3 TEORIA POLÍTICA FEMINISTA
3.4 TEORIA CONSTRUTIVISTA E REPRESENTAÇÃO SUBSTANTIVA DE
3.4.3 Contextos
Compreendida a partir da ideia de representative claims, a representação política não é um fato fixo, estável e atemporal. Como sugere Saward (2010), tanto a formulação das reivindicações representativas, quanto sua aceitação ou contestação por parte do eleitorado em potencial e/ou pelas audiências depende sempre de fatores contextuais e de um conjunto de entendimentos culturais. Não por acaso, ao mesmo tempo em que devem procurar criar algo novo, para que as claims sejam convincentes ou ressoem nas audiências adequadas, elas devem utilizar estruturas contextuais familiares para aqueles que são alvo das reivindicações – por exemplo, através da reiteração de aspectos inerentes à própria cultura política e que, por isso, soam familiares (SAWARD, 2006; DISCH, 2015).
Ao observar os estudos empíricos que relacionam a representação substantiva de mulheres à representação descritiva, Celis (2008) apontou que alguns fatores contextuais e institucionais podem impactar a representação substantiva. A proporção de mulheres que compõem as legislaturas permanece sendo um fator controverso já que, ao mesmo tempo em que alguns estudos concluíram que a presença de mais mulheres nos parlamentos influencia os resultados da representação substantiva de mulheres, outros apontaram que há pouca relação.
Partidos políticos e disciplina partidária também são fatores contextuais importantes, uma vez que podem exercer impacto tanto no conteúdo da representação em si, quanto nos próprios representantes engajados em agir substantivamente pelas mulheres. Estudando as comissões legislativas em Argentina, Brasil e Uruguai, Rezende (2015) concluiu que partidos políticos são organizações generificadas, na medida em que as próprias estruturas partidárias se constituem como hierarquias a partir da dimensão de gênero. Além disso, a autora também percebeu que as configurações de hierarquia e de desigualdade de gênero no interior dos partidos desencadeia uma série de efeitos
relacionados à distribuição de recursos políticos em outras esferas, para além da intrapartidária, como a eleitoral e a legislativa.
Celis (2008) também considera um fator contextual importante os espaços que os atores críticos ocupam nas arenas de poder. A presença de atores que sejam potencialmente relevantes na criação de claims para as mulheres em cargos de maior importância e prestígio, como as lideranças de comissões e a mesa diretora, ou mesmo os postos mais elevados da estrutura partidária (REZENDE, 2015), é um elemento central porque pode significar a maior probabilidade de se incluir ou manter, na agenda política, determinadas pautas e projetos que favoreçam a representação substantiva de mulheres (CELIS, 2008). O trabalho de Miguel e Feitosa (2009) nos permite perceber que, em decorrência de mecanismos de socialização de gênero, ao ingressarem na política as mulheres continuam reproduzindo papéis tradicionais vinculados ao espaço doméstico. Isso contribui para que elas ocupem posições de menor prestígio e poder decisório, o que gera menor poder de agenda e menor possibilidade para a implementação de mudanças que impactem o status quo das próprias instituições.
Além disso, conforme sugere Squires (2008), considerar o local no qual as reivindicações representativas são criadas é central, uma vez que os atores moldam as claims de modo a enquadrá-las às normas institucionais, às práticas, à linguagem e ao tipo de comportamento adotados no lugar. Em geral, os estudos que tratam do tema da representação substantiva de mulheres o fazem considerando o contexto do Poder Legislativo nos diferentes níveis de governo, tanto a nível local quanto nacional. A literatura que aborda a temática sob a perspectiva construtivista, porém, tem apontado para a necessidade cada vez maior de se considerar que a representação substantiva de mulheres também ocorre fora dos contextos eleitorais e parlamentares (SQUIRES, 2008; CELIS et al., 2008).
Neste sentido, espaços como ONGs, instituições participativas, movimentos da sociedade civil e agências e órgãos estatais ganham destaque como lugares no interior dos quais podem estar sendo criadas reivindicações representativas para as mulheres. Segundo Squires (2008), a crescente importância atribuída a essas instituições tem relação com processos mais amplos de reconfiguração do próprio Estado, e que têm sido considerados decisivos para a promoção da representação substantiva de mulheres. Isso porque as instituições extraparlamentares, enquanto estruturas coletivas, como no caso dos
movimentos de mulheres e das instituições participativas, podem ser mais efetivas na criação de claims para as mulheres do que aquilo que Weldon (2002) classificou como just bodies, ou seja, os representantes descritivos individuais.
Segundo Mackay (2008), a capacidade criativa dos atores fica sujeita a uma série de fatores pessoais, partidários e institucionais que podem restringir os tipos de recursos utilizados e os tipos de reivindicações que serão ou não aceitas (DISCH, 2015). Isso porque as próprias instituições, sejam elas partidárias, eleitorais ou não eleitorais, parlamentares ou extraparlamentares, são generificadas, na medida em que desempenham importante papel na constituição do gênero e este, por sua vez, também exerce poder sobre as dinâmicas, práticas e normas – formais e informais – que estruturam as instituições (MACKAY, 2008). Esse debate dialoga com a sugestão de Tosold (2010), de que o gênero deve ser entendido como uma categoria política que suscita questionamentos relacionados ao próprio fazer político hegemônico e às instituições e relações de poder que as perpassam. Também possibilita retomar a crítica feminista à ideia de indivíduo universal e abstrato enunciada pela teoria liberal, e estendê-la à própria configuração supostamente neutra das instituições representativas liberais.
Conclusões parecidas podem ser extraídas dos estudos que analisam o perfil de conselheiros. Segundo Alencar et al. (2013), embora as instituições participativas sejam frequentemente vistas como espaços nos quais disparidades políticas tradicionais são mitigadas e as relações políticas são mais igualitárias, críticas têm sido feitas com relação à suposta reprodução de desigualdades sociais e políticas em seu interior. Em seu estudo sobre desigualdades nos conselhos nacionais, os autores perceberam que os conselhos são compostos predominantemente por homens (63%), enquanto as mulheres seguem sendo minoria (37%). Ao se observar a composição a partir das temáticas de cada conselho, o resultado também apresenta discrepâncias: enquanto os homens compõem majoritariamente aqueles conselhos cujas temáticas se vinculam ao desenvolvimento econômico e à infraestrutura e meio ambiente, a participação das mulheres se encontra mais equilibrada nos conselhos sobre políticas sociais e garantias de direitos.
Os resultados permitem estabelecer um paralelo com o trabalho realizado por Miguel e Feitosa (2009) acerca dos discursos proferidos por parlamentares homens e mulheres na Câmara dos Deputados. Enquanto os homens se encontravam mais engajados em falar sobre as chamadas políticas hard, ou seja, aquelas que tratam do exercício do
poder de Estado e da economia, as mulheres estavam mais vinculadas às políticas soft, ligadas a questões sociais e aos direitos humanos.
Celis (2008) também nos alerta para a importância de se considerar o peso que a opinião pública adquire quando se trata do conteúdo da representação substantiva de