas Cerrado, Floresta Amazônica e Chaco abrangendo uma multiplicidade de sujeitos e territorialidades. Ademais, ele é caracterizado pelo ciclo hidrológico que deter-mina os períodos de cheia e seca.
Somado a isso, Ab’Sáber (1988), aponta que o Pantanal é um caso parti-cular de área ou faixa de contato e transição entre o domínio do cerrado e o chaco central, essa região conduziu diversos pesquisadores a uma lamentável confusão conceitual através da aplicação simplista da expressão “ecossistema pantaneiro” à totalidade do conjunto fisiográfico regional, o autor alerta que, ao utilizar uma expressão reducionista, estaríamos simplificando o grande desdobramento de ecossistemas terrestres e aquáticos existentes no Pantanal, como podemos ob-servar a seguir:
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Os estudos históricos e socioeconômicos disponíveis, por sua vez, são muito fragmentários e assistemáticos, incluindo fatos que dizem respeito às terras pantaneiras com fatos outros que se referem a setores eminentemente peri-pantaneiros ou extraperi-pantaneiros. Não existe, por razões óbvias, uma rede ur-bana do Pantanal, mas, de qualquer forma, há que se obter uma compreensão mais ampla da rede urbana peripantaneira, no interesse do entendimento das relações das atividades econômicas e sociais do Pantanal com os núcleos ur-banos que lhe dão sustentação múltipla e garantia de economicidade, por meio de infraestrutura de transportes e serviços administrativos e comerciais indis-pensáveis (AB’SABER, 1988, p. 10).
Logo, verificamos que a caracterização apresentada pelo autor revela que existem os setores peripantaneiros ou extrapantaneiros, nesse contexto po-demos vislumbrar o Pantanal para além da fronteira, neste caso os núcleos urba-nos abrangem o interior do Pantanal e não apenas seu entorno, ou seja, o peri-pantanal.
O autor ressalta ainda, que não há uma rede urbana do Pantanal, no en-tanto, existem núcleos urbanos como é o caso das cidades brasileiras: no Mato Grosso do Sul; Corumbá com uma população estimada em mais de 110 mil habi-tantes, Aquidauana com 44 mil habihabi-tantes, Miranda com 25 mil habihabi-tantes, La-dário com 17 mil habitantes e Porto Murtinho com 13 mil habitantes, enquanto no Mato Grosso as cidades pantaneiras são; Cáceres, 93 mil e Barão do Melgaço com 7 mil habitantes. Na Bolívia estão localizadas as cidades de San Matias com 6 mil habitantes, Puerto Suarez, 22 mil habitantes, Puerto Quijarro com 12 mil habitantes e Puerto Busch que tem uma população mínima composta por milita-res. No Pantanal paraguaio os núcleos urbanos estão localizados nas cidades de: Bahia Negra com um pouco mais de 5 mil habitantes, Fuerte Olímpio com um pouco menos de 2 mil habitantes e Carmelo Peralta com um pouco mais de 4 mil habitantes.
Esses municípios concentram a maioria das chamadas “gentes pantanei-ras”; porém nesse artigo apresentaremos as outras gentes pantaneiras que mo-ram nos municípios de Corumbá, Puerto Suarez, Puerto Quijarro, Puerto Busch e Bahia Negra, conforme mapa 01. Além disso, será possível observar a extensão do Pantanal pelos países vizinhos:
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Mapa 1. Localização dos municípios pesquisados no Pantanal Transfronteiriço (Bo-lívia – Brasil – Paraguai)
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No intuito de apresentar elementos que fundamentem nossa discussão nossa análise tem como ponto de partida o Pantanal Sul-mato-grossense, lugar que atrai centenas de turistas todos os anos, buscando contemplar as belezas da fauna e flora. Considerado santuário ecológico, e a maior planície alagável do pla-neta, está localizado entre morrarias, cortado pelo rio Paraguai, e foi ocupado por portugueses e espanhóis ao longo da história. No caso do município de Co-rumbá, seu processo de formação está relacionado a disputa pelo território entre colonizadores espanhóis e portugueses no Século XVII, em 1778 foi fundada a Vila de Nossa Senhora da Conceição de Albuquerque que se tornaria a mais im-portante cidade portuária.
