A suinocultura brasileira vem ganhando destaque nas últimas duas décadas dentro da suinocultura mundial, como o quarto maior produtor e quarto maior exportador de carne suína (ABCS, 2019). Isto deve-se muito aos bons dados de produtividade das granjas brasileiras que estão alicerçados na genética, nutrição, manejo, sanidade e gestão.
A hiperprolificidade é uma característica consistente no rebanho suinícola brasileiro (Dallanora et al., 2014). De acordo com a 12ª edição do Relatório Anual do Desempenho de Produção de Suínos, ao se analisar o banco de dados de produtividade de 1.670 granjas que totalizam 1.352.363 matrizes em 2019, observa-se uma evolução na média de nascidos vivos (MNV; Média Geral =13,20; Média Top 50 = 14,67; Média Top 10 = 15,49) e no número de desmamados/fêmea/ano (DFA; Média Geral =26,87; Média Top 50 = 30,97; Média Top 10 = 33,31) (Agriness, 2019.) Neste contexto de maior produtividade tem-se um aumento no tamanho da leitegada e o desafio de manter um maior número de leitões por fêmea em lactação (Bortolozzo & Wentz, 2007). Segundo Powe (1986), as falhas lactacionais são importantes em todas as espécies, mas na suína, são mais comuns e mais nocivas devido à enorme susceptibilidade do leitão à hipoglicemia.
A síndrome metrite, mastite, agalaxia, também denominada de MMA, tradicionalmente caracteriza-se por uma supressão total da lactação (agalaxia) ou parcial (hipogalaxia), ocorrendo em fêmeas até 72 horas após o parto. A denominação MMA não é a mais adequada, pois a relação entre a doença com infecções da glândula mamária e do útero ainda não está suficientemente esclarecida (Sobestiansky & Barcellos, 2012). A MMA vem sendo descrita há pelo menos 50 anos (Martineau et al., 2012), mas em 1998, foi proposto nomear a doença como síndrome da disgalaxia pós-parto ou SDP (Martineau, 1998) desde então, esta terminologia é reconhecida e bem aceita na comunidade científica (Maes et al., 2010).
Pode-se considerar a MMA como sendo a forma mais severa e aguda da SDP, sendo que a produção de leite é praticamente nula (agalaxia). Além disso, a fêmea apresenta uma inflamação da mama (mastite), acompanhada por uma inflamação do útero (metrite) e febre (39,5-41ºC). Embora este seja o "nome mais conhecido" desta síndrome, nem todos os casos atingem uma forma tão grave de manifestação, mas em determinadas situações o quadro
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pode evoluir para uma infecção generalizada (septicemia), podendo levar o animal à morte (Roma, 2008). fisiopatologia da SDP é semelhante à da diarréia pós-desmame, na qual a patologia resulta por causa de uma difícil transição entre duas dietas completamente diferentes (Martineau, et al., 2013).
A SDP é uma patologia que acomete a fêmea suína em granjas em todo mundo, principalmente nas criações mais intensivas. Sem dúvida, é o processo patológico mais importante que afeta as porcas no puerpério, sendo que as leitoas são a categoria mais acometida (Jenny, et al., 2015). Na prática, a incidência da SDA/MMA pode variar consideravelmente entre 1 a 60% (Gerjets & Kemper, 2009), com uma incidência média de 13% (Throup, 2000). A susceptibidade pode variar de 0 a 100% com média de 13,1% e as falhas na lactação são mais frequentemente observadas na forma de hipogalaxia do que na forma de agalaxia (Gava et al., 2010).
A SDP em matrizes suínas é definida como uma patologia caracterizada pela inadequada e insuficiente produção de leite e colostro durante os primeiros dias pós-parto (Klopfenstein et al., 2006). Estes sintomas causam aumento na mortalidade pré-desmame e uma diminuição no desenvolvimento dos leitões durante a lactação (Papadopoulos et al., 2010). Na prática, a SDP tem sido considerada como uma das principais causas de problemas neonatais em criações intensivas de suínos, em contra partida um número limitado de estudos científicos tem sido publicados (Papadopoulos et al., 2010; Tummaruk, 2013).
A SDP apresenta-se majoritariamente de forma subclínica, isso tem consequências dificilmente detectáveis. Estas são percebidas principalmente no desempenho dos leitões, com diarreiais neonatais, diminuição do crescimento e aumento dos esmagamentos (Klopfenstein et al., 2006; Preissler et al., 2011). A etiopatogenia clássica da SDP consiste em uma interação entre endotoxinas de origem bacteriana, alteração de funções endócrinas e fatores predisponentes que causam estresse. As enterobactérias exerceriam sua ação patogênica através da liberação de endotoxinas, que por sua vez fariam a libertação de
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mediadores endógenos, como prostaglandinas e/ou interleucina IL-1. Os focos infecciosos poderiam estar localizados na glândula mamária (mastite), útero (metrite), vias urinárias (cistites e pielonefrites) ou intestino (estase alimentar). Estas toxinas, uma vez absorvidas e presentes na circulação, agiriam no hipotálamo e/ou hipofíse, com a supressão da liberação da prolactina. Isto levaria a uma diminuição na secreção láctea (Sobenstiansky et al., 2012).
