Organização esquemática das aulas
2. Análise de duas Sonatas em sol menor de Carlos Seixas e Domenico Scarlatt
2.1 Contextualização dos compositores 2 Carlos Seixas
Carlos Seixas nasceu a 1704 em Coimbra, onde a universidade mais importante estava localizada e atualizada com a música que se fazia no centro da Europa. Foi ensinado pelo seu pai, Francisco Vaz, que era organista da Catedral de Coimbra, e que o tornará seu sucessor na idade de 16 anos. É de Vaz que Seixas recebe os elementos barrocos, mas a mudança dos modos eclesiásticos – ainda em vigor na geração de Vaz – para o sistema tonal situará Carlos Seixas na nova geração de compo- sitores portugueses. Por pouco tempo estaria em Coimbra e rumou a Lisboa onde ocupou o lugar de organista da Capela Real e da Catedral Patriarcal. Faleceu em Lisboa, aos 38 anos, no ano de 1742.
Acredita-se que muitas obras se perderam no terramoto de 1755. Das obras sobreviventes constam 104 sonatas para teclado, 40 minuetos para teclados, uma ouverture, uma sinfonia, um concerto para teclado e orquestra, um Te Deum e vários motetes a 4 e 5 vozes com orquestra. Elementos da fuga e
71 Olga María Rúa, “A Historical Overview of Carlos Seixas’s Works for Solo Keyboard and a Performance Guide Based on Analytical Observations Including Pedagogical Annotations and Analysis of Four of His Keyboard Pieces” (Univerisity of Iowa, 2010), 29.
72 Ji-Eun Lee, “A Comparison of the Keyboard Sonatas of Domenico Scarlatti and Antonio Soler” (University of Cape Town, 2000).
da suite barroca são evidentes nas suas sonatas, mas geralmente os compositores portugueses e es- panhóis não compunham esses géneros, estando confinados a géneros que se desenvolveram exclu- sivamente na península ibérica como, por exemplo, o tento.
O barroco português teve características próprias. Refere Kastner: “The Portuguese music of the period called baroque, especially that of the high-baroque, avoids the extremes of the architecture and of the decoration. It never left the blunt soberness, nor lost itself in the branches of precious ornaments. The same soberness, from the facades of architecture, is found in the Portuguese music for keyboard of this epoch”.73
Devido a pertencer ao Pós-Barroco, Seixas partilha tanto de características do Barroco como do Clássico: “Seixas mantains the motivic variation of the late baroque, while his phrasing and clear phrase-structure are more representative of the classical style”.74 Uma das tabelas de autoria de Olga Rua demonstra as diferenças existentes entre o estereótipo composicional do Barroco e o estereótipo composicional do Pós-Barroco presentes em Carlos Seixas. Dando alguns exemplos, algumas das características vindas do Barroco são a repetição motívica, a construção sequencial, uma linha de baixo andante. Quanto ao pós-barroco, caracteriza-se por uma textura homofónica, material temático contrastante e cadências frequentes.75 É de referir que João Pedro d’Alvarenga enumera 7 caracterís- ticas de Seixas descritas por Heimes, mas estas não se enquadram no âmbito desta proposta de aula.76 Em relação às suas sonatas, Rua realça a variedade de dificuldades técnicas, enumerando o dobrar de terceiras e oitavas na mesma mão, desde escalas rápidas a sextas, terceiras, e oitavas quebradas. Algumas sonatas de Seixas evocam idiomas como a escrita violinística que se caracteriza pela se- quência de arpejos na mão direita, repetição da primeira e última notas de cada arpejo (muito comum para violino e mais fácil de executar neste do que no teclado) e saltos na mão direita. Outros idiomas evocados no teclado e referidos por Rua são o orquestral e a ouverture francesa (mais presente nos segundos andamentos).
Freitas Branco define o compositor pela sua “inspiração melódica de índole lírica, subjetiva, por vezes melancólica, na qual têm sido apontados caracteres essencialmente portugueses, quiçá realça- dos pela lembrança da poética paisagem coimbrã”.77 Porém, esta visão romantizada não corresponde
73 Rúa, “A Historical Overview of Carlos Seixas’s Works for Solo Keyboard and a Performance Guide Based on Analytical Observations Including Pedagogical Annotations and Analysis of Four of His Keyboard Pieces,” 25.