Corumbá é uma das cidades mais antigas do estado Mato Grosso do Sul, também conhecida como cidade branca, pelo aspecto da cor clara de sua terra, e por estar localizada sobre uma formação de calcário, que dá a tonalidade clara as terras. Segundo dados do IBGE (2000) é o município que concentra a maior po-pulação parda e negra do estado de Mato Grosso do Sul, no qual essa região nos revela a riqueza cultural da fronteira entre Brasil e Bolívia e oculta três comuni-dades quilombolas, das vinte e duas existes no estado.
Ab’Saber (1988), salienta que o Pantanal apresenta uma complexa dinâmica natural, no entanto, não foi realizado um levantamento histórico, que incluísse cor-retamente o passado e o cotidiano do homem residente na vastidão dos pantanais:
A história disponível refere-se mais propriamente às classes dominantes e produ-toras do que à sociedade total do Pantanal e seu entorno. Ainda há muito o que fazer para se restaurar o legado do passado, em face de uma área de grandes va-zios, complexa dinâmica natural e forte vocação para a implantação de instrumen-tos preservacionistas. Enquanto não se fizer uma história total, incluindo correta-mente o passado e o cotidiano do homem residente na vastidão dos pantanais, que mais do que outras permanecem um tanto isolados das regiões social e economi-camente mais dinâmicas do país, pratieconomi-camente nada terá sido feito no campo de sua autêntica historiografia (AB’SABER, 1988, p. 10).
O autor, enfatiza que a história disponível sobre o Pantanal, alude às classes dominantes como protagonistas e produtoras, enquanto o homem pan-taneiro, ou seja, as outras gentes pantaneiras permaneceram isoladas das regi-ões sociais, logo foram inseridas num processo de invisibilidade social.
No que diz respeito ao “ser pantaneiro”, Ribeiro (2014), salienta que existem pelo menos quatro grupos que representam as “gentes pantaneiras”: I) os proprietários dos empreendimentos turísticos, II) os proprietários de terras, III) os trabalhadores das fazendas, IV) os trabalhadores do turismo, que vivem e produzem no Pantanal.
Nesse contexto, verificamos que os grupos classificados pela autora, re-presentam o “pantaneiro contemporâneo”. Por outro lado, Banducci (2012), en-fatiza que o pantaneiro está diretamente ligado a diversidade étnica e cultual, vinculado a memória da ocupação pastoril dessa região, o que podemos conside-rar o “pantaneiro histórico”.
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Decorrente das reflexões de Ab’Saber (1988) e Banducci (2012), corro-boramos que a existência de multiplicidade étnica e cultual da gente pantaneira, é o que comprova a complexidade que compõem o universo social do Pantanal, entre essas gentes e grupos que formam os “pantaneiros”. Além disso, não pode-mos esquecer que, enquanto não se fizer uma história da totalidade dessas gen-tes pantaneiras, incluindo corretamente o passado e o cotidiano do homem que residente na vastidão dos pantanais, não será possível compreender o que é “ser pantaneiro”.
Metodologia
Visando alcançar os resultados apresentados nessa pesquisa, optamos em trabalhar com um procedimento metodológico que envolveu a combinação entre pesquisa de campo e pesquisa bibliográfica. Desta forma, parte dos elemen-tos que fundamentam a identificação dessas outras gentes advém das vivências e andanças pelo Pantanal dos três países (Bolívia, Brasil e Paraguai), resultando na identificação das “gentes pantaneiras”, trabalho realizado num período que perfaz três anos.
Concomitante a pesquisa de campo, iniciamos a pesquisa bibliográfica, que forneceu elementos para identificar as gentes pantaneiras. Nesse aspecto, a realização das pesquisas de campo em distintas áreas do Pantanal Transfrontei-riço, foram indispensáveis para identificar esses sujeitos.
A pesquisa foi realizada em quatro etapas: primeiro, foi realizada a pes-quisa documental nas atas de criação das associações das comunidades quilom-bolas, certificados de auto definição expedido pela Fundação Cultural Palmares- FCP. Além da análise das legislações ambientais que dispõem sobre as áreas pro-tegidas nos três países que constituem o Pantanal Transfronteiriço.