Uma outra alteração de importância nesta síndrome é um distúrbio hormonal causado pela liberação de adrenalina em situações de estresse (Sobestiansky et al., 2012) Este hormônio é antagonista da oxitocina e, consequentemente exerce uma influência negativa na ejeção do leite (Oliveira et al., 2011). A Escherichia coli é o patógeno isolado com maior frequência nos casos de SDP, que juntamente com outras bactérias gram negativas como Klebsiella pneumoniae, Citrobacter freundii e Enterobacter aerogenes (Dee, 1997).
Um estudo realizado na Suíça identificou importantes fatores de risco para a ocorrência da SDP: leitoas integradas no rebanho após o primeiro parto, porcas em gestação com consistência fecal firme, maternidades com cochos sujos, baixa vazão (<2 litros por minuto) de água nos bebedouros e a alta prevalência de claudicação nas fêmeas (Jenny, et al., 2015). Já, segundo Papadopoulos et al. (2010), os principais fatores de risco que têm sido relatados para aumentar a incidência de SDP, incluem um período muito curto de transferência das porcas em gestação para as celas de maternidade, parto induzido, tempo de introdução da ração ad libitum no pós-parto e alimentação durante a gestação tardia. Por exemplo, a alimentação ad libitum durante o primeiro dia do pós-parto aumentou o risco de PDS em 3,15 vezes (Papadopoulos et al., 2010) e agalaxia foi encontrada em 16% das porcas que foram autorizadas a ter alimentação ad libitum no dia do parto ou no dia anterior (Neil et al., 1996).
Dados de outro estudo realizado na Tailândia, concluiu que leitoas e porcas com longa duração de parto apresentaram um alto risco de distúrbios pós-parto. O tipo de antibiótico teve efeito sobre a incidência de anormalidades vaginais e SDP em porcas (Tummaruk et al., 2015). Outro estudo também realizado na Tailândia, conclui que os fatores predisponentes que influenciam a incidência de distúrbios pós-parto em porcas incluíram a paridade das porcas, a duração do parto e o tipo de medicamento inflamatório utilizado. As porcas primíparas têm maior risco de apresentar distúrbios após o parto do que as multíparas. As porcas com duração do parto ≥ 4 horas correm o risco de ter febre um dia após o parto (Tummaruk et al., 2013). O desempenho reprodutivo inferior das porcas criadas
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nos trópicos pode ser parcialmente devido ao impacto da alta temperatura e umidade. Isso pode causar ingestão de ração abaixo do ideal em algumas porcas após o parto e, subsequentemente, levar a uma produção deficiente de leite (Tummaruk et al., 2015).
O diagnóstico da SDP baseia-se na sintomatologia clínica da porca e dos leitões, e quanto mais cedo a identificarmos melhor, no entanto, é difícil caracterizar a SDP, principalmente sua apresentação subclínica (Bortolozzo & Wentz, 2007). A cromogranina A (CgA) salivar, cortisol e 8-epi-PGF2 sérico estão aumentados em porcas consideradas positivas para SDP antes do parto, refletindo uma situação de ativação dos mecanismos do estresse (Kaiser et al., 2018) que são induzidos pelos sistema nervoso simpático e por reações do eixo hipotalâmico-pituitário-supra-renal, então a saliva é considerada um bom material para avaliar as condições de estresse (Obayashi, 2013). Estes biomarcadores podem podem potencialmente servir como indicadores de diagnóstico precoce para o SDP, principalmente a cromogranina A (CgA) (Kaiser et al., 2018a). O parto em si causa alterações inflamatórias significativas, mas as porcas SDP positivas mostraram uma resposta mais grave do que as porcas SDP negativas. Contagens de leucócitos, neutrófilos e linfócitos e concentrações de TNF-alfa, IL-6, Hp e Fe podem ser biomarcadores potenciais para SDP. As contagens de linfócitos podem ser usadas para detectar PDS no pré-parto. Para avaliar seu potencial diagnóstico, esses marcadores devem ser investigados mais detalhadamente e muito provavelmente combinados com a avaliação de parâmetros clínicos e outros biomarcadores para uma melhor identificação de porcas em risco de desenvolver SDP.
