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A ES na perspectiva de Cunha (2007) teve início no Brasil, ainda no período da colônia, no ano de 1572, com a criação dos cursos de Artes/Filosofia e Teologia, no Colégio Jesuíta da Bahia. Ainda na colônia, com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, a ES passou a ser realizada também no âmbito da Academia Real Militar do Rio de Janeiro, com a criação dos cursos de Anatomia e Cirurgia em (1808), e do ensino de Engenharia (1810).

Cunha (2007) afirma que durante o período da colônia e do império, o acesso à universidade pelos estudantes brasileiros se dava apenas por intermédio da Universidade de Coimbra, localizada em Portugal, e que, enquanto figura jurídica, ela veio a ser constituída no Brasil, apenas na Primeira República.

Devido sua instituição tardia, Lima (2010) explica que ela recebeu influências dos modelos já existentes, sendo o alemão, ligado ao pensamento de Kant, e o francês, alinhado ao pensamento de Descartes. Sofreu ainda, as influências do modelo latino-americano. Fato que explica ter sido pensada com as funções de construir conhecimentos, prestar serviços à sociedade e participar do processo de modernização e transformação da ordem social, a partir do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, ou seja, sofre também, forte influência do modelo positivista e liberal, uma vez que o positivismo já se encontrava fortemente difundido e o próprio contexto do movimento republicano, foi influenciado pelos ideais liberais.

Cunha (2007) ao escrever sobre a origem da universidade brasileira, na Primeira República, analisa dois grupos de instituições universitárias, um contendo as “de vida longa” e outro as “de vida curta”.

Observando o grupo das universidades de vida curta, consideramos que a primeira universidade criada no Brasil, foi segundo Cunha (1995) a de Manaus, em 1909, no auge do próspero ciclo da borracha, dissolvida no ano de 1926, seguida da universidade de São Paulo, criada em 1911, e dissolvida, segundo Antunha (1947, apud Cunha, 2007, p. 185), até o ano de 1917.

Cunha (2007) destaca ainda, dentre as universidades de vida curta a de Curitiba, que nasceu em 1912, porém, não sobreviveu a reforma Carlos Maximiliano, vindo a se dissolver, poucos anos após sua criação. De acordo com Cunha (2007) foi na Universidade de São Paulo, que se desenvolveu pela primeira vez, atividades de Extensão Universitária no Brasil.

Observando o grupo das universidades de vida longa, apresentado por Cunha (2007) destacamos as primeiras universidades que se consolidaram no país, a do Rio de Janeiro, criada em (1920) a de Minas Gerais em (1927) e a do Rio Grande do Sul. De acordo com o autor, foi nesta última instituição mencionada, que se fez pela primeira vez no Brasil, pesquisa tecnológica no âmbito de uma instituição de ES.

De acordo com Cunha (2007) o modelo de universidade que se seguiu no Brasil, após a institucionalização das universidades do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, seguiu os mesmos processos observados por aglutinação de faculdades, sem, no entanto, haver a necessária articulação umas com as outras, o que produziu sérias críticas, devido a incapacidade de satisfazer os anseios da sociedade brasileira.

Como marco importante em relação ao desenvolvimento da Universidade brasileira, o autor apresenta a criação do Ministério da Educação (1930), e do Estatuto das Universidades Brasileiras de (1931), que fecham o período de predominância do positivismo, na orientação das questões da ES, ao inaugurar outro, no qual, o fascismo o substituiu.

Em relação as universidades, Cunha (2007) compreende, que a Revolução de 1930, criou condições para a partir de 1931, duas correntes se destacarem nitidamente, a liberal e a autoritária, cada uma, empreendendo medidas tendentes a implementar o seu projeto de universidade. Entretanto, como afirma o autor, no decorrer da Era Vargas, as ideias liberais foram sendo tolhidas, e a partir do ano de 1935, a repressão generalizada retirou de cena as ideias educacionais liberais, pela prisão de quem as sustentassem, uns liberais se calaram, na cadeia ou em casa, outros aderiram à nova ordem. Assim, de 1937 em diante, foi sendo construída uma estrutura educacional completamente nova, consistente com o regime autoritário, que se iniciava.

O autor relembra que no início da Era Vargas, 1930, havia no Brasil três universidades: a do Rio de Janeiro, a de Minas Gerais e a do Rio Grande do Sul, e que ao

final, em 1945, este número havia sido ampliado para cinco. Sendo a Universidade de São Paulo, criada em 1934, e a Universidade do Distrito Federal, esta última, de curta longevidade, vez que foi absorvida no ano de 1939, pela Universidade do Brasil.

Em relação ao número de estudantes na ES, Cunha (2007, p. 207) lembra que “em 1932, ao início do período estudado, havia 21 mil estudantes nas escolas superiores do país, chegando a 27 mil ao seu termino”.

De acordo com Martins (2002) no período de 1945 a 1968, assistiu-se à luta do movimento estudantil e de jovens professores, na defesa do ensino público, do modelo de universidade, em oposição às escolas isoladas, e da reinvindicação para a eliminação do setor privado por absorção pública. Estava em pauta, a discussão sobre a reforma de todo o sistema de ensino, em especial, o da universidade.