A segunda etapa, diz respeito a realização das entrevistas com os seguin-tes sujeitos: lideranças e membros das comunidades quilombolas, equipe do INCRA do setor quilombola que atende a região de Corumbá. Somado a isso, foi realizada uma “escuta ativa e metódica” com o analista do Instituto Chico Mendes (ICMBio) responsável pelo gerenciamento do Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, agentes das ONGs Instituto Homem Pantaneiro (Brasil), Lidema (Bo-lívia) e Guyra Paraguay (Paraguai). Em relação aos dados acerca da população estimada, foram obtidos nos seguintes órgãos: No Brasil no IBGE (2010), na Bo-lívia o levantamento foi realizado através do Gobierno del Departamento de Santa Cruz (2008), enquanto no Paraguai por meio da Municipalidad de Bahia Negra e Fuerte Olímpio (2008).
Já a terceira etapa englobou a produção de uma cartografia das gentes pantaneiras, nesse aspecto produzimos o mapeamento do Pantanal Transfron-teiriço (Bolívia, Brasil e Paraguai), através de visitas técnicas, captação de ima-gens, inserção de dados no Google Maps. Por meio do uso de um Sistema de Po-sicionamento Global (GPS) foram coletados pontos com as coordenadas
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geográficas nas pesquisas de campo em algumas comunidades. Esses pontos fo-ram extraídos do GPS e espacializados no Pantanal Transfronteiriço. Para a rea-lização do mapeamento foram utilizados dados das unidades territoriais do Bra-sil e Mato Grosso do Sul elaborados pelo IBGE (Instituto BraBra-sileiro de Geografia e Estatística), da SERNAP (Servicio Nacional de Áreas Protegidas) na Bolívia e da SEAM (Secretaria del Ambiente) no Paraguai. A base hidrográfica utilizada foi da ANA (Agência Nacional de Águas) para representação do rio Paraguai no Panta-nal e da SERNAP que forneceu a base hidrográfica do lado boliviano.
A quarta e última etapa, envolveu a coleta de dados, captação de ima-gens, marcação de pontos de GPS, em seguida no (LABGEO) Laboratório de Geo-processamento da UFGD, que detém a licença de uso do software ArcGIS (ESRI, 2018) foi produzido o mapa de localização das outras gentes pantaneiras no Pan-tanal Transfronteiriço (ver mapa 2). O mapa além de identificar esses sujeitos, promove a visibilidade daqueles que durante muito tempo estiveram isolados e esquecidos pela sociedade dominante, conforme apontou Ab’saber (1988).
Posto isso, a análise levará em consideração os sujeitos e comunidades que vivem na faixa de fronteira dos países que abrangem esse ambiente, conforme área apresentada no mapa1. É importante ressaltar, a fronteira que perpassa esse ambi-ente assume um papel social de classificação, onde cada Estado soberano gerencia sua área com práticas advindas de sua legislação e seus aspectos históricos culturais. Por esse motivo, os sujeitos a serem observados são aqueles que vivem interações e estabelecem relações em uma área em que o limite é imposto apenas para as relações sociais e não para os elementos da natureza.
Para a realização deste trabalho, nos pautamos numa reflexão esclare-cedora acerca da identificação das “gentes pantaneiras”, o que levou a busca de dados através da pesquisa bibliográfica e de campo, fornecendo elementos que permitiram identificar as gentes pantaneiras, e qual a proximidade e relação de pertencimento que eles estabelecem com esse ambiente.
A realização das pesquisas de campo em distintas áreas do Pantanal, fo-ram fundamentais para identificar as gentes pantaneiras, sendo estas realizadas nos seguintes lugares: na Bolívia, Parque Nacional Otuquis, comunidade Chaleira Warnes; no Brasil, Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, comunidade Paraguai Mirim e nas comunidades quilombolas localizados na sub-região Para-guai do Pantanal sul-mato-grossense; e no ParaPara-guai no Parque Nacional Río Ne-gro, na Estación y Reserva Biológica Três Gigantes e Bahía Negra.