(Kaiser et al., 2018 b).
No tratamento terapêutico das porcas é indicado antibióticos, anti-inflamatórios, ocitocina, antitérmico, diuréticos e prostaglandina F2 alfa. O emprego de antiinflamtórios auxilia na redução do edema e dor, combatendo o processo inflamatório e facilitando a remoção das secreções tóxicas (Bortolozzo & Wentz, 2007). As leitegadas provenientes de fêmeas acometidas pela SDP necessitam de manejo apropriado e pontual, pois este processo é temporário e pode ser revertido. Nos casos mais extremos, a transferência da leitegada para uma fêmea recém-desmamada que apresente uma boa produção de leite é o mais indicado. A higiene do ambiente, conforto térmico, fornecimento de colostro e suplementos ricos em energia para os leitões são medidas que fazem parte do tratamento, e se houver presença de diarreia, recomenda-se uma antibioticoterapia injetável (Bortolozzo & Wentz, 2007).
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Os anti-inflamtórios podem ser classificados em duas classes: anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) e anti-inflamatórios esteroidais, também denominados com glicocorticoides ou simplesmente corticoides. Os AINE são importantes medicamentos usados na prática veterinária, devido as suas propriedades anti-inflamatória, analgésica e antipirética (Górniak, 2014). O ácido tolfenâmico é um AINE pertencente ao grupo dos fenamatos, dose única, solução injetável, na dosagem de 2 mg/kg de peso vivo. O seu principal mecanismo de ação é através da inibição da ciclo-oxigenase (COX), enzima que converte ácido araquidônico em mediadores do processo inflamatório com as prostaglandinas (PGE2 e PGI2) e tromboxanos (TXA2), agindo preferencialmente na via COX-2. Além disto, o ácido tolfenâmico também atua em outras três frentes: no bloqueio dos receptores de prostaglandina, na inibição da lipo-oxigenase e na inibição da quimiotaxia. O ácido tolfenâmico possui propriedades inflamatória, analgésica, pirética e anti-endotoxemica (EMEA, 1997; Lees et al., 1998).
Estudo realizado em uma granja mostrou equivalência entre três tratamentos, ácido tolfenâmico a 2 e 4 mg/ kg, flumexin meglumine, no tratamento da síndrome do MMA em combinação com antibióticos. Entretanto, embora os pesos diários médios dos leitões foram semelhantes, as taxas de mortalidade entre T0 e T7 foram estatisticamente diferentes entre os três grupos: 2,7% (grupo ácido tolfenâmico 2 mg/kg), 7,85% (grupo ácido tolfenâmico 4 mg/kg) e 13,8% (grupo flumexin meglumine). Foi demonstrado efeito positivo (p<0,05) do uso do ácido tolfenâmico 2 mg/kg na redução da mortalidade dos leitões (Thomas et al., 1992).
A SDP descreve qualquer condição que afeta a produção de leite na fêmea suína, incluindo infecções do trato uterino (metrite) e aparelho mamário (mastite), mas a produção de leite também pode diminuir sem sinais óbvios de infecção. Uma série de causas não infecciosas de SDP tem sido discutidas (Klopfenstein et al; 2006) e a dor experimentada pela fêmea pode contribuir para uma diminuição do interesse nos leitões, consequentemente redução na produção e qualidade do leite (Peltoniemi & Oliviero, 2015). O parto é um processo estressante que leva riscos para as fêmeas e para os leitões. A sensação de dor neste momento é inerente e se contrapõe ao conceito de bem-estar animal, contudo, é desejável que se recorra a recursos que amenizem este quadro e favoreçam os índices de produtividade relacionados. As terapias com anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) constituem uma boa opção para controlar as dores do parto (Dias et al., 2014). Isto resultou
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em pesquisas recentes, administrando-se medicamentos AINE no pós-parto e medindo os benefícios à saúde, bem-estar e produtividade (Homedes et al., 2014; Mainau et al., 2016;
2012; Sabaté et al., 2012; Tenebergen et al., 2014; Viitasaari et al., 2014; 2013). Neste contexto, a hiperprolificidade e o baixo peso ao nascimento tornam o período da lactação ainda mais desafiador. Com isso, a integridade do complexo mamário e uma adequada produção de leite tem assumido uma importância cada vez maior para uma adequada criação e desenvolvimento dos leitões até o desmame (Bortolozzo & Wentz, 2007).
Diante deste cenário, percebe-se a necessidade de um maior entendimento da complexibilidade dos fatores que envolvem a SDP no sistema de produção intensiva de suínos, e a importância de avaliarmos o efeito de um AINE através de uma abordagem profilática no pós-parto de leitoas sobre o desempenho dos leitões.