O autor afirma ainda, que o elitismo se refletia no atendimento de parcela mínima da população, sobretudo, dos estratos mais privilegiados. E que para os defensores da ES, preferencialmente, realizada na universidade, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN, aprovada pelo Congresso em 1961, representou uma derrota, e foi considerada uma vitória dos defensores da iniciativa privada, acenando a bandeira da liberdade do ensino (MARTINS, 2002).

Quanto ao número de universidades criadas do período de 1945, final do governo Vargas, ao período que houve a culminância do golpe civil militar de 1964, foram 15 universidades federais. A criação de dez delas, de acordo com o autor, coincidiu com o governo desenvolvimentista, de Juscelino Kubitscheck, sendo oito, em 1960, e duas, no início de 1961 (BIASOTTO, 2010).

Depois de instaurado o regime civil militar, iniciado em 1964, Martins (2002) explica, que o movimento estudantil foi desmantelado, e que os militares mantiveram as universidades públicas, sob rígida vigilância, pois passaram a ser encaradas como focos de subversão, ocorrendo em consequência, o expurgo de importantes lideranças da ES e a expansão do setor privado, sobretudo, a partir de 1970.

O autor entende, que a reforma de 1968, a despeito de ocorrer em clima de deterioração dos direitos civis, inspirou-se em muitas das ideias do movimento estudantil e da intelectualidade das décadas anteriores: 1 - instituiu o departamento como unidade mínima de ensino; 2 - criou os institutos básicos; 3 - organizou o currículo em ciclos básicos e o profissionalizante; 4 - alterou o exame vestibular; 5 - aboliu a cátedra, 6 - tornou as decisões mais democráticas, 7 - institucionalizou a pesquisa; 8 - e centralizou decisões em órgãos federais.

Em relação ao número de universidades criadas no período da ditadura civil militar, de 1964, aos anos finais do processo de transição democrática 1985, Biasotto (2010) afirma que foram 16 universidades federais.

Dentre estas poucas universidades federais, criadas no período, o estudo de Veloso (2000) nos permite inferir que está a criação da Universidade Federal de Mato Grosso-UFMT, criada pela lei nº 5.647, de 10 de dezembro de 1970, sendo uma importante conquista, fruto das lutas e das reivindicações da população mato-grossense,

De acordo com Veloso, Silva, e Beraldo (2011) em conformidade com as origens de outras universidades brasileiras, a UFMT incorporou as instituições de ES que existiam em Cuiabá, herdando também seus patrimônios, assim como, os 11 cursos de graduação que estas instituições ofertavam.

Vale ressaltar que em 20 de março de 2018, por intermédio da Lei Federal nº 13.637, o Campus de Rondonópolis foi desmembrado da UFMT, e criada, mais uma universidade pública, que vinculada ao Ministério da Educação, passou a ser denominada, Universidade Federal de Rondonópolis (UFR). Com isso, atualmente o Estado de Mato Grosso possui duas universidades federais, sendo a UFMT e a UFR (INEP, 2018).

No percurso histórico empreendido, em relação a ES e a universidade brasileira, chegamos, finalmente, ao nosso local de estudo, a Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT, que de acordo com Nodari (2016) foi a segunda universidade instituída no Estado. A UNEMAT adquiriu o status de universidade, por intermédio do Decreto nº 30 de 15 de dezembro, apenas no ano de 1993, e ela originou-se do Instituto de Ensino Superior de Cáceres - IESC, instituído pelo Decreto Municipal nº 190 de 20 de julho, de 1978. Tendo sido autorizado o funcionamento dos cursos ministrados pelo referido instituto, apenas em 30 de maio, de 1984, pelo Decreto Federal nº 89.719 (VELOSO, SILVA e BERALDO, 2011).

De acordo com a UNEMAT (2015) em 19 de dezembro de 1985, por intermédio da Lei Estadual nº. 4.960, o Poder Executivo Estadual transformou a instituição em uma entidade fundacional, autônoma, vinculada à Secretaria de Educação e Cultura do Estado de Mato Grosso. Essa lei alterou novamente o nome da instituição, que passou a se chamar Fundação Centro Universitário de Cáceres - Fucuc, e a ter como missão a promoção da pesquisa e do estudo dos diferentes ramos do saber, além da divulgação científica, técnica e cultural.

Segundo a UNEMAT (2015) a denominação, Fundação Centro Universitário de Cáceres - Fucuc, perdurou até o ano de 1989, quando por intermédio da Lei Estadual nº. 5.495, foi novamente alterada, desta vez, para Fundação Centro de Ensino Superior de Cáceres - FCESC. Após o período de 3 anos, em 1992, a instituição teve mais uma vez, sua

denominação modificada, por intermédio da Lei Complementar nº. 14, passando à Fundação de Ensino Superior de Mato Grosso - Fesmat.

Finalmente, na data de 15 de dezembro de 1993, a Lei Complementar nº. 30, instituiu a denominação que predomina até os dias atuais, Universidade do Estado de Mato Grosso - UNEMAT. A referida lei designou também, a partir da sua aprovação, que a instituição passasse a ser mantida pela Fundação Universidade do Estado de Mato Grosso - Funemat (UNEMAT, 2015).