As outras gentes pantaneiras e o processo de invisibilidade social
Partimos do pressuposto de que invisibilidade social está relacionada a pessoas que desenvolvem atividades que não despertam o reconhecimento so-cial e adequada remuneração, e ainda uma categoria em espeso-cial se vê estigma-tizada tanto na ótica do consumo quanto no que se refere ao reconhecimento social (SOBRAL, 2009). Ao analisarmos o Pantanal Transfronteiriço observamos
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que o “ser pantaneiro” quase sempre está ligado aos grupos de interesse que de-senvolvem alguma atividade econômica, e os sujeitos que estabelecem uma rela-ção de dependência com esse ambiente exclusivamente para garantirem sua so-brevivência, não são reconhecidos como “pantaneiro”. Em concor-dância com Celeguim et al (2009) o termo invisibilidade social é estudado e foi criado pela sociologia, no qual define pessoas ou grupos a margem da sociedade, os problemas e a existência deles deixam de ser vistos pelas outras pessoas, tor-nando-os invisíveis. Desde o início do século XVI, o continente americano passou a sofrer com os impactos causados pelos colonizadores europeus. Os colonizado-res não consideram as relações que os povos indígenas e as comunidades tradi-cionais tinham com a natureza e a terra, tal qual, adverte Souza Filho:
Na América Latina os povos originários e a natureza sofreram direta e forte-mente o impacto da colonização moderna. De fato, a expansão da moderni-dade a partir do século XVI alterou profundamente o processo de organização dos povos residentes na América e afetou de forma destruidora a natureza no continente. Os povos foram sucumbindo, miscigenados, assimilados ou suma-riamente mortos, forçados a perder a identidade, a língua, a cultura e o terri-tório ancestral para se transformar, individualmente, em trabalhadores nem sempre livres. A natureza, saqueada e substituída, foi empobrecendo em sua densa e rica diversidade, perdendo espécies, exuberância e beleza. O extrati-vismo de grandes quantidades de minérios e a monocultura de vastas extensões foram a tônica da colonização, além da forma de trabalho baseado na escravidão e no servilismo (SOUZA FILHO, 2017, p. 198).
Posto isso, entendemos que, o processo de invisibilidade social das gen-tes pantaneiras iniciou-se durante o processo de colonização e ocupação do Pan-tanal Transfronteiriço, seja pelos espanhóis (Bolívia e Paraguai) e por portugue-ses (Brasil), que surrupiaram a natureza, desprezando as relações que esportugue-ses po-vos tinham com esta, conforme o esquema representado na figura 1.
Figura 01: Gênese da invisibilidade social das gentes pantaneiras.
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É nítido ao observarmos no esquema apontado na figura 1, que os colo-nizadores traziam uma relação de apropriação da natureza, ou seja, como se eles estivessem fora desta; enquanto que os indígenas e negros escravizados tinham um sentimento de proximidade e pertencimento com a natureza.
Diante dessa perspectiva, entendemos que povos indígenas, comunida-des tradicionais e comunidacomunida-des quilombolas no Brasil e as comunidacomunida-des bolivia-nas e paraguaias em pleno século XXI, encontram-se, muitas vezes, isolados dos núcleos urbanos pantaneiros, desprovidos de políticas públicas, e ainda são ex-plorados pelos grupos de interesse que almejam desenvolver atividades econô-micas nessa região. No entanto, essas comunidades procuram manter a mesma relação com a natureza, um exemplo dessa relação é a importância do Rio Para-guai na sobrevivência dessas gentes pantaneiras.