74 Ibid., 29. 75 Ibid., 30.
76 João Pedro d’Alvarenga, “Some Preliminaries in Approaching Carlos Seixas’ Keyboard Sonatas,” Ad Parnassum, no. 13 (2009): 102.
ao rigor inventivo, escrita idiomática e carácter desta obra. Esta é também das sonatas mais difíceis de Seixas, a par da sonata 57, segundo Allison.78
Defendem Kastner e Martins uma predominância da mão direita em relação à mão esquerda. Po- rém, nesta obra, como iremos ter oportunidade de ver, a mão esquerda faz mais do que um acompa- nhamento rudimentar.
2.1.2 Domenico Scarlatti
Filho de Alessandro Scarlatti, também compositor de renome, Domenico nasceu em Nápoles no ano de 1685. Antes de chegar à corte portuguesa, o compositor passou por Roma. Vai para Lisboa ao serviço de D. João V para ensinar a infanta de Portugal, D. Maria Bárbara. Quando esta se casou com o rei Fernando de Espanha, Scarlatti acompanhou-a até Madrid onde compôs a maior parte das suas sonatas e permaneceu até ao fim dos seus dias.
Newman considera-o um “early classic composer”79, na fronteira de ambos os períodos. Tal como Seixas, classifica-se o compositor como sendo do Pós-Barroco. Grout e Palisca defendem esta colo- cação dada a estruturação binária das sonatas do compositor, com características do barroco final e do início do período clássico. Sutcliffe refere a dificuldade de classificação estilística entre “the past (Baroque, but sometimes also Renaissance polyphony), the uncertain present (galant/Rococo/ pre- Classical/post-Baroque/mid-century style), the near future (Classical), the far future (modernism) or none of the above (‘originality’)”.80 Refere autores que defendem a orientação do compositor para o passado por estar contra o estilo galante moderno e por procurar formas como a tocata, praticadas pelo seu pai. Mas também refere autores que situam o compositor no Classicismo, talvez pela ten- dência de uma estrutura frásica mais clássica – embora Scarlatti explore unidades frásicas de propor- ção irregular.
Entre muitas das suas características, o estilo de Scarlatti define-se pelo seu virtuosismo instru- mental, extravagância harmónica (devido ao manuseio da dissonância e da modulação cromática), pela técnica de cruzamento de mãos e efeitos nas suas sonatas, e pela sua planificação formal variada e equilibrada. Entre outras técnicas contam-se trilos, arpejos, grandes saltos (como os presentes no fim de cada parte da sonata K. 426), notas repetidas (que se observam bastante nesta sonata em análise), escalas e trémulos mesurados produzidos pelas duas mãos em alternância.
78 Brian Jerome Allison, “Carlos Seixas: The Development of the Keyboard Sonata in Eighteenth- Century Portugal” (North Texas University, 1982), 21.
79 Newman, The Sonata in the Baroque Era (His A History of the Sonata Idea).
80 Sutcliffe, The Keyboard Sonatas of Domenico Scarlatti and Eighteenth-Century Music Style, 51.
A nível harmónico, Bukofzer refere que o vocabulário harmónico do compositor se deve à escola de ópera napolitana, mostrando pouco interesse na polifonia genuína. Esta textura, de condução de vozes mais livre, irá demarcar o abandono da escrita para teclado do Barroco. Neste novo estilo, o uso da polifonia e da homofonia sublinham o contraste entre temas e tonalidades.81 Scarlatti expande os limites da dissonância ao incorporar a acciaccatura, um acorde ornamental repleto de dissonân- cias.
Semelhante a Seixas, Scarlatti evoca o idiomatismo de outros instrumentos na escrita do teclado. Bukofzer dá o exemplo de técnicas guitarrísticas aplicadas nas sonatas, defendendo assim a influên- cia que o compositor teve da música popular espanhola. Sutcliffe defende que a sonata que mais evidencia essa influência é a K. 450, a sonata que irei analisar. Clark classifica-se como um tango
gitano.82