Silva, Veloso e Beraldo (2011) afirmam que a UNEMAT é conhecida como a universidade do interior para o interior. Em consonância, Lima, Malange e Barbosa (2015, p. 1042), também afirmam que:

A vocação da Unemat é a de ser uma instituição voltada para o interior. Nesse sentido, a expansão da IES ocorreu em forma de rede, criando campi, núcleos pedagógicos e polos em locais remotos do Estado, com o objetivo de atingir o maior número de pessoas, com ações sobre os vários municípios.

Nodari (2018) considera, que em virtude da sua expansão, a UNEMAT ganha relevância no cenário estadual, por estar presente em muitas cidades do interior do estado.

Em relação a ES, realizada em IES do setor privado, de acordo com Veloso, Silva e Beraldo (2011) no estado de Mato Grosso foi instituída na década de 1980, a primeira instituição, e desde então, observa-se que houve um expressivo crescimento deste setor, não apenas em Mato Grosso, mas em toda a região Centro Oeste, e no país.

Em relação as instituições públicas e privadas, que ofertam a ES no Estado de Mato Grosso, segundo os dados do Inep (2018) são atualmente, 59. Quanto às universidades, espaços privilegiados pelo nosso estudo, entre públicas e privadas o Estado de Mato Grosso possui até os dias atuais, 4 instituições, sendo 3 públicas, duas federais – UFMT e UFR e uma estadual – UNEMAT e 1 privada UNIC – Universidade de Cuiabá, criada no de 1988.

Biasotto (2010) explica, que durante os 21 anos da ditadura civil militar brasileira, foram criadas apenas 15 universidades, e que durante o período de transição para a redemocratização do país, foi promulgada a Constituição Federal Brasileira de 1988, inspirada no espírito das lutas por democracia, e por direitos políticos e sociais, sendo estes últimos, salvaguardados pelo Artigo 6º, da referida constituição, nos quais se incluem o direito a educação, que também é referenciada no Art. 205, que promete em termos legais, uma educação para todos, conforme se expressa, “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno

desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

De acordo com Biasotto (2010) do período de 1986 a 2002, foram criadas 9 universidades no Brasil, sendo 6 no governo de Fernando Henrique Cardoso, 1 em 2000 e 5 em 2002. Neste período, segundo o autor, inspirado no neoliberalismo, o governo FHC, além de permitir uma expansão muito grande de Faculdades Particulares no país, promoveu o maior sucateamento já experimentado pelas Universidades Públicas brasileiras.

Dentre os principais problemas enfrentados pelas universidades públicas brasileiras, no período do governo de FHC, o autor destaca a falta de verba para a pesquisa e a extensão universitária.

Entre 2005 a 2009, período governado por Luiz Inácio Lula da Silva, foram criadas 12 Universidades no Brasil. Sendo que, no ano de 2011, segundo Veloso, Silva e Beraldo (2011) esse total já havia saltado para 14. Contudo, apesar do investimento na construção de universidades públicas, como nunca visto, atualmente, segundo o INEP (2018) do total de 2.448 IES, 2.153 (88%) são do setor privado, enquanto que, apenas 296 (12%) são do setor público.

Ao observar estas 2.448 IES, por categoria administrativa no ano de 2018, percebemos que apenas 8%, que representa 199 instituições são Universidades, sendo 107, públicas, que representam 54%, e 92, que representam 46% do setor privado (INEP, 2018).

Em relação as unidades federativas das 106 universidades públicas brasileiras, 63 são federais, que representam 59%, as estaduais, categoria na qual se inclui a UNEMAT, somam 39, representando 37%, e as municipais somam-se 4, que representam 4% do total (INEP, 2018).

O acompanhamento e a análise dos dados disponibilizados pelo INEP, sobretudo, a partir da década de 1990, em relação a expansão da ES, não deixa dúvidas de que o processo tem se dado majoritariamente centrado no crescimento do setor privado, em detrimento do setor público, salvo a criação de algumas importantes instituições universitárias, que ainda tem mantido esta categoria administrativa em número mais expressivo, ainda que pouco significativa a distância, em relação ao setor privado, além da criação de Institutos Federais - IF e Centros Federais de Educação Tecnológica - CEFET, que não revoga a avolumada supremacia do setor privado, quando observado as categorias administrativas Centro Universitários e Faculdades, nas quais se concentram a grande maioria dos estudantes da graduação brasileira (84%).

É importante destacar que a expansão da ES, não garante a sua democratização, pois apesar das suas possíveis relações, a primeira ação, por si, não garante a segunda. Com isso, entendemos, que embora a expansão da ES seja necessária ao alcance da democratização do acesso a esta fase da educação, é preciso considerar que expandir não é suficiente, para que o acesso seja democratizado, pois a democratização exige ações concretas, que visem possibilitar que os sujeitos ingressem, permaneçam e concluam os cursos com a qualidade demanda, conforme será observado na subseção a seguir.