Durante as pesquisas de campo realizadas no Pantanal Transfronteiriço identificamos que, essas gentes possuem uma relação de dependência com esse ambiente, e muitas vezes vivenciam um processo de invisibilidade social, pois não estão diretamente ligadas as atividades produtivas desenvolvidas ali. Posto isso, a figura a seguir apresentará imagens de onde estão localizados esses sujei-tos, bem como a multiplicidade de territorialidades que eles produzem no Pan-tanal Transfronteiriço:
Mapa 2. Localização das outras gentes pantaneiras no Pantanal Transfronteiriço Bolívia- Brasil- Paraguai
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No que diz respeito a essas gentes pantaneiras verificamos que no Mato Grosso do Sul ao contrário dos quilombos existentes em outras regiões brasileiras, as comunidades quilombolas foram inseridas num processo de invisibilidade so-cial frente à realidade do modo de produção capitalista. Esta questão fica evidente no Parecer Quilombola publicado em 2008 pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiros de Mato Grosso do Sul (IHGB/MS) Hildebrando Campestrini, traz:
Considerando que havia, no último quartel do século XIX, forte empenho de líderes pela libertação de escravos, a exemplo das Juntas de Emancipação nas principais vilas e cidades do sul de Mato Grosso, com resultados positivos; Considerando que, sobretudo após a Guerra da Tríplice Aliança, o número de escravos no sul de Mato Grosso era de reduzido significado; Considerando que não há documentos, nem ao menos indícios, que provem a existência, no atual Mato Grosso do Sul, de quilombos, mesmo que tardios. Manifestam-se, por unanimidade, no sentido de não reconhecer a presença de quaisquer núcleos quilombolas remanescentes em nosso Estado (CAMPESTRINI, 2008, p. 88). Apesar desse processo de invisibilidade social, e da negação de sua exis-tência apontada por Campestrini (2008) de acordo com o Programa Brasil Qui-lombo (2003), além dos quiQui-lombos constituídos no período da escravidão, mui-tos foram formados após a abolição formal da escravatura, essa forma de orga-nização comunitária foi à única possibilidade de viver em liberdade num período de perseguições.
Dessa forma, as comunidades quilombolas originaram-se em diferentes situações, tais como doações de terras realizadas a partir da desagregação da la-voura de monoculturas, como a cana-de-açúcar e o algodão, terras que foram conquistadas por meio da prestação de serviços, inclusive de guerra, como no caso da Guerra do Paraguai, bem como áreas ocupadas por negros que fugiam da escravidão.
O processo histórico de formação das comunidades quilombolas pantaneiras, não se resume apenas à formação de núcleo familiares descendentes de escravos, pois apenas a formação sem a resistência ocorreria no risco da sua extinção.
No caso das comunidades quilombolas do Pantanal corumbaense foram constituídas a partir de quilombos contemporâneos, por famílias descendentes de escravos que passaram a viver como ribeirinhos e trabalhadores nas fazendas pantaneiras. Essas famílias migraram ao longo dos anos de acordo com o ciclo das cheias do Rio Paraguai.
Na imagem 2, do mapa 2 evidenciamos a prática da pesca pelo pescador da Comunidade Quilombola Ribeirinha Família Ozório (AQUIRRIO), que está lo-calizada a 10 Km da fronteira com a Bolívia, conforme mapa 1, foi fundada por Miguel Ozório, neto de escravos. A trajetória da família Ozório sempre esteve li-gada ao Rio Paraguai, desde a cheli-gada da família no início da década de 1960 a Ilha de Chané e Porto São Pedro, essa trajetória seguiu sempre o ciclo das águas do Rio Paraguai, ou seja, nos períodos das cheias a família era obrigada a mudar de lugar, alterando sua trajetória sempre de acordo com a densidade de
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drenagem do Rio Paraguai, conforme aponta a Ata 01, de criação da Associação da Comunidade Quilombola Família Ozório.
Consonante com as imagens 1 e 3 do mapa 2, revelam a existência da área apontada como Ilha do Pescador e identificada pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária (INCRA) como Gleba 2, a comunidade reivindica a titulação desse território desde 2015, quando iniciou os estudos fundiários pelo INCRA e a realização do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) dessa co-munidade.
Enquanto a comunidade quilombola não tem acesso à terra, outro fator tem aumentado significativamente a vulnerabilidade social de seus moradores, nos últimos anos as atividades de pesca tem diminuído gradativamente, com o aumento das práticas turísticas na região, sendo assim, está cada vez mais difícil para os ribeirinhos terem acesso ao pescado. Eles tem que buscar o seu sustendo a quilômetros de distância do núcleo familiar localizado na área periurbana de Corumbá, conforme aponta o mapa 2, figuras 1, 2 e 3.
Uma das alternativas encontradas pela comunidade quilombola de sa-far-se da invisibilidade social, foi o cultivo de hortaliças na gleba 1, onde está lo-calizado o núcleo de moradias da família Ozório. As hortaliças são comercializa-das com feirantes bolivianos que cruzam a fronteira diariamente para comercia-lizarem seus produtos nas feiras livres itinerantes da cidade de Corumbá.
Constatamos durante a pesquisa de campo que os quilombolas não pos-suem espaços, ou seja, não tem barracas para comercializarem as hortaliças na